26 de agosto de 2026
Gerenciamento de Cronograma de Manutenção no Setor de Extração de Caldo em uma Indústria Sucroalcooleira
Jessica de Freitas Brito; Roberta Livia Garcia Teixeira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600955
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A manutenção de entressafra em indústrias sucroalcooleiras representa um projeto de alta complexidade, frequentemente comprometido por limitações na definição do escopo, no sequenciamento de atividades e nas estimativas de duração, afetando a confiabilidade e previsibilidade da execução. Objetivou-se aprimorar o gerenciamento do cronograma de manutenção de entressafra no setor de extração de caldo, por meio da aplicação das práticas do PMBOK 6ª edição, com foco na estruturação do escopo, sequenciamento lógico das atividades, melhoria das estimativas de duração e identificação do caminho crítico. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso único, de natureza aplicada e abordagem mista, realizado em uma indústria sucroalcooleira. Os métodos incluíram análise documental de cronogramas de entressafra e coleta de dados por meio de questionários com profissionais da área. Inicialmente, diagnosticou-se o cronograma vigente, identificando lacunas. Em seguida, aplicaram-se ferramentas de gerenciamento do cronograma, como a Estrutura Analítica do Projeto (EAP), sequenciamento de atividades, estimativa análoga e bottom-up, e o método do caminho crítico (CPM), permitindo a comparação entre o cenário original e o reestruturado. Os resultados evidenciaram ganhos significativos em previsibilidade, organização das atividades, clareza nas dependências e maior controle sobre prazos e desvios, com a redução de atividades sem predecessoras ou sucessoras de 18,85% para 2,32%. Concluiu-se que a aplicação estruturada das boas práticas de gerenciamento do cronograma aprimorou o planejamento e contribuiu para a disponibilidade operacional na safra subsequente.
Palavras-chave: Caminho crítico; Confiabilidade do planejamento; Estrutura Analítica do Projeto (EAP); Planejamento operacional; Previsibilidade.
1. Introdução
A indústria sucroalcooleira brasileira desempenha um papel estratégico no cenário econômico nacional e global, consolidando-se como uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do mundo. A região Centro-Sul, responsável por aproximadamente noventa por cento da produção nacional, processou cerca de 620 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2024/2025, gerando mais de 40 milhões de toneladas de açúcar e 34 milhões de metros cúbicos de etanol, o que posiciona o Brasil como líder exportador global (ÚNICA, 2026). Este setor é caracterizado por uma elevada complexidade operacional, particularmente na etapa de extração de caldo, na qual a eficiência dos equipamentos impacta diretamente o rendimento industrial. As usinas operam sazonalmente, alternando períodos de safra e entressafra, influenciados por fatores climáticos, com a safra concentrada entre abril e novembro na região Centro-Sul (Figueiredo, 2014).
Durante a safra, os equipamentos são submetidos a operação contínua, o que resulta em desgaste mecânico, abrasivo e térmico intensos. A natureza linear e sem redundâncias do fluxo produtivo implica que falhas em componentes podem causar interrupções totais na operação, com impactos significativos na produtividade. Nesse contexto, as intervenções de manutenção durante a safra são predominantemente corretivas e limitadas por restrições operacionais. Consequentemente, a maior parte das atividades de recuperação e reparo dos equipamentos é direcionada para a entressafra, um período de aproximadamente quatro meses. A entressafra, portanto, é um período estratégico para a realização de manutenções preventivas, preditivas e corretivas programadas, fundamentadas em históricos de manutenção, análises preditivas e registros de falhas. Figueiredo (2014) ressalta que este processo é altamente dependente de um planejamento eficaz, uma vez que a tendência de safras mais longas e entressafras mais curtas aumenta a exigência sobre os equipamentos e reduz o tempo disponível para manutenção.
A manutenção de entressafra pode ser concebida como um projeto com escopo definido, prazo limitado e forte dependência de recursos. Assim, a aplicação de boas práticas de gerenciamento de projetos, conforme delineado pelo *PMBOK Guide* (PMI, 2017), oferece uma estrutura robusta para otimizar o planejamento dessas atividades. Entre as áreas de conhecimento, o gerenciamento do cronograma é fundamental para assegurar o cumprimento dos prazos, por meio da definição, sequenciamento e controle das atividades (PMI, 2017). Este gerenciamento abrange processos como a criação da Estrutura Analítica do Projeto (EAP) para detalhar o escopo, o sequenciamento lógico das atividades para estabelecer dependências, a estimativa de durações e a identificação do caminho crítico, que determina a duração total do projeto (PMI, 2017). A ausência ou fragilidade na aplicação dessas práticas pode comprometer severamente a confiabilidade e a previsibilidade da execução.
Na prática, entretanto, muitos cronogramas de manutenção de entressafra ainda enfrentam desafios significativos. Observa-se frequentemente um baixo nível de detalhamento das atividades, a ausência de uma Estrutura Analítica do Projeto (EAP) formal, um sequenciamento incompleto e estimativas de duração baseadas predominantemente em julgamento empírico. Dados empíricos de estudos no setor revelam que a comunicação entre setores é uma fragilidade notável, com 81% dos profissionais avaliando-a como parcialmente satisfatória e 14% como insatisfatória, o que impacta a coordenação e a entrega de insumos (Heldman, 2021; Vargas, 2018). Além disso, fatores como atraso na entrega de materiais (95% das menções), mão de obra não capacitada (67%) e atividades executadas fora da ordem (67%) são recorrentemente citados como causas de falhas no cronograma. A imprecisão nas estimativas é corroborada por uma média de assertividade homem-hora de 457%, indicando desvios substanciais entre o planejado e o realizado, e taxas de atividades canceladas (18%) ou horas canceladas (14%) que evidenciam a instabilidade do escopo (Kerzner, 2017). A falta de um sequenciamento lógico completo também é um problema, com 18,85% das atividades sem predecessoras ou sucessoras no cenário inicial, dificultando a identificação do caminho crítico e o nivelamento de recursos.
Diante desse cenário de alta complexidade e das lacunas identificadas nas práticas atuais de gerenciamento de cronograma, torna-se imperativo buscar abordagens mais estruturadas para otimizar a manutenção de entressafra. Assim, este trabalho justifica-se pela necessidade de aprimorar a confiabilidade e a previsibilidade dos cronogramas de manutenção, contribuindo para a eficiência operacional e a disponibilidade dos equipamentos na safra subsequente. O objetivo geral desta pesquisa é aprimorar o gerenciamento do cronograma de manutenção de entressafra no setor de extração de caldo de uma indústria sucroalcooleira, por meio da aplicação das práticas do *PMBOK Guide* 6ª edição, com foco na estruturação do escopo, no sequenciamento lógico das atividades, na melhoria das estimativas de duração e na identificação do caminho crítico.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso único, de natureza aplicada, com abordagem mista, integrando métodos qualitativos e quantitativos. Quanto aos objetivos, foi classificada como exploratória e descritiva, visando aprofundar a compreensão do planejamento da manutenção de entressafra e identificar lacunas no gerenciamento do cronograma (Gil, 2010; Prodanov; Freitas, 2013). A abordagem mista conferiu maior robustez à análise, conforme preconizado por Creswell (2010) e Sampieri et al. (2013), enquanto o delineamento metodológico seguiu a estratégia de estudo de caso único, conforme proposto por Yin (2015).
