Resumo Executivo

26 de fevereiro de 2026

Liderança no antropoceno: a experiência da tragédia socioambiental gaúcha de 2024

Júlio de Azambuja Borges; Carlos Eduardo de Lima

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este trabalho analisa as percepções e práticas das lideranças afetadas pela tragédia socioambiental gaúcha de 2024, investigando se o evento climático extremo provocou mudanças na compreensão e na ação de líderes e organizações sobre a crise climática. Questiona-se se os líderes emergiram diferentes, quais habilidades foram cruciais durante a crise e quais devem ser desenvolvidas para mitigação e adaptação. A hipótese é que a vivência direta de um evento extremo gera impactos mais transformadores do que o conhecimento teórico, impulsionando uma reavaliação de prioridades e práticas de gestão.

A crescente intensificação de eventos climáticos extremos fundamenta esta análise. Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul foi atingido por um desastre socioambiental, quando uma combinação de fatores meteorológicos, agravados pelo El Niño e mudanças climáticas, resultou em chuvas torrenciais (ClimaMeter, 2024). As inundações afetaram aproximadamente 2,3 milhões de pessoas, com um saldo de 183 mortos e 27 desaparecidos (Defesa Civil, 2024), e causaram colapsos em infraestruturas críticas de energia, água, telecomunicações e logística. O evento expôs a vulnerabilidade de uma das regiões mais desenvolvidas do país aos impactos do Antropoceno.

O conceito de Antropoceno designa uma nova era geológica caracterizada pela influência dominante da atividade humana sobre o ecossistema global (Harari, 2016), na qual a humanidade se tornou a principal força de transformação planetária, gerando consequências que ameaçam as bases da vida (Wulf, 2021). O termo abarca as causas, como a emissão de gases de efeito estufa, e as consequências, como as mudanças climáticas, configurando o que Latour (2020) denomina de Novo Regime Climático. Nesta realidade, a função da liderança, entendida como o processo de influenciar seguidores para alcançar objetivos (Turano e Cavazotte, 2016), adquire uma nova e urgente dimensão.

As lideranças conduziram o modelo de desenvolvimento cujos efeitos colaterais agora se manifestam, recaindo sobre elas a responsabilidade pela mitigação das causas e adaptação às consequências das mudanças climáticas. A intersecção entre a crise do Antropoceno e a prática da liderança, pouco explorada na gestão de pessoas, constitui o núcleo desta pesquisa. Torna-se imperativo o desenvolvimento de um novo perfil de liderança, com uma compreensão socioambiental ampla e um conjunto de habilidades que podem ser denominadas “climáticas” (André, 2020). Esses “líderes climáticos” são gestores que reconhecem a centralidade da crise climática para a sustentabilidade de suas organizações e da sociedade. A capacidade de compreender a dinâmica planetária e influenciar pessoas para as transformações necessárias passa a ser uma competência fundamental. Este estudo investiga se a experiência da enchente de 2024 no Rio Grande do Sul atuou como um catalisador para essa nova consciência e prática de liderança.

Para investigar um tema recente e exploratório, adotou-se uma abordagem quantitativa com elementos qualitativos (Piovesan e Temporini, 1995). O instrumento principal foi um questionário estruturado (survey) no Google Forms, distribuído virtualmente, principalmente via WhatsApp, garantindo o anonimato. As percepções foram mensuradas pela escala de Likert, que permite a quantificação de atitudes e facilita a análise estatística (da Costa Júnior et al., 2024). O público-alvo foram líderes de organizações no Rio Grande do Sul afetadas pelas enchentes, sem distinção de nível hierárquico. A coleta de dados ocorreu entre 22 e 31 de março de 2025, com uma amostra total de 106 participantes.

