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26 de fevereiro de 2026

Percepção dos Trabalhadores sobre a Preparação das Empresas Brasileiras para a Inteligência Artificial

Joana Marisa de Matos Dias Mendes; Carlos Eduardo de Lima

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo deste trabalho foi analisar, sob a percepção dos trabalhadores, o nível de preparação das empresas no Brasil para as mudanças da implementação da Inteligência Artificial (IA). A investigação buscou compreender como as organizações incorporam a tecnologia e como os colaboradores vivenciam esta nova realidade, que redefine a natureza do trabalho, as competências exigidas e a segurança no emprego. O estudo parte da premissa de que a transição para um ambiente de trabalho intensivo em IA não é apenas uma questão tecnológica, mas um desafio para a Gestão Estratégica de Pessoas, que precisa alinhar o potencial da automação com o desenvolvimento e a requalificação do capital humano.

O cenário atual é dominado por discussões sobre a IA no cotidiano laboral, tema central no planejamento estratégico corporativo (Elias, 2023). A adoção de tecnologias de IA é um imperativo para a competitividade. Esta transformação está ligada à Gestão Estratégica de Pessoas, que, segundo Bohlander et al. (2015), deve traduzir o plano estratégico da organização em ações concretas nos processos de Recursos Humanos. Neste contexto, tecnologia e pessoas são pilares interdependentes, exigindo que os gestores implementem as ferramentas adequadas e capacitem seus colaboradores para utilizá-las em um ciclo de aprendizado contínuo.

A urgência desta adaptação é contextualizada pela Quarta Revolução Industrial, período que, conforme descrito por Klaus Schwab (2016), altera as formas de trabalhar, viver e se relacionar. Diferente das revoluções anteriores, esta se distingue pela velocidade, escala e impacto sistêmico, promovendo uma integração entre os mundos físico, digital e biológico. A Inteligência Artificial é uma das tecnologias centrais desta revolução, definida como a capacidade de um sistema computacional realizar tarefas que exigiriam inteligência humana (Oliveira, 2018; Russell e Norvig, 2016). A sofisticação dos algoritmos de IA, baseados em modelos estatísticos, permite apresentar soluções com maior rapidez e rigor, superando em muitos casos a capacidade humana (Chen et al., 2012).

O avanço da IA apresenta um duplo potencial: por um lado, oferece aumento da lucratividade e eficiência dos negócios (Varma et al., 2023). Por outro, impacta o mercado de trabalho, com a projeção de que uma percentagem significativa de empregos, especialmente os baseados em tarefas repetitivas, será eliminada ou redesenhada (Frey e Osborne, 2017). Autores como Haenlein e Kaplan (2019) postulam que sistemas de IA superinteligentes poderão exceder as capacidades dos melhores cérebros humanos, o que impõe uma reflexão sobre o futuro do trabalho.

Diante deste cenário, a relação entre IA e Gestão de Pessoas torna-se crucial. Para que as organizações naveguem com sucesso neste ambiente, os gestores precisam se manter atualizados sobre a evolução tecnológica, implementar as ferramentas adequadas e, simultaneamente, gerir o capital humano. Isso implica preparar os colaboradores para um ambiente em mutação; a colaboração com sistemas de IA será a norma. A análise da percepção dos trabalhadores brasileiros sobre este processo oferece uma ferramenta para que os gestores tomem decisões mais informadas, garantindo uma transição tecnológica estratégica e humanizada.

Para a condução deste estudo, foi adotada uma metodologia de pesquisa quantitativa com objetivo exploratório. A coleta de dados foi realizada por meio de um survey, utilizando um questionário como instrumento (Freitas et al., 2000). Esta abordagem foi selecionada por sua capacidade de gerar dados generalizáveis e mensuráveis sobre as percepções e experiências de um grande número de indivíduos. A natureza exploratória do estudo justifica-se pela atualidade do tema e pela necessidade de mapear o panorama da preparação das empresas brasileiras para a era da IA.

O instrumento de pesquisa foi um questionário estruturado com 22 perguntas, elaborado pelo autor com base em referencial teórico. Para as questões de percepção, utilizou-se a escala Likert, método que se destaca pela facilidade de construção e análise (Likert, 1932). O questionário foi dividido em seis eixos temáticos: dados sociodemográficos, dados do colaborador, dados da empresa, a presença de ferramentas de IA no ambiente de trabalho, a percepção dos colaboradores sobre os benefícios do uso da IA e a percepção sobre o impacto da IA na Gestão de Pessoas e no mercado de trabalho.

