Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

20 de agosto de 2026

Bases Neurocientíficas do Desenvolvimento Socioemocional na Primeira Infância

Beatriz Cintra Mariano Rebello; Mariana Domitila

DOI: 10.22167/2675-6528-202601683

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

Um estudo investigou o desenvolvimento socioemocional na primeira infância (0 a 3 anos) à luz das bases neurocientíficas do desenvolvimento infantil. O objetivo foi analisar as práticas parentais, as interações afetivas e os estímulos socioemocionais no cotidiano familiar, com foco nas bases neurocientíficas que sustentam o papel das interações responsivas na organização dos circuitos neurais envolvidos na regulação emocional, atenção e formação de vínculos. A pesquisa adotou uma abordagem mista, coletando dados de 14 pais ou cuidadores por meio de questionário online anônimo e entrevistas. Os resultados indicaram uma elevada frequência de práticas responsivas, como contato físico afetuoso, nomeação de emoções e presença do adulto em situações de estresse emocional da criança. Observou-se que práticas associadas à previsibilidade, à co-regulação e à disponibilidade emocional do cuidador estavam relacionadas a uma maior busca da criança pelo adulto em momentos de frustração e a uma maior facilidade para se acalmar com orientação verbal e presença afetiva. As respostas qualitativas também apontaram desafios recorrentes, como a autorregulação emocional do adulto, o uso de telas e a conciliação entre demandas da vida cotidiana e a disponibilidade emocional. Os achados foram consistentes com a literatura neurocientífica, que enfatiza o papel das interações responsivas na organização dos circuitos neurais envolvidos na regulação emocional, atenção e formação de vínculos, contribuindo para a compreensão do desenvolvimento socioemocional na primeira infância.

Palavras-chave: Autorregulação emocional; Co-regulação; Interação adulto-criança; Práticas parentais; Vínculo afetivo.

1. Introdução

O desenvolvimento socioemocional na primeira infância, que abrange o período de zero a três anos de idade, constitui um dos pilares fundamentais para a formação de habilidades cognitivas, sociais e emocionais que perduram ao longo de toda a vida. Este estágio inicial influencia diretamente a maneira como a criança estabelece vínculos, regula suas emoções e interage com o ambiente social (Sroufe, 1996; Weisz, 2023). Embora o ambiente escolar seja reconhecido como um espaço crucial para essa evolução (Gambary et al., 2025), os primeiros anos são marcados por intensos processos de maturação biológica e aprendizado relacional, nos quais as interações com os cuidadores desempenham um papel central na organização inicial das experiências emocionais e sociais. Nesse período, o ambiente familiar representa o principal contexto de desenvolvimento, influenciando diretamente a forma como a criança aprende a compreender emoções, estabelecer vínculos e regular seus estados afetivos.

Avanços significativos nas áreas da psicologia do desenvolvimento e das neurociências têm demonstrado que os primeiros anos de vida correspondem a uma fase de elevada plasticidade cerebral (Shonkoff; Phillips, 2000; Bohnenberger, 2025). Essa maturação é diretamente influenciada pela qualidade das experiências relacionais, que moldam os circuitos neurais envolvidos no processamento emocional. Interações consistentes e responsivas com as figuras de cuidado contribuem para a organização progressiva desses sistemas, favorecendo a integração entre estruturas subcorticais, relacionadas à emoção, e regiões corticais, envolvidas em funções regulatórias mais complexas (Fragoso et al., 2024). Evidências da neurociência do desenvolvimento indicam que experiências relacionais precoces influenciam a organização funcional de circuitos neurais associados à regulação emocional, ao processamento social e à atenção, contribuindo para a formação de padrões de resposta ao estresse e para a construção das bases neurobiológicas do comportamento socioemocional ao longo da vida.

