Neurociência E Aprendizagem Na Educação
30 de setembro de 2026
Gestão de Pessoas e os desafios da liderança escolar em tempos de apagão profissional
Gestão de Pessoas e os Desafios da Liderança Escolar em Tempos de Apagão Profissional
Dirlei Barbosa de Lima; Marilda Aparecida Soares
DOI: 10.22167/2675-6528-202602828
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A crescente escassez de profissionais qualificados na educação configura-se como um desafio central para as instituições escolares contemporâneas, impactando a organização pedagógica e a sustentabilidade das equipes. Analisou-se como gestores escolares conduziram a gestão de pessoas frente ao apagão profissional, buscando identificar práticas de liderança que promovessem o engajamento, a motivação e a permanência dos profissionais. Realizou-se uma pesquisa aplicada, exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa, que utilizou pesquisa bibliográfica e documental, além de um questionário semiestruturado aplicado à equipe pedagógica de uma instituição privada de ensino via Google Forms. Os resultados indicaram que a maioria dos gestores reconheceu o apagão profissional, com impactos na dificuldade de contratação, sobrecarga das equipes e desafios na manutenção do engajamento e motivação. Identificaram-se iniciativas institucionais pontuais de valorização profissional, como formação continuada, reorganização de rotinas e fortalecimento das relações interpessoais. Concluiu-se que a liderança escolar desempenhou um papel fundamental na mediação desses desafios, ressaltando a necessidade de estratégias mais sistematizadas para ambientes de trabalho colaborativos e sustentáveis.
Palavras-chave: Apagão profissional; Clima organizacional; Engajamento docente; Gestão de pessoas; Liderança.
1. Introdução
A gestão escolar contemporânea configura-se como um campo complexo e dinâmico, profundamente influenciado por transformações sociais, culturais, tecnológicas e econômicas. Nesse cenário, a escola transcende a mera transmissão de conhecimentos, sendo reconhecida como uma organização essencialmente humana, onde as relações interpessoais, a cooperação e o comprometimento coletivo são cruciais para a qualidade do processo educativo. A eficácia da escola está diretamente relacionada à forma como as pessoas são organizadas, valorizadas e mobilizadas em torno de um projeto educativo comum, conforme aponta Libâneo (2012).
Entre as múltiplas dimensões da gestão escolar, a gestão de pessoas emerge como um dos maiores desafios enfrentados pelos gestores, especialmente em um contexto de escassez de profissionais qualificados. Esse fenômeno, conhecido como apagão profissional, refere-se à dificuldade de atrair, desenvolver, motivar e reter talentos nas organizações (Chiavenato, 2014), impactando significativamente o campo educacional. No ambiente escolar, essa escassez manifesta-se na dificuldade de atrair e reter professores e demais profissionais preparados para as exigências contemporâneas da educação, que demandam competências pedagógicas, socioemocionais, tecnológicas e relacionais.
O apagão profissional na educação, também denominado apagão docente, caracteriza-se pela crescente escassez de professores qualificados para atuar na Educação Básica. Este cenário é agravado pela perda de atratividade da carreira, condições de trabalho desfavoráveis, desvalorização profissional e redução do interesse pelos cursos de licenciatura (Silva e Lima, 2022). Tal fenômeno compromete a reposição de docentes, intensifica a falta de profissionais em diversas áreas do conhecimento e representa um desafio significativo para a qualidade da educação e a sustentabilidade dos sistemas de ensino.
Diante desse contexto, a liderança escolar assume centralidade no debate sobre a qualidade da educação e a sustentabilidade das instituições de ensino. Lück (2009) destaca que o gestor escolar, enquanto líder, exerce função fundamental na articulação das dimensões pedagógica, administrativa e humana da escola, sendo responsável por criar condições favoráveis ao desenvolvimento profissional, ao engajamento das equipes e à construção de um clima organizacional positivo. Liderar em tempos de apagão profissional exige do gestor competências que vão além da administração tradicional, demandando sensibilidade, capacidade de diálogo, escuta ativa e estratégias de valorização das pessoas.