O estudo foi desenvolvido em uma indústria sucroalcooleira localizada no município de Potirendaba, no interior do estado de São Paulo, Brasil. A unidade de análise concentrou-se especificamente no setor de extração de caldo, uma etapa crítica da cadeia produtiva. O período de investigação abrangeu a manutenção de entressafra referente ao ciclo 2024–2025, que tipicamente ocorre entre os meses de dezembro e março. A coleta de dados qualitativos foi realizada ao longo de cinco dias consecutivos, enquanto a análise quantitativa focou no cronograma planejado para o mesmo ciclo.
A amostragem para a coleta de dados qualitativos foi não probabilística, por julgamento, direcionada a profissionais com experiência prática em manutenção industrial. Um questionário semiestruturado foi enviado a 28 colaboradores da unidade, dos quais 21 responderam, resultando em uma taxa de resposta de 75%. Foram incluídos supervisores, coordenadores, engenheiros, técnicos, analistas e planejadores, todos com participação direta no planejamento ou execução da manutenção de entressafra. O tempo de experiência dos respondentes na organização variou entre menos de cinco e mais de vinte anos.
O instrumento de coleta de dados qualitativos consistiu em um questionário semiestruturado, composto por questões abertas e fechadas, elaborado na plataforma Microsoft Forms. A aplicação foi realizada remotamente, utilizando uma plataforma de comunicação digital (WhatsApp), facilitando o acesso aos participantes. A elaboração do questionário baseou-se nas recomendações metodológicas de Gil (2017) e Lakatos e Marconi (2017), assegurando a coerência e adequação aos objetivos da pesquisa. Não foi realizado pré-teste formal, devido ao conhecimento prévio do contexto organizacional e do perfil dos respondentes.
Para a coleta de dados quantitativos, utilizou-se o cronograma de manutenção da entressafra referente ao ciclo 2024–2025. Foram analisadas variáveis operacionais como o número de atividades planejadas, o volume de horas-homem (HH) estimadas, a estrutura de sequenciamento das atividades e a distribuição de recursos ao longo do período de execução. Adicionalmente, dados históricos de ciclos anteriores foram empregados de forma complementar, servindo como referência para apoiar as estimativas de duração das atividades, por meio da técnica de estimativa análoga.
O delineamento metodológico da pesquisa foi estruturado em quatro etapas principais para alcançar o objetivo proposto. A primeira etapa envolveu a coleta de dados primários por meio de questionário semiestruturado. Em seguida, a segunda etapa consistiu na análise quantitativa do cronograma de manutenção da entressafra do ciclo 2024–2025. A terceira etapa dedicou-se à triangulação dos dados qualitativos e quantitativos. Finalmente, a quarta etapa compreendeu a aplicação das ferramentas de gerenciamento do cronograma, fundamentadas nas boas práticas descritas no *PMBOK Guide* (PMI, 2017).
Na primeira etapa de análise, os dados qualitativos coletados por meio do questionário semiestruturado foram utilizados para diagnosticar o cronograma vigente. O foco foi identificar as percepções dos profissionais sobre as lacunas operacionais relacionadas à definição de escopo, sequenciamento das atividades, estimativas de duração, comunicação e controle de mudanças. Essa análise inicial permitiu compreender os desafios e as práticas atuais de gerenciamento do cronograma de manutenção de entressafra na indústria sucroalcooleira estudada.
A segunda etapa de análise concentrou-se nos dados quantitativos do cronograma de manutenção da entressafra 2024–2025. Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas e analisados por meio de estatística descritiva simples, utilizando frequências, percentuais e médias, com o auxílio do software Microsoft Excel. A avaliação focou em variáveis de planejamento como o nível de detalhamento das atividades, a coerência das estimativas de duração, a consistência do sequenciamento lógico e a adequação da alocação de recursos, buscando identificar inconsistências entre o planejamento e a execução.
A terceira etapa consistiu na triangulação dos dados qualitativos e quantitativos, com o propósito de realizar a validação cruzada dos resultados obtidos. Essa abordagem permitiu confrontar as percepções dos profissionais, coletadas via questionário, com os dados históricos e operacionais da organização. O objetivo foi aumentar a confiabilidade das análises e reduzir possíveis vieses interpretativos, conforme o conceito de triangulação descrito por Sampieri et al. (2013), proporcionando uma visão mais abrangente e consistente dos desafios do gerenciamento do cronograma.
Na quarta etapa, aplicaram-se as ferramentas de gerenciamento do cronograma, conforme as boas práticas do *PMBOK Guide* (PMI, 2017). Inicialmente, revisou-se o escopo do cronograma, decompondo as atividades em unidades menores, específicas e mensuráveis. Em seguida, elaborou-se a Estrutura Analítica do Projeto (EAP), organizando as atividades por sistemas e equipamentos em uma hierarquia de cinco níveis: Projeto de manutenção da entressafra, Unidade, Setor, Processo e Conjunto. Essa estruturação visou maior controle do progresso físico e clareza nas entregas.
O sequenciamento das atividades foi realizado com a identificação e definição das relações de precedência entre as tarefas, estabelecendo vínculos lógicos completos e corrigindo lacunas do cronograma original. Para a estimativa de duração, utilizou-se uma abordagem combinada: a técnica de estimativa análoga, com base em dados históricos de ciclos anteriores, e a técnica *bottom-up* para atividades detalhadas. Para equipamentos externos, aplicou-se a estimativa de três pontos, considerando cenários otimista, pessimista e mais provável, substituindo o julgamento empírico por uma base mais robusta (PMI, 2017).
Posteriormente, aplicou-se o método do caminho crítico (CPM) para identificar as atividades determinantes da duração total do projeto, avaliando a flexibilidade das demais tarefas. Essa análise proporcionou maior visibilidade sobre os pontos críticos do cronograma, auxiliando na priorização e no acompanhamento das atividades com maior impacto no prazo final. Por fim, estruturou-se a lógica de controle do cronograma, definindo parâmetros para o acompanhamento do progresso, identificação de desvios e suporte à tomada de decisão durante a execução, visando aprimorar a previsibilidade e a confiabilidade.
Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados. O estudo foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do PECEGE, sob o identificador n° 2460087940, em 26 de março de 2025, em conformidade com os princípios éticos aplicáveis à pesquisa com seres humanos. Adicionalmente, a pesquisa observou integralmente as disposições da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), Lei nº 13.709/2018, garantindo a coleta, o armazenamento e o tratamento dos dados pessoais de forma segura e responsável. A pesquisa foi anônima e aplicada exclusivamente para fins acadêmicos.
Uma limitação metodológica identificada neste estudo reside na sua aplicação em um único contexto operacional, o que restringe a generalização dos resultados obtidos. Embora o estudo de caso único permita uma análise aprofundada do fenômeno em seu ambiente real, as especificidades da indústria sucroalcooleira e do setor de extração de caldo podem não ser diretamente replicáveis a outros contextos industriais sem adaptações. Essa característica limita a extensão das conclusões para além do ambiente pesquisado.
3. Resultados e Discussão
A análise dos resultados foi conduzida de forma sistemática, abrangendo as quatro etapas metodológicas propostas, que incluíram a coleta de dados qualitativos por meio de questionários, a análise quantitativa do cronograma de manutenção da entressafra do ciclo 2024–2025, a triangulação dos dados e a aplicação de ferramentas de gerenciamento do cronograma. Essa abordagem permitiu uma comparação detalhada entre a estrutura original do cronograma e o modelo reestruturado, revelando insights significativos sobre as práticas de planejamento e execução da manutenção industrial. Os achados demonstram um alinhamento consistente com a literatura especializada em gestão de paradas industriais, que enfaticamente sublinha a importância de um planejamento estruturado para o controle eficaz das atividades, o cumprimento de prazos e a otimização da eficiência operacional (Verri, 2008; Figueiredo, 2014). A reestruturação proposta, fundamentada nas boas práticas do *PMBOK Guide* (PMI, 2017), visa mitigar as deficiências identificadas e elevar a maturidade do gerenciamento de projetos na organização.
Etapa 1 – Análise dos Resultados do Questionário
A amostra dos respondentes, composta por profissionais com variados níveis de experiência na organização, desde menos de cinco até mais de vinte anos, proporcionou uma perspectiva multifacetada sobre as práticas de planejamento de manutenção. Essa diversidade de vivências é crucial para uma análise abrangente, pois permite capturar tanto as visões de quem está há mais tempo na empresa e conhece o histórico das práticas, quanto as de profissionais mais recentes que podem trazer novas perspectivas e comparações com outras realidades. A amplitude da amostra fortalece a validade interna dos resultados qualitativos, garantindo que as percepções coletadas representem um panorama robusto da realidade organizacional.
Os resultados do questionário indicaram que a elaboração do cronograma de manutenção ocorre predominantemente com base em conhecimento empírico. Essa dependência excessiva da experiência individual, embora valiosa em certos contextos, carece de formalização e padronização, resultando em um planejamento inconsistente. A ausência de ferramentas estruturadas, como a Estrutura Analítica do Projeto (EAP) e o Método do Caminho Crítico (CPM), é um indicativo claro de um baixo nível de formalização no planejamento. Essa prática contrasta diretamente com as abordagens sistemáticas e estruturadas recomendadas pela literatura de gerenciamento de projetos, que preconizam o uso de metodologias para garantir a clareza, a rastreabilidade e a previsibilidade do cronograma (PMI, 2017; Kerzner, 2017). A falta de uma EAP, por exemplo, impede a decomposição hierárquica do escopo, dificultando a identificação de todas as entregas e atividades necessárias, o que pode levar a omissões e retrabalhos. Similarmente, a não aplicação do CPM significa que a organização não tem uma compreensão clara das atividades críticas que determinam a duração total do projeto, tornando o gerenciamento de prazos reativo em vez de proativo. A implicação prática dessa informalidade é a dificuldade em replicar sucessos e aprender com falhas, pois não há um registro estruturado das decisões e dos processos.
A definição de prioridades, conforme revelado pelos respondentes, ocorre de maneira subjetiva, desprovida de critérios técnicos claros ou formalizados. A maioria dos profissionais relatou que as decisões são tomadas com base na percepção de criticidade ou urgência momentânea, sem a utilização de indicadores objetivos, como matrizes de criticidade, análises de risco operacional ou estudos de custo-benefício. Essa abordagem subjetiva se distancia das práticas de gerenciamento de projetos orientadas a dados e à geração de valor, que enfatizam a necessidade de critérios bem definidos para a tomada de decisão (PMI, 2021). A ausência de uma metodologia formal para priorização pode levar a alocações ineficientes de recursos, desvio de foco de atividades estratégicas e, consequentemente, a um impacto negativo na performance geral da manutenção. Por exemplo, uma atividade percebida como urgente pode consumir recursos que seriam mais bem empregados em uma atividade de alta criticidade que, se negligenciada, poderia causar uma falha catastrófica. A implementação de uma matriz de criticidade, que considere o impacto da falha e a probabilidade de ocorrência, poderia fornecer uma base mais sólida para a priorização, alinhando as ações de manutenção aos objetivos estratégicos da organização.
A comunicação entre setores foi apontada como uma das maiores fragilidades no processo de planejamento e execução da manutenção. Um expressivo percentual de 81% dos respondentes avaliou a comunicação como parcialmente satisfatória, enquanto outros 14% a consideraram insatisfatória. Esse resultado evidencia falhas significativas na integração entre as diversas áreas envolvidas, como manutenção, produção, compras, RH e almoxarifado, e na estruturação dos processos de comunicação. A literatura de gerenciamento de projetos ressalta a comunicação como um pilar fundamental para o sucesso de qualquer empreendimento, especialmente em projetos complexos como a manutenção de entressafra (Heldman, 2021; Vargas, 2018). A comunicação ineficaz pode gerar mal-entendidos, atrasos na entrega de materiais, alocação inadequada de recursos e retrabalhos, impactando diretamente a eficiência e os custos do projeto. Por exemplo, a falta de comunicação entre a manutenção e o setor de compras pode resultar na indisponibilidade de peças críticas no momento da execução, causando paralisações inesperadas e prolongando o tempo de inatividade. A implementação de canais de comunicação formais, reuniões periódicas de alinhamento e o uso de plataformas colaborativas poderiam mitigar essas fragilidades, promovendo uma maior integração e sinergia entre as equipes.
