October 19, 2026
Neurociência e Matemática: estratégias de ensino a partir do material didático Girando com o Número
Neurociência e Matemática: Estratégias de Ensino a Partir do Material Didático Girando com o Número
Tamires Caroline da Costa; Rosemary Soffner
DOI: 10.22167/2675-6528-202603516
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Apresentaram-se estratégias de ensino com potencial para aprimorar as funções executivas e a aprendizagem em estudantes do terceiro ano do ensino fundamental. Objetivou-se analisar práticas pedagógicas que contribuíram para o desenvolvimento da memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, e verificar se o aprimoramento dessas funções auxiliava a aprendizagem de conceitos básicos da Matemática. A pesquisa, de caráter documental, desenvolveu-se em três etapas: revisão conceitual das funções executivas, levantamento bibliográfico na SciELO sobre a temática e análise do material didático “Girando com o Número” como proposta de ensino. O material foi utilizado como atividade de rotina em uma turma do terceiro ano do ensino fundamental durante o ano letivo de 2025. Observou-se que as estratégias de ensino com o material didático aprimoraram as funções executivas dos alunos e contribuíram para a aprendizagem de conceitos matemáticos básicos, nos quais apresentavam dificuldades. Houve uma mudança na atenção e interesse dos estudantes pela matemática e maior facilidade em resolver questões. Concluiu-se que o aprimoramento das funções executivas, mediado por estratégias de ensino adequadas, pode gerar melhores resultados na aprendizagem da Matemática. Destacou-se a necessidade de mais pesquisas brasileiras sobre a articulação entre neurociência, funções executivas e ensino de matemática para subsidiar práticas pedagógicas.
Palavras-chave: Aprendizagem; Funções executivas; Prática pedagógica; Rotina escolar.
1. Introdução
Os processos de ensino e aprendizagem da Matemática representam um desafio constante para professores, alunos e gestores escolares. No contexto brasileiro, a situação é particularmente preocupante. Dados do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (IEDE, 2023) indicam que estudantes brasileiros apresentam um atraso de aproximadamente três anos na aprendizagem da matemática em comparação com alunos de países desenvolvidos. Essa defasagem é corroborada por resultados do Programa para Avaliação Internacional de Estudantes (PISA) de 2018, que apontaram que alunos brasileiros estão 105,7 pontos abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em matemática, o que equivale a um atraso de três anos em nível de escolaridade (IEDE, 2023).
Diversos fatores contribuem para esse cenário de baixo desempenho, incluindo o nível socioeconômico dos estudantes, a formação de professores e a ausência de políticas públicas eficazes que incentivem o desenvolvimento matemático. O IEDE (2023) salienta que, historicamente, órgãos públicos brasileiros têm priorizado a alfabetização e a Língua Portuguesa, deixando a Matemática em segundo plano. Consequentemente, as dificuldades iniciais dos estudantes não são superadas ao longo dos anos, resultando em um índice alarmante: apenas cinco por cento dos alunos brasileiros alcançam um nível de aprendizagem considerado adequado em Matemática no terceiro ano do Ensino Médio (IEDE, 2023).
Diante dessa problemática, torna-se essencial que o ensino e a aprendizagem da Matemática recebam maior atenção nas discussões educacionais no Brasil. É imperativo explorar novas abordagens pedagógicas que auxiliem os estudantes no desenvolvimento de habilidades cognitivas cruciais, como pensamento, atenção, concentração e memória. Tais habilidades são fundamentais não apenas para o desempenho escolar na área da matemática, mas também para a vida cotidiana. Neste contexto, as funções executivas emergem como um conjunto de habilidades cognitivas essenciais que auxiliam na organização do pensamento, na tomada de decisões e no planejamento de longo prazo (SESI, 2020; Cosenza e Guerra, 2011).
