Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

20 de agosto de 2026

A Construção de Práticas Pedagógicas na Perspectiva Pós- Crítica Identitária: Contribuições Curriculares

Ana Rosa Mobilon; Alaina Alves

DOI: 10.22167/2675-6528-202601679

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

As práticas educacionais, documentadas nos Projetos Político-Pedagógicos (PPP), refletem concepções curriculares e orientam ações pedagógicas na formação de sujeitos em uma sociedade contemporânea. Currículos de abordagem pós-crítica e identitária promovem práticas que articulam reflexão, cognição e vivência, valorizando a integração interdisciplinar, inclusiva e contextualizada, alinhadas a estudos da neurociência sobre flexibilidade cognitiva e articulação de conhecimentos. O estudo objetivou elaborar um roteiro de sugestões para subsidiar gestores e professores no desenvolvimento de práticas pautadas na interdisciplinaridade, transversalidade, identidade e multiculturalismo. A pesquisa utilizou análise documental qualitativa de quatro PPPs de domínio público do município de Campinas, São Paulo, nos quais se analisaram aspectos como identidade local, práticas interdisciplinares e relações poder/saber. Os resultados revelaram como as escolas estruturam seus currículos, identificando práticas alinhadas às teorias pós-críticas, mas também suas limitações, superficialidades e recursos pedagógicos. Observou-se a necessidade de maior articulação entre teoria e prática e de sistematizações mais consistentes das ações pedagógicas. Concluiu-se que a sistematização de ações pedagógicas intencionais, baseada nas potencialidades e fragilidades identificadas, pode subsidiar a atuação de gestores e professores frente aos desafios da educação contemporânea.

Palavras-chave: Identidade; Projeto Político Pedagógico; Roteiro de ações; Sistematização; Teoria do currículo.

1. Introdução

As práticas educacionais de uma instituição de ensino são formalizadas em seus Projetos Político-Pedagógicos (PPPs), documentos que revelam as concepções teóricas de currículo e as orientações pedagógicas. Elaborados pela comunidade escolar com base em referenciais e matrizes curriculares nacionais, e complementados por diretrizes locais, os PPPs expressam as intencionalidades formativas e as preocupações com o perfil do sujeito a ser formado na sociedade contemporânea, frequentemente influenciada por dinâmicas neoliberais. A definição do conteúdo e do tipo de indivíduo a ser formado é central para qualquer teoria curricular, dialogando com concepções sobre natureza humana, aprendizagem, conhecimento, cultura e sociedade. Nesse processo, as ideias de identidade e subjetividade são cruciais, pois o currículo se vincula diretamente à formação do sujeito e aos processos sociais (Silva, 2016).

No contexto das teorias pós-críticas, o multiculturalismo busca responder às complexidades e aos conflitos da globalização e do neoliberalismo (Carvalho e Neira, 2016). Essas abordagens problematizam os regimes de poder, denunciando práticas que tendem a fixar modos de ser por meio de representações sociais dominantes. O sujeito, nessa perspectiva, não é uma essência predefinida, mas resultado de construções discursivas, exigindo reflexão sobre as relações entre escola, cultura e identidade. A aprendizagem, compreendida como um processo biopsicossocial, mobiliza diversas áreas do conhecimento. A integração de saberes por meio da transversalidade e interdisciplinaridade é fundamental para superar a fragmentação do campo educativo (Cosenza e Guerra, 2011), promovendo práticas pedagógicas reflexivas e críticas.

Os pressupostos pós-críticos abrangem conceitos como identidade, diferença, subjetividade, significação, discurso, relações de saber-poder, gênero, raça, sexualidade, etnia e diversidade cultural (Silva, 2016). Eles são essenciais para o desenvolvimento de práticas pedagógicas reflexivas e críticas. A análise dos PPPs, que definem metas e diretrizes educacionais (Lei número 9.394/96), permite identificar concepções de identidade local, historicidade e realidade social, revelando tendências pedagógicas e relações de poder. Em uma sociedade globalizada e diversa, as teorias pós-críticas oferecem um campo fértil para a problematização e transformação dos paradigmas educacionais. A prática social, segundo Saviani (2003), é o ponto de partida do processo educativo, possibilitando a identificação de problemas concretos e a articulação entre conhecimento científico e experiência social para o desenvolvimento da consciência crítica.