Adicionalmente, foram identificadas limitações substanciais relacionadas à alocação e capacitação das equipes. A indisponibilidade de mão de obra qualificada, a baixa qualificação técnica e a ausência de uma análise estruturada das competências disponíveis impactam diretamente a aderência ao cronograma. Essas fragilidades na gestão de recursos humanos estão em desacordo com os princípios de gestão de equipes e entrega de valor descritos no *PMBOK Guide* (PMI, 2021), que enfatizam a importância de ter os recursos certos, com as habilidades adequadas, no momento certo. A falta de planejamento na alocação de mão de obra pode levar a sobrecarga de trabalho para algumas equipes e ociosidade para outras, além de comprometer a qualidade das intervenções de manutenção. A baixa qualificação técnica, por sua vez, pode resultar em erros, retrabalhos e aumento dos riscos de segurança. Para mitigar esses problemas, a organização poderia investir em programas de capacitação contínua, desenvolver um plano de sucessão e implementar um sistema de gestão de competências que permita identificar as lacunas e planejar o desenvolvimento profissional das equipes. Além disso, a colaboração com o setor de RH para um planejamento mais eficaz da contratação e alocação de pessoal temporário para a entressafra é fundamental.
As falhas na estruturação do cronograma também foram evidenciadas pela ausência de mecanismos formais de agrupamento de atividades, bem como pela inexistência de um sequenciamento lógico consistente e de uma definição clara de responsáveis técnicos. Conforme apresentado na Tabela 1, a falta de comunicação entre setores (43%) e a mudança de prioridade sem planejamento (52%) são fatores críticos que dificultam o controle do progresso e aumentam os riscos de retrabalho e paralisações (PMI, 2017). A ausência de agrupamento de atividades, por exemplo, impede a visualização do projeto em níveis de detalhe adequados, dificultando o monitoramento e o controle. Um sequenciamento lógico inconsistente, onde atividades não têm predecessoras ou sucessoras claramente definidas, leva a um cronograma irrealista e à execução de tarefas fora da ordem ideal, o que pode gerar gargalos e atrasos. A falta de definição de responsáveis técnicos, por sua vez, cria ambiguidades e dificulta a responsabilização, comprometendo a execução e a qualidade das atividades. A implementação de uma EAP e a definição clara de papéis e responsabilidades, conforme as boas práticas de gerenciamento de projetos, são essenciais para estruturar o cronograma de forma lógica e coerente.
Tabela 1. Principais Fatores de Falha Citados no Questionário (%)
|
Fator de Falha Apontado |
Menções |
% do total |
|
Atraso na entrega de materiais |
20 |
95% |
|
Mão de obra não capacitada |
14 |
67% |
|
Atividades fora da ordem correta no cronograma |
14 |
67% |
|
Indisponibilidade de mão de obra |
12 |
57% |
|
Mudança de prioridade sem planejamento |
11 |
52% |
|
Falta de comunicação entre setores |
9 |
43% |
|
Recursos operacionais não programados |
8 |
38% |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Tabela 1 detalha os principais fatores de falha apontados pelos profissionais, revelando que o “Atraso na entrega de materiais” é o problema mais crítico, citado por 95% dos respondentes. Este achado é alarmante e sugere uma profunda desconexão entre o planejamento da manutenção e os processos de suprimentos. Atrasos na entrega de materiais não apenas impactam o cronograma, mas também geram custos adicionais devido à ociosidade da mão de obra e à necessidade de reprogramação. A “Mão de obra não capacitada” e “Atividades fora da ordem correta no cronograma”, ambos com 67%, indicam problemas tanto na gestão de recursos humanos quanto na aderência aos procedimentos de planejamento. A “Indisponibilidade de mão de obra” (57%) reforça a questão da gestão de recursos, enquanto a “Mudança de prioridade sem planejamento” (52%) e a “Falta de comunicação entre setores” (43%) sublinham a necessidade de processos mais robustos de governança e comunicação. Por fim, “Recursos operacionais não programados” (38%) aponta para a falta de detalhamento no planejamento de recursos auxiliares, como equipamentos de movimentação e andaimes. Esses fatores, em conjunto, criam um ambiente de alta incerteza e baixa previsibilidade, comprometendo severamente a eficiência da manutenção de entressafra.
Por fim, a pesquisa evidenciou a ausência de um processo formal estruturado para registro, análise e aplicação das lições aprendidas. Essa lacuna limita a evolução dos processos organizacionais e, consequentemente, o desenvolvimento da maturidade em gerenciamento de projetos, o que é inconsistente com os princípios de aprendizado organizacional e melhoria contínua (Kerzner, 2019; PMI, 2021). A não documentação das lições aprendidas significa que a organização repete os mesmos erros em ciclos de manutenção subsequentes, perdendo a oportunidade de otimizar seus processos e evitar falhas recorrentes. Um processo formal de lições aprendidas, que inclua a coleta de feedback, a análise de desempenho e a implementação de ações corretivas e preventivas, é fundamental para o aprimoramento contínuo. Essa prática não apenas melhora a eficiência dos projetos futuros, mas também contribui para a construção de um corpo de conhecimento organizacional que pode ser utilizado para capacitar novas equipes e desenvolver melhores práticas.
Etapa 2 – Análise de Dados Quantitativos
A análise quantitativa do cronograma de manutenção da entressafra 2024–2025 revelou falhas estruturais significativas na aplicação das ferramentas de gerenciamento do cronograma. As atividades foram identificadas em um nível macro, sem a decomposição adequada em unidades menores e mais gerenciáveis. Essa abordagem superficial compromete diretamente o processo de definição das atividades, que é uma etapa crucial para o planejamento eficaz, conforme as orientações do *PMBOK Guide* (PMI, 2017). Quando as atividades não são detalhadas o suficiente, torna-se difícil estimar com precisão a duração, os recursos necessários e os custos associados, levando a um cronograma irrealista e propenso a desvios. A falta de detalhamento também impede a identificação de dependências complexas entre as tarefas, o que pode resultar em gargalos e atrasos inesperados durante a execução. A implicação prática é a perda de controle sobre o projeto, com a equipe de manutenção operando em um modo reativo, tentando resolver problemas à medida que surgem, em vez de preveni-los.