Autores como Senge (1999) e Paro (2015) reforçam a importância de uma liderança pautada em princípios colaborativos e democráticos, na qual o desenvolvimento humano seja compreendido como eixo estruturante da organização. Senge (1999) argumenta que organizações que aprendem são capazes de mobilizar o potencial coletivo de seus membros, favorecendo a contínua produção de saberes e o compartilhamento de responsabilidades. Paro (2015), por sua vez, enfatiza que a gestão democrática pressupõe a valorização dos sujeitos e o fortalecimento das relações humanas, aspectos essenciais para enfrentar contextos de instabilidade e escassez de profissionais.
A problemática do apagão profissional na educação tem sido evidenciada por estudos nacionais e regionais. Vasconcelos e Pereira (2024) apontam que a escassez de professores qualificados está associada a condições de trabalho inadequadas, baixos salários e desvalorização social. Machado (2023) destaca o impacto no bem-estar docente, contribuindo para o adoecimento e a evasão. Costa e Martins (2021) e Ferreira e Oliveira (2021) ressaltam a necessidade de novas estratégias organizacionais e práticas de liderança eficazes para a retenção de docentes. Embora haja uma lacuna de estudos específicos sobre o oeste de Santa Catarina, pesquisas como as de Santos (2024) e Rodrigues e Gomes (2022) indicam tendências semelhantes, como a competitividade no setor educacional e os desafios de retenção de profissionais qualificados, intensificados pela dinâmica socioeconômica regional que disputa talentos com outros setores.
Nesse sentido, torna-se relevante investigar como a gestão de pessoas e a liderança escolar têm sido conduzidas diante dos desafios impostos pelo apagão profissional. Compreender as práticas adotadas pelos gestores, bem como as estratégias utilizadas para promover a motivação, o engajamento e a permanência dos profissionais da educação, contribui não apenas para o fortalecimento da gestão escolar, mas também para a melhoria da qualidade do ensino e para a construção de ambientes educativos mais sustentáveis e inovadores. Dessa forma, esta pesquisa tem como objetivo investigar e analisar como os gestores escolares têm conduzido a gestão de pessoas diante do apagão profissional, identificando práticas de liderança capazes de promover o engajamento, a motivação e a permanência dos profissionais da educação e contribuir com os estudos sobre o tema.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza aplicada, com abordagem qualitativa, e teve caráter exploratório e descritivo. A natureza aplicada buscou coletar informações, analisar e refletir sobre problemas concretos relacionados à gestão de pessoas e à liderança no contexto escolar, com foco no fenômeno do apagão profissional na educação. A abordagem qualitativa foi adotada por ser a mais adequada à investigação de fenômenos educacionais e organizacionais complexos, privilegiando a compreensão dos significados, das percepções e das relações estabelecidas no ambiente estudado.
O estudo foi desenvolvido por meio de uma pesquisa bibliográfica e documental, articulada a procedimentos de coleta e análise de dados empíricos. A pesquisa bibliográfica fundamentou-se em publicações acadêmicas e científicas que abordam temas como gestão escolar, liderança educacional, gestão de pessoas, engajamento docente, saúde mental no trabalho e o apagão profissional na educação. Priorizaram-se produções publicadas nos últimos dez anos, com base em critérios de relevância acadêmica, confiabilidade e atualidade, sem prejuízo da inclusão de obras clássicas pertinentes ao campo teórico investigado.
A pesquisa documental contemplou a análise de documentos institucionais, legislações, normativas educacionais, diretrizes de políticas públicas e relatórios oficiais. Esses documentos estavam relacionados à gestão educacional e à valorização dos profissionais da educação, com especial atenção aos materiais da rede privada de ensino em estudo. A análise documental contribuiu para a contextualização do fenômeno investigado e para a compreensão de suas implicações no cenário educacional contemporâneo.