A população-alvo do estudo foi composta por indivíduos com mais de 18 anos que exerciam atividade profissional remunerada no Brasil. O questionário foi construído na plataforma Google Forms e distribuído digitalmente através de canais como WhatsApp, e-mail e LinkedIn, visando uma amostra diversificada. A coleta de dados foi anônima, garantindo o sigilo das informações e a proteção dos dados dos participantes, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei 13.709/2018). Antes do preenchimento, todos os respondentes foram informados sobre os aspectos éticos da pesquisa e manifestaram seu consentimento.

Após a coleta, os dados foram exportados para o software Excel para a realização de uma análise estatística descritiva. Esta análise focou na identificação de frequências, percentagens e tendências, permitindo traçar um panorama da percepção dos trabalhadores sobre a adoção da IA nas empresas brasileiras. A metodologia empregada foi desenhada para garantir a consistência e a confiabilidade dos resultados, fornecendo uma base empírica para a discussão do tema.

A análise dos dados sociodemográficos revela um perfil de respondentes predominantemente masculino (62,8%), com concentração na faixa etária de 29 a 44 anos (47,9%). Um dado relevante é o elevado grau de escolaridade da amostra: 97,9% dos participantes possuem ensino superior completo ou pós-graduação, indicando que as percepções provêm de um público altamente qualificado. Esta característica, embora não represente a totalidade da força de trabalho brasileira, oferece uma visão qualificada sobre as tendências em ambientes corporativos. A diversidade da amostra é reforçada pela distribuição dos respondentes em múltiplos setores, como RH (27,7%), administrativo (23,4%) e comercial (10,6%), e em empresas de áreas como serviços (26,6%), indústria (20,2%) e varejo (11,7%).

O perfil das empresas onde os respondentes atuam demonstra heterogeneidade. A maioria (68,2%) trabalha em grandes empresas, com mais de 100 funcionários, que, segundo a Mckinsey (2023), lideram a adoção de IA. A amostra também inclui representantes de empresas de médio, pequeno e micro porte. Quanto ao tipo de empresa, há um equilíbrio entre multinacionais (33%), familiares (28,7%) e nacionais (25,5%), sugerindo que a implementação da IA não é um fenômeno restrito a um único modelo de governança. A variedade de cargos ocupados, desde diretores (11,7%) e gerentes (28,7%) até analistas (17%) e assistentes (7,4%), enriquece a análise ao capturar perspectivas de diferentes níveis hierárquicos.

Os resultados sobre a presença de ferramentas de IA no ambiente de trabalho indicam uma adoção consolidada. Um total de 71,3% dos colaboradores percebe que sua empresa utiliza alguma forma de Inteligência Artificial. Este número está em alinhamento com pesquisas globais, como a da Mckinsey (2023), que reportou 71%, e se aproxima dos 77% do estudo da KPMG (2025), sugerindo que as empresas no Brasil acompanham a tendência mundial de incorporação tecnológica (Dwivedi et al., 2021). As áreas de aplicação mais citadas são atendimento ao cliente (23,3%), análise de dados e relatórios (18,6%) e automatização de processos internos (16,5%), atividades caracterizadas por tarefas padronizadas e volumosas.

A percepção dos colaboradores sobre os benefícios da IA é positiva. Uma parcela de 86,2% dos respondentes afirma que a IA facilita seu trabalho, e 88,3% já recorreram a essas ferramentas para realizar tarefas mais rapidamente. Este dado corrobora estudos como o da Oracle (2019), que apontou um crescente entusiasmo dos trabalhadores com a colaboração com sistemas inteligentes. Além disso, 62,8% dos participantes sentem que a IA já influenciou suas decisões profissionais. Essa alta taxa de utilização e percepção de utilidade demonstra que os trabalhadores são agentes ativos na adoção da tecnologia. A pesquisa da KPMG (2025) também revelou que mais da metade dos trabalhadores globais sentiu uma melhoria no desempenho devido à IA, sentimento compartilhado pelos profissionais no Brasil.