As funções executivas são um conjunto de processos cognitivos interligados que permitem o controle e a regulação do comportamento. Entre elas, destacam-se a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva. A memória de trabalho, ou memória operacional, possibilita o armazenamento temporário de informações necessárias para a execução de tarefas diárias (SESI, 2020). O controle inibitório refere-se à capacidade de inibir pensamentos, ações, comportamentos e emoções inapropriadas, permitindo focar a atenção no que é mais relevante para a situação (SESI, 2020; Costa et al., 2016). Por sua vez, a flexibilidade cognitiva é a habilidade de mudar de perspectiva, adaptar-se a novas ideias e resolver problemas de diferentes maneiras, estando intimamente conectada à memória de trabalho e ao controle inibitório (SESI, 2020). Essas funções são indissociáveis e atuam em conjunto, sendo coordenadas pelo córtex pré-frontal.
Apesar da relevância das funções executivas para a aprendizagem, especialmente na Matemática, o levantamento bibliográfico realizado na SciELO revelou que há poucas pesquisas brasileiras que abordam a articulação entre neurociência, funções executivas e o ensino da Matemática. Essa lacuna de conhecimento reforça a necessidade de estudos que investiguem como práticas pedagógicas podem estimular o desenvolvimento dessas habilidades e, consequentemente, aprimorar a aprendizagem matemática. A presente pesquisa apresenta o material didático Girando com o Número como uma proposta para auxiliar professores a desenvolverem estratégias de ensino que estimulem a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva em estudantes do terceiro ano do ensino fundamental, contribuindo para a apreensão de conceitos básicos da matemática, como composição e decomposição numérica, antecessor e sucessor, par e ímpar, dobro, metade e valor posicional dos números.
Este estudo se justifica pela urgência em aprimorar o ensino da Matemática no Brasil e pela necessidade de explorar abordagens que integrem os conhecimentos da neurociência para potencializar o desenvolvimento cognitivo dos alunos. O objetivo deste estudo foi analisar as práticas pedagógicas com o material didático Girando com o Número, buscando compreender, à luz da neurociência e das funções executivas, como a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva podem contribuir para o desenvolvimento da aprendizagem da Matemática, e investigar se as atividades propostas no material auxiliam no desenvolvimento dessas funções e na apreensão de conceitos matemáticos básicos.
2. Material e Métodos
A pesquisa foi delineada com uma abordagem documental, conforme a classificação de Bigaton et al. (2024), onde o material didático e as estratégias de ensino associadas ao seu uso constituíram a principal fonte de informação e objeto de investigação. O estudo foi estruturado em três etapas distintas, visando aprofundar a compreensão sobre a articulação entre neurociência, funções executivas e o ensino da Matemática.
Na primeira etapa, procedeu-se à definição dos conceitos fundamentais de funções executivas, com foco específico na memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva. Para embasar essa discussão teórica, foram utilizados os referenciais de Cosenza e Guerra (2011), Costa et al. (2016) e SESI (2020). Adicionalmente, foram consideradas outras funções executivas relacionadas, como atenção, autocontrole, planejamento, organização, consciência e persistência, que se interligam com as habilidades centrais investigadas.
A segunda etapa consistiu em um levantamento bibliográfico sistemático na biblioteca virtual SciELO. O objetivo foi identificar a frequência com que pesquisas brasileiras abordam a contribuição da neurociência e, em particular, das funções executivas para a aprendizagem da Matemática. Esta busca visou contextualizar a relevância do presente estudo diante do cenário de produção científica nacional.
Para a realização do levantamento bibliográfico, foram empregadas palavras-chave específicas, como “funções executivas”, “matemática” e “neurociência”. A pesquisa foi refinada com a aplicação de filtros que incluíam “Coleções: Brasil”, “Periódico: Todos”, “Idioma: Português” e “Ano de publicação: Todos”. As palavras-chave foram aprimoradas ao longo do processo para otimizar a recuperação de trabalhos pertinentes à temática.
A terceira etapa envolveu a análise das estratégias de ensino a partir do uso do material didático “Girando com o Número”. Este material, disponibilizado pela secretaria municipal de educação de um município localizado no norte do estado do Paraná, foi concebido como um recurso complementar ao planejamento curricular, destinado a auxiliar professores no aprofundamento da aprendizagem da Matemática em sala de aula.