A unidade de análise empírica foi composta pela equipe pedagógica de uma instituição privada de Educação Básica. Esta instituição está localizada no estado de Santa Catarina, em um município de médio porte, que apresenta relevante desenvolvimento econômico e forte presença de setores industriais e de serviços. A instituição autorizou formalmente a realização da investigação, garantindo o acesso necessário para a coleta de dados.
Os participantes da pesquisa foram 11 membros da equipe pedagógica da instituição. A seleção dos participantes ocorreu por conveniência, abrangendo os profissionais que atuavam diretamente na gestão e coordenação pedagógica. Não foram estabelecidos critérios de inclusão ou exclusão adicionais além da sua atuação na equipe pedagógica da instituição selecionada.
Para a coleta de dados empíricos, utilizou-se um questionário semiestruturado, desenvolvido especificamente para esta pesquisa. O instrumento foi elaborado com questões abertas e fechadas, buscando captar as percepções dos participantes sobre a gestão de pessoas e os desafios da liderança escolar. O questionário foi compartilhado com os participantes por meio da plataforma Google Forms, permitindo uma aplicação online e acessível.
Todos os procedimentos metodológicos foram conduzidos de forma impessoal e sistemática. Previamente à aplicação do questionário, obteve-se o consentimento livre e esclarecido de todos os participantes. Este cuidado ético assegurou que a participação fosse voluntária e que os indivíduos estivessem cientes dos objetivos do estudo e da forma como seus dados seriam utilizados.
Os dados coletados, tanto da pesquisa bibliográfica e documental quanto do questionário, foram submetidos a um processo de análise temática. Esta técnica consistiu na leitura sistemática do material selecionado, seguida de categorização e interpretação dos conteúdos. As informações foram organizadas em eixos analíticos previamente definidos, que incluíram a gestão de pessoas, os desafios da liderança escolar, as condições de trabalho docente e as estratégias de enfrentamento do apagão profissional.
A organização dos dados em eixos analíticos permitiu identificar padrões, convergências e lacunas na produção científica analisada, bem como estabelecer relações entre os referenciais teóricos e as práticas de gestão educacional. Este procedimento de análise possibilitou uma compreensão aprofundada do fenômeno estudado, subsidiando reflexões com potencial de aplicação no contexto da gestão escolar e contribuindo para o objetivo geral da pesquisa.
A metodologia empregada buscou assegurar a coerência entre os objetivos propostos, o referencial teórico adotado e a análise dos resultados. A escolha por uma abordagem qualitativa e a combinação de diferentes estratégias de pesquisa visaram proporcionar uma visão abrangente sobre a gestão de pessoas e a liderança escolar em tempos de apagão profissional, conforme o contexto específico da instituição investigada.
3. Resultados e Discussão
A presente seção detalha os achados da pesquisa, que investigou a percepção de gestores escolares sobre o apagão profissional e as estratégias de liderança adotadas para mitigar seus impactos. Os resultados revelam um reconhecimento generalizado do fenômeno e suas consequências na gestão de pessoas, bem como a implementação de iniciativas institucionais, embora muitas vezes pontuais. A análise aprofunda a compreensão de como a liderança escolar atua na mediação desses desafios, buscando promover o engajamento, a motivação e a permanência dos profissionais da educação em um cenário de crescente escassez.
A Gestão Escolar e o fenômeno do apagão profissional
A gestão escolar contemporânea, conforme destacado por Libâneo (2012), exige uma organização intencional dos processos educativos, articulando dimensões pedagógicas, administrativas e relacionais. Nesse contexto, a gestão de pessoas assume um papel central, pois a escola é, em sua essência, uma organização humana, onde as interações e motivações dos indivíduos influenciam diretamente os resultados educacionais. A pesquisa evidenciou que os gestores escolares reconhecem a complexidade desse cenário, percebendo o apagão profissional como uma realidade presente e impactante no cotidiano institucional.
