26 de outubro de 2026
Crédito rural no Brasil: acesso e impactos na produção agrícola familiar e empresarial
Priscila de Araujo Mendonça; Nayara Barbosa Cruz
DOI: 10.22167/2675-6528-202601316
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O crédito rural configurou-se como um dos principais instrumentos de política pública para o desenvolvimento da atividade agropecuária no Brasil, contribuindo para o financiamento, modernização e sustentabilidade das propriedades rurais, ao ampliar o acesso a recursos financeiros e fortalecer a competitividade do setor. O estudo objetivou analisar as modalidades de crédito rural disponíveis no país, avaliando o acesso, a aplicação dos recursos e os impactos na produção agrícola de agricultores familiares e produtores empresariais. A pesquisa foi conduzida com abordagem descritiva e exploratória, empregando métodos quantitativos e qualitativos, fundamentados em pesquisa bibliográfica, documental e de campo. Dados primários foram coletados por meio de questionários estruturados aplicados a produtores rurais e entrevistas semiestruturadas com profissionais de instituições financeiras, enquanto dados secundários foram obtidos de relatórios e publicações oficiais. Essa abordagem possibilitou uma compreensão abrangente do fenômeno investigado. Os resultados indicaram que o crédito rural contribuiu para a continuidade da produção, o planejamento e a produtividade, mas evidenciaram desigualdades no acesso entre agricultores familiares e produtores empresariais. As principais barreiras identificadas foram a burocracia documental, as exigências de garantias e a regularização fundiária. Observou-se que agricultores familiares priorizaram o custeio da produção, enquanto produtores empresariais direcionaram recursos para investimentos estruturais. Concluiu-se que, embora essencial para o desenvolvimento do setor, o crédito rural requer aprimoramentos institucionais para ampliar sua efetividade e promover maior equidade no meio rural.
Palavras-chave: Desigualdades; Desenvolvimento rural; Financiamento agropecuário; Política agrícola; Sustentabilidade econômica.
1. Introdução
O setor agropecuário brasileiro desempenha um papel estratégico na economia nacional, sendo um pilar fundamental para a segurança alimentar, o equilíbrio da balança comercial e a geração de empregos. Sua relevância é evidenciada pela significativa contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB) do país, que tem se mantido em patamares elevados, superando 20% do total (IBGE, 2023). Para sustentar esse crescimento e promover a modernização do campo, políticas públicas robustas são indispensáveis. Nesse cenário, o crédito rural emerge como um dos instrumentos mais eficazes, concebido para fornecer o suporte financeiro necessário às diversas etapas da produção. Sua função transcende o mero financiamento, atuando como catalisador para a adoção de novas tecnologias, a expansão da capacidade produtiva e a melhoria da gestão das propriedades rurais, impactando diretamente a sustentabilidade econômica do setor (BACEN, 2023; MAPA, 2023).
A teoria econômica do desenvolvimento rural postula que o acesso a capital é um fator crítico para a superação de restrições produtivas e a promoção da inovação no setor primário. O crédito rural, nesse sentido, atua como um mecanismo de correção de falhas de mercado, onde o setor privado, por si só, pode não suprir adequadamente as demandas financeiras do campo devido a riscos inerentes e assimetrias de informação (Lima, Costa, 2019). No Brasil, a política de crédito rural possui uma trajetória consolidada, com marcos importantes que visaram estruturar o financiamento agropecuário desde meados do século XX. O Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) foi estabelecido para garantir recursos para custeio, investimento, comercialização e industrialização, buscando impulsionar a produtividade e a competitividade (Vieira Filho, Buainain, Garcia, 2019). A diversidade de linhas de crédito reflete a complexidade do setor, abrangendo desde o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) até programas voltados a grandes produtores empresariais (Souza, 2017). A distinção entre crédito de custeio, essencial para o ciclo produtivo anual, e crédito de investimento, focado na capitalização e modernização de longo prazo, é crucial para compreender os diferentes impactos sobre a estrutura produtiva e a capacidade de inovação dos beneficiários (Costa, Oliveira, Sousa, 2022).
Apesar da importância do crédito rural, sua efetividade e distribuição equitativa permanecem como desafios significativos. Estudos empíricos e relatórios setoriais consistentemente apontam para a persistência de desigualdades no acesso e na aplicação dos recursos entre os diferentes perfis de produtores, notadamente entre agricultores familiares e produtores empresariais (Oliveira, Sousa, 2023; Pereira, Santos, 2020). Dados do Banco Central do Brasil (BACEN, 2023) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA, 2023) indicam que, embora o volume total de crédito rural tenha crescido, a concentração de recursos em grandes produtores e regiões mais desenvolvidas ainda é uma realidade. As principais barreiras identificadas para o acesso incluem a complexidade burocrática, as exigências de garantias reais e as dificuldades relacionadas à regularização fundiária (Santos, Silva, Batalha, 2021). Tais entraves limitam a capacidade de investimento e modernização da agricultura familiar, que, apesar de sua relevância social e econômica, muitas vezes fica à margem dos benefícios plenos do sistema de crédito (Ferreira, Oliveira, 2021). Produtores empresariais, por outro lado, tendem a ter maior facilidade em cumprir os requisitos, direcionando o crédito para investimentos de longo prazo que impulsionam a produtividade e a inovação (Costa, Oliveira, Sousa, 2022). A inadequação das linhas de financiamento às especificidades regionais e produtivas também contribui para restringir o alcance do crédito rural (CNA, 2023; Embrapa, 2022).
A persistência de desigualdades no acesso e na aplicação do crédito rural entre agricultores familiares e produtores empresariais, apesar de sua centralidade para o desenvolvimento agropecuário brasileiro, revela uma lacuna de conhecimento sobre as modalidades de crédito, os fatores que influenciam o acesso e a destinação dos recursos, e os impactos específicos na produção agrícola. Compreender essas dinâmicas é fundamental para subsidiar políticas mais equitativas e eficazes, que promovam o desenvolvimento rural sustentável e a inclusão produtiva, justificando a relevância deste estudo. O objetivo geral desta pesquisa é analisar as modalidades de crédito rural disponíveis no país, avaliando o acesso, a aplicação dos recursos e os impactos na produção agrícola de agricultores familiares e produtores empresariais.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como descritiva e exploratória, empregando uma abordagem quali-quantitativa. Essa escolha metodológica foi considerada adequada para analisar os diversos tipos de crédito rural disponíveis no Brasil, bem como os critérios de acesso, a aplicação dos recursos e os impactos percebidos na produção agrícola de agricultores familiares e produtores empresariais. A integração de dados quantitativos e qualitativos permitiu uma compreensão abrangente do fenômeno investigado, combinando questionários estruturados com entrevistas semiestruturadas para capturar tanto aspectos mensuráveis quanto percepções detalhadas (Santos, Silva, Batalha, 2021).
