Imagem O tempo como agente influenciador no emocional do professor e o gestor escolar como mediador

02 de março de 2026

O tempo como agente influenciador no emocional do professor e o gestor escolar como mediador

Andréa de Alencar Kasteckas; Flávia Baccin Fiorante Inforsato

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A relevância da inteligência emocional no cenário educacional contemporâneo manifesta-se como um pilar fundamental para a sustentabilidade da prática docente e para a manutenção de relações interpessoais equilibradas no ambiente escolar. A capacidade de reconhecer e regular as próprias emoções não apenas favorece o desempenho nas atividades cotidianas, mas também atua como um mecanismo de proteção contra o esgotamento profissional. Entre as características mais valorizadas em indivíduos produtivos, destaca-se a habilidade de planejar, organizar e executar tarefas de maneira consciente, antecipando possíveis obstáculos e reservando períodos específicos para lidar com imprevistos (Brenelli et al., 2022). No entanto, a compreensão do tempo extrapola a mera gestão individual, constituindo-se como uma construção social complexa. O tempo social dominante estrutura o ritmo das atividades centrais para a manutenção da vida em sociedade, estando intrinsecamente associado aos modos de produção, às normas e aos valores que orientam as práticas sociais (Oliva-Augusto, 2002). Esse tempo hegemônico tende a organizar as demais esferas da vida, exigindo que os sujeitos ajustem suas dinâmicas pessoais a uma lógica de produtividade constante.

No contexto das instituições de ensino, o gerenciamento de tempo configura-se como uma competência estratégica, envolvendo processos de identificação de necessidades, definição de objetivos e priorização de tarefas para o alcance de metas pedagógicas. Esse conceito abrange múltiplas dimensões, desde o uso de técnicas voltadas à otimização da produtividade e alocação de recursos temporais até a percepção individual sobre o uso do tempo e a aplicação de processos de autorregulação (Yoshiy; Kienen, 2018). Profissionais que desenvolvem um autoconhecimento aprofundado conseguem identificar seus pontos fortes e fragilidades, o que facilita o planejamento de atividades de modo que estas se encaixem nos períodos destinados a cada função, seja no âmbito profissional ou pessoal. O hábito de gerenciar o tempo de forma eficaz possui o potencial de tranquilizar o indivíduo ao proporcionar uma rotina organizada, enquanto a ausência dessa habilidade frequentemente resulta em níveis elevados de estresse e ansiedade.

A escola caracteriza-se como um ambiente marcado por múltiplas atividades concomitantes e uma intensa interação entre diversos sujeitos, o que demanda um elevado envolvimento emocional por parte dos professores. Observa-se que docentes que desenvolvem maior autocontrole e preparo emocional mostram-se mais fortalecidos para enfrentar os desafios inerentes à carreira educacional (Marin; Trevizani, 2020). A ocupação docente é reconhecida como uma das que mais esgotam seus profissionais devido ao acúmulo de funções, baixa remuneração, exposição à violência e massificação do ensino, sendo considerada pela Organização Internacional do Trabalho como uma das profissões mais estressantes da atualidade (Diehl; Marin, 2016). Diante desse quadro, o autoconhecimento torna-se uma competência indispensável, especialmente considerando o número crescente de afastamentos por questões médicas relacionadas a doenças mentais. Muitos desses afastamentos decorrem da sobrecarga de atividades que ultrapassam o ato de lecionar, estendendo-se ao planejamento, atendimento às famílias, participação em eventos e realização de cursos formativos.

O adoecimento docente e o consequente afastamento possuem raízes em condições adversas, como a falta de reconhecimento profissional, a exigência de jornadas ampliadas, problemas disciplinares em sala de aula e a ausência de infraestrutura adequada (Cortez et al., 2017). É essencial zelar pela segurança física e emocional dos professores, atentando-se para os gatilhos de estresse e ansiedade (Deffaveri et al., 2020). Embora a legislação brasileira, por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, assegure que os sistemas de ensino garantam períodos reservados para estudos, planejamento e avaliação dentro da jornada de trabalho, a realidade nas instituições frequentemente diverge do que é defendido por lei (LDB, 2017). A gestão do próprio tempo e a organização da rotina representam desafios constantes, exigindo que os gestores escolares adotem perfis acessíveis, sensíveis e respeitosos, colaborando ativamente para a formação e o bem-estar de suas equipes.