A maioria dos gestores, especificamente nove dos respondentes, afirmou perceber o fenômeno do apagão profissional de forma clara no contexto educacional, enquanto dois o reconheceram parcialmente. Este dado sublinha a relevância da problemática como um desafio concreto para a gestão escolar, que se manifesta na dificuldade de atrair e reter profissionais qualificados. A percepção dos gestores alinha-se à literatura que descreve o apagão profissional como a escassez de talentos que afeta a sustentabilidade das organizações, conforme abordado por Chiavenato (2014).
Quando questionados sobre o impacto do apagão profissional na gestão escolar, sete gestores classificaram-no como alto, e quatro como médio. Isso demonstra que a escassez de profissionais não é apenas uma preocupação teórica, mas uma realidade que afeta diretamente a organização institucional, a distribuição de tarefas e a tomada de decisões. A intensificação das demandas e a fragilização das condições de trabalho são consequências diretas desse cenário, exigindo dos gestores uma atuação mais estratégica e sensível às necessidades humanas e profissionais dos colaboradores.
As principais dificuldades enfrentadas pelos gestores em decorrência do apagão profissional foram predominantemente a dificuldade de contratação de novos profissionais, a permanência dos docentes e a sobrecarga de trabalho das equipes existentes. Esses achados corroboram as observações de Silva e Lima (2022), que descrevem o apagão como um cenário de alta rotatividade e desgaste emocional, impactando a qualidade dos serviços prestados. A sobrecarga, em particular, gera um ciclo negativo que compromete o bem-estar e a retenção de talentos.
Em relação à existência de estratégias institucionais voltadas à retenção de profissionais, cinco gestores afirmaram que a instituição possui tais estratégias, quatro indicaram que elas existem de forma parcial e dois relataram não haver ações estruturadas nesse sentido. Este resultado sugere que, embora haja um reconhecimento da necessidade de retenção, as iniciativas ainda carecem de maior sistematização e consolidação no âmbito da gestão escolar, o que pode limitar sua eficácia em longo prazo.
Percepções sobre o apagão profissional: análise dos dados coletados
A instituição de ensino investigada é uma escola privada de Educação Básica, localizada no oeste de Santa Catarina, um município de médio porte com forte desenvolvimento econômico. A escola atende 1.781 alunos, desde a Educação Infantil ao Ensino Médio, com um perfil sociodemográfico de famílias de classe média e média-alta. Essa característica demanda uma equipe qualificada e alinhada às expectativas das famílias, o que intensifica a pressão sobre a gestão de pessoas em um contexto de escassez profissional.
A equipe escolar é composta por 255 funcionários, incluindo 149 professores, sendo 104 docentes titulares e 44 assistentes. Observou-se que 74 profissionais possuem vínculo consolidado com a instituição, com 43 atuando há mais de cinco anos e nove com mais de duas décadas de permanência. Este núcleo docente estável é um ponto forte, contribuindo para a continuidade dos processos pedagógicos e a cultura organizacional, conforme a importância do capital humano e social discutida por Hargreaves e Fullan (2012).
Contudo, a estabilidade observada no corpo docente geral contrasta com um cenário de alta rotatividade em áreas específicas, notadamente na educação especializada (Atendimento Educacional Especializado – AEE). Nesse segmento, a média de permanência dos profissionais situa-se entre seis e oito meses, com o profissional de maior tempo de atuação tendo aproximadamente três anos de vínculo. Essa instabilidade compromete a continuidade do atendimento educacional especializado e impõe desafios adicionais à gestão escolar.