Tabela 2. Resumo Quantitativo por exercício
|
Descrição |
22-23 |
23-24 |
24-25 |
Média |
|
N° de Atividades no Plano |
1.436 |
959 |
1.438 |
1.278 |
|
Nº de Atividades excluídas |
102 |
316 |
211 |
210 |
|
Horas Planejadas |
21.609 |
26.851 |
27.648 |
25.369 |
|
Horas Realizadas |
25.841 |
26.701 |
38.950 |
30.497 |
|
Horas Canceladas |
657 |
8.859 |
1.767 |
3.761 |
|
Atividades excluídas (%) |
7% |
33% |
15% |
18% |
|
Hora-Homem Cancelada (%) |
3% |
33% |
6% |
14% |
|
Média de horas por atividade planejada |
15 |
28 |
19 |
21 |
|
Média de horas por atividade realizada |
18 |
28 |
27 |
24 |
|
Média de assertividade homem-hora (%) |
286,24% |
920,90% |
163,72% |
457% |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Tabela 2 apresenta um resumo quantitativo dos dados por exercício, reforçando os achados qualitativos e evidenciando a magnitude das inconsistências no planejamento. O índice médio de assertividade homem-hora de 457% é um dado alarmante, indicando uma subestimação crônica do esforço necessário para a execução das atividades. Isso significa que, em média, as horas reais gastas foram mais de quatro vezes maiores do que as horas planejadas, o que compromete severamente a previsibilidade do cronograma e a alocação de recursos. Taxas de cancelamento elevadas, com uma média de 14% das horas-homem canceladas e 18% das atividades excluídas, também são indicativos de um planejamento deficiente. Esses cancelamentos e exclusões podem ser atribuídos a diversas causas, como a inclusão de atividades inviáveis, a falta de recursos, mudanças de prioridade ou erros de sequenciamento. A ausência de formalização no controle do escopo, do cronograma e das entregas, corroborada por esses indicadores, é compatível com projetos em estágios iniciais de maturidade em gestão (Kerzner, 2017). Em organizações com baixa maturidade, os processos são ad-hoc, dependentes de indivíduos e carecem de documentação e padronização, o que resulta em resultados inconsistentes e imprevisíveis. A implicação direta é a dificuldade em otimizar a utilização dos recursos, gerenciar as expectativas das partes interessadas e garantir a disponibilidade operacional na safra subsequente.
Etapa 3 – Triangulação dos Dados
A triangulação dos dados qualitativos e quantitativos confirmou a precariedade na validação de viabilidade técnica e no planejamento do escopo. Os dados qualitativos revelaram que 67% dos respondentes relataram a execução de atividades fora da ordem planejada, e 52% indicaram mudanças de prioridade sem uma estrutura formal. Essas percepções são corroboradas pelos dados documentais, que indicam a exclusão de até 33% das atividades planejadas no ciclo 2023–24, além do cancelamento médio de 14% das horas planejadas. Essa consistência entre as diferentes fontes de dados é um forte indicativo de que a inclusão de tarefas no cronograma frequentemente ocorre sem uma análise prévia adequada de recursos, janelas operacionais ou requisitos de segurança. A falta de validação técnica e de escopo no início do projeto resulta em um cronograma instável, onde as atividades são constantemente ajustadas ou canceladas, gerando ineficiência e frustração para as equipes. A literatura de gerenciamento de projetos enfatiza a importância de uma fase de planejamento robusta, onde o escopo é claramente definido e validado antes da execução (PMI, 2017). A não observância dessas práticas leva a um ciclo vicioso de retrabalho e desorganização.
A fragilidade nas estimativas de duração e esforço também se mostrou consistente entre as diferentes fontes de dados. A ausência de técnicas formais de estimativa, como a EAP, a estimativa análoga e a abordagem *bottom-up*, identificada nos questionários, resultou em desvios superiores a 400% nas horas estimadas, conforme revelado pelos dados quantitativos. Esse nível de imprecisão compromete severamente a previsibilidade do cronograma, dificultando o planejamento de recursos e o nivelamento da carga de trabalho. Quando as estimativas são imprecisas, a alocação de mão de obra e materiais torna-se um desafio, levando a períodos de ociosidade ou sobrecarga, o que impacta negativamente a produtividade e a moral da equipe. Além disso, estimativas irrealistas podem gerar expectativas equivocadas nas partes interessadas, resultando em insatisfação e perda de confiança. A adoção de técnicas de estimativa mais robustas, como a estimativa de três pontos para atividades incertas ou a estimativa paramétrica para atividades repetitivas, poderia melhorar significativamente a precisão e a confiabilidade do cronograma.
A comunicação entre setores, criticada por mais de 40% dos respondentes, foi confirmada pelos cancelamentos associados à indisponibilidade de insumos. Essa correlação direta entre a percepção de falha na comunicação e os problemas operacionais evidencia uma profunda desconexão entre o planejamento técnico da manutenção e os processos de suprimentos. A falta de integração entre essas áreas resulta em gargalos na cadeia de valor, onde a manutenção planeja atividades que não podem ser executadas devido à ausência de materiais ou peças. Heldman (2021) e Vargas (2018) destacam que a comunicação eficaz é um dos pilares da gestão de projetos, e sua falha pode minar todo o esforço de planejamento. A implementação de um sistema integrado de gestão, que permita o compartilhamento de informações em tempo real entre os setores, e a realização de reuniões de alinhamento interdepartamentais são medidas essenciais para mitigar esse problema. Além disso, a definição de indicadores de desempenho para a comunicação e a responsabilização dos gestores por sua efetividade podem impulsionar melhorias significativas.
Por fim, a governança do cronograma também apresentou fragilidades, com a ausência de responsáveis formais comprometendo a fluidez das decisões e a rastreabilidade das aprovações. Essa falta de clareza na governança dificulta a execução de ações corretivas em tempo adequado e impacta a coordenação entre as áreas envolvidas. Em um ambiente de projeto, a governança define como as decisões são tomadas, quem tem autoridade e como os desvios são gerenciados (PMI, 2017). A ausência de uma estrutura de governança formal pode levar a atrasos na tomada de decisão, conflitos de interesse e falta de responsabilização, o que compromete a capacidade da organização de responder a imprevistos e manter o projeto no caminho certo. A implementação de um comitê de gerenciamento de projetos, com papéis e responsabilidades claramente definidos, e a adoção de um sistema de controle de mudanças formal, são medidas que podem fortalecer a governança do cronograma e aumentar a sua confiabilidade.
Etapa 4 – Aplicação das Ferramentas de Gerenciamento do Cronograma
Estrutura Analítica do Projeto (EAP) – Reestruturação do escopo
No cenário inicial, o escopo das atividades de manutenção não estava estruturado sob a forma de uma Estrutura Analítica do Projeto (EAP), sendo apresentado apenas como uma lista linear de atividades. Essa abordagem rudimentar comprometia a visão sistêmica do projeto, dificultando a compreensão do escopo total, bem como a adequada organização e o sequenciamento das atividades. A ausência de uma EAP limitava a identificação clara das entregas e reduzia a visibilidade do projeto quanto ao acompanhamento de prazos e à identificação de atrasos, conforme ilustrado na Figura 1. A falta de hierarquia e decomposição impedia que os gestores e as equipes tivessem uma compreensão granular do trabalho a ser realizado, levando a uma gestão reativa e ineficiente. A literatura de gerenciamento de projetos é unânime em afirmar que a EAP é a base para o planejamento do escopo, pois permite a decomposição do trabalho em componentes menores e mais gerenciáveis, facilitando a atribuição de responsabilidades e a estimativa de recursos (PMI, 2017).