Do ponto de vista neurobiológico, a primeira infância é um período de intensa formação e reorganização de conexões sinápticas, processo conhecido como sinaptogênese (Shonkoff; Phillips, 2000; Siegel, 2012). Durante essa fase, as experiências relacionais e ambientais desempenham um papel central na consolidação ou no enfraquecimento dessas conexões neurais. Interações afetivas consistentes, previsíveis e responsivas contribuem para a organização de circuitos neurais associados à regulação emocional, ao processamento social e à atenção. Em contrapartida, contextos marcados por estresse elevado ou baixa responsividade podem interferir nesses processos de maturação neural. A presença de cuidadores emocionalmente disponíveis atua como um importante modulador das respostas ao estresse da criança, favorecendo o desenvolvimento progressivo de habilidades de autorregulação.

Além da formação de novas conexões sinápticas, os primeiros anos de vida também envolvem processos de poda sináptica, nos quais conexões neurais menos utilizadas são gradualmente eliminadas, enquanto circuitos frequentemente ativados tendem a se fortalecer. Esse processo contribui para a especialização progressiva dos sistemas neurais envolvidos no processamento emocional, na atenção e nas interações sociais. Experiências relacionais repetidas, como interações afetivas consistentes entre cuidadores e crianças, desempenham um papel fundamental na consolidação de padrões de funcionamento neural associados à regulação emocional e ao comportamento social ao longo do desenvolvimento (Siegel, 2012; Shonkoff; Phillips, 2000).

Nesse contexto, práticas parentais sensíveis, caracterizadas pela atenção aos sinais da criança, expressão de afeto, comunicação verbal e suporte emocional, têm sido amplamente associadas ao desenvolvimento de vínculos de apego seguros. Esses vínculos representam um componente essencial do desenvolvimento socioemocional, pois fornecem à criança uma base de segurança a partir da qual ela pode explorar o ambiente e desenvolver gradualmente estratégias próprias de autorregulação emocional (Bowlby, 1969; Ainsworth et al., 1978). A regulação emocional, por sua vez, emerge inicialmente a partir de processos de co-regulação entre a criança e o cuidador, nos quais o adulto auxilia a criança a organizar seus estados emocionais por meio de respostas sensíveis e contingentes (Tronick, 1989; Siegel, 2012).

Nos primeiros anos de vida, as crianças dependem fortemente da presença e da responsividade dos adultos para organizar suas respostas emocionais diante de situações de frustração, medo ou desconforto. Através de interações repetidas, nas quais o cuidador acolhe, nomeia emoções e oferece suporte, a criança passa gradualmente a internalizar essas estratégias, desenvolvendo maior capacidade de lidar com desafios emocionais ao longo do desenvolvimento. Adicionalmente às interações diretas, o contexto familiar contemporâneo apresenta novos elementos que podem influenciar as experiências cotidianas da primeira infância, como a presença crescente de dispositivos digitais no ambiente doméstico. O uso de telas tem se tornado cada vez mais comum nas rotinas familiares, sendo frequentemente incorporado em diferentes momentos do dia, desde atividades de entretenimento até estratégias utilizadas para facilitar a organização das tarefas diárias.

Grande parte da literatura científica sobre o uso de telas na infância concentra-se nos possíveis impactos da exposição precoce sobre aspectos como atenção, linguagem e interação social, especialmente quando a exposição ocorre de forma prolongada ou sem mediação adulta (Christakis, 2014; American Academy of Pediatrics, 2016). No entanto, compreender o papel desses dispositivos no cotidiano familiar exige também considerar as circunstâncias em que são utilizados pelos cuidadores, muitas vezes associadas não apenas às preferências da criança, mas também às demandas práticas enfrentadas pelos adultos responsáveis pelo cuidado diário. Torna-se, portanto, relevante investigar como as práticas parentais, as interações socioemocionais e o uso de tecnologias digitais coexistem no ambiente familiar durante os primeiros anos de vida, a fim de obter uma visão mais abrangente do desenvolvimento infantil, considerando tanto os aspectos relacionais quanto os desafios presentes no cotidiano das famílias.