O questionário foi estruturado em eixos temáticos. O primeiro qualificou a amostra, confirmando os requisitos da pesquisa e caracterizando o nível de liderança e o setor de atuação, com base em classificações do IBGE (2021) e do World Economic Forum (WEF, 2025). O segundo e principal eixo investigou o entendimento pessoal dos líderes sobre as mudanças climáticas, comparando o cenário pré e pós-enchente, com base em referenciais teóricos (André, 2020; Turano e Cavazotte, 2016; Park, 2024). O terceiro explorou a percepção dos líderes sobre a atuação de suas organizações, também em análise comparativa, referenciando estudos sobre resposta corporativa a calamidades (Carbonari e Van Deursen, 2024). O último eixo continha duas questões abertas para capturar qualitativamente as habilidades de liderança mobilizadas e as consideradas essenciais para o futuro, alinhando-se com competências discutidas pelo WEF (2025). A análise dos dados foi feita no Microsoft Excel, utilizando tabelas simples e dinâmicas. A submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa foi dispensada, conforme o Formulário de Direcionamento Ético, devido ao caráter anônimo da coleta.

Para a análise, definem-se conceitos-chave. Mudanças climáticas são transformações de longo prazo no estado do clima (IEA, 2021), manifestadas por alterações graduais, como o aumento da temperatura média (EPE, 2023), ou por eventos climáticos extremos, como as enchentes de 2024. Mitigação climática refere-se a ações humanas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa (IPCC, 2023; MMA, 2025), enquanto resiliência climática é a capacidade de um sistema antecipar, absorver e se recuperar dos impactos, adaptando-se à nova realidade (EPE, 2023). Dos 106 respondentes iniciais, 78 atendiam aos critérios de serem líderes em organizações impactadas, formando a amostra final para análise.

A caracterização da amostra revelou um predomínio de líderes em posições estratégicas e táticas: 28,2% identificando-se como Diretores ou C-level e outros 28,2% como Gerentes. Coordenadores representaram 21,8% e Supervisores 11,5%, indicando que 56,4% dos respondentes ocupavam cargos de alta gestão. A diversidade setorial foi ampla, com representação de 17 dos 27 setores listados, sendo os mais expressivos Energia e Utilities (37,2%), Indústria de Transformação (10,3%), e um conjunto de setores como Agricultura, Educação e Organizações Sem Fins Lucrativos, cada um com 6,4%. Essa distribuição reflete, em parte, as características produtivas da região metropolitana de Porto Alegre.

Antes da enchente de 2024, a conscientização e o preparo eram baixos. Apenas 14,1% dos gestores consideravam as mudanças climáticas um fator crítico para a tomada de decisão, enquanto 39,8% as viam como um risco moderado, mas sem ações diretas. Um grupo de 17,9% dos líderes demonstrava ceticismo. Consequentemente, 46,2% das lideranças se sentiam pouco ou nada preparadas para atuar em eventos climáticos extremos, e apenas 15,3% se consideravam bem ou excelentemente preparadas. Os dados indicam que, antes do desastre, a maioria subestimava os riscos e não se sentia capacitada. A experiência do evento foi avassaladora: 91% dos líderes foram pessoalmente impactados, e 100% relataram que pessoas próximas foram afetadas, principalmente pela falta de serviços básicos como água (61,5%) e energia (47,4%), e pela necessidade de trabalhar remotamente (51,3%).

O desastre provocou uma mudança transformadora. Após a enchente, 92,4% dos líderes afirmaram ter alterado sua atuação para prevenir as mudanças climáticas, com 37,2% relatando uma mudança “muito grande” ou “completa”. De forma similar, 91% registraram mudanças em sua atuação para aumentar a adaptação e a resiliência, com 41% indicando uma alteração “muito grande” ou “completa”. Esses números confirmam a hipótese central do estudo: a experiência direta com um evento climático extremo funcionou como um poderoso catalisador para a mudança de mentalidade e de prática, impulsionando uma maior atenção tanto à mitigação quanto à adaptação.