A alta rotatividade na educação especializada é atribuída a múltiplos fatores, com destaque para a questão salarial, frequentemente considerada insuficiente frente às exigências da função, que demanda formação específica e elevado nível de responsabilidade. Além disso, a presença de profissionais mais jovens, em início de carreira, com maior mobilidade no mercado de trabalho, contribui para a busca por melhores oportunidades de remuneração e desenvolvimento profissional, intensificando a instabilidade das equipes nesse setor.
Os desafios da liderança escolar, conforme as respostas iniciais, estão intrinsecamente relacionados à manutenção do engajamento e da motivação da equipe, bem como à mediação de conflitos decorrentes do acúmulo de funções e da escassez de recursos humanos. Os gestores buscam conciliar as demandas administrativas com práticas de liderança mais participativas, mas relatam limitações institucionais e estruturais para a implementação de ações sistemáticas de valorização profissional, o que ressalta a necessidade de um suporte mais robusto.
Entre as estratégias adotadas para o engajamento e a permanência dos profissionais, identificaram-se procedimentos voltados ao fortalecimento das relações interpessoais, à escuta ativa e ao reconhecimento do trabalho. Iniciativas como formação continuada, plano de saúde, plano de carreira, reorganização de rotinas e promoção de espaços de diálogo foram mencionadas. No entanto, os dados indicam que essas práticas ainda ocorrem de forma pontual, carecendo de maior sistematização e alinhamento a uma política institucional de gestão de pessoas mais abrangente.
Liderança escolar, bem-estar docente e sustentabilidade das equipes educacionais
A escassez de profissionais qualificados na educação transcende a mera dificuldade de contratação, abrangendo questões estruturais ligadas às condições de trabalho, reconhecimento profissional e a capacidade das organizações em promover ambientes de desenvolvimento humano. Nesse contexto, a liderança escolar assume um papel estratégico, pois a forma como as equipes são conduzidas e valorizadas influencia diretamente a permanência, o engajamento e a satisfação dos profissionais, conforme apontado por Fullan (2014).
A valorização do trabalho docente é central para a sustentabilidade das equipes escolares. Hargreaves e Fullan (2012) enfatizam o conceito de capital profissional, que combina capital humano (competências individuais), capital social (colaboração e confiança) e capital decisório (autonomia e participação). Quando esses elementos são incentivados, cria-se um ambiente propício ao desenvolvimento profissional e à permanência dos docentes, o que é crucial para enfrentar o apagão profissional.
A atuação da liderança escolar é essencial para construir culturas institucionais baseadas na cooperação e no reconhecimento profissional. Day e Sammons (2016) argumentam que líderes que investem em formação contínua, acompanhamento pedagógico e valorização do trabalho docente fortalecem o compromisso profissional e o desempenho institucional. A liderança, nesse sentido, é um processo relacional, mediando dinâmicas organizacionais e incentivando o trabalho coletivo para o desenvolvimento das potencialidades dos profissionais.
As condições emocionais e psicológicas do trabalho docente também são um elemento relevante. Estudos de Maslach e Leiter (2016) demonstram que ambientes com excesso de demandas, falta de reconhecimento e baixo apoio institucional podem levar ao esgotamento profissional (burnout). No contexto educacional, onde as responsabilidades e exigências são crescentes, a liderança escolar desempenha um papel fundamental na criação de estratégias que promovam o equilíbrio entre as demandas de trabalho e o bem-estar dos profissionais.
A promoção de ambientes organizacionais saudáveis requer o reconhecimento das necessidades humanas nas relações de trabalho. A Teoria da Autodeterminação, de Deci e Ryan (2000), sugere que a motivação e o engajamento profissional estão ligados à satisfação de necessidades de autonomia, competência e pertencimento. Isso implica que profissionais se envolvem mais quando participam das decisões institucionais, sentem-se capazes de desenvolver suas competências e percebem-se como parte de uma comunidade que valoriza suas contribuições.