Diante desse contexto, o presente estudo teve como objetivo investigar práticas parentais relacionadas ao desenvolvimento socioemocional na primeira infância, com ênfase nas bases neurocientíficas que sustentam o papel das interações responsivas na organização dos circuitos neurais envolvidos na regulação emocional, atenção e formação de vínculos, abrangendo as interações entre cuidadores e crianças e as estratégias utilizadas no cotidiano familiar, e buscando compreender como elementos do contexto contemporâneo, incluindo o uso de dispositivos digitais, se integram às rotinas de cuidado e às experiências de desenvolvimento infantil nos primeiros três anos de vida.

2. Material e Métodos

Delineamento da Pesquisa

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de caráter aplicado, empregando uma abordagem metodológica mista que integrou elementos qualitativos e quantitativos. Essa escolha visou investigar o desenvolvimento socioemocional na primeira infância, explorando a relação entre as práticas parentais e as evidências neurocientíficas que fundamentam esse processo. A combinação de dados objetivos, coletados por meio de questionários estruturados, com informações qualitativas, obtidas a partir de respostas abertas e entrevistas, permitiu uma análise mais abrangente e contextualizada do fenômeno em questão, oferecendo múltiplas perspectivas sobre as dinâmicas familiares.

Participantes

A população-alvo do estudo foi composta por pais e cuidadores principais de crianças com idade entre zero e trinta e seis meses. Os critérios de inclusão definiram como participantes aqueles que se identificavam como os principais responsáveis pelo cuidado da criança durante o período em que ela estava acordada, abrangendo tanto mães quanto cuidadores que contavam com auxílio pago no cuidado diário. A amostra, composta por 14 participantes, foi selecionada por conveniência, mediante adesão voluntária, um método adequado para estudos exploratórios que buscam uma compreensão inicial de fenômenos a partir das experiências relatadas.

Instrumentos de Coleta de Dados

Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário online anônimo, desenvolvido especificamente para os objetivos deste estudo e administrado por meio da plataforma Google Forms. O instrumento foi estruturado com questões fechadas, que empregavam uma escala ordinal de frequência para quantificar a ocorrência de determinadas práticas, e questões abertas, que permitiram aos participantes descrever suas percepções sobre práticas parentais, rotinas diárias, estímulos socioemocionais e os desafios enfrentados no cuidado infantil. Essa combinação de formatos possibilitou a obtenção de dados ricos e multifacetados.

Procedimentos de Coleta

A coleta de dados ocorreu de forma online, garantindo o anonimato e a confidencialidade de todas as informações fornecidas pelos participantes. Antes de iniciar o preenchimento do questionário, cada participante foi devidamente informado sobre os objetivos da pesquisa e o caráter voluntário de sua participação. O consentimento livre e esclarecido foi obtido por meio de uma declaração de concordância expressa no próprio formulário eletrônico, que antecedia o acesso às questões. Não foram coletados quaisquer dados pessoais identificáveis dos participantes ou das crianças envolvidas no estudo, e o período de coleta se estendeu de dezembro de 2025 a janeiro de 2026.

Análise dos Dados

A análise dos dados quantitativos, coletados por meio das questões fechadas, foi realizada de forma descritiva, focando na observação de frequências e padrões de resposta para identificar tendências nas práticas parentais e rotinas familiares. As respostas qualitativas, obtidas das questões abertas, foram submetidas à categorização temática, buscando padrões recorrentes nas narrativas dos participantes, como co-regulação emocional, previsibilidade de rotinas, vínculo afetivo, autorregulação do adulto, uso de telas e desafios cotidianos. Esse processo permitiu integrar percepções qualitativas com dados quantitativos, e os achados foram comparados com a literatura neurocientífica para identificar convergências com modelos teóricos prévios.

Aspectos Éticos e Limitações Metodológicas

A pesquisa seguiu os princípios éticos para estudos com seres humanos, garantindo participação voluntária, anonimato e confidencialidade. Os participantes foram informados sobre os objetivos e consentiram livremente, sem coleta de dados pessoais identificáveis ou intervenção direta. O Formulário de Direcionamento Ético (FDE) foi preenchido, e a pesquisa foi dispensada de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução CNS nº 510/2016, devido à natureza anônima da coleta. Como limitação, o tamanho reduzido da amostra e o caráter exploratório restringem a generalização dos resultados, sugerindo a necessidade de futuras investigações com amostras mais amplas e em diversos contextos socioculturais para aprofundar a compreensão das complexas relações estudadas.