O estudo adotou um recorte empírico de natureza regional, contemplando produtores rurais localizados nos municípios de Craíbas (AL), Viradouro (SP), Carmo do Paranaíba (MG), Salvaterra (PA) e Cachoeira do Arari (PA). Essas localidades foram especificamente selecionadas por representarem distintos contextos produtivos, socioeconômicos e institucionais em todo o Brasil. Essa diversidade regional possibilitou examinar como o crédito rural, enquanto política pública de abrangência nacional, se materializa de forma heterogênea no território brasileiro, refletindo variadas realidades e desafios locais.
A amostra da pesquisa foi composta por 25 participantes, selecionados por conveniência, considerando a acessibilidade e a relevância para os objetivos do estudo. Desse total, 15 eram agricultores familiares, 7 produtores empresariais e 3 profissionais de instituições financeiras diretamente envolvidos na concessão de crédito rural. Essa composição possibilitou uma análise comparativa entre diferentes perfis, todos diretamente relacionados ao acesso, à utilização e à operacionalização do crédito rural no setor agrícola.
A definição desses grupos de participantes visou assegurar maior consistência nas informações coletadas, uma vez que todos possuíam conhecimento prático sobre o acesso ao crédito rural, a aplicação dos recursos e os impactos na gestão e produção das propriedades. Adicionalmente, para aprofundar a compreensão das dinâmicas observadas, os participantes foram analisados sob a perspectiva de perfis comportamentais associados à gestão da atividade rural, fornecendo uma abordagem interpretativa complementar aos padrões de tomada de decisão.
Nesse sentido, foram observados perfis predominantes entre os respondentes, tais como: analítico e planejador, associado a maior organização administrativa e visão estratégica; operacional, caracterizado pelo foco na execução das atividades produtivas; intuitivo, relacionado a decisões baseadas na experiência prática; e relacional, evidenciado pela maior interação com redes de apoio. Esses perfis, embora não se apresentem de forma isolada, serviram como categorias analíticas para auxiliar na interpretação dos resultados da pesquisa.
Observou-se que produtores empresariais tenderam a apresentar maior predominância de perfis analíticos e planejadores, enquanto agricultores familiares demonstraram maior incidência de perfis operacionais e intuitivos. Essa distinção influenciou diretamente a forma de acesso e utilização do crédito rural. A caracterização dos participantes, aliada à análise dos perfis comportamentais, contribuiu para uma compreensão mais aprofundada dos resultados, evidenciando que a efetividade do crédito rural está associada não apenas a fatores estruturais, mas também a características individuais e estratégias de gestão adotadas pelos produtores.
A pesquisa foi conduzida a partir da integração de fontes primárias e secundárias. As fontes secundárias compreenderam documentos oficiais, legislações e relatórios do Banco Central do Brasil (BACEN) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Além disso, foram consultados dados estatísticos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e publicações da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), complementados por artigos científicos e estudos especializados sobre crédito rural.
As fontes primárias foram obtidas por meio da aplicação de questionários estruturados a produtores rurais e da realização de entrevistas semiestruturadas com profissionais de instituições financeiras. Os profissionais incluíram gerentes e analistas especializados diretamente envolvidos na concessão de crédito rural. Essa abordagem dupla permitiu uma coleta de dados abrangente, capturando tanto as perspectivas dos beneficiários do crédito quanto as dos responsáveis por sua operacionalização, enriquecendo a base empírica do estudo.
Os questionários estruturados foram aplicados de forma online, utilizando a plataforma Google Forms, no período de janeiro a fevereiro de 2026. O instrumento foi organizado em blocos temáticos que contemplaram: o perfil socioeconômico e produtivo dos respondentes; o acesso ao crédito rural; as principais dificuldades enfrentadas; a destinação dos recursos; e os impactos percebidos sobre a produtividade, o planejamento e a sustentabilidade econômica das operações dos produtores.
Foram realizadas três entrevistas semiestruturadas com profissionais que atuam diretamente na análise, concessão e operacionalização do crédito rural. O objetivo dessas entrevistas foi aprofundar a compreensão dos critérios institucionais, das exigências de garantias, dos entraves operacionais e da adequação das linhas de financiamento às diferentes realidades produtivas. As entrevistas foram registradas de forma sistemática para posterior análise qualitativa, garantindo a captura de insights detalhados sobre o sistema de crédito.
Os dados quantitativos provenientes dos questionários foram organizados, tabulados e analisados por meio de estatística descritiva. O apoio da plataforma Google Forms permitiu a identificação de frequências absolutas e relativas, bem como a visualização de padrões e tendências nas respostas. Essa abordagem proporcionou uma visão sistemática dos dados numéricos, oferecendo uma compreensão fundamental dos aspectos quantitativos relacionados ao acesso e à aplicação do crédito rural entre os produtores pesquisados.
Os dados qualitativos oriundos das entrevistas foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo de natureza temática. Essa técnica possibilitou a identificação de categorias analíticas, padrões recorrentes e interpretações relacionadas aos desafios e às oportunidades do crédito rural. A análise qualitativa aprofundada complementou os achados quantitativos, fornecendo informações contextuais ricas e perspectivas nuançadas tanto de produtores quanto de profissionais financeiros, aprimorando a compreensão geral do fenômeno.
Como estratégia central de análise, adotou-se a abordagem comparativa entre agricultores familiares e produtores empresariais. O objetivo principal foi identificar diferenças no acesso ao crédito, na aplicação dos recursos e nos impactos percebidos sobre a produção e a gestão das propriedades entre esses dois grupos. Essa comparação orientou a interpretação dos resultados ao longo do estudo, permitindo evidenciar assimetrias estruturais e operacionais existentes entre os diferentes perfis de produtores.
