Artigo

Compliance E Esg

29 de setembro de 2026

Inclusão de pessoas pretas e pardas no mercado de trabalho: percepção profissional sob o pilar social do ESG

Inclusão de Pessoas Pretas e Pardas no Mercado de Trabalho: Percepção Profissional sob o Pilar Social do Esg

Amanda Almeida dos Santos; Thaís Helena Zero de Oliveira Pereira

DOI: 10.22167/2675-6528-202602632

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A persistência do racismo institucional no ambiente corporativo representa uma barreira sistêmica à equidade, limitando o acesso e desenvolvimento de profissionais negros e reproduzindo a desigualdade social. Apesar da crescente relevância das pautas de diversidade nas organizações, a simples presença de grupos diversos mostrou-se insuficiente para garantir a equidade. Objetivou-se compreender a aplicação do pilar Social do ESG na inclusão de profissionais negros no mercado de trabalho, identificando os principais desafios e oportunidades para ampliar sua representatividade no ambiente corporativo. A metodologia adotou uma abordagem exploratória e descritiva, de natureza mista, combinando levantamento bibliográfico e pesquisa de campo. Foram entrevistados 51 profissionais por meio de um questionário estruturado. Os resultados evidenciaram um diagnóstico da efetividade das práticas atuais e revelaram obstáculos significativos, como a invisibilidade de pessoas pretas e pardas no mercado corporativo, que dificultam a diversidade racial. Concluiu-se que, embora o framework ESG ofereça ferramentas para o enfrentamento de desigualdades, sua implementação efetiva exige o comprometimento da alta liderança na desconstrução de barreiras estruturais.

Palavras-chave: Diversidade; Equidade racial; Racismo institucional; Representatividade; Responsabilidade social.

1. Introdução

A crescente relevância das pautas de diversidade e inclusão no ambiente corporativo impulsiona as organizações a reavaliarem suas estruturas e práticas. A diversidade é compreendida como a valorização das múltiplas identidades sociais, enquanto a inclusão se refere à criação de mecanismos para a participação equitativa de grupos historicamente excluídos. Ambos os conceitos são essenciais para a construção de um ambiente empresarial mais justo, especialmente diante das desigualdades sociais estruturais presentes na sociedade brasileira (Santos, 2022).

Contudo, a simples presença de grupos diversos não é suficiente para garantir a equidade, principalmente quando barreiras sistêmicas, como o racismo institucional, persistem. O racismo institucional manifesta-se em regras, processos e práticas organizacionais que, de forma sistêmica, reproduzem desigualdades e limitam a inserção e ascensão de profissionais negros (Almeida, 2019). Essa estrutura favorece perfis dominantes e perpetua a sub-representação de pessoas negras em cargos de liderança, invalidando o discurso puramente meritocrático (Bento, 2022).

Dados do Instituto Ethos (2022) corroboram esse cenário, evidenciando a baixíssima presença de negros em posições de alta gestão nas maiores empresas do Brasil. A persistência dessa desigualdade, somada a desafios contínuos como vieses inconscientes e a falta de comprometimento da alta liderança na implementação de políticas de diversidade (Silva et al., 2023), revela uma lacuna entre as políticas declaradas pelas empresas e sua efetiva aplicação. Para compreender a disparidade racial, é fundamental distinguir o preconceito individual do racismo institucional, visto que este último é um elemento estruturado que se manifesta nos processos das organizações (Almeida, 2019). No ambiente corporativo, esse fenômeno é reforçado pelo que Bento (2022) denomina “Pacto narcísico da branquitude”, um mecanismo de preservação de privilégios de lideranças brancas.

Nesse contexto, a diversidade racial é um indicador relevante da governança corporativa moderna, conforme o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC, 2023). O objetivo é mitigar riscos reputacionais e aumentar a autenticidade das organizações, uma vez que a ausência de representatividade tem se acentuado. Estudos da PwC (2024) indicam que o mercado de capitais prioriza empresas com métricas de inclusão, compreendendo que o pilar Social do ESG atua como um indicador de mitigação de riscos operacionais.