Apesar de documentos como os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) e a Base Nacional Comum Curricular (2018) já indicarem a importância da formação cidadã e da integração interdisciplinar, a aplicação dessas diretrizes em práticas pedagógicas alinhadas às teorias pós-críticas e identitárias ainda carece de maior sistematização. A relevância da interdisciplinaridade para uma formação abrangente e contextualizada (Silva, Cusati e Guerra, 2018) é clara. A formação contínua de professores (Freire, 2022) e a contribuição da neurociência da aprendizagem, que oferece bases científicas para a compreensão do funcionamento cerebral e a promoção de aprendizagens significativas, reforçam a necessidade de abordagens mais coesas e intencionais.

A lacuna prática identificada reside na necessidade de maior articulação entre a teoria e a prática pedagógica, bem como na sistematização mais consistente das ações. Este estudo justifica-se pela urgência de oferecer subsídios práticos para a implementação de currículos que valorizem a identidade, o multiculturalismo, a interdisciplinaridade e a transversalidade, promovendo uma educação verdadeiramente inclusiva e crítica. Assim, o objetivo deste trabalho é elaborar um roteiro de sugestões para subsidiar gestores e professores no desenvolvimento de práticas pedagógicas alinhadas às teorias pós-críticas e identitárias, pautadas na interdisciplinaridade, transversalidade e multiculturalismo.

2. Material e Métodos

A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, caracterizada pela análise documental. Este método foi escolhido para compreender profundamente as políticas, diretrizes e práticas institucionais por meio de documentos oficiais e registros formais. Permitiu a identificação de concepções, orientações, estratégias, bem como lacunas e potencialidades presentes nos materiais analisados (Gil, 2002). Essa abordagem é adequada para responder a questões sobre “o que”, “por que” e “como” as práticas educacionais são estruturadas, sem recorrer a métodos estatísticos.

O estudo concentrou-se na análise de quatro Projetos Político-Pedagógicos (PPPs) de domínio público, pertencentes à rede municipal de ensino da cidade de Campinas, São Paulo. Esses documentos foram selecionados por estarem disponíveis online e por representarem as diretrizes pedagógicas formalizadas por instituições de ensino fundamental. A escolha desses PPPs permitiu uma investigação direta das bases que orientam as práticas educacionais em um contexto municipal específico, fornecendo um panorama das intencionalidades curriculares.

A coleta de dados consistiu no acesso e download dos PPPs diretamente da plataforma online da Secretaria Municipal de Educação de Campinas, conforme o endereço eletrônico disponibilizado publicamente. O acesso aos documentos foi realizado em abril de 2026, garantindo a utilização das versões mais recentes e homologadas disponíveis. A natureza pública e a acessibilidade desses documentos foram critérios fundamentais para a seleção, assegurando a legitimidade e a transparência do processo de coleta de informações para a pesquisa.

Para o tratamento e organização dos dados, a investigação concentrou-se em tópicos específicos dentro de cada PPP: Caracterização e Organização Pedagógica, Avaliação Institucional Interna (Autoavaliação) e Planos de Trabalho da Unidade Escolar. Essa segmentação permitiu uma análise estruturada, focando nos elementos que revelam como as escolas planejam e executam suas propostas pedagógicas. Cada tópico foi examinado para identificar a forma como as unidades escolares se organizam e implementam suas ações.

A técnica de análise empregada foi a análise documental qualitativa, que buscou compreender as concepções e as práticas institucionais a partir do conteúdo dos PPPs. Não foram utilizados métodos estatísticos, mas sim uma abordagem interpretativa para responder às questões de pesquisa sobre a estruturação dos currículos e a presença de práticas alinhadas às teorias pós-críticas. Essa análise permitiu identificar as características das práticas institucionais, suas lacunas e potencialidades, conforme o referencial de Gil (2002).