Figura 1. Visão geral do projeto inicial (ausência de EAP)
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Com a reestruturação, a EAP foi definida com base na lógica operacional da manutenção, organizando o escopo por sistemas e subconjuntos de equipamentos. No contexto analisado, o setor de extração de caldo foi dividido em quatro áreas principais, sendo que cada uma delas contemplou seus respectivos equipamentos e sistemas associados. Essa abordagem permitiu estabelecer um padrão estruturado de organização do escopo, inexistente no modelo anterior. A partir dessa definição, a EAP passou a apresentar uma hierarquia de cinco níveis: Projeto de manutenção da entressafra, Unidade, Setor, Processo e Conjunto. Essa estrutura possibilitou uma visão organizada e progressiva do escopo, partindo do nível macro do projeto até a decomposição em conjuntos operacionais, estabelecendo uma base consistente para as etapas subsequentes do planejamento do cronograma, conforme visualizado na Figura 2.
Figura 2. Estrutura Analítica do Projeto (EAP)
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Diferentemente do cenário anterior, a EAP foi construída com base na lógica dos equipamentos industriais, refletindo a realidade operacional da manutenção e permitindo futura replicação do modelo para outros conjuntos. Como resultado, houve maior precisão no dimensionamento do projeto e na definição das atividades, com redução de inconsistências na criação de tarefas durante o planejamento, uma vez que o escopo passou a estar integralmente estruturado e rastreável. Essa padronização considerou as particularidades de cada cenário operacional, com ajustes pontuais nas atividades conforme a condição dos equipamentos. Tal abordagem contribuiu para o aumento da consistência na elaboração do cronograma, reduzindo a variabilidade entre planejamentos e garantindo maior uniformidade na definição das atividades. Além disso, permitiu a transição de uma abordagem baseada em atividades genéricas para uma estrutura orientada por equipamento, na qual as atividades passaram a ser claramente definidas para cada conjunto específico.
Para realizar a comparação entre o escopo inicial e o reestruturado, aplicou-se a EAP ao projeto original. Como resultado, identificou-se um acréscimo de 976 horas, equivalente a 4% do total do projeto. Esse aumento está associado à adoção da estimativa *bottom-up* e à padronização de atividades por família de equipamentos, evidenciando maior linearidade entre atividades e durações. Tal padronização pode ser observada, por exemplo, nas Esteiras Intermediárias Entre Ternos, que apresentam, em média, 46 atividades e 793 horas para execução completa do escopo por equipamento, padrão que não era previamente identificado no cronograma original. Adicionalmente, houve uma separação de escopo, distinguindo-se as atividades executáveis exclusivamente no período de entressafra daquelas passíveis de antecipação, como a fabricação de peças e o envio de equipamentos reserva para manutenção externa. Essas atividades foram retiradas do cronograma de entressafra e passaram a ser tratadas em paralelo, em outro ciclo operacional no período de safra. Como resultado, obteve-se maior precisão nas estimativas de duração, redução da subjetividade no planejamento e aumento da confiabilidade do cronograma, estabelecendo uma base mais robusta para o controle e acompanhamento das atividades.
Estimativa (análoga + bottom-up)
No cenário inicial, as estimativas de duração das atividades eram realizadas com base em atividades predominantemente macro, sem um nível adequado de decomposição. Essa característica limitava a aplicação consistente da estimativa análoga, uma vez que a ausência de correspondência direta com dados históricos dificultava a utilização de referências confiáveis. Como consequência, as estimativas eram fortemente dependentes de julgamento subjetivo, o que, conforme discutido anteriormente, gerava desvios significativos. A baixa precisão das estimativas comprometia a confiabilidade do cronograma, resultando em desvios frequentes de prazo, dificuldades no planejamento de recursos e baixa previsibilidade na execução das atividades. Essa abordagem empírica, embora possa ser rápida em cenários de baixa complexidade, é inadequada para projetos de manutenção de entressafra, que exigem alta precisão devido aos prazos apertados e à criticidade das operações.
Com a estruturação da EAP e a decomposição das atividades em níveis mais detalhados, adotou-se uma abordagem combinada entre estimativa análoga e *bottom-up*. A utilização de dados históricos passou a ser aplicada nos casos em que havia correspondência entre atividades, enquanto a técnica *bottom-up* foi aplicada predominantemente para estimar atividades detalhadas a partir de seus componentes. Essa combinação de técnicas, conforme preconizado pelo *PMBOK Guide* (PMI, 2017), substituiu a abordagem baseada exclusivamente em julgamento empírico por uma base mais robusta e objetiva. A estimativa análoga, quando aplicada a atividades com histórico similar, permite um rápido dimensionamento com base em dados passados, enquanto a estimativa *bottom-up* garante que cada componente do trabalho seja detalhadamente avaliado, somando-se para obter a estimativa total. Essa abordagem híbrida é particularmente eficaz em ambientes onde há uma mistura de atividades rotineiras e tarefas únicas ou complexas.
Tabela 3. Comparação entre atividades e horas do projeto inicial e projeto estruturado
|
Equipamento |
N° de Atividades Escopo Inicial |
N° de Atividades Escopo Final |
Horas Escopo Inicial |
Horas Escopo Final |
|
Amostrador de Bagaço da Moenda |
7 |
14 |
89 |
62 |
|
Bomba de Caldo Misto |
7 |
9 |
35 |
42 |
|
Bomba de Caldo Primário |
8 |
9 |
35 |
42 |
|
Bomba de Caldo Secundário |
8 |
9 |
41 |
42 |
|
Bomba de Embebição Da Moenda |
12 |
8 |
23 |
112 |
|
Centro de Comando de Motores N°1 |
18 |
22 |
176 |
234 |
|
Centro de Comando de Motores N°2 |
16 |
22 |
121 |
301 |
|
Desfibrador De Cana |
67 |
34 |
374 |
964 |
|
Eletroímã |
4 |
5 |
25 |
28 |
|
Espalhador De Cana |
14 |
16 |
212 |
124 |
|
Esteira Cana Picada 15M |
15 |
9 |
137 |
140 |
|
Esteira Cana Picada 50M |
15 |
22 |
165 |
299 |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Tabela 3 e sua continuação na Tabela 4 apresentam uma comparação detalhada entre o número de atividades e as horas planejadas no escopo inicial e no escopo final reestruturado para diversos equipamentos. Observa-se que, para a maioria dos equipamentos, o número de atividades e as horas planejadas no escopo final são significativamente diferentes do escopo inicial. Por exemplo, o “Amostrador de Bagaço da Moenda” passou de 7 atividades e 89 horas iniciais para 14 atividades e 62 horas finais. Embora o número de atividades tenha dobrado, as horas foram reduzidas, o que pode indicar um melhor detalhamento e otimização do escopo. Em contrapartida, o “Desfibrador de Cana” teve uma redução de atividades (de 67 para 34), mas um aumento substancial de horas (de 374 para 964), sugerindo que as atividades inicialmente planejadas eram subestimadas ou que o detalhamento revelou complexidades adicionais. Essa variação demonstra a importância da EAP e da estimativa *bottom-up* para revelar a verdadeira extensão do trabalho.