3. Resultados e Discussão

Os resultados da pesquisa, que investigou o desenvolvimento socioemocional na primeira infância, foram obtidos a partir da participação de 14 pais ou cuidadores principais de crianças com idades entre zero e 36 meses. Os respondentes preencheram um questionário online anônimo no período de dezembro de 2025 a janeiro de 2026. A amostra foi predominantemente composta por mães que atuavam como cuidadoras principais, embora alguns participantes também relatassem contar com auxílio pago no cuidado diário das crianças, refletindo padrões socioculturais comuns em pesquisas sobre cuidado infantil.

A distribuição etária das crianças na amostra abrangeu as faixas de 0–6 meses, 7-12 meses, 13–24 meses e 25–36 meses, com uma concentração maior nos grupos acima de 12 meses. Essa diversidade permitiu observar comportamentos relacionados à regulação emocional, ao vínculo e à atenção em diferentes estágios do desenvolvimento inicial. A análise considerou que as práticas e percepções parentais podem variar conforme a fase de desenvolvimento da criança, uma vez que as demandas emocionais, cognitivas e comportamentais se transformam rapidamente nos primeiros anos de vida.

Práticas Parentais e Interações Socioemocionais

Os dados quantitativos revelaram uma alta frequência de práticas parentais que demonstram responsividade emocional. A maioria dos cuidadores relatou conversar frequentemente ou sempre com a criança sobre suas emoções, nomear sentimentos e oferecer contato físico afetuoso, como colo, abraço e carinho. Essas interações são cruciais para o desenvolvimento socioemocional, pois, conforme Sroufe (1996) e Siegel (2012), o cuidador demonstra sensibilidade e responde de forma contingente às necessidades emocionais da criança, promovendo vínculos de apego seguros.

Tabela 1. Práticas parentais e comportamentos investigados

Prática parental / Comportamento investigadoFrequência relatada pelos cuidadores
Conversar com a criança sobre o que ela está sentindoFrequente / Sempre
Nomeação de emoções pelo cuidadorFrequente / Sempre
Contato físico afetuoso (colo, abraço ou carinho)Frequente / Sempre
Busca da criança pelo cuidador em momentos de estresse ou frustraçãoFrequente
Capacidade da criança de acalmar-se com orientação verbal do cuidadorModerada a frequente
Manutenção da atenção em atividades por alguns minutosModerada

Fonte: Resultados originais da pesquisa.

A Tabela 1 sintetiza as principais práticas relatadas pelos participantes, evidenciando que a comunicação verbal sobre estados afetivos e a nomeação de emoções são estratégias frequentemente empregadas. Essa abordagem contribui para a construção de um vocabulário emocional na criança, facilitando a identificação e expressão de suas próprias experiências afetivas. A consistência dessas práticas, como o contato físico afetuoso, reforça a base de segurança que permite à criança explorar o ambiente e desenvolver estratégias de autorregulação, conforme a teoria do apego (Bowlby, 1969; Ainsworth et al., 1978).

Observou-se também que a maioria das crianças busca ativamente a presença do cuidador em momentos de estresse, medo ou frustração. Esse comportamento é um indicador da função do cuidador como base de segurança, um conceito central na teoria do apego, onde o adulto atua como referência emocional. Ao oferecer suporte e acolhimento, o cuidador ajuda a criança a retomar o equilíbrio emocional, o que é fundamental para a organização dos circuitos neurais envolvidos na regulação emocional, atenção e formação de vínculos, como apontado pela literatura neurocientífica (Fragoso et al., 2024).

