Neurociência E Aprendizagem Na Educação
30 de setembro de 2026
Matriz de Planejamento Neuroeducativo: Interdisciplinaridade e Metodologias Ativas no 9º Ano
Matriz de Planejamento Neuroeducativo: Interdisciplinaridade e Metodologias Ativas no 9º Ano
Ana Paula Pinheiro Medeiros; Alaina Alves
DOI: 10.22167/2675-6528-202602647
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A Matriz de Planejamento Neuroeducativo (MPN) foi proposta e sistematizada para o 9º ano do Ensino Fundamental, articulando princípios da Neurociência da Aprendizagem, metodologias ativas, interdisciplinaridade e habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O estudo objetivou desenvolver e analisar a MPN como um instrumento aplicável ao planejamento docente, integrando eixos cognitivo-afetivos às prescrições curriculares. Caracterizou-se como pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa e natureza bibliográfica, culminando no desenvolvimento de um produto educacional. Os procedimentos envolveram revisão teórica, mapeamento de habilidades da BNCC e a elaboração da MPN, que incluiu campos neuroeducativos como memória de trabalho, engajamento emocional e consolidação da aprendizagem. A funcionalidade da matriz foi exemplificada por meio de uma sequência didática interdisciplinar baseada na obra Persépolis, para Língua Portuguesa e Geografia. Contudo, a aplicação da MPN não incluiu coleta de dados empíricos com estudantes, sendo analisada como proposta teórico-prática. Os resultados indicaram que a MPN organizou o planejamento em eixos cognitivo-afetivos, favorecendo a integração curricular, a intencionalidade pedagógica e a aproximação entre a fundamentação teórica e a prática docente. Concluiu-se que a MPN constituiu uma ferramenta estruturada, replicável e potencialmente eficaz para qualificar o planejamento pedagógico, recomendando-se sua validação empírica em contextos reais.
Palavras-chave: Aprendizagem significativa; Currículo integrado; Engajamento escolar; Funções executivas; Planejamento docente.
1. Introdução
A Neurociência da Aprendizagem tem se consolidado como um campo fundamental para a compreensão dos processos cognitivos, emocionais e motivacionais que sustentam a construção do conhecimento. Essa área oferece bases explicativas sobre como o cérebro aprende, mantém a atenção, processa emoções e consolida informações na memória. Diferentemente de abordagens exclusivamente pedagógicas ou psicológicas, a neurociência contribui ao evidenciar que a aprendizagem e o afeto constituem processos indissociáveis, mediados por redes neurais que se fortalecem quando a experiência educativa é significativa, emocionalmente relevante e cognitivamente desafiadora.
Nesse contexto, a escolha da obra Persépolis como referência empírica inicial fundamenta-se em seu caráter multimodal, na potência narrativa autobiográfica e na articulação entre contextos históricos, geográficos e identitários. Tais características são reconhecidas pela neurociência da aprendizagem como fatores que favorecem o engajamento atencional, a ativação emocional e a consolidação da memória de longo prazo. Conforme apontam Cosenza e Guerra (2011), experiências educacionais que mobilizam emoção, significado pessoal e múltiplas áreas do conhecimento contribuem para a formação de redes neurais mais estáveis e integradas, justificando sua adoção como eixo estruturante da proposta apresentada neste estudo.
A motivação para o desenvolvimento deste estudo emergiu dos desafios cotidianos vivenciados no ensino de Língua Portuguesa no nono ano do Ensino Fundamental, especificamente no tocante à mediação de leituras extensas e multimodais. No exercício da docência, constata-se com frequência a dificuldade de engajar os estudantes e promover a retenção atenta de conceitos complexos. Essa inquietação prática impulsionou a busca por subsídios na Neurociência da Aprendizagem, visando responder às demandas reais do chão da escola e superar a lacuna entre a fundamentação científica e a ação pedagógica diária.
Apesar dos avanços teóricos no campo neurocientífico, observa-se uma lacuna persistente entre a produção acadêmica e a prática pedagógica cotidiana. Essa lacuna é especialmente evidente no que se refere ao desafio de apoiar professores na elaboração de planos de aula que considerem, de modo explícito e intencional, os mecanismos neurocognitivos e socioemocionais envolvidos na aprendizagem, sem perder a aderência às competências e habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018).