O material didático foi empregado como atividade de rotina em uma turma do terceiro ano do ensino fundamental, durante o segundo semestre do ano letivo de 2025. A professora responsável pela turma utilizou o material diariamente, após identificar dificuldades dos alunos na compreensão de conceitos matemáticos básicos. A didática de aplicação foi adaptada ao perfil da turma, com a professora apresentando exemplos iniciais para familiarizar os estudantes com a proposta.
No procedimento de aplicação, a professora selecionava um aluno e apresentava um número, previamente escolhido conforme o nível de dificuldade da criança. Em seguida, eram formuladas questões sobre conceitos matemáticos, como composição e decomposição numérica, antecessor e sucessor, par e ímpar, dobro, metade, valor posicional dos números e escrita por extenso. Os alunos tinham a liberdade de rascunhar as respostas na lousa, inclusive desenhando um mapa mental do número.
Durante a atividade, os colegas de turma eram incentivados a auxiliar na resolução das questões, promovendo o diálogo e a troca de conhecimentos. A professora intervinha somente ao final da discussão, caso houvesse divergência ou ausência de consenso sobre a resposta. Para a organização dos dados, garantiu-se que quaisquer registros visuais dos alunos fossem anonimizados, preservando a identidade dos participantes.
A análise dos dados coletados, provenientes do material didático e da observação das práticas pedagógicas, concentrou-se em descrever como as estratégias de ensino com o material “Girando com o Número” foram implementadas. Buscou-se compreender a natureza das atividades propostas e a dinâmica de interação em sala de aula, em consonância com o referencial teórico das funções executivas.
3. Resultados e Discussão
A presente pesquisa investigou as contribuições de estratégias de ensino, mediadas pelo material didático Girando com o Número, para o aprimoramento das funções executivas e da aprendizagem de conceitos matemáticos básicos em estudantes do terceiro ano do ensino fundamental. Os achados revelaram que a aplicação sistemática do material didático promoveu melhorias significativas nas funções executivas dos alunos, especificamente na memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, e que essas melhorias se correlacionaram diretamente com um desempenho mais eficaz na apreensão de conceitos matemáticos que antes apresentavam dificuldades. Observou-se uma notável mudança no engajamento e interesse dos estudantes pela Matemática, bem como uma maior facilidade na resolução de problemas, indicando o potencial de abordagens pedagógicas que integram a neurociência.
Funções executivas: o que são?
As funções executivas desempenham um papel crucial no desenvolvimento humano, sendo processos cognitivos interligados que permitem o controle e a regulação do comportamento. Estudos na área da Neurociência, articulados à Educação, têm se dedicado a compreender como essas funções contribuem para o processo de aprendizagem, especialmente em crianças. Conforme Cosenza e Guerra (2011), as funções executivas representam um conjunto de habilidades que capacitam o indivíduo a organizar e executar ações para alcançar objetivos específicos, englobando o planejamento, a reflexão, a execução e a correção de comportamentos, conforme também destacado por Costa et al. (2016).
Essas habilidades são intrínsecas a diversos aspectos da vida cotidiana, desde a rotina de trabalho e estudos até a tomada de decisões e o planejamento de longo prazo. O desenvolvimento das funções executivas está intimamente ligado às interações do ser humano com o ambiente, sendo aprimorado por meio de um contexto social saudável e rico em oportunidades que desafiam e estimulam seu uso. O córtex pré-frontal é a região cerebral onde ocorrem os circuitos neurais associados a essas funções, e seu desenvolvimento atinge o ápice na adolescência, período em que a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva são aperfeiçoados (SESI, 2020).