A agenda ESG (Environmental, Social and Governance), originada de uma iniciativa da ONU em 2004, surge como um framework estratégico para integrar questões socioambientais e de governança aos negócios (Friede et al., 2015). O pilar Social, em particular, abrange a responsabilidade da empresa com o bem-estar de seus colaboradores e o impacto positivo na sociedade, conectando-se diretamente às pautas de diversidade e inclusão (Aleixo; Silva, 2021). Essa conexão é reforçada por estudos recentes que destacam a importância da diversidade e inclusão para as empresas (Santos et al., 2022), alinhando a pauta da equidade aos objetivos estratégicos do ESG.

Entretanto, apesar do avanço da agenda ESG, há escassez de evidências empíricas sobre a efetividade do pilar Social na promoção da equidade racial no ambiente corporativo. Esse desalinhamento entre a argumentação organizacional e a realidade demográfica configura o problema central desta pesquisa: Como o pilar Social do ESG tem sido efetivamente aplicado na promoção da inclusão de profissionais negros no mercado de trabalho? Diante do exposto, este artigo justifica-se pela necessidade de aprofundar a compreensão sobre a percepção dos indivíduos a respeito da aplicação do pilar Social do ESG na inclusão de profissionais pretos e pardos no mercado de trabalho, identificando desafios e oportunidades para ampliar sua representatividade no ambiente corporativo.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se por sua natureza exploratória e descritiva, buscando proporcionar maior familiaridade com o problema e descrever as características de uma população específica. Adotou-se uma abordagem metodológica mista, que integrou métodos quantitativos e qualitativos. Essa combinação, conforme Creswell e Clark (2013), permitiu uma compreensão mais profunda dos problemas de pesquisa, superando as limitações de cada método isoladamente.

Para atingir os objetivos propostos, a pesquisa utilizou um levantamento de dados secundários. Estes dados foram obtidos por meio de uma pesquisa bibliográfica abrangente, que incluiu a consulta de artigos científicos e livros disponíveis em acervos acadêmicos. Essa etapa inicial forneceu o embasamento teórico necessário para a compreensão do fenômeno estudado.

A coleta de dados primários foi realizada por meio de uma pesquisa de levantamento, conhecida como survey. Este método, conforme Mineiro (2020), é adequado para o estudo de segmentos específicos de uma população, permitindo a obtenção de informações de uma amostra representativa. O instrumento de coleta foi um questionário online, estruturado e autoaplicável, desenvolvido na plataforma Google Forms.

O questionário foi dividido em duas seções principais. A primeira seção, de natureza quantitativa, incluiu três perguntas destinadas a traçar o perfil sociodemográfico dos participantes, abordando aspectos como idade, gênero, raça/etnia e nível de escolaridade. Além disso, esta etapa mensurou a percepção dos participantes sobre ESG e Diversidade e Inclusão, bem como suas experiências de inserção no mercado de trabalho, utilizando escalas de concordância.

A segunda seção do questionário, de natureza qualitativa, continha questões abertas. Estas questões permitiram aos participantes descreverem detalhadamente suas experiências, os desafios enfrentados e suas expectativas em relação à inclusão de profissionais negros no ambiente de trabalho. Essa abordagem visou capturar nuances e perspectivas individuais que complementassem os dados quantitativos.

A população-alvo da pesquisa foi composta por profissionais atuantes no mercado de trabalho brasileiro. A seleção dos participantes ocorreu por amostragem não probabilística por conveniência, totalizando 51 profissionais. O link para o questionário foi divulgado em redes sociais, como LinkedIn, grupos de WhatsApp e Instagram, durante o período de março e abril de 2026.

A análise dos dados coletados ocorreu de forma integrada, combinando as informações quantitativas e qualitativas. Os dados quantitativos foram processados utilizando estatística descritiva, que permitiu a sumarização e organização das respostas. As respostas abertas, por sua vez, foram examinadas por meio da técnica de análise temática, conforme descrito por Gil (2022).

O procedimento operacional da análise temática foi estruturado em três etapas. Primeiramente, realizou-se uma pré-análise, que consistiu na leitura de todas as respostas textuais dos 51 participantes. Em seguida, procedeu-se à exploração do material, com a codificação e extração de unidades de registro, identificando palavras-chave e expressões recorrentes, que foram agrupadas por afinidade semântica.