Além disso, grande parte dos respondentes indicou que a criança consegue se acalmar mais rapidamente quando recebe orientação verbal ou sinais de segurança emocional, como palavras tranquilizadoras ou a presença afetiva do adulto. Esses relatos sugerem a ocorrência de processos de co-regulação emocional, nos quais o adulto auxilia a criança a organizar suas respostas emocionais diante de situações de desconforto ou frustração (Tronick, 1989; Siegel, 2012). A repetição dessas experiências de co-regulação é essencial para a internalização gradual de estratégias de autorregulação pela criança.

Regulação Emocional e Atenção da Criança

Os resultados preliminares indicam que crianças cujos cuidadores relataram maior disponibilidade emocional e práticas consistentes de co-regulação tendem a demonstrar maior capacidade de acalmar-se com o apoio do adulto. Esse padrão foi observado em diferentes faixas etárias, com relatos mais detalhados para crianças entre 13 e 36 meses. A capacidade de autorregulação emocional na primeira infância ainda está em desenvolvimento, dependendo fortemente da mediação de adultos responsáveis, o que é consistente com a maturação dos sistemas neurobiológicos de controle emocional nesse período.

A repetição de experiências de co-regulação, onde o cuidador acolhe, tranquiliza e ajuda a criança a reorganizar seus estados emocionais, contribui progressivamente para a internalização dessas estratégias. Ao longo do desenvolvimento, a criança desenvolve maior autonomia para lidar com emoções intensas, um processo que se consolida gradualmente. Essa dinâmica é fundamental para a organização dos circuitos neurais, pois as interações responsivas moldam as conexões sinápticas e fortalecem os padrões de funcionamento neural associados à regulação emocional (Shonkoff; Phillips, 2000; Siegel, 2012).

Em relação à atenção, a maioria dos participantes percebeu que a criança consegue manter o foco em uma atividade por alguns minutos sem se distrair facilmente. Esse dado é relevante, pois a atenção sustentada é uma habilidade em desenvolvimento nos primeiros anos de vida, diretamente relacionada às oportunidades de exploração e interação com o ambiente. As respostas qualitativas complementaram esses achados, indicando que a não interrupção do brincar, a oferta de atividades adequadas à idade e a participação ativa do adulto favorecem maior engajamento e atenção sustentada.

Esses achados sugerem que contextos de brincadeira compartilhada e estímulos adequados ao estágio de desenvolvimento da criança podem contribuir para o fortalecimento gradual da capacidade atencional. A interação responsiva do cuidador, que se mostra presente e disponível, é um modulador importante para o desenvolvimento da atenção, permitindo que a criança explore e se engaje em atividades de forma mais eficaz, o que, por sua vez, impacta positivamente a organização dos circuitos neurais envolvidos no processamento cognitivo e emocional.

Uso de Telas no Cotidiano Infantil

O uso de telas foi relatado de forma heterogênea entre os participantes. A maior parte indicou que a criança utiliza telas por até 30 minutos a uma hora por dia, geralmente com a presença do cuidador e algum nível de interação ou co-visualização. Esse padrão sugere que, em muitos casos, os cuidadores procuram acompanhar ou mediar a experiência da criança com dispositivos digitais, prática frequentemente recomendada em diretrizes pediátricas para reduzir possíveis impactos do uso precoce de telas (American Academy of Pediatrics, 2016).

Entretanto, alguns respondentes relataram tempos de exposição mais elevados, especialmente em contextos de sobrecarga do cuidador ou necessidade de conciliar tarefas domésticas e profissionais. Esse dado aponta para a presença de fatores contextuais que influenciam o uso de tecnologias no cotidiano familiar, o que pode impactar a qualidade das interações responsivas. A comunicação emocional e as interações sensíveis cuidador-criança são fundamentais para a regulação afetiva, e o uso de telas como estratégia de acalmar pode interferir nesse processo de co-regulação (Tronick, 1989).

Nas respostas abertas, diversos cuidadores expressaram preocupação com os efeitos do uso de telas sobre o comportamento e a regulação emocional da criança, relatando maior dificuldade no estabelecimento de limites e aumento da reatividade emocional quando o acesso às telas é restringido. Esse tipo de relato sugere que os cuidadores percebem possíveis impactos comportamentais associados ao uso frequente de dispositivos digitais, especialmente em situações de transição ou interrupção da atividade, o que demanda uma reflexão sobre a integração desses dispositivos nas rotinas de cuidado.