A metodologia adotada para a análise dessa problemática fundamentou-se em uma abordagem qualitativa, visando validar a hipótese de que a organização do tempo influencia diretamente o equilíbrio emocional docente. Esse método permitiu a utilização de procedimentos que valorizam descrições e observações detalhadas em detrimento de meras medições numéricas (Bortolozzi, 2020). A investigação estruturou-se em três etapas essenciais: descrição, análise e interpretação dos dados coletados. O delineamento da pesquisa caracterizou-se como um levantamento de campo, realizado por meio da aplicação de um questionário estruturado junto a um grupo de professores de uma escola bilíngue localizada no bairro da Vila Leopoldina, na cidade de São Paulo. O instrumento de coleta de dados foi distribuído entre 60 profissionais do Ensino Fundamental I, obtendo-se o retorno de 42 respondentes, o que representa uma amostra significativa do corpo docente da instituição.

Para a seleção dos participantes, estabeleceram-se critérios de inclusão rigorosos, considerando apenas professores contratados sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho que atuavam em período integral na unidade escolar. Tais profissionais, por estarem plenamente inseridos na rotina institucional, puderam contribuir com uma visão consistente sobre as demandas diárias e os impactos emocionais do trabalho. Como critérios de exclusão, desconsideraram-se professores horistas e docentes de outros segmentos, como Ensino Fundamental II e Ensino Médio, visto que muitos atuavam em múltiplas instituições, o que poderia fragmentar a percepção sobre as dinâmicas internas da escola pesquisada. O questionário foi elaborado com questões de múltipla escolha e dissertativas, abordando temas como a qualidade do tempo destinado a atividades extraclasse, a relação entre organização temporal e afastamentos por saúde mental, estratégias individuais de gerenciamento e o papel do gestor escolar como mediador.

A coleta de dados ocorreu após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o parecer CAAE 86065524.7.0000.9927, garantindo o tratamento sigiloso das informações e o anonimato dos respondentes. A análise do perfil do grupo revelou que a maioria dos docentes possui vasta experiência na área educacional: 33,3% apresentam mais de 25 anos de atuação, enquanto 28,6% possuem entre 16 e 20 anos de carreira. Esse dado é relevante, pois indica que as percepções coletadas advêm de profissionais com maturidade pedagógica e vivência em diferentes contextos escolares. O tempo escolar, entendido como uma construção social que orienta as práticas pedagógicas e estrutura a vida institucional, influencia diretamente a identidade profissional de professores e alunos (Gallego; Silva, 2012). Ele abrange desde aspectos administrativo-organizacionais, como calendários e horários, até dimensões pedagógicas relacionadas ao desenvolvimento de conteúdos curriculares.

Os resultados indicaram que, embora 76% dos docentes reconheçam a existência de períodos reservados para planejamento e estudos conforme preconiza a legislação, a maioria avalia esse tempo como insuficiente diante das demandas reais. A organização do trabalho docente foi reconfigurada ao longo do tempo, acompanhando exigências impostas por diferentes contextos históricos e reformas educacionais que ampliaram as responsabilidades atribuídas aos professores (UNESCO, 2004). No caso analisado, os profissionais afirmaram que as demandas superam significativamente o tempo oferecido pela instituição. Relatos apontaram que o horário destinado ao planejamento é frequentemente interrompido por intercorrências com alunos, reuniões imprevistas com a coordenação ou atendimentos a pais, resultando em horários fragmentados e pouco producentes. Essa fragmentação obriga os docentes a levarem tarefas para o ambiente doméstico, incluindo correções, elaboração de avaliações e planejamento de aulas.