Nesse sentido, a liderança escolar deve buscar estratégias que fortaleçam a participação e o protagonismo dos profissionais, criando espaços de diálogo, valorizando suas experiências e incentivando a colaboração. Tais iniciativas contribuem para um clima organizacional positivo e para o desenvolvimento de uma cultura de aprendizagem coletiva, onde o conhecimento é compartilhado e construído de forma colaborativa, conforme a visão de Senge (1999) sobre organizações que aprendem.
O reconhecimento social e institucional da profissão docente é outro aspecto crucial. Nóvoa (2019) destaca que a valorização do professor não se restringe apenas a salários, mas envolve o fortalecimento da identidade profissional e o reconhecimento da complexidade do trabalho pedagógico. A construção de comunidades profissionais de aprendizagem, onde os educadores compartilham experiências e refletem sobre suas práticas, é um caminho promissor para fortalecer o trabalho docente e a permanência nas instituições.
A sustentabilidade das equipes educacionais depende da capacidade das instituições de desenvolver políticas estruturadas de gestão de pessoas. Tais políticas devem contemplar formação continuada, valorização profissional, promoção do bem-estar e construção de relações institucionais baseadas no respeito e na confiança. Quando essas dimensões são integradas às práticas de liderança escolar, é possível construir ambientes organizacionais mais equilibrados e capazes de enfrentar os desafios da escassez de profissionais.
Assim, a gestão de pessoas no contexto escolar exige uma abordagem ampla e integrada, que articule liderança, desenvolvimento profissional e cuidado com o bem-estar dos colaboradores. A liderança escolar é um processo relacional e formativo, capaz de mobilizar pessoas, fortalecer vínculos institucionais e promover o desenvolvimento coletivo. Os gestores escolares precisam desenvolver práticas de liderança voltadas à valorização das pessoas, ao fortalecimento das relações de trabalho e à construção de ambientes educacionais sustentáveis, conforme Morais e Silva (2021).
Em síntese, os resultados da pesquisa confirmam que o apagão profissional é uma realidade reconhecida pelos gestores escolares, impactando a contratação, retenção e sobrecarga das equipes. Embora existam iniciativas de valorização e engajamento, elas são frequentemente pontuais, indicando a necessidade de estratégias mais sistematizadas. A liderança escolar emerge como um fator crítico na mediação desses desafios, sendo fundamental para construir ambientes de trabalho colaborativos e sustentáveis, alinhados às necessidades dos profissionais e à qualidade da educação.
4. Conclusão
O presente estudo buscou investigar como os gestores escolares têm conduzido a gestão de pessoas diante do fenômeno do apagão profissional, identificando práticas de liderança que promovessem o engajamento, a motivação e a permanência dos profissionais da educação. Verificou-se que a maioria dos gestores reconheceu o apagão profissional como uma realidade impactante no contexto educacional, manifestando-se principalmente na dificuldade de contratação, na permanência dos docentes e na sobrecarga de trabalho das equipes. Observou-se que, embora existam iniciativas institucionais de valorização profissional, como formação continuada e reorganização de rotinas, estas ainda ocorrem de forma pontual e carecem de maior sistematização. A liderança escolar, nesse cenário, desempenhou um papel fundamental na mediação desses desafios, buscando conciliar as demandas administrativas com práticas mais participativas para o bem-estar dos colaboradores.
A principal contribuição deste trabalho reside em aprofundar a compreensão das percepções dos gestores sobre o apagão profissional e os desafios da liderança, oferecendo subsídios para o fortalecimento da gestão de pessoas no ambiente escolar. Como limitações, ressalta-se o recorte da pesquisa em uma única instituição e o caráter preliminar dos dados analisados. Sugere-se, para estudos futuros, a ampliação do número de participantes e a exploração de diferentes contextos educacionais, a fim de obter uma visão mais abrangente do fenômeno e das estratégias de liderança eficazes. Os resultados apresentados reforçam a necessidade de políticas institucionais mais robustas e de uma liderança estratégica para construir ambientes de trabalho colaborativos e sustentáveis na educação.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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