O estudo reconhece diversas limitações metodológicas inerentes ao seu delineamento. Uma limitação crucial é o uso de uma amostra não probabilística, selecionada por conveniência, o que implica que os achados não são estatisticamente generalizáveis para o conjunto do território nacional. Além disso, as informações coletadas refletem predominantemente a percepção dos participantes, que pode ser influenciada por fatores subjetivos, experiências individuais e contextos regionais específicos, introduzindo um potencial viés.
Apesar dessas limitações, os resultados devem ser interpretados como indicativos de tendências e padrões observados nos contextos analisados. Embora não permitam a generalização estatística, os achados oferecem subsídios relevantes para a compreensão do crédito rural como instrumento de política pública em diferentes realidades produtivas. O estudo, portanto, contribui para o entendimento dos desafios e potencialidades do crédito rural no Brasil, fornecendo perspectivas qualitativas e quantitativas valiosas do campo.
3. Resultados e Discussão
Esta seção apresenta e discute os resultados da pesquisa de campo realizada junto a produtores rurais familiares e empresariais localizados nos municípios de Craíbas (AL), Viradouro (SP), Carmo do Paranaíba (MG), Salvaterra (PA) e Cachoeira do Arari (PA), bem como a profissionais de instituições financeiras atuantes nesses contextos. A análise foi conduzida de forma descritiva e comparativa, com ênfase na interpretação dos padrões observados nas respostas, em consonância com o caráter exploratório do estudo. Os achados são discutidos à luz da literatura, buscando não apenas identificar convergências, mas também compreender as implicações dos resultados para a efetividade das políticas de crédito rural em diferentes contextos regionais.
Perfil dos Respondentes
Os produtores entrevistados apresentaram um perfil notavelmente diversificado, englobando agricultores familiares e produtores empresariais com distintas escalas de produção e tempos de atuação no setor agropecuário. A predominância de respondentes com experiência média e longa na atividade rural, conforme observado na pesquisa, é um fator crucial que confere robustez às avaliações fornecidas sobre o acesso ao crédito e seus impactos na produção e gestão das propriedades. Essa experiência acumulada permite uma perspectiva mais aprofundada e contextualizada dos desafios e oportunidades inerentes ao sistema de crédito rural brasileiro.
Uma distinção fundamental emergiu na análise dos perfis: produtores empresariais, de modo geral, demonstraram possuir uma estrutura produtiva mais consolidada e uma organização administrativa mais formalizada. Essa característica se alinha com a literatura que descreve o agronegócio empresarial como um setor que busca otimização de processos, escala e eficiência, frequentemente por meio de investimentos em tecnologia e gestão (Cavalcanti, 2020). Em contraste, os agricultores familiares evidenciaram uma maior dependência de políticas públicas e apoio institucional, um achado que corrobora as observações de Buainain, Garcia e Vieira Filho (2019), que destacam a importância do suporte governamental para a sustentabilidade e desenvolvimento da agricultura familiar no Brasil. Essa dependência não se restringe apenas ao crédito, mas se estende a programas de assistência técnica, extensão rural e regularização fundiária, elementos que são frequentemente interligados ao acesso e à efetividade do financiamento.
A distinção estrutural entre esses dois grupos de produtores não é meramente descritiva; ela influencia diretamente a forma como o crédito rural é acessado, utilizado e os efeitos que ele produz. Produtores empresariais, com sua maior capacidade de planejamento e gestão, tendem a buscar linhas de crédito mais complexas e de maior valor, direcionadas a investimentos de longo prazo e modernização. Por outro lado, agricultores familiares, muitas vezes com menor capital social e financeiro, buscam crédito para custeio e para a manutenção de suas atividades, com menor capacidade de absorver riscos ou de realizar grandes investimentos. Essa assimetria na utilização do crédito rural reflete e, ao mesmo tempo, perpetua as desigualdades existentes no campo, conforme apontado por Oliveira e Sousa (2023).
A análise dos perfis comportamentais, embora não apresentada em uma tabela específica neste bloco, é um elemento interpretativo complementar que enriquece a compreensão dos resultados. Produtores empresariais, com maior predominância de perfis analíticos e planejadores, demonstram uma abordagem mais estratégica na busca e aplicação do crédito, avaliando riscos e retornos de forma mais sistemática. Já os agricultores familiares, com maior incidência de perfis operacionais e intuitivos, tendem a tomar decisões baseadas na experiência prática e na necessidade imediata de manter a produção, o que pode limitar sua capacidade de planejar investimentos de longo prazo ou de navegar por processos burocráticos complexos. Essa diferença comportamental, aliada às características estruturais, é um fator determinante na efetividade do crédito rural.
Tabela 1. Síntese do perfil dos respondentes
|
Aspecto analisado |
Características predominantes |
|
Tipo de produtor |
Familiar e empresarial |
|
Tempo de atuação |
Médio e longo prazo |
|
Estrutura produtiva |
Mais consolidada no perfil empresarial |
|
Dependência de políticas públicas |
Maior entre agricultores familiares |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Tabela 1 sintetiza as características predominantes dos respondentes, reforçando as diferenças observadas entre os tipos de produtores. A predominância de perfis familiar e empresarial, com tempo de atuação médio e longo, indica que a amostra é composta por indivíduos com conhecimento prático e vivência no setor. A estrutura produtiva mais consolidada no perfil empresarial e a maior dependência de políticas públicas entre agricultores familiares são achados que se alinham com a literatura sobre as disparidades no agronegócio brasileiro (Pereira & Santos, 2020). Esses resultados deste bloco atendem ao objetivo de caracterizar os perfis dos beneficiários do crédito rural, evidenciando diferenças estruturais relevantes entre agricultura familiar e empresarial. Nesse sentido, observa-se que tais diferenças não se limitam às características produtivas, mas influenciam diretamente a capacidade de acesso, utilização e aproveitamento do crédito rural, indicando que os efeitos dessa política pública tendem a se manifestar de forma desigual entre os perfis analisados. A compreensão dessas nuances é vital para o desenvolvimento de políticas de crédito mais equitativas e eficazes, que considerem as realidades distintas de cada grupo de produtores.
Acesso ao Crédito Rural e Principais Barreiras
Os resultados da pesquisa revelam que o acesso ao crédito rural é percebido de maneira significativamente distinta entre os grupos de produtores. Enquanto os produtores empresariais tendem a considerar o acesso como mais facilitado, os agricultores familiares enfrentam restrições mais acentuadas, o que evidencia uma assimetria persistente no sistema de financiamento agrícola. Essa disparidade não é um fenômeno isolado, mas sim o reflexo de barreiras estruturais e operacionais que afetam desproporcionalmente os pequenos produtores.