A percepção dos líderes sobre suas organizações seguiu uma tendência semelhante, embora com menor intensidade. Antes da enchente, 41,1% dos gestores afirmaram que suas organizações nunca discutiam o tema das mudanças climáticas ou o faziam apenas ocasionalmente. Apenas 11,5% das empresas tratavam o assunto de forma estratégica. As organizações foram severamente impactadas, com 74,4% registrando o afastamento de colaboradores e 67,9% tendo que implantar ou ampliar o trabalho remoto. Após o evento, a mudança organizacional foi notável: 85,9% dos líderes perceberam alguma alteração na atuação de suas empresas para mitigar impactos ambientais, e 84,6% notaram mudanças voltadas para a adaptação e resiliência. No entanto, a magnitude da mudança foi menor que a individual: apenas 24,4% das organizações mudaram “muito” ou “completamente” em mitigação, e 25,6% em adaptação. Essa diferença sugere que a transformação institucional é mais lenta e complexa.

A análise das habilidades de liderança, baseada nas respostas abertas, revelou um conjunto consistente de competências. As cinco habilidades mais citadas, tanto para a gestão durante a crise quanto para o enfrentamento de futuros eventos, foram as mesmas: 1) Resiliência/adaptabilidade/flexibilidade/agilidade; 2) Empatia e escuta ativa; 3) Comunicação; 4) Tomada de decisão (rápida e sob pressão); e 5) Organização/planejamento/priorização. As duas primeiras se destacaram, superando 10% das menções em ambas as questões. Esses achados convergem com o relatório The Future of Jobs Report 2025 (WEF, 2025), que posiciona “Resilience, flexibility and agility” e “Empathy and active listening” como habilidades centrais para o futuro do trabalho.

Uma nuance importante emergiu na comparação entre as habilidades para o presente e para o futuro. A competência “conhecimento técnico/ESG/mitigação” foi pouco citada para a crise de 2024 (0,4%), mas apareceu entre as dez mais importantes para o futuro (4,6%). Isso se alinha com a tendência identificada pelo WEF (2025); a “environmental stewardship” (gestão ambiental responsável) emerge como uma das habilidades de maior crescimento em importância até 2030. Fica claro que, enquanto a resposta imediata a desastres exige resiliência e empatia, a preparação para o futuro do Antropoceno demanda um aprofundamento no conhecimento técnico e um compromisso estratégico com a sustentabilidade.

A partir da síntese dos resultados e da literatura, propõe-se o conceito de “liderança climática” como um conjunto integrado de seis competências interdependentes para navegar no Antropoceno: 1) Letramento climático, o conhecimento científico fundamental sobre as mudanças climáticas; 2) Comunicação, a capacidade de traduzir esse conhecimento em engajamento, com empatia e escuta ativa; 3) Resiliência, a agilidade para se adaptar a cenários disruptivos; 4) Prontidão para tomada de decisão, a coragem para agir rapidamente em cenários de incerteza; 5) Planejamento, a incorporação da variável climática na estratégia, nos planos de risco e de continuidade de negócios; e 6) Engajamento climático, a tradução da consciência em ações concretas e contínuas de mitigação e adaptação.

Em conclusão, a pesquisa demonstrou que a tragédia socioambiental de 2024 no Rio Grande do Sul funcionou como um ponto de inflexão, alterando profundamente a percepção e a prática de líderes e organizações. A experiência direta do desastre validou a hipótese de que o impacto vivencial é um catalisador mais potente para a mudança do que o conhecimento abstrato. A crise expôs vulnerabilidades, mas também mobilizou um conjunto de habilidades de liderança focadas em resiliência e empatia, ao mesmo tempo que sinalizou a necessidade de competências mais estratégicas e técnicas para o futuro. A noção de liderança climática emerge como uma ferramenta conceitual para sistematizar e difundir as lições aprendidas, oferecendo um caminho para que gestores possam atuar de forma mais efetiva na construção de um futuro sustentável. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a experiência direta do evento climático extremo de 2024 no Rio Grande do Sul provocou mudanças significativas na compreensão e na ação dos líderes e organizações sobre a situação climática.