Os cuidados éticos foram assegurados pela utilização exclusiva de documentos de domínio público, sem a identificação de pessoas ou localidades específicas, preservando o anonimato e a confidencialidade. A pesquisa não envolveu a interação direta com participantes, focando-se na análise de materiais oficiais. A partir da análise aprofundada, buscou-se elaborar um roteiro de sugestões para subsidiar gestores e professores no desenvolvimento de práticas pedagógicas alinhadas às teorias pós-críticas e identitárias, conforme o objetivo do estudo.

3. Resultados e Discussão

A análise dos Projetos Político-Pedagógicos (PPPs) de quatro escolas da rede municipal de Campinas permitiu uma compreensão aprofundada de suas concepções curriculares e das práticas pedagógicas implementadas. Verificou-se uma diversidade de abordagens, com algumas unidades demonstrando alinhamento com as teorias pós-críticas e identitárias, enquanto outras revelaram limitações e fragmentações. A investigação concentrou-se na identificação de coerências e incoerências entre as propostas teóricas e as ações práticas, evidenciando tanto potencialidades quanto fragilidades no desenvolvimento de um currículo que valorize a interdisciplinaridade, a transversalidade, a identidade e o multiculturalismo, conforme o objetivo do estudo.

A pesquisa revelou que as escolas estruturam seus currículos de maneiras distintas, com diferentes níveis de intencionalidade e sistematização. Observou-se que, embora as diretrizes curriculares nacionais e municipais incentivem abordagens integradas e inclusivas, a efetivação dessas propostas no cotidiano escolar ainda apresenta desafios. A análise detalhada dos PPPs permitiu identificar como as unidades escolares abordam a identidade local, as práticas interdisciplinares e as relações de poder e saber, fornecendo subsídios para a elaboração de um roteiro de sugestões que possa apoiar gestores e professores na ressignificação de suas práticas pedagógicas.

Identidade Local

A dimensão da identidade local demonstrou ser um ponto de atenção nas escolas analisadas, com diferentes níveis de aprofundamento e engajamento. A Escola A, por exemplo, destacou-se por um estudo histórico aprofundado do bairro, realizado por uma professora-historiadora, que subsidiou atividades pedagógicas integradas por um trimestre. Esse esforço em mapear a história da comunidade, marcada por lutas sociais e reivindicações, reflete uma preocupação genuína com a subjetividade e as relações de poder intrínsecas ao contexto local (Neira, 2019).

Em contraste, as Escolas B e C também demonstraram iniciativas para compreender a identidade do bairro, utilizando pesquisas com estudantes e resgatando aspectos da fundação local. No entanto, a Escola B apresentou limitações na profundidade das fontes e na compreensão dos movimentos migratórios, enquanto a Escola D, ao descrever a diversidade cultural, utilizou uma linguagem que sugere a diversidade como uma demanda externa, e não como um elemento constitutivo do próprio espaço escolar, o que pode restringir o potencial de análise curricular e a valorização das diferenças (Neira e Miller, 2022).

Práticas Interdisciplinares

No que tange às práticas interdisciplinares, a Escola A evidenciou uma intencionalidade curricular clara, com eixos denominados “Projetos” desenvolvidos de forma planejada e coletiva, articulando a Base Nacional Comum com a parte diversificada do currículo. A unidade promoveu educação inclusiva, formação docente em temas como “As Diversas Maneiras de Aprender” (Gardner) e Consciência Fonológica (Magda Soares), e ações como clube de leitura com foco em africanidades, escola de pais e eventos culturais, demonstrando uma abordagem integrada e transformadora (Fazenda e Godoy, 2023).

Por outro lado, as Escolas B e C revelaram fragmentação na intencionalidade interdisciplinar. A Escola B, embora mencione ações pedagógicas coletivas, não explicitou planejamento colaborativo ou articulação entre os ciclos, com atividades específicas por turma sem temas geradores ou eixos integradores. A Escola C, apesar de mencionar diversos projetos, como os de educação antirracista e leitura literária, reconheceu a necessidade de maior sistematização e apresentou fragilidades na efetiva integração das práticas, muitas vezes vinculadas a projetos estruturantes sem uma perspectiva multiculturalista consistente.