A relevância deste trabalho reside, portanto, na necessidade de instrumentalizar a docência com ferramentas que traduzam evidências científicas em estratégias concretas e aplicáveis à sala de aula. Nesse sentido, a criação da Matriz de Planejamento Neuroeducativo (MPN) justifica-se por oferecer um modelo teórico-prático que sistematiza princípios da neurociência da aprendizagem, como atenção, engajamento ativo, feedback e consolidação, em um instrumento de planejamento replicável. Ao “encapsular” tais princípios, a MPN assegura que o protagonismo do estudante e as dimensões cognitivas, emocionais e metacognitivas do ensino sejam intencionais e estruturadas, e não ocasionais.
Para sustentar essa proposta, o estudo ancora-se em três eixos teóricos fundamentais: a Neurociência da Aprendizagem, a partir dos quatro pilares propostos por Dehaene (2021); a Interdisciplinaridade, sob a perspectiva de Fazenda (2008) e Morin (2000), compreendida como promotora de conexões conceituais e neurais mais robustas; e as Metodologias Ativas, fundamentadas em Moran (2018), em diálogo com o planejamento por compreensão de Wiggins e McTighe (2019).
A principal contribuição deste estudo para o campo da neurociência e da educação reside na sistematização e operacionalização de princípios neurocientíficos em uma ferramenta concreta de planejamento pedagógico. Assim, o objetivo deste trabalho foi desenvolver e analisar a Matriz de Planejamento Neuroeducativo (MPN) como um instrumento aplicável ao nono ano do Ensino Fundamental, integrando eixos cognitivo-afetivos às prescrições curriculares da BNCC.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, com foco no desenvolvimento de um produto educacional. A natureza aplicada buscou solucionar um problema prático no contexto do ensino de Língua Portuguesa no nono ano do Ensino Fundamental, especificamente na mediação de leituras extensas e multimodais. A abordagem qualitativa permitiu aprofundar a compreensão dos processos pedagógicos e neurocognitivos envolvidos na aprendizagem.
O objeto empírico central da pesquisa foi a Matriz de Planejamento Neuroeducativo (MPN), um produto educacional autoral concebido e elaborado pela própria pesquisadora. A construção da MPN emergiu da experiência profissional da autora como docente do Ensino Fundamental II, motivada pela necessidade de estruturar um projeto de leitura interdisciplinar da obra paradidática Persépolis, de Marjane Satrapi, para aplicação em sala de aula.
A MPN foi desenvolvida em diálogo com pressupostos da Neurociência da Aprendizagem, com ênfase em atenção, engajamento ativo, emoção e consolidação da aprendizagem (DEHAENE, 2018; COSENZA; GUERRA, 2011). Adicionalmente, incorporaram-se princípios das metodologias ativas (MORAN, 2018) e as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018). Essa fundamentação visou criar um instrumento que explicitasse as intencionalidades cognitivas, emocionais e metacognitivas do ensino.
O percurso metodológico iniciou-se com um levantamento e aprofundamento teórico sobre os fundamentos da Neurociência da Aprendizagem. Essa etapa focou nos processos de atenção, engajamento ativo, emoção, funções executivas e consolidação da memória, apoiando-se nos quatro pilares da aprendizagem propostos por Dehaene (2018). O objetivo foi compreender como o planejamento pedagógico pode considerar as condições cognitivas e afetivas para uma aprendizagem mais eficaz.
Em etapa subsequente, realizou-se a análise documental da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O foco recaiu sobre as competências gerais e as habilidades previstas para o nono ano do Ensino Fundamental, especificamente nos componentes curriculares de Língua Portuguesa e Geografia. Essa análise buscou assegurar a coerência entre as evidências científicas sobre aprendizagem e as prescrições curriculares oficiais.