A impossibilidade de estabelecer limites claros entre o tempo profissional e o pessoal gera um sentimento de sufocamento, onde o período que deveria ser dedicado ao descanso é absorvido pelo trabalho (Silva, 2024). Os dados revelaram que 81% dos participantes associam o elevado número de afastamentos de professores à má organização do tempo de trabalho dentro e fora da sala de aula. No entanto, a pesquisa evidenciou que o tempo não é o único fator determinante para o desgaste profissional; a ausência de autonomia, questões comportamentais de alunos, excesso de burocracia e dificuldades no relacionamento com superiores também configuram elementos significativos de estresse (Diehl; Marin, 2016). A falta de organização das tarefas cotidianas influencia diretamente a inteligência emocional, manifestando-se em sinais de ansiedade. Unanimemente, os entrevistados afirmaram que o gerenciamento de tempo, isoladamente, não é suficiente para mitigar a ansiedade gerada pela escassez de tempo hábil para a realização de todas as obrigações.

A desmotivação, a queda de desempenho e o acúmulo de compromissos são fatores que impedem o gerenciamento eficaz da rotina (Oliveira, 2022). Embora estratégias de organização ajudem a otimizar a realização de tarefas e diminuir a sensação de pressa, a demanda sobre os professores aumentou de tal forma que estratégias individuais tornam-se paliativas. É necessária uma reestruturação no sistema educacional que garanta tempo suficiente para que o docente lide com as demandas sócio-emocionais de alunos e famílias sem comprometer sua própria saúde psicológica. Para organizar os afazeres, sugere-se a utilização de ferramentas como a categorização de atividades em dimensões de importância, urgência e circunstancialidade (Barbosa, 2012). A definição prévia de períodos destinados a cada atividade permite lidar com imprevistos sem negligenciar o que é prioritário.

Estratégias como a criação de listas de prioridades, o uso de agendas, a flexibilização do planejamento e o foco em valores pessoais são fundamentais para aumentar a organização e a tranquilidade (Covey, 2014). Os dados mostraram que 69% dos professores já utilizam calendários e planners, enquanto 64,3% mantêm listas de atividades diárias. Apesar dessas habilidades de autoconhecimento estarem presentes, a carga de atividades diárias continua em ascensão, tornando a gestão eficaz do tempo uma necessidade de sobrevivência profissional. Quando o professor consegue gerenciar seu tempo de forma satisfatória, o exercício da inteligência emocional é facilitado, impactando positivamente na mediação de conflitos e na criação de um ambiente de trabalho harmonioso. Nesse cenário, o papel do gestor escolar é redefinido: 78,6% dos respondentes definem o gestor como o responsável tanto pelas questões pedagógicas quanto pelo bem-estar do corpo docente e discente.

O coordenador pedagógico é compreendido como um profissional que deve cuidar das dimensões humanas dos professores, considerando aspectos físicos e mentais. A organização escolar, embora hierárquica, não deve pautar-se em práticas autoritárias, mas sim no diálogo e no trabalho colaborativo. Gestores tendem a deter o controle sobre a organização do tempo institucional, mas quando essa gestão é rígida e ignora os tempos humanos dos professores, o risco de adoecimento aumenta (Hargreaves, 1998). Uma liderança democrática pressupõe a construção de práticas que reconheçam a reciprocidade e o respeito às diferentes demandas do cotidiano. A inteligência emocional e o gerenciamento de tempo são habilidades complementares que melhoram a qualidade de vida, permitindo manter a calma em situações desafiadoras e evitar a sobrecarga. Contudo, sem mudanças estruturais que incluam o reconhecimento profissional e a redução da carga burocrática, a qualidade de vida continuará comprometida.

A pesquisa confirmou que 76,2% dos docentes acreditam que o tempo dedicado às atividades profissionais interfere diretamente no estado emocional, podendo causar doenças. Estudos indicam que uma parcela significativa de professores dedica de três a cinco horas semanais a atividades fora da escola, o que corrobora a percepção de que o trabalho invade o espaço privado (Vieira, 2017). A responsabilidade de zelar pelo bem-estar emocional da equipe foi atribuída ao gestor escolar por 76,2% dos participantes, que esperam um acompanhamento periódico da rotina de trabalho. Esse perfil de liderança humanizadora é capaz de estabelecer vínculos sólidos e positivos, favorecendo um ambiente saudável (Silva, 2024). Cabe ao gestor desenvolver e implementar estratégias que estimulem o engajamento e a identificação da equipe com a instituição (Bento; Ribeiro, 2013).