A Escola D, por sua vez, implementa programas oficiais da rede municipal e organiza projetos em formato de Hora Projeto (HP), o que, embora relevante, tende a limitar a execução e a articulação mais ampla entre os projetos e as demandas da comunidade escolar. Observa-se, portanto, que a interdisciplinaridade, apesar de ser um conceito presente nos documentos, nem sempre se traduz em práticas pedagógicas efetivamente integradas e contextualizadas, indicando a necessidade de maior coerência entre o discurso e a ação.

Relações Poder/Saber

A análise das relações poder/saber nos PPPs revelou tensões entre o discurso emancipador e as práticas hegemônicas. A Escola A, em seu Plano de Ação Pedagógica, descreveu o acompanhamento de indicadores como IDEB e avaliações internas, com reuniões coletivas e replanejamento, enfatizando a gestão democrática e parcerias intersetoriais. Contudo, a busca por resolução de conflitos, inicialmente direcionada a agentes externos, pode limitar a reflexão interna e a construção coletiva de soluções no contexto escolar.

A Escola B, ao se autodefinir como “alfabetaletradora” e priorizar a qualidade social da educação pública, apresentou uma avaliação alinhada às teorias críticas, defendendo a construção coletiva dos processos avaliativos. No entanto, identificaram-se contradições, como a presença de elementos tecnicistas na justificativa de resultados insatisfatórios e a reprodução de lógicas de ranqueamento e premiação, o que problematiza a forma como são considerados os estudantes que não se enquadram nesses indicadores de sucesso (Freire, 2022).

A Escola C, com sua organização pedagógica mais tradicional, demonstrou pouca expressividade na promoção de práticas democráticas e protagonismo estudantil, com atribuições da equipe gestora focadas em funções administrativas e burocráticas. A dimensão coletiva na condução das questões escolares apareceu de forma pouco explicitada, sugerindo fragilidade na construção de processos participativos. Já a Escola D, embora defina sua proposta curricular como um conjunto de práticas socioculturais que incorporam reflexões sobre relações de poder, não evidenciou, de forma sistemática, estratégias explícitas de ampliação do protagonismo estudantil ou de aprofundamento do mapeamento identitário, indicando uma organização ainda fortemente estruturada por referenciais institucionais consolidados.

A análise dos PPPs permitiu, assim, verificar como as escolas se constituem e se descrevem, fomentando uma reflexão sobre suas concepções de currículo e a coerência entre tais concepções e suas práticas. Foram evidenciadas ações positivas, neutras e negativas relacionadas ao desenvolvimento de um currículo fundamentado em teorias pós-críticas. A identificação dessas vertentes e intencionalidades, ora alinhadas ao currículo pós-moderno, ora distantes dessa perspectiva, subsidiou a elaboração de um roteiro de ações para a organização do trabalho pedagógico escolar, numa perspectiva de currículo pós-crítico, identitário, interdisciplinar e transversal.

Roteiro de Sugestões para Práticas Pedagógicas Pós-Críticas

A partir das potencialidades e fragilidades identificadas nos PPPs, foi possível sistematizar um conjunto de ações que visam subsidiar gestores e professores no desenvolvimento de práticas pedagógicas intencionais, alinhadas às teorias pós-críticas e identitárias. Este roteiro busca tornar mais visível e intencional o processo de implementação de práticas que valorizem a diversidade, a criticidade e a transformação das práticas educativas, consolidando um caminho mais coerente, reflexivo e contextualizado.

Identidade Local

É fundamental observar, de forma analítica, todos os sujeitos que compõem a comunidade escolar, realizando registros sistemáticos de suas especificidades e pluralidades, em parceria com a equipe gestora e os professores, ao longo de todo o ano letivo. Conhecer e reconhecer o território ao qual a unidade escolar pertence, sua história e suas transformações ao longo do tempo, por meio de pesquisas aprofundadas, como as realizadas pela Escola A, e por meio de questionários aplicados aos estudantes, como nas Escolas B e C, é essencial para construir uma compreensão contextualizada.