A partir desse referencial teórico e curricular, procedeu-se à construção da Matriz de Planejamento Neuroeducativo (MPN). Concebida como o principal instrumento metodológico do estudo, sua elaboração teve como finalidade operacionalizar os princípios da neurociência da aprendizagem no planejamento docente. A MPN buscou tornar explícitas as ativações cognitivas, emocionais e metacognitivas em cada etapa do ensino, diferenciando-se de modelos tradicionais de plano de aula.
A estrutura da MPN organiza-se em campos que contemplam a identificação da aula, a seleção das habilidades da BNCC e a definição dos objetivos de aprendizagem. Incluíram-se também as ativações neuroeducativas obrigatórias, as experiências de aprendizagem, os procedimentos avaliativos e as orientações de inclusão e mediação ética. O núcleo conceitual da matriz concentra-se nas ativações neuroeducativas, organizadas em memória de trabalho, engajamento emocional e consolidação da aprendizagem.
Com vistas a analisar a operacionalização da matriz enquanto procedimento metodológico, elaborou-se um planejamento interdisciplinar exemplificativo. Este planejamento envolveu os componentes curriculares de Língua Portuguesa e Geografia, utilizando a obra Persépolis como eixo temático. O exemplo serviu como material empírico-analítico para examinar como os campos da MPN orientam decisões pedagógicas e asseguram coerência metodológica.
Para verificar a coerência interna da proposta, o percurso metodológico incluiu a organização de tabelas de correlação. Essas tabelas relacionaram as habilidades da BNCC e as competências gerais aos eixos neuroeducativos da matriz. Esse procedimento foi utilizado como instrumento de validação interna do planejamento, assegurando a consistência metodológica entre os objetivos curriculares e as ativações cognitivas e socioemocionais mobilizadas.
Ressalta-se que o estudo não incluiu a aplicação efetiva da MPN em sala de aula, nem a coleta de dados empíricos com estudantes. A matriz foi analisada como uma proposta teórico-prática, sem validação empírica de seu impacto no desempenho discente. Durante a elaboração do trabalho, foram utilizados recursos de Inteligência Artificial como ferramenta de apoio à organização da escrita, revisão textual e estruturação metodológica, mantendo-se a autoria intelectual da pesquisadora.
3. Resultados e Discussão
Os resultados deste estudo evidenciam a sistematização e a aplicabilidade da Matriz de Planejamento Neuroeducativo (MPN) como uma ferramenta pedagógica fundamentada em evidências da Neurociência da Aprendizagem. A MPN foi concebida para apoiar o planejamento docente de forma intencional, estruturada e alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Sua principal inovação reside na explicitação das ativações neuroeducativas envolvidas em cada etapa do processo de ensino e aprendizagem, contribuindo para reduzir a distância entre a teoria neurocientífica e a prática pedagógica cotidiana, conforme o objetivo central da pesquisa.
A estruturação da matriz tomou como referencial central os quatro pilares da aprendizagem propostos por Dehaene (2021): atenção, engajamento ativo, feedback e consolidação. Esses pilares foram articulados a pressupostos da interdisciplinaridade, conforme Fazenda (2008) e Morin (2000), e das metodologias ativas, segundo Moran (2018), em diálogo com o planejamento por compreensão de Wiggins e McTighe (2019). A MPN foi organizada para contemplar objetivos de aprendizagem alinhados à BNCC, experiências de aprendizagem distribuídas em etapas pedagógicas (aquecimento, atividade central e fechamento) e critérios de avaliação formativa.
A matriz incorpora campos obrigatórios voltados à ativação da memória de trabalho, ao engajamento emocional e à consolidação da aprendizagem, refletindo uma escolha metodológica intencional. Essa abordagem induz o professor a planejar não apenas o conteúdo, mas também a forma como o cérebro do estudante será mobilizado ao longo do processo de ensino-aprendizagem. Cumpre ressaltar que a incorporação da Neurociência da Aprendizagem não reduz o estudante a mecanismos biológicos, mas o compreende como sujeito holístico e biopsicossocial, onde processos neurocognitivos se entrelaçam com vivências culturais, socioemocionais, históricas e afetivas.