Por fim, a terceira etapa envolveu a categorização temática, agregando os códigos emergentes em eixos centrais de análise. Esta categorização serviu para fundamentar a triangulação entre os discursos qualitativos, os dados quantitativos e o referencial teórico, proporcionando uma visão abrangente e consistente dos resultados da pesquisa.

Durante a elaboração e distribuição do questionário, garantiu-se o total anonimato dos participantes. Na abertura do formulário, foi apresentado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que informou os objetivos da pesquisa e assegurou a voluntariedade da participação. Por se tratar de uma pesquisa de opinião pública com participantes não identificados e com objetivo de aprofundamento teórico, o projeto dispensou a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme as diretrizes da Resolução CNS nº 510/16.

3. Resultados e Discussão

A presente seção apresenta a análise e a discussão dos dados coletados por meio de um questionário estruturado, aplicado a 51 profissionais atuantes no mercado de trabalho brasileiro, abrangendo diversos setores e níveis hierárquicos. Os resultados foram organizados em duas etapas distintas, sendo a primeira dedicada ao mapeamento do perfil sociodemográfico dos participantes, com o intuito de caracterizar a amostra de forma abrangente. A segunda etapa concentrou-se na análise das percepções dos respondentes acerca da inclusão racial no ambiente corporativo, buscando identificar a efetividade das práticas existentes e os desafios persistentes.

Análise do perfil sociodemográfico

A análise do perfil sociodemográfico dos participantes revelou uma amostra diversificada em termos de faixa etária, autodeclaração de raça/etnia e nível de escolaridade. No que concerne à faixa etária, observou-se uma predominância da Geração Z, com 56,9% dos respondentes (equivalente a 29 pessoas) situados entre 17 e 29 anos. Esse dado sugere que uma parcela significativa da amostra encontra-se em uma fase intermediária de suas carreiras, o que indica um considerável potencial para crescimento e desenvolvimento profissional. Em seguida, a Geração Millennials Y, composta por indivíduos de 30 a 45 anos, representou 31,4% dos participantes, enquanto 9,8% (cinco profissionais) tinham entre 46 e 61 anos, pertencentes à Geração X. A presença de jovens trabalhadores com até 16 anos foi mínima, com apenas um respondente, correspondendo a 2% da amostra. A inclusão etária é um fator relevante para a construção de ambientes de trabalho ricos e produtivos, conforme apontado por Litvak (2024), que destaca a importância da diversidade geracional para uma liderança bem-sucedida.

Em relação à autodeclaração de raça/etnia, a amostra apresentou uma distribuição equânime entre respondentes brancos e pretos, com 35,3% para cada grupo, totalizando 18 participantes em cada categoria. Os profissionais que se autodeclararam pardos corresponderam a 25,5% da amostra, somando 13 pessoas. Apenas 3,9% dos participantes se identificaram como amarelos, totalizando dois indivíduos, e não houve autodeclaração indígena. Essa composição racial da amostra oferece uma base robusta para a discussão sobre a percepção da representatividade de pessoas negras no contexto corporativo. O critério de autodeclaração, formalizado pelo IBGE no Censo de 1991, é uma norma metodológica crucial, e os dados do Censo 2022 indicam que a maior parte da população brasileira se autodeclara parda (45,3%), seguida por brancos (43,2%) e pretos (10,2%), com percentuais menores para indígenas (0,6%) e amarelos (0,4%).

Quanto ao nível de escolaridade dos respondentes, verificou-se que a maioria possui formação superior. Precisamente, 47,1% dos participantes (24 pessoas) concluíram o ensino superior, e 29,4% (15 pessoas) possuíam pós-graduação completa. Adicionalmente, 13,7% (sete pessoas) estavam com o ensino superior incompleto, e 9,8% (cinco pessoas) haviam concluído o ensino médio. Esses dados refletem um alto nível educacional na amostra, o que é relevante para a compreensão das percepções sobre inclusão no mercado de trabalho. Contudo, Brito (2011) ressalta que as desigualdades históricas no Brasil ainda posicionam a população negra em desvantagem no acesso a direitos básicos, o que se manifesta de forma acentuada em indicadores sociais, especialmente nos campos da educação e do mercado de trabalho, sugerindo que o acesso à educação formal nem sempre se traduz em equidade de oportunidades.