No entanto, os dados revelam uma dissonância entre a adoção da tecnologia e a preparação oferecida aos colaboradores. Apenas 50% dos respondentes afirmam receber algum tipo de treinamento da empresa sobre o uso de ferramentas de IA, sendo que 31,9% nunca receberam qualquer formação formal. Em contrapartida, 74,4% dos trabalhadores já buscaram aprofundar seus conhecimentos sobre IA por iniciativa própria. Este achado expõe uma lacuna estratégica: as empresas implementam a tecnologia, mas falham em capacitar adequadamente seu capital humano, transferindo a responsabilidade do desenvolvimento de competências para o indivíduo.

Essa incerteza se reflete na percepção sobre o futuro do trabalho. A maioria dos respondentes expressa apreensão com a segurança de seus empregos. Cerca de 80,9% acreditam que o uso da IA vai pôr em causa postos de trabalho, e 79,8% concordam que a IA irá substituir funções em seu próprio departamento. Consequentemente, 80,8% consideram que precisam aumentar seus conhecimentos sobre ferramentas de IA para não perderem seus empregos. Estes números revelam o paradoxo da IA: ao mesmo tempo em que é vista como uma ferramenta que facilita o desempenho, é percebida como uma ameaça à estabilidade profissional. Esta dualidade, mencionada por Du et al. (2021) como simultaneamente miraculosa e catastrófica, é uma realidade vivida pelos trabalhadores brasileiros.

A discussão sobre o impacto da IA na Gestão de Pessoas se aprofunda com a análise das percepções sobre as relações interpessoais e a valorização profissional. A maioria (65,9%) acredita que o uso da IA afetará a relação entre gestores e colaboradores, e 72,4% opinam que a tecnologia pode contribuir para a valorização das pessoas na empresa. Esta visão sugere que os trabalhadores antecipam uma mudança na natureza do trabalho; a automação de tarefas rotineiras poderia liberar tempo para atividades mais estratégicas e criativas. Contudo, essa potencial valorização está condicionada à capacidade dos colaboradores de se adaptarem e desenvolverem novas competências, um processo que não está sendo adequadamente suportado pelas organizações.

Os resultados deste estudo, quando comparados com pesquisas internacionais, posicionam o Brasil em um estágio de transição. A taxa de adoção de IA é comparável à média global, mas a lacuna de treinamento é um gargalo crítico. Enquanto a pesquisa da KPMG (2025) aponta que 46% dos trabalhadores brasileiros já possuem algum tipo de formação em IA, os dados desta pesquisa indicam que grande parte dessa formação é buscada por iniciativa própria. A preocupação com a perda de postos de trabalho é um sentimento global, alinhado aos riscos identificados pelo World Economic Forum (2025), mas a intensidade dessa preocupação entre os trabalhadores brasileiros (acima de 80%) é um sinal de alerta. A gestão estratégica de pessoas, como defendida por Dutra (2002), precisa se tornar uma responsabilidade compartilhada por toda a liderança, focando no desenvolvimento de competências para o futuro.

Em síntese, o estudo evidencia que a maioria dos trabalhadores brasileiros tem consciência das transformações, reconhecendo tanto os benefícios de produtividade da IA quanto os riscos para a estabilidade do emprego. Eles respondem de forma proativa, buscando qualificação por conta própria. Por outro lado, a percepção é de que as empresas, embora adotem a tecnologia, investem de forma insuficiente na preparação de seus colaboradores. Esta desconexão entre a implementação tecnológica e o desenvolvimento humano é o principal desafio. Para que a transição para a era da IA seja bem-sucedida, é imperativo que as organizações elaborem planos que integrem a tecnologia à capacitação contínua, transformando a ansiedade da mudança em oportunidade de crescimento.

Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se, a partir da percepção dos trabalhadores, que embora as empresas no Brasil estejam adotando a Inteligência Artificial em larga escala, existe uma lacuna crítica na preparação estratégica de seus colaboradores, que se sentem compelidos a buscar qualificação por conta própria diante da iminente transformação do mercado de trabalho. Os resultados indicam que a transição tecnológica é conduzida com um foco maior na ferramenta do que no desenvolvimento humano, um desequilíbrio que pode comprometer a competitividade a longo prazo e intensificar as desigualdades sociais e profissionais.

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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