A partir da infância, um bom funcionamento das funções executivas é fundamental para que as crianças progridam em seu desenvolvimento cognitivo, resultando em tomadas de decisão mais autônomas, processamento de informações mais rápido e uma memória de trabalho aprimorada. Tais funções perpassam todas as fases do desenvolvimento, desde a infância até a vida adulta, influenciando a capacidade de planejar, manter o foco, reconhecer erros e experimentar novas perspectivas. Embora o desenvolvimento continue na fase adulta, a infância e a adolescência são períodos de maior progresso e aperfeiçoamento.
Memória de trabalho
A memória de trabalho, também conhecida como memória operacional, é a capacidade de reter temporariamente informações no cérebro para a execução de tarefas diárias, conforme descrito pelo SESI (2020). Ela é essencial para atividades como memorizar um número de telefone, lembrar as regras de um jogo ou reter o conteúdo de um capítulo lido para compreender o próximo. Essa função permeia a rotina diária, sendo constantemente requisitada para a realização de atividades, sejam elas novas ou já conhecidas, permitindo o acesso a informações previamente armazenadas.
Quando uma atividade exige novas abordagens, as ideias recém-adquiridas são inicialmente armazenadas na memória de trabalho. Com o uso frequente e a repetição, essas informações podem ser consolidadas e transferidas para a memória de longo prazo, tornando-se mais permanentes. Por exemplo, um estudante que estuda para uma prova pode reter o conteúdo por um breve período, mas se não houver repetição e consolidação, a informação pode ser rapidamente esquecida após a avaliação. O funcionamento da memória de trabalho está intrinsecamente ligado à repetição de circuitos neurais no córtex pré-frontal, que processam e, se necessário, consolidam as informações recebidas (SESI, 2020).
Controle inibitório
O controle inibitório refere-se à habilidade de suprimir pensamentos, ações, comportamentos, emoções e a atenção que são inapropriados para uma determinada situação, permitindo focar no que é relevante (SESI, 2020). Essa função executiva é crucial para gerenciar a atenção e o comportamento, inibindo impulsos e distrações. Por exemplo, em um ambiente de estudo, o controle inibitório permite que o indivíduo resista à tentação de usar o celular, mantendo o foco na tarefa acadêmica.
Essa capacidade está intimamente associada ao córtex pré-frontal, uma área cerebral fundamental para a regulação da atenção e do comportamento. Quando uma atividade exige concentração, o controle inibitório atua em conjunto com a memória de trabalho para garantir que o objetivo seja mantido e que elementos distratores sejam ignorados. Costa et al. (2016) destacam que essa colaboração é essencial para que o sujeito permaneça focado e consiga atingir seus propósitos, evitando a dispersão e a interrupção da tarefa em andamento.
Flexibilidade cognitiva
A flexibilidade cognitiva é a capacidade de adaptar o pensamento, mudar de perspectiva e considerar novas ideias ou abordagens para resolver problemas. Essa função está intrinsecamente conectada à memória de trabalho e ao controle inibitório (SESI, 2020). O controle inibitório é fundamental para que o indivíduo possa suprimir pensamentos ou comportamentos antigos e abrir-se a novas perspectivas, enquanto a memória de trabalho auxilia na consolidação dessas novas formas de pensar e agir.
Essa habilidade é vital para a criatividade, a adaptação a mudanças e a capacidade de resolver problemas de diferentes maneiras. Envolve a disposição para alterar prioridades, estar aberto a opiniões divergentes, modificar planos e admitir erros. A flexibilidade cognitiva é crucial para o convívio social, pois permite ao indivíduo interpretar o mundo sob múltiplos pontos de vista. As três funções executivas – memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva – são indissociáveis e atuam em conjunto, sendo coordenadas pelo córtex pré-frontal para o planejamento de ações eficazes (SESI, 2020).
Levantamento bibliográfico na SciELO
O levantamento bibliográfico na biblioteca virtual SciELO teve como objetivo mensurar a frequência de pesquisas brasileiras que articulam neurociência, funções executivas e aprendizagem da Matemática, justificando a relevância do presente estudo. Inicialmente, a busca pela palavra-chave “funções executivas” (com filtros de coleção, periódico, idioma e ano de publicação) resultou em 99 publicações científicas. Contudo, ao adicionar o termo “matemática” à busca, ou seja, “funções executivas AND matemática”, não foi encontrado nenhum documento.