Diversidade, inclusão e equidade racial nas empresas

A análise da situação ocupacional dos participantes revelou que a grande maioria, 90,2% (46 pessoas), estava em atividade no mercado de trabalho no momento da pesquisa. Apenas 9,8% (cinco pessoas) não estavam inseridas profissionalmente. Este cenário indica que a amostra é composta predominantemente por indivíduos com experiência ativa no ambiente corporativo, o que confere maior relevância às suas percepções sobre diversidade e inclusão. A existência de políticas ou ações voltadas à Diversidade e Inclusão (D&I) nos ambientes profissionais dos respondentes foi avaliada, e 66,7% (34 pessoas) afirmaram que suas empresas possuem tais iniciativas. Em contrapartida, 25,5% dos participantes relataram a ausência dessas políticas, e 7,8% (quatro respondentes) não souberam informar sobre a existência delas. Essa distribuição sugere um grau variado de maturidade organizacional em relação às práticas afirmativas.

A percepção sobre a presença de pessoas negras nas organizações revelou um cenário de ocupação desigual. Verificou-se que 41,2% dos respondentes indicaram que, embora haja presença de pessoas negras, elas estão concentradas em cargos operacionais. Além disso, 25,5% dos participantes apontaram que há pouca presença de pessoas negras em suas empresas, e 13,7% afirmaram que não há presença significativa. Apenas 19,6% dos respondentes notaram a presença de pessoas negras em diferentes níveis hierárquicos. Esses achados corroboram a persistência de um cenário onde a inclusão parece restrita a determinados estratos da hierarquia corporativa, dificultando a ascensão para posições de liderança. O Instituto Ethos (2022) já demonstrava que, apesar da inserção da população negra no mercado de trabalho, sua representatividade em cargos de gerência e diretoria permanece sub-representada, o que reforça a percepção de inclusão restrita observada na pesquisa.

A discussão sobre a diversidade em ambientes organizacionais é crucial, pois, conforme Luz e Alves (2023), ela amplia as perspectivas e o repertório das empresas, contribuindo para o aumento do valor comercial. A gestão da inclusão e diversidade, ao abranger a participação de grupos minoritários, tem sido associada ao aumento da produtividade em organizações que lideram programas de capacitação e inclusão. Contudo, os resultados da pesquisa indicam que, apesar do reconhecimento dos benefícios da D&I, muitas empresas ainda não a adotam plenamente ou a veem apenas como uma obrigação legal, sem considerar os resultados potenciais. Essa lacuna entre o reconhecimento teórico e a prática efetiva sugere que a diversidade e inclusão ainda não estão totalmente integradas como um valor estratégico intrínseco nas culturas organizacionais.

O Pilar Social do ESG e a Equidade Racial nas Empresas

No que tange ao conhecimento sobre o conceito de ESG, os resultados indicaram que 49% dos respondentes (25 pessoas) afirmaram conhecer bem o termo, enquanto 23,5% (12 pessoas) possuíam conhecimento básico. Uma parcela de 15,7% já havia ouvido falar sobre ESG, mas não sabia explicá-lo, e 11,8% (14 pessoas) não possuíam conhecimento algum sobre o conceito. Esses dados revelam que, embora haja um reconhecimento geral do termo, a compreensão aprofundada ainda não é universal entre os profissionais. A integração dos princípios ESG nas operações empresariais é fundamental não apenas para a integridade ambiental e a equidade social, mas também para a construção de um modelo de negócio financeiramente sustentável e competitivo, conforme destacam Martini e Schreiber (2025).

A percepção dos respondentes sobre a relação entre o pilar Social do ESG e a promoção da diversidade e inclusão racial nas empresas foi amplamente positiva. A maioria dos participantes concordou com essa conexão, com 47,1% (24 pessoas) concordando totalmente e 45,1% (23 pessoas) concordando parcialmente. Apenas 7,8% (quatro pessoas) discordaram parcialmente, e nenhum participante discordou totalmente. Esses resultados demonstram um alinhamento significativo entre a percepção dos profissionais e a proposição teórica de que o pilar Social do ESG é um instrumento relevante para o avanço da equidade racial no ambiente corporativo. Tal alinhamento reflete a crescente conscientização sobre a importância de integrar as dimensões sociais nas estratégias corporativas.