A análise dos dados indicou que, embora o gerenciamento do tempo e a inteligência emocional sejam aspectos relevantes, eles não foram identificados como os únicos fatores impactantes no estado emocional. Mesmo reconhecendo a insuficiência de tempo, os docentes não atribuíram a esse fator, de forma unânime, o papel central no comprometimento da saúde mental, sugerindo que a problemática é multifatorial. As estruturas temporais vivenciadas no cotidiano escolar são construções resultantes de decisões humanas e sociais que organizam as ações dos sujeitos (Hargreaves, 1998). O tempo escolar é um fenômeno complexo e plural, apresentando dimensões quantitativas, como a padronização da carga horária, e qualitativas, relacionadas aos sentidos que os sujeitos atribuem ao seu trabalho (Gallego; Silva, 2012). A subjetividade das respostas sugere que a percepção de sobrecarga é mediada pela capacidade individual de resiliência e pelo suporte oferecido pela gestão.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que se identificou a correlação direta entre a gestão do tempo e o equilíbrio emocional dos professores, evidenciando que a insuficiência de períodos para planejamento e a fragmentação da rotina são fatores de estresse. A pesquisa demonstrou que, embora os docentes utilizem estratégias individuais de organização, estas são limitadas pela sobrecarga estrutural da profissão. O papel do gestor escolar emergiu como fundamental na mediação dessas tensões, sendo necessária uma atuação que transcenda a burocracia e foque na saúde mental e no suporte pedagógico contínuo. O fortalecimento da inteligência emocional docente, aliado a uma gestão democrática e a uma revisão das cargas de trabalho, apresenta-se como o caminho para mitigar o esgotamento e promover um ambiente educacional mais saudável e produtivo.

Referências Bibliográficas:

Barbosa, C. (2012). A tríade do tempo [recurso eletrônico]. Sextante, Rio de Janeiro, RJ.
Bortolozzi, A. C. (2020). Questionário e entrevista na pesquisa qualitativa: elaboração, aplicação e análise de conteúdo – Manual Didático. Pedro & João Editores, São Carlos, SP.
Brenelli, R. P.; Boruchovitch, E.; Fini, L. D. T.; Oliveira, G. C. (2022). Psicopedagogia: desafios e prática no contexto educativo. Vozes, São Paulo, SP.
Covey, S. R. (2014). Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes [recurso eletrônico]. Best Seller, Rio de Janeiro, RJ.
Deffaveri, M.; Della Méa, C. P.; Ferreira, V. R. T. (2020). Sintomas de ansiedade e estresse em professores de educação básica. Caderno de pesquisa, 50 (177), Jul-Sep. São Paulo, SP.
Diehl, L.; Marin, A. H. (2016). Adoecimento mental em professores brasileiros; revisão sistemática da literatura. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, PR, v. 7, n. 2, p. 64-85.
Gallego, R. de C.; Silva, V. B. da. (2012). A gestão do tempo e do espaço na escola. Material produzido para a REDEFOR/SEE/SP.
Hargreaves, A. (1998). Os professores em tempos de mudança. Alfragide, Portugal: McGraw-Hill.
LDB. (2017). Lei de diretrizes e bases da educação nacional. Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas. Brasília, Distrito Federal.
Marin, A. H.; Trevizani, L. P. (2020). Competência emocional em professores e sua relação com tempo de docência e satisfação com o trabalho. Revista Psicopedagogia, 37(112).
Oliva-Augusto, M. H. (2002). Tempo, Indivíduo de Vida Social. Ciência e Cultura, São Paulo, vol. 54, nº 2.
Oliveira, G. C. et al. (2022). Psicopedagogia: desafios e prática no contexto educativo. Vozes, São Paulo, SP.
Silva, I. S. da. (2024). Coordenação Pedagógica: Saberes, competências & habilidades. Freitas Bastos, Rio de Janeiro, RJ.
UNESCO. (2004). O perfil dos professores brasileiros: o que fazem, o que pensam, o que almejam. Moderna, São Paulo, SP.
Yoshiy, S. M.; Kienen, N. (2018). Gerenciamento de tempo: uma interpretação analítico-comportamental. Psic. da Ed., São Paulo, 47, 2º sem., pp. 67-77.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em MBA em Gestão Escolar

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