18 de maio de 2026
Opções de venda na gestão de risco de preços da soja no Centro-Oeste
Thiago Henrique Vasconcellos Crisol; Michael Willian Rocha de Souza
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O agronegócio brasileiro apresentou uma participação expressiva na economia nacional no ano de 2024, correspondendo a 23,2% do Produto Interno Bruto nacional (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2025). Essa relevância estratégica é evidenciada pela posição do país como o maior produtor global de soja, sendo responsável por aproximadamente 39% da oferta mundial do grão. No território nacional, a região Centro-Oeste consolida-se como o principal polo produtivo, respondendo por cerca de 49% da produção brasileira (Ministério da Agricultura e Pecuária, 2025). De acordo com projeções internacionais, a agricultura nacional manterá uma tendência de alta na representatividade global nos próximos anos, o que exige um aprimoramento constante nas estratégias de gestão (OCDE, 2023). A região Centro-Oeste dispõe de condições edafoclimáticas favoráveis, áreas planas mecanizáveis e uma base técnica sólida, fatores que impulsionam a competitividade. Contudo, a dinâmica dos mercados internacionais introduz complexidade ao planejamento das safras, exigindo que o setor lide com oscilações constantes nos preços das commodities.
A produção agrícola está sujeita a uma multiplicidade de riscos que podem ser classificados em categorias operacionais, regulatórias, agronômicas, ambientais, institucionais, de mercado e financeiras (EMBRAPA, 2022). Os riscos de mercado e financeiros exercem influência significativa antes mesmo do início do ciclo produtivo, pois fatores exógenos, como variações cambiais e a dinâmica de oferta e demanda global, impactam diretamente os custos de insumos e o valor de venda dos produtos (Calegari et al., 2012). As oscilações nos preços expõem os produtores a perdas expressivas de receita, tornando essencial o desenvolvimento de estratégias que permitam maior previsibilidade financeira e estabilidade nas operações. O planejamento estruturado e a compreensão dos mecanismos que regulam os preços e o câmbio constituem elementos fundamentais para mitigar incertezas e garantir a lucratividade no setor (Kato e Leite, 2020). Entre os instrumentos financeiros disponíveis para essa finalidade, destacam-se os contratos futuros, contratos a termo, swaps e contratos de opções, que podem ser utilizados com finalidades de hedge, arbitragem ou especulação (Busato et al., 2015). Para produtores rurais focados na rentabilidade da venda, a aplicação de instrumentos de hedge apresenta-se como uma estratégia legítima para a proteção do capital investido.
Os contratos de opções ganham destaque por permitirem ao comprador adquirir o direito de vender ou comprar um ativo financeiro a um preço predeterminado em uma data futura. O valor desse instrumento deriva da relação entre o preço de mercado do ativo-objeto e o preço de exercício definido. Quando o preço de mercado torna-se inferior ao preço de exercício, no caso de opções de venda, o contrato se valoriza e pode ser exercido, atuando como uma compensação financeira frente à desvalorização do ativo real (Busato et al., 2015). Embora existam outros mecanismos de proteção, como o seguro rural ou contratos de swap, estes frequentemente envolvem requisitos adicionais de crédito e maior complexidade operacional. Em contrapartida, a contratação de opções via corretoras certificadas apresenta barreiras de entrada menores, configurando-se como uma alternativa acessível. O objetivo deste estudo consiste em analisar a utilização de contratos de opções de venda como instrumento de gestão de risco de preços na comercialização de soja no Centro-Oeste brasileiro, por meio de uma avaliação comparativa entre cenários com e sem o uso de proteção financeira.
A metodologia empregada baseia-se em um estudo de caso com dados reais de uma propriedade rural denominada Fazenda RD, localizada no Centro-Oeste. A unidade produtiva possui uma área total de 5.200 ha, dos quais aproximadamente 4.000 ha foram dedicados ao cultivo de soja durante as safras de 2020/2021 a 2024/2025. O processo de coleta de dados iniciou-se com uma entrevista estruturada com o gestor da propriedade para compreender a percepção de riscos e o conhecimento sobre instrumentos financeiros. Os dados fornecidos contemplaram produtividade em sacas por hectare, área plantada, volume colhido, capacidade de armazenamento e o histórico de preços reais de venda praticados em transações destinadas à exportação, com entrega no porto de Paranaguá. As precificações seguiram as médias publicadas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, sem deduções de frete ou seguro. Para a definição da população de dados utilizada no cálculo das médias e da volatilidade, estabeleceu-se um intervalo baseado no calendário operacional da região, onde o plantio ocorre entre outubro e dezembro e a colheita entre janeiro e março.