Ao analisar como as empresas relacionam suas práticas de diversidade e inclusão à agenda ESG, observou-se que 33,3% dos respondentes identificam a existência dessas práticas, mas de forma superficial. Outros 21,6% relataram que as práticas ocorrem de forma clara em suas organizações. Contudo, 27,5% dos participantes afirmaram que essas práticas não são operadas em suas empresas. Adicionalmente, 17,6% dos respondentes não souberam informar sobre as práticas, o que pode indicar uma lacuna na comunicação interna ou na transparência das políticas de diversidade. Essa variação nas percepções sugere que, embora o tema esteja em pauta, a efetividade e a profundidade da implementação das políticas de D&I ligadas ao ESG ainda são inconsistentes entre as organizações.

Nos últimos anos, a relevância das dimensões ESG e Diversidade & Inclusão tem crescido significativamente no cenário empresarial brasileiro. Martini e Schreiber (2025) apontam que as mudanças no comportamento global, impulsionadas pela pressão de investidores e consumidores, têm levado as empresas a priorizar práticas sociais que demonstrem responsabilidade. Um estudo da Deloitte (2023) revelou que 71% das organizações almejam uma cultura organizacional inclusiva, embora ainda enfrentem obstáculos para integrar a D&I como um ponto estratégico. A incorporação de políticas sociais não apenas melhora a imagem corporativa, mas também impacta positivamente os resultados financeiros, aumentando a retenção de talentos e o engajamento dos stakeholders, conforme Barbosa (2020).

A percepção dos respondentes sobre a contribuição do ESG para a redução das desigualdades raciais no ambiente corporativo foi majoritariamente otimista. A pesquisa revelou que 58,8% dos participantes afirmaram que as práticas de ESG contribuem para diminuir as desigualdades, enquanto 37,3% acreditam que essa contribuição ocorre de forma parcial. Apenas 3,9% dos respondentes declararam não ter opinião formada sobre o impacto do ESG na redução das desigualdades raciais. Esses dados reforçam a convicção de que o ESG, especialmente seu pilar Social, é visto como uma ferramenta promissora para o enfrentamento das disparidades raciais, alinhando-se à visão de Pessoa (2023) de que o ESG racial visa aplicar princípios de sustentabilidade e responsabilidade social com foco na equidade racial.

Análise qualitativa das questões abertas

Os depoimentos dos participantes nas questões abertas forneceram insights qualitativos sobre os desafios e oportunidades da inclusão de profissionais negros. Em resposta à pergunta sobre os principais desafios enfrentados, os respondentes apontaram para obstáculos sistêmicos e estruturais, que transcendem o âmbito individual. Foi recorrente a menção ao racismo velado e aos vieses inconscientes nos processos de recrutamento e promoção, os quais contribuem para a escassez de representatividade de pessoas negras em cargos de liderança. Essa percepção sublinha a complexidade do problema, que se manifesta em práticas e culturas organizacionais, e não apenas em atitudes isoladas.

Questionados sobre a efetividade das ações de diversidade adotadas pelas empresas, a maioria dos respondentes expressou a visão de que tais ações são majoritariamente simbólicas e performáticas. Embora reconheçam a existência de avanços e metas claras em algumas empresas, os participantes observaram que a maioria das iniciativas se concentra no recrutamento de profissionais negros para níveis operacionais, sem promover uma ascensão significativa para cargos de gestão e liderança. Essa percepção de “inclusão restrita” sugere que, apesar dos esforços declarados, as barreiras estruturais para a equidade racial em níveis hierárquicos superiores permanecem substanciais.

As recomendações dos respondentes para promover maior inclusão de pessoas negras, considerando o pilar Social do ESG, convergiram para a necessidade de intencionalidade e governança. As práticas sugeridas foram agrupadas em três eixos fundamentais. O eixo estrutural inclui a adoção de objetivos de diversidade em todos os níveis hierárquicos e a garantia de equidade salarial. O eixo cultural foca no letramento racial dos colaboradores e na criação de ambientes de segurança psicológica e acolhimento. Por fim, o eixo processual abrange a implementação de métodos em processos seletivos para mitigar vieses inconscientes, visando a uma transformação mais profunda e sistêmica das organizações.