Em uma segunda tentativa, utilizando as palavras-chave “neurociência AND matemática” com os mesmos filtros, também não foram encontradas publicações. Diante dessa escassez, uma nova aplicação de filtros foi realizada, buscando os conjuntos de palavras-chave “funções executivas AND matemática” e “neurociência AND matemática”. Com “funções executivas AND matemática”, foram identificadas 4 publicações científicas, e com “neurociência AND matemática”, o resultado foi de 3 publicações, evidenciando a lacuna de estudos brasileiros sobre o tema.
Entre as publicações encontradas, Santana et al. (2024) apresentaram um instrumento informatizado para avaliação do controle inibitório em crianças e adolescentes, destacando sua proficiência, mas sugerindo melhorias e a necessidade de novas ferramentas neuropsicológicas. Batista et al. (2020) abordaram a importância da avaliação neuropsicológica na discalculia do desenvolvimento, enfatizando a necessidade de avaliar habilidades cognitivas gerais e específicas para compreender as dificuldades dos sujeitos, reforçando a urgência de mais pesquisas sobre o transtorno.
Santana et al. (2020) investigaram os componentes executivos básicos e o desempenho matemático escolar, concluindo que a memória de trabalho é o componente que mais contribui para o desempenho em matemática de crianças de 8 a 12 anos, seguida pela flexibilidade cognitiva e controle inibitório. Os autores salientaram que a relação do controle inibitório com o desempenho matemático é mediada pela memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, não apresentando variância significativa quando analisado isoladamente, o que sublinha a interdependência dessas funções.
Figueira e Freitas (2020) realizaram uma meta-análise sobre a relação entre ansiedade matemática, memória de trabalho e controle inibitório, constatando que indivíduos com maior ansiedade matemática demoram mais para reagir a tarefas de inibição e cometem mais erros. As autoras também observaram uma diferença significativa na memória de trabalho entre sujeitos com altos e baixos níveis de ansiedade, mas ressaltaram a escassez de material robusto para resultados mais conclusivos, reforçando a necessidade de novas investigações.
Silva e Fonseca (2020) analisaram o papel das ilustrações em livros didáticos de matemática, construindo uma ficha de análise e destacando a importância das imagens para o processamento cognitivo, com base em princípios da neurociência como atenção, memória e percepção. Fernandes et al. (2015) investigaram as possibilidades de aprendizagem em crianças com dificuldades em matemática, concluindo que atividades que mobilizam o corpo e a mente contribuem significativamente para o desenvolvimento cognitivo e a retenção de conhecimentos, justificando a inclusão de atividades lúdicas.
Healy e Fernandes (2011) exploraram a apropriação de práticas matemáticas por um aprendiz cego, utilizando Vygotsky e Leontiev, e concluíram que o uso do corpo foi essencial para o processamento cognitivo, permitindo a transição do concreto para o abstrato. Contudo, não foram notadas ligações diretas com as funções executivas ou conceitos de neurociência em sua discussão. A análise bibliográfica geral revelou que, embora existam estudos sobre funções executivas e matemática, a articulação entre neurociência, funções executivas e o ensino da Matemática ainda é pouco explorada em pesquisas brasileiras, o que ressalta a importância do presente trabalho para preencher essa lacuna.
Estratégias de ensino a partir do uso do material didático Girando com o Número e suas contribuições para o desenvolvimento das funções executivas
Diante da limitada produção científica brasileira sobre a articulação entre neurociência, funções executivas e matemática, a presente pesquisa propôs a utilização do material didático Girando com o Número como uma estratégia de trabalho diário. Este material, disponibilizado pela secretaria municipal de educação de um município no norte do Paraná, foi empregado em uma turma do terceiro ano do ensino fundamental durante o ano letivo de 2025. A professora responsável pela turma adotou o material após identificar dificuldades dos alunos em conceitos matemáticos básicos, como par e ímpar, dobro, metade, antecessor e sucessor, e valor posicional dos números.