Para analisar a funcionalidade da MPN enquanto instrumento de planejamento, elaborou-se um exemplo de aplicação interdisciplinar, envolvendo os componentes curriculares de Língua Portuguesa e Geografia. O eixo temático escolhido foi a relação entre Ocidente, Oriente e identidade cultural, a partir da obra *Persépolis*, de Marjane Satrapi. A escolha da obra fundamentou-se em seu caráter autobiográfico, multimodal e histórico-cultural, atributos reconhecidos pela neurociência da aprendizagem como facilitadores do engajamento atencional, da ativação emocional e da consolidação da memória de longo prazo (Cosenza e Guerra, 2011).
A apresentação desse exemplo justifica-se por seu caráter analítico e ilustrativo do funcionamento da Matriz de Planejamento Neuroeducativo como produto educacional. Embora a sequência didática tenha sido aplicada pela própria pesquisadora em sua prática docente, não houve coleta, registro ou análise sistemática de dados de estudantes. Assim, o exemplo não é tratado como relato de resultados de aprendizagem discente, mas como material empírico-analítico para discutir a funcionalidade, a consistência e o potencial pedagógico da matriz.
A integração entre Língua Portuguesa e Geografia, por meio da obra *Persépolis*, não foi concebida como mera justaposição de conteúdos. Sob a perspectiva da Neurociência da Aprendizagem, a articulação entre diferentes campos do conhecimento estimula redes neurais associativas, potencializando a construção de conceitos mais complexos. A análise da narrativa permitiu que aspectos linguístico-textuais ganhassem contornos humanos e subjetivos, conectando-se diretamente a noções de espaço, território, geopolítica e fronteiras, favorecendo a transposição do aprendizado abstrato para esquemas mentais significativos e contextualizados.
No eixo da memória de trabalho, a MPN materializou-se no planejamento por meio do uso de organizadores gráficos, como o quadro “fato-evento-efeito” e a construção progressiva da linha do tempo da obra. Essas estratégias visam favorecer a organização externa da informação e a redução da sobrecarga cognitiva. Conforme apontam Cosenza e Guerra (2011), tais abordagens ampliam a capacidade de processamento e contribuem para a construção de esquemas mentais mais estáveis, essenciais para a retenção de informações complexas.
O eixo do engajamento emocional foi ativado por meio de atividades que estabelecem conexão entre o conteúdo escolar e vivências humanas universais. Exemplos incluem a produção de cartas à protagonista e debates regrados sobre pertencimento, choque cultural e identidade. Essas propostas alinham-se à compreensão de que emoção e cognição são indissociáveis no processo de aprendizagem, uma vez que se aprende melhor aquilo que mobiliza significado pessoal e envolvimento afetivo (Mora, 2017), além de promover o protagonismo discente, em consonância com as metodologias ativas.
Para a consolidação da aprendizagem, a matriz previu estratégias de recuperação ativa, como mini-quizzes e feedback orientado por rubrica. Essas ações possibilitam retomadas planejadas do conteúdo e favorecem a estabilização das informações na memória de longo prazo, conforme o pilar da consolidação descrito por Dehaene (2018). A prática espaçada e o feedback estruturado são cruciais para reforçar as conexões neurais e garantir que o conhecimento seja acessível e duradouro.
A coerência interna da proposta foi verificada por meio da análise do alinhamento entre as habilidades da BNCC e os campos neuroeducativos da MPN. Observou-se que as exigências curriculares são contempladas de forma integrada às ativações cognitivas e socioemocionais. Por exemplo, a habilidade EF89LP33, que envolve a leitura autônoma e compreensão de obras extensas, exige o suporte da memória de trabalho para a manutenção de informações ao longo do texto, sendo diretamente contemplada pelas estratégias propostas na matriz.
De forma complementar, as habilidades EF89LP12, referente à participação em debates regrados, e EF09GE05, que trata da discussão de conflitos geopolíticos, mobilizam prioritariamente o engajamento emocional. Isso ocorre porque tais habilidades requerem regulação afetiva, empatia e alteridade frente a visões de mundo distintas, aspectos que a MPN busca desenvolver intencionalmente. Essa correlação demonstra como a matriz traduz as demandas curriculares em ativações neurocognitivas específicas, garantindo um planejamento mais consciente e eficaz.