Referências:
André, R. 2020. Lead for the Planet: Five Practices for Confronting Climate Change. 1ª ed. Aevo UTP University of Toronto Press, Toronto, Ontario, Canadá.
Carbonari, P.; Van Deursen, F. 2024. Calamidades climáticas: o socorro que deve vir das empresas. Revista Você RH, 95, 36-43. Editora Abril, São Paulo, São Paulo, Brasil.
ClimaMeter. 2024. 2024/05/02 South Brazil Floods. Disponível em: <https://www. climameter. org/20240502-south-brazil-floods>. Acesso em: 05 nov. 2024.
da Costa Júnior, J. F. et al. 2024. Um estudo sobre o uso da escala de Likert na coleta de dados qualitativos e sua correlação com as ferramentas estatísticas. Contribuciones a Las Ciencias Sociales, 17(1), 360–376. Disponível em: <https://ojs. revistacontribuciones. com/ojs/index. php/clcs/article/view/4009>. Acesso em: 06 mar. 2025.
Defesa Civil RS. 2024. Defesa Civil atualiza balanço das enchentes no RS – 20/8. Disponível em: < https://www. defesacivil. rs. gov. br/defesa-civil-atualiza-balanco-das-enchentes-no-rs-10-7-66b67813ba21f-66c4eed627af9 >. Acesso em: 05 nov. 2024.
Empresa de Pesquisa Energética [EPE]. 2023. NOTA TÉCNICA NT-016/2023-EPE-DEA-SMA – Fortalecimento da Resiliência do Setor Elétrico em Resposta às Mudanças Climáticas: Revisão Bibliográfica. Disponível em: < https://search. app/aiFg93SXTednNkG18 >. Acesso em: 05 nov. 2024.
Harari, Y. 2016. Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã. 1ª ed. Companhia das Letras, São Paulo, São Paulo, Brasil.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE [IPCC]. Climate Change 2023: Synthesis Report. Annex I: Glossary. Genebra: IPCC, 2023. Disponível em: https://www. ipcc. ch/report/ar6/syr/downloads/report/IPCCAR6SYRAnnex-I. pdf. Acesso em: 20 set. 2025.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE]. 2021. Classificação Nacional de Atividades Econômicas – CNAE 2.3. Disponível em: <https://concla. ibge. gov. br>. Acesso em: 05 mar. 2025.
International Energy Agency [IEA]. 2021. Electricity Security, Climate Resilience. Disponível em: <https://iea. blob. core. windows. net/assets/62c056f7-deed-4e3a-9a1f-a3ca8cc83813/Climate
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Latour, Bruno. 2020. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. 1ª. ed. Editora Bazar do Tempo, São Paulo, São Paulo, Brasil.
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima [MMA]. Mitigação. Portal Gov. br. Disponível em: <https://www. gov. br/mma/pt-br/assuntos/mudanca-do-clima/mitigacao>. Acesso em: 20 set. 2025.
Morton, Timothy. 2023. Ser ecológico. 1ª. Ed. Quina Editora, São Paulo, São Paulo, Brasil.
Park, R. Jisung. 2024. Slow Burn: The Hidden Costs of a Warming World. 1ª ed. Princeton University Press, Princeton, New Jersey, EUA.
Petrucci, M. 2024. O Antropoceno: da crise climática à crise do pensamento. 1ª ed. Contratempo, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.
Piovesan, A., & Temporini, E. R. (1995). Pesquisa exploratória: procedimento metodológico para o estudo de fatores humanos no campo da saúde pública. Revista De Saúde Pública, 29(4), 318–325. Disponível em: <https://doi. org/10.1590/S0034-89101995000400010>. Acesso em: 04 fev. 2025.
Turano, L. M., & Cavazotte, F. (2016). Conhecimento Científico sobre Liderança: Uma Análise Bibliométrica do Acervo do The Leadership Quarterly. Revista De Administração Contemporânea, 20(4), 434–457. Disponível em: <https://doi. org/10.1590/1982-7849rac2016140075>. Acesso em: 24 jan. 2024.
World Economic Forum [WEF]. 2025. The Future of Jobs Report 2025. Disponível em: <https://www. weforum. org/publications/the-future-of-jobs-report-2025/>. Acesso em: 02 mar. 2025.
Wulf, C. 2021. Educação como conhecimento do ser humano na Era do antropoceno: uma perspectiva antropológica. 1ª ed. Cortez Editora, São Paulo, São Paulo, Brasil.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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