A metodologia de aplicação consistia em escolher um aluno no início da aula e apresentar-lhe um número, previamente selecionado conforme o nível de dificuldade. A partir desse número, a professora formulava questões como “Quantas unidades há ao todo neste número?”, “Qual algarismo ocupa a posição das dezenas? Quanto ele vale?”, “Qual o dobro e a metade deste número?”, “Faça a decomposição numérica deste número”, “Escreva por extenso o nome desse número”, “Esse número é par ou ímpar? Por que?” e “Qual o antecessor e sucessor desse número?”. Os alunos tinham a liberdade de rascunhar as respostas na lousa, criando um mapa mental do número, o que estimulava a organização do pensamento e a visualização dos conceitos.
Inicialmente, observou-se que as crianças apresentavam maior dificuldade na resolução das questões. No entanto, à medida que acompanhavam as discussões e as resoluções dos colegas, e compreendiam o teor das perguntas, seus conhecimentos foram aprimorados. A memória de trabalho foi fundamental nesse processo, pois permitia aos alunos reter as informações necessárias para responder a cada questão. Santana et al. (2020) destacam que a memória de trabalho é a função cognitiva mais correlacionada com o desempenho em matemática, sendo essencial para cálculos, transformação de instruções em ações e manejo de informações.
A repetição diária das atividades com o material didático contribuiu para a consolidação das informações, transferindo-as da memória de trabalho para a memória de longo prazo. Isso tornou a resolução das questões mais dinâmica e, em muitos momentos, dispensou a necessidade de mediação. Quando um aluno esquecia um elemento, a intervenção dos colegas ou da professora facilitava a recuperação da informação, evidenciando o papel da memória de trabalho em reter dados por curtos períodos e a importância da repetição para a sua consolidação e posterior acesso.
Durante a realização das atividades, alguns alunos manifestaram ansiedade, respondendo por impulso ou recusando sugestões dos colegas. Nesse contexto, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva foram cruciais. O controle inibitório permitiu que os alunos mantivessem o foco, inibindo respostas impulsivas, enquanto a flexibilidade cognitiva os capacitou a aproveitar as diferentes perspectivas e sugestões dos colegas como oportunidades de aprendizagem. A mediação da professora foi essencial para promover um diálogo construtivo e a troca de conhecimentos, facilitando o desenvolvimento dessas funções.
Em consonância com León et al. (2013), o controle inibitório está associado à impulsividade, e crianças com maior controle inibitório e autorregulação demonstram mais facilidade em aceitar sugestões e engajar-se nas atividades escolares. Por outro lado, estudantes com baixo desenvolvimento executivo tendem a abandonar tarefas e apresentar mais dificuldades de aprendizagem. A flexibilidade cognitiva, neste estudo, manifestou-se na disposição dos alunos em compreender diferentes pontos de vista, estando intimamente ligada ao controle inibitório. Para flexibilizar o pensamento, as crianças precisavam primeiro controlar seu comportamento e, então, se abrir a novas hipóteses.
Costa et al. (2016) afirmam que o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva depende da memória de trabalho e do controle inibitório, pois exige a inibição de perspectivas antigas e a apresentação de novas formas de lidar com problemas. Os diálogos promovidos pela professora incentivaram os alunos a considerar as perguntas e respostas de diferentes maneiras, mudando suas perspectivas para encontrar soluções. A escola, como espaço de aprendizagem, é fundamental para o desenvolvimento das funções executivas, e o professor tem o papel de criar condições para o aprimoramento de habilidades como planejamento, execução, concentração e autorregulação (Cosenza e Guerra, 2011).