O estudo avaliou cenários de opções de venda com terminação em fevereiro do ano safra. Para a determinação do preço de exercício, considerou-se uma desvalorização máxima de 5% sobre a cotação de 30 de outubro, data em que o plantio já estaria concluído e o produtor poderia estimar a produtividade e os custos remanescentes. Para a análise de volatilidade e precificação, utilizaram-se as cotações da soja no porto de Paranaguá, que apresentam variações marginais em relação aos minicontratos futuros da Chicago Mercantile Exchange. A operação com derivativos foi estruturada unicamente como hedge financeiro, sem a pretensão de exercício físico da opção. O produtor planejou liquidar a posição no mercado financeiro na data de vencimento para capturar ganhos oriundos da valorização do instrumento frente à queda do mercado físico. Aplicando o princípio da navalha de Ockham, a análise focou exclusivamente no efeito das transações sobre as receitas brutas (McFadden, 2022). A mensuração dos prêmios das opções foi estimada pela metodologia de Black-Scholes, que avalia o valor justo das opções em um sistema equilibrado (Black e Scholes, 1973).
A volatilidade anualizada dos preços foi calculada com base em 252 dias úteis, em conformidade com o calendário dos mercados financeiros. A obtenção da volatilidade padronizada ocorreu a partir do desvio padrão dos logaritmos das variações diárias das cotações. Para a anualização, utilizou-se a raiz quadrada de 252 multiplicada pelo desvio padrão, conforme estabelecido na literatura de finanças quantitativas. O cálculo do prêmio da opção de venda considerou o preço do ativo, o preço de exercício, o tempo para o vencimento, a taxa de juros livre de risco baseada na taxa Selic e a volatilidade anualizada. Dois cenários principais foram delineados: o primeiro simulando uma opção europeia com liquidação em data fixa e o segundo simulando uma opção americana com liquidação na data de menor cotação observada durante o período de colheita. Essa estrutura permitiu comparar a eficácia da proteção em diferentes momentos de mercado e níveis de flexibilidade contratual.
Os resultados indicam que o agronegócio brasileiro passa por um processo de profissionalização, mas a adoção de derivativos ainda é incipiente devido à ausência de informação técnica e ao receio da complexidade operacional (Guimarães, 2023). Na Fazenda RD, identificou-se uma produção média de 228 mil sacas de soja nas quatro últimas safras, gerando receitas brutas estimadas entre R$ 24 milhões e R$ 47 milhões. Apesar do conhecimento prévio sobre contratos futuros e opções, o produtor optou por não utilizá-los, motivado pela carência de suporte especializado e pela dificuldade de acesso a informações claras sobre a precificação. Essas barreiras refletem desafios estruturais, como o baixo volume de negociação de opções no Brasil. Dados de fevereiro de 2025 indicam que foram negociados apenas 306 contratos de opções de soja na B3, o que representa uma cobertura de apenas 14% da produção brasileira da safra 2024/2025 (Brasil, Bolsa, Balcão, 2025).
A análise histórica das cotações entre 2020 e 2025 confirmou a elevada volatilidade de preços, com média anual de 16,79%. As safras 2022/2023, 2023/2024 e 2024/2025 apresentaram variações negativas significativas entre o início da colheita e o fechamento do período de comercialização, com desvalorizações variando entre 8% e 18%. No cenário de estratégia conservadora, a opção de venda seria liquidada financeiramente pelas corretoras caso se tornasse vantajosa ao titular. Para as safras analisadas, a única exceção à execução da opção ocorreu no ciclo 2021/2022. Mesmo nesse caso, o custo da proteção representaria apenas 1,62% da receita bruta, conferindo cobertura contra uma perda potencial de até 9%. Nas safras subsequentes, todas as opções teriam sido exercidas, gerando compensações financeiras que reduziram o impacto da queda nos preços à vista. Os ganhos oriundos da valorização das opções totalizaram aproximadamente R$ 5,4 milhões, frente a um investimento inicial de R$ 1 milhão, resultando em um retorno sobre o investimento de 548%.