Deve-se favorecer que todos os sujeitos se conheçam no ambiente escolar, incluindo alunos, professores, funcionários e famílias, por meio de reuniões por turma, nas quais haja espaço para expressão e troca de experiências e histórias de vida. Oportunizar e sistematizar assembleias de turma e de funcionários com diferentes temáticas, promovendo a escuta, o convívio com as diferenças, o levantamento de questionamentos e a valorização do diálogo, contribui para a construção de um ambiente inclusivo. Organizar, com professores, alunos, gestores e funcionários, caminhadas pelo entorno da escola, percorrendo as ruas e observando as paisagens e trajetos cotidianos das crianças até a unidade escolar, enriquece a percepção do contexto.

É importante sistematizar, em forma de registros, os conhecimentos construídos sobre a historicidade, a cultura, a linguagem e a linguagem corporal, de modo que esses elementos se constituam como ferramentas de articulação com o projeto pedagógico. Utilizar os registros como instrumento de discussão nos tempos pedagógicos docentes, estabelecendo metas curriculares de ampliação e aprofundamento das culturas locais, articulando conhecimentos empíricos e científicos, fortalece a identidade e a pertinência do currículo.

Práticas Interdisciplinares

Para o desenvolvimento de práticas interdisciplinares efetivas, é crucial garantir aos professores espaços pedagógicos destinados à formação, ao estudo e às discussões curriculares, incluindo reflexões sobre o perfil de estudante a ser formado na sociedade contemporânea. Aprofundar, com os professores, os conceitos de interdisciplinaridade e transversalidade é um passo inicial para superar a fragmentação do conhecimento. Planejar práticas interdisciplinares que favoreçam a troca e a integração entre docentes de diferentes áreas do conhecimento promove uma visão holística da aprendizagem.

É necessário possibilitar a troca de conhecimentos e experiências entre professores, promovendo o diálogo com a cultura trazida pelos estudantes e reconhecendo a interdependência entre disciplinas, experiências e vivências na ressignificação do conhecimento. Sistematizar, à semelhança do realizado pela Escola A, tempos e formas para que as práticas interdisciplinares ocorram de maneira efetiva, seja em trimestres ou bimestres, por meio de eixos transversais que orientem os estudos a partir das demandas reais da comunidade escolar e das contribuições dos estudantes, garantindo continuidade das ações pedagógicas.

Promover estudos do meio e atividades extraclasse articuladas aos conteúdos trabalhados, evitando sua fragmentação e assegurando que não se esgotem em si mesmas, de modo a aprofundar criticamente os temas e considerar as experiências e conclusões dos estudantes, é essencial. Elaborar atividades de aprendizagem fundamentadas na cultura dos estudantes, promovendo a ampliação do conhecimento em uma perspectiva de integração e não de negação ou desvalorização, e favorecer o estudo aprofundado e a valorização das diferentes culturas trazidas pelos estudantes, incluindo suas origens regionais, etnias e historicidades, em uma perspectiva de multiculturalismo crítico, são ações que enriquecem o currículo.

Relações Saber/Poder

No que se refere às relações saber/poder, é fundamental desenvolver a escuta, a observação e a relativização das falas e comportamentos dos estudantes, evitando a imposição de valores como padrão e buscando compreender suas origens, contextos e significados, articulando tais elementos às experiências docentes e discentes. Criar e institucionalizar espaços dialógicos sistemáticos que garantam sua efetividade na rotina escolar, como assembleias de turma mediadas por professores, promovendo o debate, a escuta e o aprofundamento das questões emergentes, é crucial para a democratização.

Democratizar os espaços escolares, possibilitando a discussão de temas polêmicos e a construção de novas perspectivas no processo de ensino e aprendizagem, fomenta o pensamento crítico. Mapear expressões corporais, linguagens e problemáticas presentes nas turmas e no ambiente escolar, e relacionar os debates à realidade social, valorizando a cultura local, de modo que esta possa ser ampliada, permitindo a reflexão crítica sobre comportamentos e suas reproduções sociais, são ações que promovem a consciência social. Construir coletivamente os conhecimentos com os estudantes e assumir uma postura institucional voltada à valorização de grupos historicamente marginalizados, cujas produções culturais foram frequentemente invisibilizadas ou apagadas (Neira e Nunes, 2022), tomando como referência, por exemplo, o eixo de Africanidades e Relações Étnico-Raciais da Escola A, que aborda identidades e valores culturais, são passos importantes.