A correlação entre os dados quantitativos e qualitativos coletados permite compreender que, embora o ambiente corporativo esteja em um momento de transição geracional e de maior conscientização sobre o racismo estrutural, a equidade racial efetiva ainda enfrenta barreiras significativas. A “inclusão restrita” é um ponto crítico, onde, apesar da amostra apresentar uma divisão equânime entre respondentes brancos e pretos, a percepção predominante é de que a presença de pessoas negras nas empresas se concentra em cargos operacionais. Isso indica que, mesmo com oportunidades de entrada, o limite corporativo para a ascensão a cargos de gestão e diretoria persiste, dificultando o avanço profissional desse grupo.

Em síntese, os resultados da pesquisa apontam que a discussão sobre a diversidade racial nas empresas ainda apresenta lacunas significativas, impactando diretamente a representatividade de profissionais negros no mercado de trabalho, especialmente em posições de liderança. A persistência do racismo estrutural, manifestado de forma velada, naturaliza a exploração e a vulnerabilidade desses indivíduos. Embora haja reconhecimento da importância do pilar Social do ESG e compromisso declarado por algumas empresas, a efetividade das ações de inclusão é percebida como superficial e concentrada em níveis operacionais. Para uma transformação genuína, é imperativo que a inclusão seja um valor intrínseco à cultura organizacional, com indicadores de diversidade e representatividade que se traduzam em práticas operacionais auditáveis, superando a mera narrativa de relatórios e impactando positivamente a vida dos colaboradores e a sociedade.

4. Conclusão

Este estudo objetivou compreender a aplicação do pilar Social do ESG na inclusão de profissionais negros no mercado de trabalho, identificando os principais desafios e oportunidades para ampliar sua representatividade no ambiente corporativo. Verificou-se que o racismo institucional persiste como uma barreira sistêmica, limitando o acesso e o desenvolvimento de profissionais negros, e que a mera presença de grupos diversos não garante a equidade. Os resultados evidenciaram que, embora a maioria das empresas possua políticas de Diversidade e Inclusão, a percepção predominante é de que a presença de pessoas negras se concentra em cargos operacionais, caracterizando uma “inclusão restrita”. Identificou-se que as ações de diversidade são frequentemente vistas como simbólicas ou performáticas, sem promover ascensão significativa para cargos de gestão e liderança. Observou-se a prevalência de racismo velado e vieses inconscientes nos processos de recrutamento e promoção, que dificultam a diversidade racial e a equidade.

A pesquisa revelou que, apesar do reconhecimento geral do conceito de ESG e da crença de que seu pilar Social pode contribuir para a redução das desigualdades raciais, a efetividade de sua implementação ainda é inconsistente. A principal contribuição do estudo reside no diagnóstico da lacuna entre as políticas declaradas e sua aplicação prática, evidenciando que o framework ESG, embora promissor, exige um comprometimento mais profundo da alta liderança para a desconstrução de barreiras estruturais. As recomendações dos participantes convergiram para a necessidade de intencionalidade e governança, com foco em eixos estruturais, culturais e processuais, como a adoção de objetivos de diversidade em todos os níveis hierárquicos, equidade salarial, letramento racial e mitigação de vieses em processos seletivos. Para que o ESG Social se torne um indicador de performance institucional e promova uma verdadeira justiça social, sugere-se que estudos futuros aprofundem a análise sobre a implementação e o impacto dessas práticas operacionais auditáveis.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Feminismos Plurais, 2019.

BENTO, C. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

INSTITUTO ETHOS. Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas. [S. I.]: Instituto Ethos, 2022. Disponível em: https://publications.iadb.org/pt/publications/portuguese/viewer/Perfil-social-racial-e-de-g%C3%AAnero-das-500-maiores-empresas-do-Brasil-e-suas-a%C3%A7%C3%B5es-afirmativas.pdf. Acesso em: 18 out. 2025.

SANTOS, J. S. et al. A importância da diversidade e inclusão nas empresas: uma revisão de literatura. Revista Foco, [S. I.], v. 15, n. 2, p. 1-12, 2022. Disponível em: https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/731. Acesso em: 18 out. 2025.