Entre as barreiras mais recorrentes, a burocracia documental foi mencionada por aproximadamente 80% dos respondentes. Este achado sugere que a complexidade dos trâmites para obtenção de crédito, que envolvem a apresentação de uma vasta gama de documentos, certidões e planos de negócios detalhados, representa um obstáculo significativo. Para agricultores familiares, que frequentemente possuem menor escolaridade, acesso limitado a serviços de contabilidade e assessoria jurídica, e menor familiaridade com processos administrativos complexos, a burocracia se torna um impedimento quase intransponível. A exigência de documentação extensa e a morosidade na análise dos processos podem desestimular a busca por crédito, mesmo quando há necessidade premente de recursos para a produção. Este cenário corrobora os achados de Santos, Silva e Batalha (2021), que identificam a burocracia como um dos principais entraves para o acesso ao crédito rural por parte dos pequenos produtores, limitando a inclusão produtiva.
A exigência de garantias reais foi apontada por cerca de 70% dos respondentes como uma barreira. As instituições financeiras, visando mitigar riscos, frequentemente demandam garantias como terras, imóveis ou maquinários. No entanto, muitos agricultores familiares não possuem bens de valor suficiente para oferecer como garantia, ou seus bens estão em situação de irregularidade fundiária, o que inviabiliza sua utilização. Essa realidade cria um ciclo vicioso: a falta de garantias impede o acesso ao crédito, que, por sua vez, limita a capacidade de investimento e capitalização do produtor, dificultando a aquisição de bens que poderiam servir como garantia no futuro. Para produtores empresariais, embora as garantias também sejam uma exigência, a maior escala de suas operações e a posse de ativos mais valiosos tendem a facilitar o cumprimento desse requisito, reforçando a desigualdade de acesso.
A regularização fundiária foi citada por aproximadamente 60% dos participantes como um entrave significativo. A posse irregular ou a ausência de documentação adequada da terra é um problema crônico em muitas regiões do Brasil, especialmente na agricultura familiar. Sem a regularização fundiária, os produtores ficam impedidos de oferecer suas terras como garantia, o que restringe drasticamente suas opções de crédito. Além disso, a falta de regularização pode impedir o acesso a outros programas governamentais e a investimentos de longo prazo, comprometendo a sustentabilidade da propriedade. A complexidade e o alto custo dos processos de regularização fundiária, somados à morosidade dos órgãos públicos, tornam essa barreira ainda mais desafiadora para os agricultores familiares.
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Figura 1. Barreiras ao acesso ao crédito rural
A Figura 1 ilustra graficamente a recorrência dessas barreiras, com a burocracia documental, a exigência de garantias e a regularização fundiária destacando-se como os principais obstáculos. A “Falta de assistência técnica”, embora menos citada, também aparece como um fator relevante, pois a orientação técnica é fundamental para a elaboração de projetos de financiamento e para a gestão eficiente dos recursos. A ausência de assistência técnica qualificada pode levar à inadequação dos projetos apresentados, aumentando a probabilidade de recusa do crédito e limitando a capacidade do produtor de utilizar os recursos de forma otimizada.
Adicionalmente, os entrevistados, incluindo os profissionais de instituições financeiras, relataram que, apesar da existência de linhas de crédito estruturadas, nem sempre há uma adequação dessas modalidades às especificidades produtivas e regionais. Este ponto é crucial e foi também destacado pela CNA (2023) e pela Embrapa (2022), que apontam a necessidade de maior flexibilidade e customização das linhas de financiamento para atender às diversas realidades do campo brasileiro. Uma linha de crédito desenhada para grandes produtores de grãos no Centro-Oeste pode ser completamente inadequada para um agricultor familiar na Amazônia ou no Semiárido, que possui necessidades de custeio e investimento distintas, muitas vezes relacionadas a culturas específicas, sistemas agroflorestais ou pecuária de subsistência. A falta de alinhamento entre a oferta de crédito e as demandas reais dos produtores compromete a efetividade da política pública e limita seu impacto no desenvolvimento regional.
A percepção dos produtores quanto ao acesso ao crédito rural variou entre “regular” e “difícil” para os agricultores familiares, refletindo as barreiras estruturais já mencionadas. Essa percepção negativa pode gerar desmotivação e levar à desistência de buscar o financiamento, mesmo quando ele seria benéfico. Em contrapartida, entre os produtores empresariais, a percepção tendeu a ser mais favorável, com maior incidência de respostas classificadas como “fácil”. Essa assimetria na percepção reforça a existência de um sistema de crédito que, na prática, favorece os produtores com maior capitalização e estrutura, perpetuando as desigualdades no acesso ao financiamento. Esses resultados indicam que as barreiras institucionais não apenas dificultam o acesso ao crédito rural, mas também contribuem para a reprodução de desigualdades estruturais entre agricultores familiares e produtores empresariais. A elevada incidência de entraves como burocracia e exigência de garantias evidencia limitações operacionais do sistema de crédito, que, na prática, restringem o alcance dessa política pública como instrumento de inclusão produtiva e desenvolvimento equitativo.
Aplicação dos Recursos do Crédito Rural
No que tange à aplicação dos recursos provenientes do crédito rural, a pesquisa revelou um padrão distinto entre os perfis de produtores, com implicações significativas para a modernização e sustentabilidade das atividades agrícolas. Observou-se uma predominância do uso do crédito para custeio da produção, especialmente entre os agricultores familiares, com uma recorrência aproximada de 75%. Este dado sugere que, para a agricultura familiar, o crédito rural é fundamentalmente um instrumento de sobrevivência e manutenção do ciclo produtivo. Os recursos são empregados para cobrir despesas operacionais essenciais, como a compra de sementes, fertilizantes, defensivos, mão de obra e combustível, garantindo a continuidade das atividades no curto prazo. Sem esse suporte para custeio, muitos agricultores familiares enfrentariam dificuldades intransponíveis para iniciar ou manter suas safras, colocando em risco sua subsistência e a segurança alimentar local.