Promover o estudo aprofundado das questões sociais em um ambiente genuinamente democrático, que não apenas respeite a diversidade, mas também a problematize e a integre ao currículo comum, contribui para a superação de práticas de segregação e para a formação de sujeitos que se reconheçam na sociedade de forma crítica e integrada. Essas ações, ao serem implementadas, podem transformar a dinâmica escolar, promovendo um ambiente mais equitativo e participativo, onde as relações de poder são constantemente questionadas e renegociadas em prol de uma educação mais justa e inclusiva.

Em síntese, a análise dos Projetos Político-Pedagógicos revelou um panorama complexo das práticas educacionais, com iniciativas promissoras e desafios persistentes na articulação de um currículo pós-crítico e identitário. As escolas demonstraram esforços variados na valorização da identidade local, na promoção de práticas interdisciplinares e na gestão das relações de poder e saber. O roteiro de sugestões elaborado, fundamentado nessas observações, oferece um caminho estruturado para que gestores e professores possam desenvolver ações pedagógicas mais intencionais e integradas, respondendo aos desafios da educação contemporânea e promovendo uma formação mais reflexiva, crítica e contextualizada para os estudantes.

4. Conclusão

Este estudo objetivou elaborar um roteiro de sugestões para subsidiar gestores e professores no desenvolvimento de práticas pedagógicas alinhadas às teorias pós-críticas e identitárias, pautadas na interdisciplinaridade, transversalidade e multiculturalismo. Para tanto, realizou-se uma análise documental qualitativa de Projetos Político-Pedagógicos de quatro escolas da rede municipal de Campinas, São Paulo. Verificou-se uma diversidade nas concepções curriculares e nas práticas pedagógicas, com algumas unidades demonstrando alinhamento a abordagens pós-críticas, enquanto outras apresentaram limitações e fragmentações. Observou-se que as escolas estruturam seus currículos de maneiras distintas, com níveis variados de intencionalidade e sistematização. Na dimensão da identidade local, identificou-se desde estudos históricos aprofundados até abordagens superficiais da diversidade. As práticas interdisciplinares, embora presentes nos documentos, frequentemente careciam de planejamento colaborativo e articulação entre os ciclos. Quanto às relações poder/saber, notou-se uma tensão entre o discurso emancipador e a persistência de lógicas hegemônicas e tecnicistas. Em síntese, a pesquisa revelou a necessidade de maior articulação entre a teoria e a prática, bem como de sistematizações mais consistentes das ações pedagógicas.

A partir das potencialidades e fragilidades identificadas nos PPPs, elaborou-se um roteiro de sugestões que visa subsidiar gestores e professores no desenvolvimento de práticas pedagógicas intencionais, alinhadas às teorias pós-críticas e identitárias. Este roteiro oferece um caminho estruturado para tornar mais visível e intencional a implementação de práticas que valorizem a diversidade, a criticidade e a transformação das ações educativas. A sistematização de ações pedagógicas intencionais, baseada nas observações sobre identidade local, práticas interdisciplinares e relações saber/poder, constitui uma contribuição prática relevante, capaz de apoiar a atuação de gestores e professores frente aos desafios da educação contemporânea. Embora a análise tenha se concentrado em um contexto específico, os achados e o roteiro proposto fornecem subsídios para a reflexão e o aprimoramento contínuo dos currículos escolares, promovendo uma formação mais reflexiva, crítica e contextualizada para os estudantes.

Referências Bibliográficas

Brasil. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/educacao-basica/bncc. Acesso em: 18 abril. 2026.Brasil.

Brasil. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais: Introdução ao Parâmetros Curriculares Nacionais..Brasília:MEC/SEF, 1997. Disponível em https://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/introducao Acesso em:12/03/2026

Cosenza, R.M.;Guerra,L.B;2011.Neurociência e educação: como o cérebro aprende .Artmed ,Porto Alegre ,RS,
Brasil.

Savianil, D, 2003. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 8ª ed. Autores Associados, Campinas, SP.

Silva, Tomaz Tadeu da, 2016. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo, 3ª ed.; 8ª Reimpressão, Autêntica Editora, Belo Horizonte

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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