Tabela 4. Comparação entre atividades e horas do projeto inicial e projeto estruturado (conclusão)
|
Equipamento |
N° de Atividades Escopo Inicial |
N° de Atividades Escopo Final |
Horas Escopo Inicial |
Horas Escopo Final |
|
Esteira De Cana Desfibrada |
35 |
25 |
413 |
240 |
|
Esteira Intermediária Entre Ternos N°01 |
45 |
47 |
1997 |
793 |
|
Esteira Intermediária Entre Ternos N°02 |
24 |
46 |
221 |
793 |
|
Esteira Intermediária Entre Ternos N°03 |
17 |
46 |
116 |
793 |
|
Esteira Intermediária Entre Ternos N°04 |
19 |
46 |
127 |
793 |
|
Esteira Metálica De Cana |
60 |
53 |
3703 |
3431 |
|
Hilo Tombador Cana Inteira |
25 |
14 |
226 |
173 |
|
Hilo Tombador Cana Picada |
11 |
14 |
77 |
173 |
|
Mesa Alimentadora Cana Inteira |
43 |
39 |
4595 |
5662 |
|
Mesa Alimentadora Cana Picada |
33 |
36 |
1746 |
1872 |
|
Nivelador De Cana |
17 |
12 |
127 |
92 |
|
Peneira Rotativa De Caldo Misto |
16 |
16 |
170 |
432 |
|
Picador De Cana |
47 |
43 |
303 |
405 |
|
Ponte Rolante Dupla Viga 50/5T |
1 |
6 |
16 |
62 |
|
Rosca Sem Fim De Caldo Misto |
16 |
18 |
89 |
133 |
|
Sistema Hidráulico Cilindro De Moenda |
4 |
34 |
3 |
295 |
|
Sistema Hidráulico Pressão TM02 |
5 |
10 |
42 |
54 |
|
Sistema Hidráulico Pressão TM03 |
5 |
11 |
42 |
54 |
|
Sistema Hidráulico Pressão TM04 |
5 |
10 |
42 |
54 |
|
Sistema Hidráulico Pressão TM05 |
6 |
11 |
42 |
54 |
|
Sistema Hidráulico Rolo Superior TM01 |
5 |
12 |
42 |
56 |
|
Terno De Moenda N°01 |
103 |
85 |
2151 |
1000 |
|
Terno De Moenda N°02 |
135 |
130 |
1322 |
1220 |
|
Terno De Moenda N°03 |
169 |
146 |
1838 |
1305 |
|
Terno De Moenda N°04 |
154 |
147 |
1499 |
1308 |
|
Terno De Moenda N°05 |
155 |
142 |
1562 |
1287 |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise das Tabelas 3 e 4 revela que a reestruturação do cronograma, impulsionada pela aplicação da EAP e da estimativa *bottom-up*, resultou em um acréscimo total de 976 horas, equivalente a 4% do total do projeto. Esse aumento, embora possa parecer um incremento no esforço, representa, na verdade, uma maior precisão e realismo no dimensionamento do trabalho. A padronização de atividades por família de equipamentos, como observado nas “Esteiras Intermediárias Entre Ternos”, que agora apresentam, em média, 46 atividades e 793 horas para execução completa do escopo, demonstra uma maior linearidade e consistência entre atividades e durações. Essa padronização, que não era previamente identificada no cronograma original, é crucial para a replicabilidade e a melhoria contínua dos processos de manutenção. A separação do escopo entre atividades de entressafra e aquelas passíveis de antecipação, como a fabricação de peças e o envio de equipamentos para manutenção externa, contribuiu para uma maior precisão nas estimativas de duração e para a redução da subjetividade no planejamento. Essa abordagem não apenas aumenta a confiabilidade do cronograma, mas também estabelece uma base mais robusta para o controle e acompanhamento das atividades, permitindo uma gestão mais proativa e menos reativa.
Equipamentos externos – estimativa de duração por três pontos
No cenário inicial, as datas de retorno de equipamentos submetidos à manutenção externa eram definidas de forma genérica e padronizada, usualmente atribuindo uma duração fixa de aproximadamente 210 horas por atividade, equivalente a 30 dias de manutenção externa, sem a definição de datas específicas de envio e retorno. Essa prática não considerava as particularidades de cada equipamento, nem os prazos reais acordados com fornecedores, resultando em uma representação pouco precisa das dependências externas no cronograma. A utilização de durações padronizadas gera um desalinhamento significativo entre o cronograma planejado e a execução real dos serviços. Como consequência, havia baixa previsibilidade das atividades dependentes, dificuldade no acompanhamento dos prazos e limitação no controle do desempenho dos fornecedores, especialmente em casos de atraso. Essa abordagem simplista ignora a complexidade das cadeias de suprimentos e os riscos inerentes à dependência de terceiros, o que pode levar a atrasos em cascata e impactos negativos na disponibilidade operacional.
No cronograma reestruturado, as datas de retorno passaram a ser definidas pela estimativa de três pontos, considerando o cenário otimista (menor prazo de entrega), cenário pessimista (maior prazo de entrega) e o mais provável (com base na média das entregas dos prestadores de serviço). O dado em horas foi inserido no cronograma final, substituindo o julgamento empírico por uma base mais robusta e probabilística (PMI, 2017). A estimativa de três pontos, que utiliza a média ponderada de três cenários (otimista, pessimista e mais provável), oferece uma visão mais realista da duração das atividades, incorporando a incerteza inerente aos processos externos. Essa técnica permite que a equipe de planejamento avalie os riscos associados a cada fornecedor e estabeleça prazos mais realistas, com margens de segurança adequadas. A implicação prática é uma maior previsibilidade do cronograma, um melhor controle sobre o desempenho dos fornecedores e a capacidade de tomar decisões mais informadas em caso de desvios. Além disso, a comunicação com os fornecedores pode ser aprimorada, pois a organização terá uma base mais sólida para negociar prazos e monitorar o progresso.