Em contrapartida, os produtores empresariais demonstraram uma maior capacidade e tendência de direcionar os recursos para investimentos estruturais. Cerca de 55% das respostas desse grupo indicaram a destinação do crédito para aquisição de máquinas e equipamentos modernos, melhorias de infraestrutura (como sistemas de irrigação, armazenagem e benfeitorias nas propriedades) e adoção de tecnologias inovadoras. Este padrão é coerente com os resultados apresentados por Costa et al. (2022), que destacam que o crédito de investimento gera efeitos mais duradouros e favorece a modernização produtiva. A capacidade de investir em tecnologia e infraestrutura permite aos produtores empresariais aumentar a produtividade, reduzir custos operacionais a longo prazo, melhorar a qualidade dos produtos e expandir suas operações, consolidando sua posição no mercado e elevando o valor bruto da produção agropecuária.
A distinção na aplicação dos recursos reflete as diferentes estratégias e necessidades de cada grupo. Para o agricultor familiar, o foco no custeio é uma resposta direta à sua realidade de menor capitalização e maior vulnerabilidade a choques de mercado e climáticos. O crédito de custeio, embora essencial para a continuidade da produção, como ressaltam Oliveira e Sousa (2023), apresenta um impacto mais limitado no longo prazo, pois não promove a capitalização ou a modernização estrutural da propriedade de forma significativa. Ele garante a safra atual, mas não necessariamente prepara o produtor para os desafios futuros ou para um salto de produtividade.
Tabela 2. Destinação predominante dos recursos do crédito rural
|
Destinação do crédito |
Recorrência aproximada (%) |
|
Custeio da produção |
75 |
|
Investimento |
55 |
|
Insumos / capital de giro |
40 |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Tabela 2 detalha a destinação predominante dos recursos, com o custeio da produção liderando com 75% de recorrência, seguido por investimento (55%) e insumos/capital de giro (40%). É importante notar que a soma das porcentagens pode exceder 100%, pois os produtores podem destinar recursos para múltiplas finalidades. A alta recorrência de “insumos/capital de giro” (40%) entre os agricultores familiares reforça a ideia de que o crédito é frequentemente usado para necessidades operacionais imediatas, que se assemelham ao custeio, mas podem incluir uma margem para imprevistos ou para a gestão do fluxo de caixa.
No que se refere à contribuição do crédito rural para a modernização das atividades produtivas, os resultados indicam que a maioria dos produtores percebe essa influência de forma positiva, seja de maneira integral ou parcial. No entanto, essa percepção também apresenta nuances. Produtores empresariais, com maior incidência de respostas afirmativas (“sim”), associam a modernização diretamente aos investimentos em tecnologia e infraestrutura que o crédito possibilitou. Eles veem o financiamento como um catalisador para a inovação, a automação e a melhoria contínua de seus sistemas produtivos.
Por outro lado, agricultores familiares indicam, com maior frequência, uma contribuição “parcial” do crédito para a modernização. Essa percepção reflete as limitações na capacidade de investimento de longo prazo. Mesmo quando o crédito é utilizado para aquisição de equipamentos, muitas vezes são máquinas de menor porte ou tecnologias mais básicas, que, embora melhorem a eficiência, não representam um salto tecnológico comparável aos investimentos realizados por produtores empresariais. A falta de recursos para investimentos mais robustos e a priorização do custeio limitam o potencial de modernização da agricultura familiar, mantendo-a em uma trajetória de desenvolvimento mais lenta e dependente de ciclos anuais.
Este bloco de resultados permite compreender a forma como os recursos do crédito rural são utilizados pelos diferentes perfis de produtores, evidenciando diferenças estratégicas no uso do financiamento. Observa-se que, embora amplamente acessado, o crédito rural é aplicado de maneira distinta conforme a capacidade estrutural dos beneficiários, reforçando que o financiamento não atua apenas como instrumento de apoio à produção, mas também como mecanismo de diferenciação econômica no meio rural. As implicações são profundas: enquanto o crédito permite a continuidade da produção para todos, ele acelera a modernização e a capitalização para os produtores empresariais, ampliando a lacuna tecnológica e econômica entre os dois grupos. Para promover uma agricultura mais equitativa e sustentável, as políticas de crédito precisam ser repensadas para incentivar o investimento de longo prazo e a modernização na agricultura familiar, talvez através de linhas de crédito com condições mais favoráveis, assistência técnica integrada e garantias flexíveis.
Impactos do Crédito Rural na Produção e na Gestão
Os entrevistados relataram impactos positivos do crédito rural tanto na produtividade quanto no planejamento das atividades produtivas, ressaltando a importância desse instrumento para o setor agropecuário. Contudo, a natureza e a intensidade desses impactos diferem significativamente entre os perfis de produtores, revelando como o crédito rural se manifesta de forma heterogênea no campo brasileiro.
Entre os produtores empresariais, os impactos positivos são percebidos de forma mais consistente e abrangente. Eles associam o crédito diretamente à melhoria da gestão da propriedade, à otimização dos processos produtivos e a uma maior previsibilidade financeira. A capacidade de acessar volumes maiores de crédito e de direcioná-los para investimentos em tecnologia, infraestrutura e capital de giro estratégico permite que esses produtores implementem sistemas de gestão mais sofisticados, adotem práticas agrícolas de ponta e planejem suas operações com maior horizonte temporal. A previsibilidade financeira, por sua vez, reduz a incerteza e permite decisões mais assertivas sobre plantio, colheita, comercialização e expansão, contribuindo para a estabilidade e o crescimento do negócio. Essa visão estratégica do crédito como ferramenta de gestão e desenvolvimento é um diferencial marcante do perfil empresarial.
Para os agricultores familiares, os efeitos do crédito rural concentram-se predominantemente na viabilização do ciclo produtivo, na manutenção da atividade e na redução de riscos imediatos. O crédito de custeio, como discutido anteriormente, é vital para que esses produtores possam adquirir os insumos necessários e realizar as operações básicas para a safra. Sem ele, a própria continuidade da atividade estaria comprometida. A redução de riscos imediatos, como a falta de recursos para imprevistos ou para a compra de itens essenciais, proporciona uma segurança mínima que permite ao agricultor familiar manter sua produção e garantir a subsistência de sua família. No entanto, esses impactos, embora cruciais, são de natureza mais tática e de curto prazo, com menor ênfase na modernização estrutural ou no planejamento estratégico de longo prazo.