As atividades com o material Girando com o Número, ao envolverem tanto a individualidade quanto o coletivo, oportunizaram aos alunos relembrar conceitos já aprendidos, planejar ações e operar novos conceitos para resolver problemas. A abertura do estudante a novas ideias e perspectivas, juntamente com o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva e do controle inibitório, foi imprescindível para a autorregulação e a manutenção da mente aberta a mudanças. O aprimoramento dessas funções facilitou o processo de aprendizagem, pois o controle inibitório é crucial para a retenção da atenção, a flexibilidade cognitiva para aprender o novo e a memória de trabalho para recordar o que já foi apreendido.
León et al. (2013) apontam que o desenvolvimento das funções executivas se intensifica entre os 6 e 9 anos de idade, e seu estudo com 40 estudantes demonstrou a relação entre essas funções e o desempenho escolar. Alunos melhor avaliados pelos professores em suas funções executivas tendiam a apresentar melhor desempenho acadêmico. Santana et al. (2020) também corroboram que sujeitos com bom desempenho executivo demonstram um bom desenvolvimento em atividades escolares de matemática, evidenciando uma complementaridade entre o desenvolvimento da aprendizagem e das funções executivas.
Ao longo do trabalho com o material Girando com o Número, verificou-se uma expressiva mudança na atenção e no interesse dos estudantes pela Matemática. Todos os alunos demonstraram desejo de participar e construir os mapas mentais dos números na lousa. Em avaliações posteriores, as crianças apresentaram maior facilidade para resolver questões sobre os conceitos matemáticos abordados com o material. As estratégias de ensino, quando bem planejadas e articuladas às necessidades dos estudantes, têm o potencial de aprimorar as funções executivas básicas do sistema cognitivo, como memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, e, consequentemente, a aprendizagem de conceitos matemáticos fundamentais.
Em síntese, os resultados desta pesquisa indicam que a implementação de estratégias pedagógicas que utilizam materiais didáticos específicos, como o Girando com o Número, pode efetivamente aprimorar as funções executivas de memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva em estudantes do ensino fundamental. Esse aprimoramento se traduz em um impacto positivo direto na aprendizagem de conceitos matemáticos básicos, evidenciado pela maior atenção, interesse e facilidade na resolução de problemas. A pesquisa reforça a necessidade de mais estudos brasileiros que explorem a intersecção entre neurociência, funções executivas e ensino de matemática para subsidiar e enriquecer as práticas pedagógicas em sala de aula.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar as práticas pedagógicas que empregaram o material didático Girando com o Número, com o intuito de compreender como a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva podem contribuir para o desenvolvimento da aprendizagem da Matemática em estudantes do terceiro ano do ensino fundamental. Verificou-se que a aplicação sistemática deste material promoveu um aprimoramento significativo das funções executivas dos alunos, impactando positivamente a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva. Observou-se que essas melhorias se correlacionaram diretamente com uma maior facilidade na apreensão de conceitos matemáticos básicos, nos quais os estudantes apresentavam dificuldades, como composição e decomposição numérica, antecessor e sucessor, par e ímpar, dobro, metade e valor posicional dos números. A repetição diária das atividades facilitou a consolidação das informações da memória de trabalho para a memória de longo prazo, tornando a resolução de questões mais dinâmica. Além disso, notou-se uma expressiva mudança na atenção e no interesse dos estudantes pela Matemática, bem como uma maior capacidade de resolver problemas, evidenciando o potencial de estratégias de ensino que integram conhecimentos da neurociência.
A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração de uma proposta pedagógica prática que, ao utilizar o material didático Girando com o Número, integra os conhecimentos da neurociência para o desenvolvimento das funções executivas e, consequentemente, para a melhoria da aprendizagem da Matemática em sala de aula. Contudo, é importante considerar que os achados são resultantes de uma aplicação em uma única turma do ensino fundamental, o que limita a generalização dos resultados para outros contextos. Diante da lacuna identificada na literatura brasileira sobre a articulação entre neurociência, funções executivas e o ensino da Matemática, sugere-se a realização de mais pesquisas que explorem essa intersecção, a fim de subsidiar e enriquecer as práticas pedagógicas, oferecendo novas possibilidades de trabalho lúdico e diferenciado, adaptado às especificidades de cada turma.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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