Sequenciamento das atividades (Rede de precedência)
No cenário inicial, o sequenciamento das atividades não estava completamente definido, sendo comum a existência de atividades com predecessoras estabelecidas, porém sem sucessoras claramente identificadas. Essa inconsistência indicava uma rede de precedência incompleta, na qual as relações lógicas entre as atividades não representavam adequadamente o fluxo operacional real. A ausência de um sequenciamento estruturado comprometia a coerência do cronograma, resultando em datas desalinhadas com a execução prática das atividades. Isso afetava diretamente o nivelamento do projeto, dificultava a identificação de caminhos críticos e reduzia a confiabilidade do planejamento, especialmente no que se refere à sincronização entre equipes e recursos. Um cronograma com dependências incompletas é como um mapa com rotas faltando, onde a equipe pode se perder e não conseguir seguir a sequência lógica do trabalho, gerando retrabalho e atrasos. A Figura 3 ilustra o relatório de verificação da programação do escopo inicial, onde se observa um percentual elevado de atividades sem predecessoras ou sucessoras, indicando a fragilidade da rede lógica.
Figura 3. Relatório de Verificação da Programação do Escopo Inicial
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Com a reestruturação do cronograma, foi realizado o sequenciamento completo das atividades, estruturando uma rede lógica consistente. Como consequência, o percentual de atividades sem predecessoras ou sucessoras foi drasticamente reduzido de 18,85% para 2,32% do total do projeto, conforme evidenciado na Figura 4. Essa melhoria substancial na rede de precedência garante que todas as atividades estejam logicamente conectadas, refletindo o fluxo real do trabalho e permitindo uma gestão mais eficaz dos prazos.
Figura 4. Relatório de Verificação da Programação do Escopo Final
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Adicionalmente, observou-se a existência de 5,15% das atividades (71 atividades) sem recursos atribuídos, referentes exclusivamente a manutenções externas. Nesses casos, optou-se por não vincular recursos e por inserir folgas técnicas no cronograma, com o objetivo de aumentar a confiabilidade das datas e evitar distorções no planejamento. Essa decisão estratégica reconhece a natureza específica dessas atividades, que dependem de fatores externos e podem ter prazos mais flexíveis. A inclusão de folgas técnicas proporciona uma margem de segurança, permitindo que a equipe de planejamento gerencie os riscos associados a essas dependências externas sem comprometer o cronograma geral do projeto. A melhoria no sequenciamento e a gestão estratégica das folgas contribuem para um cronograma mais robusto e realista, alinhado às boas práticas de gerenciamento de projetos.
Caminho crítico
Posteriormente, foi aplicado o método do caminho crítico (CPM), permitindo a identificação das atividades determinantes para a duração total do projeto. Essa análise possibilitou maior visibilidade sobre os pontos críticos do cronograma, auxiliando na priorização e no acompanhamento das atividades com maior impacto no prazo final. O CPM é uma ferramenta essencial no gerenciamento de projetos, pois identifica a sequência de atividades que, se atrasadas, atrasarão todo o projeto (PMI, 2017). No cenário inicial, a ausência de um sequenciamento lógico consistente impedia a aplicação eficaz do CPM, resultando em uma falta de clareza sobre quais atividades eram verdadeiramente críticas. Com a reestruturação do cronograma e a definição de uma rede de precedência robusta, o CPM pôde ser aplicado com precisão, permitindo que a equipe de manutenção concentrasse seus esforços e recursos nas atividades que realmente impactam o prazo final. A implicação prática é a capacidade de gerenciar proativamente os riscos de atraso, otimizar a alocação de recursos e tomar decisões mais informadas para manter o projeto no prazo.
Representação do cronograma (Gráfico de Gantt)
No cenário inicial, o cronograma não possuía uma representação gráfica estruturada, o que dificultava a visualização integrada das atividades, suas durações e interdependências. A ausência de um formato visual consolidado limitava a compreensão do planejamento por parte das áreas envolvidas. Essa limitação comprometia a comunicação entre as equipes, dificultava a análise do sequenciamento das atividades e reduzia a capacidade de identificação de possíveis conflitos ou sobreposições no cronograma. Como consequência, havia menor alinhamento operacional e maior risco de inconsistências na execução. Um cronograma apresentado apenas como uma lista de tarefas, sem uma representação visual clara, é difícil de interpretar e comunicar, especialmente para equipes multidisciplinares que precisam entender rapidamente o fluxo do trabalho e suas interdependências.
Com a reestruturação do cronograma, foi implementada a representação gráfica por meio do gráfico de Gantt, permitindo a visualização clara da sequência das atividades, suas durações e relações de dependência, conforme ilustrado na Figura 5. Essa abordagem facilitou a comunicação entre as áreas envolvidas, proporcionou melhor entendimento do planejamento e contribuiu para o alinhamento das equipes, aumentando a transparência e a efetividade na gestão do cronograma. O gráfico de Gantt é uma ferramenta visual poderosa que permite aos gestores e às equipes visualizar o cronograma de forma intuitiva, identificar rapidamente as atividades críticas, monitorar o progresso e detectar desvios. A implicação prática é uma melhor coordenação entre as equipes, uma tomada de decisão mais rápida e informada, e uma maior capacidade de gerenciar as expectativas das partes interessadas. A transparência proporcionada pelo gráfico de Gantt também promove um senso de responsabilidade e engajamento entre os membros da equipe, pois todos podem ver como seu trabalho se encaixa no panorama geral do projeto.
Figura 5. Modelo de Gráfico de Gantt aplicado à Mesa Alimentadora de Cana Inteira
Fonte: Resultados originais da pesquisa
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido, aprimorando o gerenciamento do cronograma de manutenção de entressafra no setor de extração de caldo de uma indústria sucroalcooleira. Isso foi alcançado por meio da aplicação das práticas do *PMBOK Guide* 6ª edição, com foco na estruturação do escopo via Estrutura Analítica do Projeto (EAP), no sequenciamento lógico das atividades, na melhoria das estimativas de duração e na identificação do caminho crítico. Os resultados demonstraram um modelo de planejamento mais estruturado e consistente, que aumentou significativamente a clareza nas dependências, a confiabilidade do cronograma e a previsibilidade da execução das atividades de manutenção. Essa abordagem contribuiu diretamente para o aprimoramento do processo decisório e para o suporte à disponibilidade operacional na safra subsequente, reforçando a importância de metodologias estruturadas para a gestão de projetos complexos.
Contudo, é importante reconhecer que este estudo possui limitações, principalmente a sua aplicação em um único contexto operacional. Essa característica restringe a generalização irrestrita dos resultados para outras indústrias ou setores. Para trabalhos futuros, recomenda-se a ampliação da aplicação deste modelo de gerenciamento de cronograma para diferentes contextos industriais, permitindo validar sua adaptabilidade e eficácia em cenários variados. Sugere-se também a integração deste modelo com outras áreas do gerenciamento de projetos, como a gestão de custos, riscos e recursos, visando o desenvolvimento de uma abordagem ainda mais holística e o aumento da maturidade organizacional na gestão de paradas de manutenção.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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