As Competências Gerais da BNCC também foram analisadas à luz das ativações neurocognitivas previstas na MPN. As competências 1, 2 e 4, que enfatizam o conhecimento e o pensamento crítico, foram associadas ao campo da memória de trabalho, envolvendo organização, raciocínio e linguagem. Já as competências 7, 8 e 9, focadas em argumentação, autoconhecimento e empatia, foram diretamente relacionadas ao engajamento emocional, promovendo a regulação afetiva e a interatividade entre os estudantes.
As competências 5 e 10, que abordam a cultura digital e a responsabilidade, foram correlacionadas à consolidação da aprendizagem, por meio da aplicação prática e revisão iterativa. Esse alinhamento evidencia que a MPN favorece a articulação entre desenvolvimento cognitivo, socioemocional e ético, superando uma visão fragmentada do currículo e reforçando a relevância da matriz como instrumento de planejamento pautado em evidências científicas e normativas, integrando diferentes dimensões da formação do estudante.
Como desdobramento da aplicação da Matriz de Planejamento Neuroeducativo, foi estruturada uma sequência didática completa para o 9º ano do Ensino Fundamental, organizada em etapas progressivas e coerentes com os princípios neuroeducacionais. Essa sequência, aplicada pela pesquisadora em sua prática docente, serviu como principal material empírico-analítico do estudo, materializando as decisões metodológicas e teóricas discutidas, e sendo analisada sob a perspectiva do planejamento e da coerência metodológica.
Os objetivos de aprendizagem interdisciplinares da sequência didática incluíram a compreensão dos critérios de divisão do mundo entre Ocidente e Oriente, a análise da construção identitária da protagonista de *Persépolis* e sua relação com cultura, gênero, religião e política. Também se buscou identificar e analisar episódios de xenofobia e discriminação, desenvolvendo empatia e postura ética, além de relacionar o contexto histórico-geopolítico da Revolução Iraniana e da Guerra Irã-Iraque às experiências narradas na obra.
Os fundamentos neuroeducacionais que orientaram a sequência didática foram diversos, incluindo a atenção e o engajamento, com ativação de conhecimento prévio e perguntas disparadoras no início de cada semana. A emoção e o significado foram explorados por meio de discussões sobre identidade, pertencimento e injustiça, visando favorecer a aprendizagem significativa e a memória duradoura. A memória e a consolidação foram trabalhadas com retomadas semanais, quizzes e sínteses breves, fortalecendo a fixação do conteúdo.
As funções executivas foram estimuladas pelo planejamento de uma linha do tempo, organização de mapas mentais e monitoramento por autoavaliação, apoiando o córtex pré-frontal. A codificação multimodal foi promovida pelo uso da linguagem verbal e visual do romance gráfico, além da produção audiovisual/ilustrativa. A aprendizagem social foi incentivada por trabalhos em grupos com papéis definidos, negociação e comunicação respeitosa, enquanto a segurança emocional foi garantida por pactos de convivência para tratar temas sensíveis, com acolhimento e mediação docente.
A rotina sugerida por aula, estruturada em aquecimento, leitura guiada/compartilhada, atividade de processamento e fechamento metacognitivo, demonstrou como os fundamentos neuroeducacionais orientam a prática. O aquecimento, com perguntas disparadoras, visa ativar o conhecimento prévio e aumentar o foco. A leitura guiada foca em trechos-chave e elementos visuais, e a atividade de processamento envolve síntese, discussão e produção textual ou gráfica, culminando em um fechamento metacognitivo para reflexão sobre o aprendizado.
A avaliação foi concebida de forma contínua e multimodal, contemplando processos e produtos, com critérios explícitos de sucesso, como a compreensão da obra e seu contexto histórico-geográfico, a análise crítica de ponto de vista e a discussão de eurocentrismo/xenofobia. Também se avaliou a multimodalidade na integração de texto e imagem, a pesquisa e o uso de fontes confiáveis, a colaboração em grupo e a metacognição, com reconhecimento de avanços e pontos a melhorar por meio de autoavaliação consistente.