A presença dessas preocupações indica que muitos cuidadores demonstram consciência crítica em relação ao tema, buscando equilibrar o uso de recursos tecnológicos com outras formas de interação e estímulo ao desenvolvimento infantil. A mediação parental e a busca por alternativas são essenciais para mitigar os potenciais efeitos negativos, alinhando-se com a necessidade de promover um ambiente rico em interações socioemocionais que favoreçam a maturação neural e o desenvolvimento de habilidades de autorregulação.

Percepções dos Cuidadores sobre Práticas Facilitadoras e Desafiadoras

As respostas qualitativas evidenciaram práticas percebidas como facilitadoras do desenvolvimento socioemocional, incluindo a manutenção de rotinas previsíveis, a leitura diária, o brincar compartilhado, a nomeação de emoções, a oferta de escolhas e a presença consistente do cuidador. Esses elementos correspondem a práticas frequentemente associadas, na literatura, a contextos familiares que favorecem a construção de vínculos seguros e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, contribuindo para a organização dos circuitos neurais envolvidos na regulação emocional.

Muitos participantes destacaram a importância da calma do adulto e da co-regulação emocional como estratégias centrais para o bem-estar da criança. Esse aspecto evidencia o reconhecimento, por parte dos cuidadores, de que suas próprias respostas emocionais exercem influência significativa sobre o comportamento e a regulação da criança. A capacidade do adulto de autorregular-se é um fator protetivo que modula as respostas ao estresse da criança, favorecendo o desenvolvimento progressivo de habilidades de autorregulação ao longo da infância (Siegel, 2012).

Por outro lado, os principais desafios relatados envolveram a autorregulação emocional do próprio cuidador, especialmente em situações de cansaço, estresse ou múltiplas demandas. Esse dado reforça a ideia de que o cuidado infantil ocorre em um contexto complexo, no qual as condições emocionais e práticas enfrentadas pelos adultos também influenciam a qualidade das interações com a criança. A instabilidade de rotinas e o uso de dispositivos eletrônicos também foram mencionados como fatores que podem dificultar o bem-estar emocional infantil, sugerindo que os cuidadores reconhecem os impactos desses elementos no desenvolvimento.

Demandas por Orientações e Estratégias

De forma recorrente, os participantes manifestaram interesse em aprender estratégias práticas para lidar com frustrações, birras, autorregulação emocional e estabelecimento de limites, além de orientações sobre estímulo da atenção, da fala e do vínculo afetivo. Essas demandas reforçam a relevância de propostas educativas baseadas em evidências científicas que auxiliem cuidadores no manejo do desenvolvimento socioemocional na primeira infância, alinhando-se com a necessidade de fortalecer as práticas parentais sensíveis e as estratégias de co-regulação.

A disponibilização de informações acessíveis sobre práticas parentais sensíveis, estratégias de co-regulação e organização de rotinas pode contribuir para fortalecer a confiança dos cuidadores em suas práticas de cuidado. Além disso, iniciativas de orientação parental podem desempenhar um papel importante na promoção do desenvolvimento infantil saudável, oferecendo suporte para que famílias enfrentem desafios comuns da primeira infância de maneira mais segura e informada, o que é crucial para o desenvolvimento de circuitos neurais saudáveis.

Os resultados deste estudo, embora baseados em uma amostra reduzida e com caráter exploratório, indicam que práticas parentais responsivas predominam entre os participantes, com uma forte tendência dos cuidadores em utilizar a co-regulação e a nomeação de emoções como estratégias centrais de suporte ao desenvolvimento infantil. A convergência entre os relatos qualitativos e a literatura neurocientífica (Sroufe, 1996; Fragoso et al., 2024) reforça que a disponibilidade emocional do adulto não apenas facilita o estabelecimento de vínculos seguros, mas também atua como um modulador relevante para a organização dos circuitos neurais envolvidos na autorregulação infantil, respondendo diretamente ao objetivo do estudo de analisar as práticas parentais à luz das bases neurocientíficas.