Esses achados corroboram as observações de Buainain, Garcia e Vieira Filho (2019), que apontam o crédito rural como um instrumento fundamental de estabilização produtiva e de indução ao planejamento. A estabilização é particularmente evidente na agricultura familiar, onde o crédito impede a interrupção das atividades. A indução ao planejamento, por outro lado, é mais pronunciada no perfil empresarial, onde o crédito é integrado a planos de negócios e estratégias de crescimento.
No entanto, os resultados da pesquisa também indicam uma limitação crucial: o crédito rural, de forma isolada, não garante a sustentabilidade econômica plena. Para que o financiamento seja verdadeiramente transformador e promova um desenvolvimento sustentável, é necessária sua integração com políticas complementares de assistência técnica e capacitação gerencial, conforme enfatizado pela Embrapa (2022). A assistência técnica qualificada pode auxiliar os produtores a elaborar projetos mais robustos, a utilizar os recursos de forma mais eficiente, a adotar tecnologias adequadas e a implementar práticas de manejo sustentável. A capacitação gerencial, por sua vez, empodera os produtores, especialmente os familiares, a desenvolverem habilidades de planejamento, controle financeiro e tomada de decisão, maximizando os benefícios do crédito e minimizando os riscos. Sem esses complementos, o crédito pode se tornar apenas um paliativo, sem gerar mudanças estruturais duradouras.
Os resultados evidenciam que, embora o crédito rural contribua para a estabilidade produtiva, seus efeitos são condicionados à capacidade de gestão e à estrutura produtiva dos beneficiários. Isso indica que o crédito, por si só, não é suficiente para promover um desenvolvimento sustentável e equitativo. É necessário um alinhamento estratégico com outras políticas públicas, como programas de assistência técnica e extensão rural, educação financeira e apoio à regularização fundiária. A ausência desses elementos pode limitar o potencial transformador do crédito, especialmente para os agricultores familiares, que são os que mais necessitam de um suporte multifacetado.
Adicionalmente, no que se refere à sustentabilidade econômica, a maioria dos respondentes percebe que o crédito rural contribui de forma positiva, ainda que, em muitos casos, de maneira parcial. Essa percepção é mais evidente entre produtores empresariais, que veem o crédito como um motor para o crescimento e a resiliência de seus negócios. Eles conseguem capitalizar seus lucros, reinvestir e construir uma base financeira mais sólida. Já os agricultores familiares apresentam maior cautela na avaliação, associando a sustentabilidade econômica à continuidade do acesso ao crédito e ao apoio de políticas complementares. Para eles, a sustentabilidade não é apenas o lucro, mas a capacidade de manter a produção ano após ano, de prover para a família e de resistir às adversidades. Essa visão mais holística e, por vezes, mais frágil da sustentabilidade econômica, reforça a necessidade de um arcabouço de políticas públicas que vá além da mera concessão de crédito, abordando as múltiplas dimensões da vida e da produção rural.
Sugestões de Melhoria no Crédito Rural
As sugestões apresentadas pelos participantes da pesquisa, tanto produtores rurais quanto profissionais de instituições financeiras, convergem para a necessidade premente de aprimoramento do sistema de crédito rural no Brasil. Essas recomendações não apenas validam as barreiras identificadas, mas também oferecem um roteiro para tornar o crédito mais eficiente, acessível e equitativo, especialmente para os agricultores familiares.
Uma das principais recomendações é a simplificação dos processos de concessão. A burocracia excessiva, que envolve a exigência de múltiplos documentos, a complexidade na elaboração de projetos e a morosidade na análise, foi consistentemente apontada como um grande entrave. Para os agricultores familiares, que muitas vezes possuem menor familiaridade com trâmites administrativos e menor acesso a serviços de assessoria, a simplificação é crucial. Isso poderia envolver a padronização de documentos, a digitalização e desburocratização de plataformas de solicitação, e a criação de guias mais claras e acessíveis para os produtores. A literatura sobre políticas públicas no setor rural, como a Embrapa (2022), frequentemente destaca a importância de processos simplificados para garantir a inclusão de grupos mais vulneráveis. A simplificação não deve comprometer a segurança das operações, mas sim otimizar a jornada do produtor, tornando-a menos onerosa em tempo e recursos.
A flexibilização das exigências de garantias é outra sugestão recorrente e de grande relevância. Como observado, a falta de garantias reais ou a irregularidade fundiária são impedimentos significativos para muitos agricultores familiares. A adoção de modelos alternativos de garantia, como o aval solidário, o penhor de produtos agrícolas, ou a valorização de bens intangíveis como o histórico de produção e o capital social do produtor, poderia ampliar o acesso ao crédito. Além disso, a implementação de fundos garantidores específicos para a agricultura familiar, que assumam parte do risco das operações, poderia incentivar as instituições financeiras a concederem crédito a produtores com menor capacidade de oferta de garantias tradicionais. Essa medida se alinha com a necessidade de reduzir as assimetrias e promover maior equidade no acesso ao financiamento, conforme defendido por Santos, Silva e Batalha (2021).
O fortalecimento da assistência técnica e da capacitação gerencial também emergiu como uma recomendação fundamental. O crédito rural, por si só, não é suficiente para garantir o desenvolvimento sustentável. Muitos produtores, especialmente os familiares, necessitam de apoio técnico para elaborar projetos de financiamento adequados, para utilizar os recursos de forma eficiente e para adotar práticas agrícolas mais produtivas e sustentáveis. A capacitação gerencial, por sua vez, pode empoderar os produtores a planejar suas finanças, gerenciar riscos e tomar decisões estratégicas, transformando o crédito de um mero paliativo em uma ferramenta de crescimento. A integração da assistência técnica com as linhas de crédito, talvez por meio de programas que condicionem o financiamento à participação em cursos ou à consultoria especializada, poderia maximizar os impactos positivos do crédito.
A adequação das linhas de crédito às especificidades regionais e produtivas é outra sugestão importante. O Brasil é um país de dimensões continentais, com uma vasta diversidade de sistemas produtivos, climas e culturas. Linhas de crédito genéricas podem não atender às necessidades específicas de cada região ou tipo de produtor. É fundamental que as instituições financeiras, em conjunto com os órgãos governamentais, desenvolvam e ofereçam produtos financeiros mais customizados, que considerem as particularidades locais, como o ciclo de culturas, as condições de mercado regionais e as necessidades de investimento em tecnologias adaptadas. Essa customização pode incluir prazos de carência e amortização flexíveis, taxas de juros diferenciadas e requisitos de elegibilidade adaptados.