O produto final do grupo, um e-book multimodal, foi estruturado para consolidar as aprendizagens, incluindo linha do tempo, mapas mentais, reflexão crítica sobre Ocidente e Oriente, discussão sobre imigração e xenofobia, uma carta à protagonista e a criação de uma cena marcante em stop motion ou ilustração. Essa estrutura reforça o caráter formativo da proposta, que visa não apenas a aquisição de conhecimentos conceituais, mas também o desenvolvimento da análise crítica, da integração multimodal e da metacognição.
A seleção dos capítulos da obra *Persépolis* para a sequência didática foi intencional, considerando a progressão temática, a complexidade dos conteúdos e a necessidade de mediação ética na abordagem de temas sensíveis como guerra, discriminação, identidade e repressão. Essa decisão pedagógica, que incluiu o recorte de trechos e a organização das atividades, buscou garantir a consonância com a faixa etária dos estudantes e com os princípios de segurança emocional e mediação pedagógica, evidenciando as decisões didáticas decorrentes da aplicação da MPN.
A análise dos resultados sugere que a MPN se configura como um modelo replicável e funcional, capaz de conferir rigor conceitual ao planejamento docente sem comprometer a relevância pessoal dos conteúdos para o aluno do 9º ano. A principal contribuição do estudo reside na sistematização de princípios da neurociência da aprendizagem em uma ferramenta concreta de planejamento, tornando explícitas as intencionalidades cognitivas, emocionais e metacognitivas do ensino, conforme o objetivo proposto.
Contudo, reconhece-se como limitação do estudo a ausência de validação empírica baseada em dados sistematizados de estudantes, o que impossibilitou a análise de indicadores quantitativos ou qualitativos sobre o impacto da MPN no desempenho discente. A pesquisa, portanto, restringe suas inferências ao campo do design de planejamento pedagógico e à análise teórico-metodológica do produto educacional desenvolvido, sem comprovar diretamente os efeitos da matriz na aprendizagem em contextos reais.
Em síntese, a Matriz de Planejamento Neuroeducativo (MPN) demonstrou sua capacidade de organizar o planejamento docente em eixos cognitivo-afetivos, favorecendo a integração curricular, a intencionalidade pedagógica e a aproximação entre a fundamentação teórica e a prática docente. A MPN constitui uma ferramenta estruturada e replicável, com potencial para qualificar o planejamento pedagógico ao explicitar as intencionalidades neuroeducacionais, oferecendo subsídios para a reflexão docente e a inovação curricular.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou desenvolver e analisar a Matriz de Planejamento Neuroeducativo (MPN) como um instrumento aplicável ao nono ano do Ensino Fundamental, integrando eixos cognitivo-afetivos às prescrições curriculares da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Verificou-se que a MPN, concebida a partir de princípios da Neurociência da Aprendizagem, metodologias ativas e interdisciplinaridade, organizou o planejamento docente em eixos como memória de trabalho, engajamento emocional e consolidação da aprendizagem. A funcionalidade da matriz foi demonstrada por meio de uma sequência didática interdisciplinar baseada na obra Persépolis, que articulou os componentes curriculares de Língua Portuguesa e Geografia. Observou-se que a MPN favoreceu a integração curricular e a intencionalidade pedagógica, aproximando a fundamentação teórica da prática docente. Assim, a MPN constituiu uma ferramenta estruturada e replicável, com potencial para qualificar o planejamento pedagógico ao tornar explícitas as intencionalidades neuroeducacionais do ensino.
Contudo, reconheceu-se como limitação do estudo a ausência de validação empírica com dados sistematizados de estudantes, o que restringiu as inferências ao design de planejamento e à análise teórico-metodológica do produto educacional. Recomenda-se que pesquisas futuras acompanhem a aplicação da MPN em contextos escolares reais, utilizando instrumentos observacionais e protocolos validados, a fim de investigar seus efeitos no engajamento, na autorregulação e na aprendizagem significativa dos estudantes. A MPN, portanto, representa uma contribuição relevante para o fortalecimento de práticas pedagógicas orientadas por evidências científicas, oferecendo subsídios consistentes para a reflexão docente e a inovação curricular na educação básica.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Educação Inclusiva e Diversidade
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