4. Conclusão

O presente estudo investigou as práticas parentais, as interações afetivas e os estímulos socioemocionais no cotidiano familiar durante a primeira infância, com foco nas bases neurocientíficas que sustentam o papel das interações responsivas na organização dos circuitos neurais envolvidos na regulação emocional, atenção e formação de vínculos. Verificou-se uma elevada frequência de práticas parentais responsivas, como o contato físico afetuoso, a nomeação de emoções e a presença do adulto em situações de estresse emocional da criança. Observou-se que práticas associadas à previsibilidade, à co-regulação e à disponibilidade emocional do cuidador estavam relacionadas a uma maior busca da criança pelo adulto em momentos de frustração e a uma maior facilidade para se acalmar com orientação verbal e presença afetiva. Embora o uso de telas tenha sido heterogêneo, alguns cuidadores relataram maior exposição devido à sobrecarga, expressando preocupação com os impactos na regulação emocional e no comportamento infantil. Os achados foram consistentes com a literatura neurocientífica, que enfatiza o papel das interações responsivas na organização dos circuitos neurais envolvidos na regulação emocional, atenção e formação de vínculos, contribuindo para a compreensão aprofundada do desenvolvimento socioemocional na primeira infância e para a identificação de demandas por orientações parentais.

Como limitação, destaca-se o tamanho reduzido da amostra e o caráter exploratório da pesquisa, o que restringe a generalização dos resultados. Contudo, a investigação revelou desafios recorrentes, como a autorregulação emocional do adulto e a conciliação entre demandas da vida cotidiana e a disponibilidade emocional, indicando a necessidade de suporte aos cuidadores. Sugere-se que futuras investigações ampliem a amostra e explorem diferentes contextos socioculturais para aprofundar a compreensão das relações entre práticas parentais, interações socioemocionais e os processos neurobiológicos envolvidos no desenvolvimento infantil. A continuidade das pesquisas pode subsidiar estratégias de orientação parental e a promoção de um desenvolvimento infantil saudável, fortalecendo a confiança dos cuidadores em suas práticas de cuidado.

Referências Bibliográficas

Ainsworth, M.D.S.; Blehar, M.C.; Waters, E.; Wall, S. 1978. Patterns of attachment: a psychological study of the strange situation. Lawrence Erlbaum Associates, Hillsdale, NJ, USA.

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Bohnenberger, G. 2025. Desenvolvimento infantil e plasticidade cerebral. Revista Cognitus. Disponível em: https://ojs.editoracognitus.com.br/index.php/revista/article/view/98.

Bowlby, J. 1969. Attachment and loss: volume 1 – attachment. Basic Books, New York, NY, USA.

Christakis, D.A. 2014. Interactive media use at younger than the age of 2 years: time to rethink the American Academy of Pediatrics guideline? JAMA Pediatrics 168: 399–400.

Fragoso, M. et al. 2024. Neurociência da primeira infância: caracterizando e compreendendo trajetórias de desenvolvimento. ResearchGate. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/383789530.

Gambary, D.C.N. et al. 2025. Desenvolvimento socioemocional no ambiente escolar. Revista REASE. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/20888.

Shonkoff, J.P.; Phillips, D.A. 2000. From neurons to neighborhoods: the science of early childhood development. National Academy Press, Washington, DC, USA.

Siegel, D.J. 2012. The developing mind: how relationships and the brain interact to shape who we are. 2ed. Guilford Press, New York, NY, USA.

Sroufe, L.A. 1996. Emotional development: the organization of emotional life in the early years. Cambridge University Press, Cambridge, UK.

Tronick, E.Z. 1989. Emotions and emotional communication in infants. American Psychologist 44: 112–119.

Weisz, I.C. 2023. Desenvolvimento socioemocional: uma abordagem da psicologia e das neurociências para identificação e manejo das emoções dos educandos. Revista Educação Pública. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/23/34/desenvolvimento-socioemocional.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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