SILVA, A. C. S. et al. Desafios da diversidade e inclusão nas

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Compliance e ESG do MBA USP/Esalq

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08 de outubro de 2026

Técnicas de Entrevistas Investigativas como Ferramenta Eficaz na Coleta de Informações em Empresa do Setor Farmacêutico

As investigações corporativas desempenham um papel fundamental na eficácia dos programas de integridade empresarial, pois permitem a resposta a potenciais violações do Código de Conduta e legislações aplicáveis, além de subsidiar a adoção de medidas corretivas para desvios sistêmicos. Com o objetivo de diagnosticar a aderência a técnicas cientificamente validadas e eficazes de entrevistas investigativas, avaliou-se o conhecimento e as práticas de Investigadores de Compliance em uma multinacional do setor farmacêutico. A metodologia empregou uma entrevista com um gestor sênior e um questionário respondido pela totalidade da equipe de investigadores, cujos dados foram comparados à literatura especializada, que enfatiza o rapport como abordagem mais eficaz. Os resultados revelaram que, apesar da maturidade da estrutura de Compliance da organização, os profissionais demonstraram baixo domínio de técnicas formais de entrevista investigativa, predominando práticas intuitivas. Adicionalmente, identificou-se a percepção de investimentos insuficientes em capacitação e desenvolvimento. Concluiu-se que existe uma lacuna no conhecimento técnico formal e na capacitação, indicando um espaço para o aprimoramento que pode impactar diretamente a qualidade das investigações e a efetividade do programa de integridade.

Palavras-chave: Compliance; Investigações corporativas; Rapport.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Investimentos em Programas de Privacidade

O avanço do tratamento de dados pessoais em larga escala e a consolidação de marcos regulatórios, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Regulamento Europeu de Proteção de Dados (RGPD), intensificaram a necessidade de estruturas organizacionais voltadas à proteção de dados. Nesse contexto, o estudo teve como objetivo analisar os investimentos em programas de privacidade sob a perspectiva da gestão de riscos, considerando seus impactos operacionais, estratégicos e regulatórios. A pesquisa combinou revisão bibliográfica com estudo de caso aplicado a uma empresa global de grande porte do setor de tecnologia e a construção comparativa de matrizes de risco, a partir da análise de informações públicas sobre a implementação de seu programa de privacidade. Os investimentos realizados pela empresa contribuíram significativamente para a redução da probabilidade de ocorrência de riscos relacionados ao tratamento de dados pessoais, além de promover avanços na governança, na maturidade organizacional e na incorporação da privacidade como elemento transversal às atividades empresariais. Assim, os programas de privacidade, quando sustentados por investimentos contínuos, ultrapassam a função de compliance regulatório e se estabelecem como instrumentos estratégicos capazes de gerar valor e fortalecer a confiança de stakeholders, ainda que persistam limites práticos na mitigação total de riscos inerentes ao ambiente tecnológico.

Palavras-chave: Conformidade regulatória; Estratégia organizacional; Governança; Proteção de dados pessoais; Riscos.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Governança Cooperativa e ESG como Pilares para a Sustentabilidade do Negócio

Um estudo de caráter aplicado e abordagem qualitativa analisou como instrumentos formais de direção, controle e integridade, publicamente divulgados, se articularam à agenda ambiental e social em uma cooperativa de crédito brasileira de grande porte (caso único), com foco na mensuração, transparência e gestão de riscos socioambientais. Para tanto, adotou-se um delineamento de estudo de caso e análise documental de fontes oficiais publicadas entre 2020 e 2024. Seguiu-se um protocolo de seleção do corpus, construção de categorias analíticas, codificação temática e registro de evidências em planilha de rastreabilidade, tratando os achados como evidências de divulgação e não como auditoria de efetividade. Os resultados revelaram a presença de estruturas, papéis e fluxos institucionais relacionados ao tema, além de iniciativas e compromissos reportados em diferentes documentos. Contudo, identificaram-se desafios na padronização conceitual, comparabilidade temporal, definição de métodos de cálculo, atribuição de ownership e trilha de auditoria dos dados, o que pode limitar a consistência da mensuração. Como contribuição aplicada, consolidaram-se matrizes de indicadores mínimos e de governança de dados, e propuseram-se diretrizes acionáveis para fortalecer o ciclo de indicadores (definição-coleta-validação-reporte), aprimorar a rastreabilidade e alinhar compromissos divulgados com evidências documentais, visando à melhor gestão de riscos e à transparência institucional.

Palavras-chave: Compliance; Gestão de riscos socioambientais; Indicadores; Integridade; Materialidade.

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