Por fim, a ampliação de políticas voltadas à regularização fundiária foi reiterada como uma medida essencial. A posse da terra com documentação adequada é um pré-requisito para o acesso a muitas linhas de crédito e para a segurança jurídica do produtor. Investir em programas de regularização fundiária, agilizando os processos e reduzindo os custos para os agricultores familiares, teria um impacto direto e positivo no acesso ao crédito. Além disso, a regularização fundiária contribui para a segurança jurídica, o planejamento de longo prazo e a sustentabilidade ambiental das propriedades.
Observa-se ainda que os participantes ressaltam a importância de maior alinhamento entre as instituições financeiras e a realidade dos produtores. Isso implica que os bancos e cooperativas de crédito precisam ir além da análise puramente financeira, buscando compreender as particularidades do negócio rural, as necessidades dos produtores e os desafios que enfrentam. Um diálogo mais próximo e uma abordagem mais consultiva por parte das instituições financeiras poderiam tornar o crédito rural mais acessível, eficiente e aderente às demandas do setor. Esses resultados indicam que o aprimoramento do crédito rural não depende apenas da disponibilidade de recursos, mas também da revisão de aspectos operacionais e institucionais, sendo fundamental para ampliar a efetividade dessa política pública e promover maior equidade no acesso ao financiamento no meio rural.
Comparação entre Agricultores Familiares e Empresariais
A análise comparativa entre agricultores familiares e produtores empresariais, uma estratégia central deste estudo, evidenciou desigualdades estruturais profundas tanto no acesso quanto nos efeitos do crédito rural. Essa disparidade não é meramente incidental, mas sim um reflexo das diferentes capacidades de capitalização, organização e inserção no mercado de cada grupo, com implicações significativas para o desenvolvimento rural e a equidade no setor agropecuário.
Os agricultores familiares, conforme os achados, tendem a utilizar o crédito de forma mais defensiva. Para eles, o financiamento é, em grande parte, um instrumento de manutenção da produção, essencial para a sobrevivência e a continuidade das atividades no curto prazo. O foco principal é o custeio, garantindo que a safra possa ser plantada e colhida, e que as necessidades básicas da família sejam atendidas. Essa abordagem defensiva é compreensível, dada a maior vulnerabilidade desses produtores a riscos climáticos, de mercado e financeiros, e sua menor capacidade de absorver perdas. O crédito, nesse contexto, atua como uma rede de segurança, permitindo que o ciclo produtivo não seja interrompido, mas raramente impulsiona um crescimento exponencial ou uma modernização profunda.
Em contrapartida, os produtores empresariais exploram o financiamento como um instrumento estratégico de expansão e modernização. Com maior acesso a capital próprio, melhor organização administrativa e maior capacidade de planejamento, eles direcionam o crédito para investimentos de longo prazo em tecnologia, infraestrutura e aumento da escala de produção. O crédito é visto como uma alavanca para o crescimento do negócio, permitindo a adoção de inovações, a otimização de processos e a conquista de novos mercados. Essa utilização estratégica do crédito não apenas aumenta a produtividade e a rentabilidade, mas também fortalece a competitividade do produtor empresarial no cenário agropecuário.
Este resultado reforça consistentemente os achados de Costa et al. (2022) e Santos, Silva e Batalha (2021), que apontam para a necessidade urgente de ajustes nas políticas públicas de crédito rural. A persistência dessas assimetrias sugere que o modelo atual de concessão de crédito, embora tenha avançado em alguns aspectos, ainda não conseguiu promover uma distribuição equitativa de seus benefícios. As políticas precisam ser redesenhadas para reduzir as barreiras de acesso que afetam desproporcionalmente os pequenos produtores e para ampliar o impacto transformador do crédito na agricultura familiar. Isso pode envolver a criação de linhas de crédito específicas com condições mais favoráveis, como juros subsidiados, prazos de carência estendidos e garantias flexibilizadas, além de programas integrados de assistência técnica e capacitação.
Tabela 3. Síntese comparativa dos efeitos do crédito rural
|
Aspecto |
Agricultura familiar |
Agricultura empresarial |
|
Acesso ao crédito |
Mais restrito |
Mais facilitado |
|
Tipo de crédito predominante |
Custeio |
Investimento |
|
Impacto percebido |
Curto prazo |
Médio e longo prazo |
|
Principais desafios |
Burocracia e garantias |
Gestão e custos financeiros |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Tabela 3, que sintetiza os efeitos comparativos do crédito rural, ilustra claramente essas diferenças. No que diz respeito ao “Acesso ao crédito”, é “Mais restrito” para a agricultura familiar e “Mais facilitado” para a agricultura empresarial. O “Tipo de crédito predominante” é o “Custeio” para os familiares e o “Investimento” para os empresariais. O “Impacto percebido” é de “Curto prazo” para os primeiros e de “Médio e longo prazo” para os segundos. Finalmente, os “Principais desafios” são a “Burocracia e garantias” para a agricultura familiar e a “Gestão e custos financeiros” para a agricultura empresarial.
Essa diferença evidencia que o crédito rural opera de forma assimétrica, beneficiando de maneira mais expressiva produtores com maior nível de organização e capitalização. A lógica do mercado financeiro, que prioriza a segurança e o retorno do capital, naturalmente favorece aqueles que apresentam menor risco e maior capacidade de gerar lucros. No entanto, quando se trata de uma política pública como o crédito rural, o objetivo não deve ser apenas a eficiência econômica, mas também a promoção do desenvolvimento social e a redução das desigualdades. A constatação de que o crédito rural, em sua configuração atual, amplia a lacuna entre os diferentes perfis de produtores, reforça a necessidade de uma reestruturação das políticas públicas.
Essa reestruturação deve focar na redução das barreiras de acesso para os agricultores familiares, como a simplificação da burocracia e a flexibilização das garantias, e na ampliação da efetividade do crédito por meio de programas integrados que ofereçam não apenas recursos financeiros, mas também suporte técnico e gerencial. Somente assim o crédito rural poderá cumprir seu papel de instrumento de inclusão produtiva e de promoção de um desenvolvimento rural mais equitativo e sustentável para todos os segmentos do agronegócio brasileiro. A implementação de políticas diferenciadas, que reconheçam e atendam às necessidades específicas de cada grupo de produtores, é fundamental para mitigar as assimetrias e construir um futuro mais próspero para o campo.