O incremento médio nas receitas brutas foi de 5,61% em comparação às operações realizadas exclusivamente no mercado à vista. No cenário que considera a liquidação no momento de menor cotação, os dados indicam que os contratos de opção exercem um papel altamente eficiente. A adoção dessa estratégia resultaria em um ganho acumulado de R$ 7,9 milhões, representando um acréscimo médio de 6% na receita. A comercialização exclusiva no mercado à vista expõe integralmente o produtor às oscilações, e a ausência de proteção resultou em perdas médias que variaram de 3% a 14% da receita bruta nos ciclos de 2021/2022 a 2024/2025. A decisão de adotar opções de venda revelou-se eficaz, com um custo máximo das proteções equivalente a menos de 1,2% da receita bruta nos cenários mais conservadores.
A utilização de contratos de opção de venda em posição coberta oferece previsibilidade de receitas e contribui para o incremento da rentabilidade líquida. Essa conclusão alinha-se ao argumento de que os derivativos são instrumentos essenciais para a gestão de riscos de preço, permitindo estabelecer um retorno mínimo garantido (Hull, 2016). É fundamental que produtores interessados em replicar tais estratégias restrinjam o uso a quantidades compatíveis com seus estoques reais, evitando práticas especulativas. Além disso, deve-se atentar para os impactos contábeis e fiscais, especialmente no que tange às marcações a mercado e ao reconhecimento de variações no valor justo como resultados não operacionais (Conselho Federal de Contabilidade, 2016). As perdas oriundas de posições especulativas não são dedutíveis para fins de apuração do imposto de renda, o que reforça a necessidade de um uso estritamente voltado ao hedge (Fajersztajn, 2025).
A proteção eficaz de preços exige diversificação e atenção à relação entre o custo da operação e a rentabilidade mínima garantida (Neto, 2021). A avaliação dos instrumentos de hedge deve considerar todas as etapas do processo decisório, evitando julgamentos que desconsiderem o contexto de incerteza vigente no momento da contratação. A análise dos dados da Fazenda RD demonstra que, mesmo em anos de valorização do grão, o custo do prêmio pago pela opção funciona como um seguro, cujo valor é marginal diante do risco de quedas acentuadas. A volatilidade de 23,64% observada na safra 2020/2021 exemplifica a magnitude das oscilações que podem comprometer a saúde financeira da atividade. O uso do modelo Black-Scholes permitiu identificar que os prêmios calculados estavam em patamares que justificavam a aquisição da proteção, dado o risco de mercado.
A implementação de uma política de gestão de riscos requer não apenas o uso de ferramentas financeiras, mas também uma mudança na cultura organizacional da propriedade rural. A resistência observada no estudo de caso, pautada na complexidade dos cálculos e na falta de suporte das corretoras, aponta para uma lacuna de mercado que precisa ser preenchida por consultorias especializadas. A integração entre o mercado físico e o financeiro é uma tendência irreversível para garantir a sustentabilidade econômica no longo prazo. A análise dos cenários evidenciou que a proteção financeira não anula a possibilidade de ganhos no mercado físico caso os preços subam, mas estabelece um piso que protege o produtor contra cenários catastróficos de preços baixos.
A sustentabilidade das atividades agroindustriais depende da capacidade de mitigar incertezas e ampliar a rentabilidade. O estudo utilizou uma série histórica robusta para demonstrar que o travamento de preços no fim do plantio e a liquidação na colheita são práticas viáveis. A valorização do prêmio dá ao produtor o direito de eleger a venda pelo preço de mercado ou pelo preço travado, sendo o prêmio o risco máximo de perda financeira. Os cenários considerados mostraram que, ao vender os estoques reais aos parceiros comerciais usuais e manter a proteção financeira, o produtor obtém uma rede de segurança eficiente. A estimativa do prêmio em um mercado equilibrado, sem efeitos de especulação, reforça a aplicabilidade técnica do modelo proposto para a realidade do Centro-Oeste.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que o uso de contratos de opções de venda é uma ferramenta eficaz para a mitigação de riscos de preços no mercado de soja, proporcionando um incremento médio de 3,33% a 6% na receita bruta com um investimento marginal inferior a 1,32% do faturamento, o que garante maior estabilidade financeira e previsibilidade para o produtor rural frente à volatilidade histórica do setor.
Referências Bibliográficas:
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Busato, E. J.; Coelho, F. P.; Silva G. S.; Souza J. A. 2015. Mercado de derivativos no Brasil: Conceitos, Proodutos e operações. BM&F Bovespa, Rio de Janeiro, RS, Brasil.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
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