Limitações dos Resultados
É fundamental que os resultados apresentados neste estudo sejam interpretados à luz das limitações metodológicas inerentes ao seu delineamento. O reconhecimento dessas limitações não diminui a relevância dos achados, mas contextualiza sua aplicabilidade e generalização, garantindo a integridade científica da pesquisa.
Uma limitação crucial é o uso de uma amostra não probabilística, selecionada por conveniência. A escolha dos 25 participantes (15 agricultores familiares, 7 produtores empresariais e 3 profissionais de instituições financeiras) em municípios específicos (Craíbas/AL, Viradouro/SP, Carmo do Paranaíba/MG, Salvaterra/PA e Cachoeira do Arari/PA) foi determinada pela acessibilidade e relevância para os objetivos exploratórios do estudo. Contudo, essa metodologia de amostragem implica que os achados não são estatisticamente generalizáveis para o conjunto do território nacional ou para a totalidade dos agricultores familiares e produtores empresariais do Brasil. As realidades produtivas, socioeconômicas e institucionais variam enormemente entre as diferentes regiões do país, e os resultados obtidos em um recorte específico podem não ser representativos de outras localidades. Portanto, as conclusões devem ser vistas como indicativas de tendências e padrões observados nos contextos analisados, e não como verdades universais aplicáveis a todo o agronegócio brasileiro.
Adicionalmente, as informações coletadas refletem predominantemente a percepção dos participantes. Embora a pesquisa tenha buscado capturar tanto aspectos quantitativos (via questionários estruturados) quanto qualitativos (via entrevistas semiestruturadas), a natureza subjetiva das percepções é um fator a ser considerado. As experiências individuais, os vieses cognitivos, as expectativas e os contextos regionais específicos podem influenciar a forma como os produtores e profissionais financeiros avaliam o acesso, a aplicação e os impactos do crédito rural. Por exemplo, um produtor que teve uma experiência negativa com a burocracia pode superestimar sua dificuldade, enquanto outro, com uma rede de apoio mais robusta, pode considerá-la menos desafiadora. Essa subjetividade, embora valiosa para a compreensão aprofundada das dinâmicas, introduz um potencial viés que impede a atribuição de causalidade direta ou a quantificação precisa de todos os fenômenos observados.
O recorte empírico regional adotado, embora tenha permitido uma análise comparativa entre diferentes contextos produtivos, também contribui para a limitação da generalização. Os municípios selecionados representam realidades distintas, mas não esgotam a diversidade do agronegócio brasileiro. As políticas públicas de crédito rural, as estruturas de apoio institucional e as características socioeconômicas podem variar significativamente em outras regiões, produzindo resultados e percepções diferentes. Por exemplo, a disponibilidade de assistência técnica ou a atuação de cooperativas de crédito pode ser mais ou menos intensa em outras localidades, alterando a dinâmica de acesso e utilização do crédito.
Apesar dessas limitações, os resultados devem ser interpretados como indicativos de tendências e padrões observados nos contextos analisados. Embora não permitam a generalização estatística, os achados oferecem subsídios relevantes para a compreensão do crédito rural como instrumento de política pública em diferentes realidades produtivas. O estudo, portanto, contribui para o entendimento dos desafios e potencialidades do crédito rural no Brasil, fornecendo perspectivas qualitativas e quantitativas valiosas do campo. As informações coletadas servem como um ponto de partida para futuras pesquisas com amostras mais amplas e representativas, ou para estudos de caso mais aprofundados em regiões específicas. Além disso, as percepções dos participantes fornecem insights práticos para formuladores de políticas públicas e instituições financeiras, auxiliando na identificação de pontos de melhoria e na elaboração de estratégias mais eficazes para promover um crédito rural mais inclusivo e transformador. A riqueza dos dados qualitativos, em particular, oferece uma compreensão nuançada das complexidades envolvidas no acesso e na utilização do crédito, que seria difícil de capturar por meio de abordagens puramente quantitativas.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que esta pesquisa analisou as modalidades de crédito rural disponíveis no país, avaliando o acesso, a aplicação dos recursos e os impactos na produção agrícola de agricultores familiares e produtores empresariais. Os resultados evidenciaram que o crédito rural é um instrumento fundamental para a viabilização da atividade agropecuária, mas sua efetividade e distribuição são heterogêneas. Observou-se que agricultores familiares enfrentam maiores barreiras de acesso, como a burocracia documental, a exigência de garantias reais e a irregularização fundiária, e tendem a utilizar o crédito predominantemente para custeio. Em contraste, produtores empresariais percebem o acesso como mais facilitado e direcionam os recursos para investimentos estruturais e modernização, o que acentua as desigualdades no setor.
É crucial reconhecer as limitações deste estudo, que se baseou em uma amostra não probabilística e em um recorte empírico regional específico, o que restringe a generalização estatística dos achados. As informações coletadas refletem predominantemente a percepção dos participantes, introduzindo um viés subjetivo. Contudo, esses resultados oferecem valiosos indicativos de tendências. Para estudos futuros, sugere-se a realização de pesquisas com amostras mais amplas e representativas, abrangendo diversas regiões do Brasil, e a condução de estudos longitudinais para avaliar os impactos de longo prazo das políticas de crédito rural. Adicionalmente, investigações sobre a efetividade de programas de assistência técnica integrada ao crédito e a análise de modelos inovadores de garantia para agricultores familiares poderiam aprofundar a compreensão e subsidiar políticas mais equitativas.
Referências Bibliográficas
Banco Central do Brasil (BACEN). 2023. Relatórios anuais sobre crédito rural e políticas de financiamento agrícola. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/creditorural. Acesso em: 15 jan. 2026.
Brasil. Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). 2023. Relatórios e estatísticas sobre linhas de crédito, programas de incentivo e agricultura familiar. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/politica-agricola/credito-rural. Acesso em: 15 jan. 2026.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 2023. Censos agropecuários e pesquisas sobre agricultura familiar e empresarial. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/agricultura-e-pecuaria.html. Acesso em: 15 jan. 2026.
Lima, P.; Costa, R. 2019. Acesso ao crédito rural e desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro. Revista de Economia Agrícola 65(3): 120–135.
Vieira Filho, J.E.R.; Buainain, A.M.; Garcia, J.R. 2019. O futuro do agronegócio brasileiro:
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

