
26 de fevereiro de 2026
Impacto da Cultura Organizacional na Assertividade do Processo Seletivo Corporativo
João Pedro Estrazulas; Douglas Murilo Siqueira
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisou como os valores organizacionais influenciam a assertividade do processo seletivo, a partir da perspectiva de gestores de Recursos Humanos. A investigação buscou compreender como a compatibilidade entre os valores de um indivíduo e a cultura da empresa, o “fit” cultural, impacta resultados como retenção de talentos, engajamento e performance. A premissa é que a cultura organizacional é uma variável estratégica que determina o sucesso de uma organização. Nesse contexto, o recrutamento e seleção se tornam um mecanismo fundamental de fortalecimento da identidade corporativa, exigindo uma abordagem alinhada aos objetivos de negócio.
A relevância da análise se intensifica com as transformações no mercado de trabalho, como a inserção de novas gerações (Millennials e Geração Z), cujas expectativas desafiam modelos de gestão tradicionais. Autores como Twenge (2010) e Deal, Altman e Rogelberg (2010) demonstram que diferenças intergeracionais afetam motivação e aspirações de carreira, tornando a avaliação de “fit” cultural mais complexa. A literatura, com estudos de Schein (1992) e Hofstede (2003), já estabelecia a cultura como um conjunto de pressupostos que orientam o comportamento. Schein (1985) atribui à liderança um papel central na modelagem cultural, enquanto Freitas (1991a) a descreve como um mecanismo de controle simbólico.
A conexão entre cultura e gestão de pessoas é um pilar para equipes de alta performance. Marras (2011) argumenta que recrutamento e seleção são processos estratégicos interdependentes, nos quais a escolha de profissionais que compartilham os valores da organização é essencial. Essa visão é corroborada por Collins (2001), que concluiu que o alinhamento entre as pessoas certas e a cultura precede a estratégia. Falhas na avaliação do alinhamento cultural comprometem a integração do colaborador e a coesão da equipe, gerando custos com o aumento do “turnover” e a queda de produtividade (Ployhart & Schneider, 2002).
O processo seletivo, segundo Chiavenato (2014), divide-se em recrutamento (atração) e seleção (escolha). A eficácia do processo depende da integração entre as etapas. Um recrutamento de qualidade, como aponta Breaugh (2008), impacta a efetividade das contratações. Se a atração não considerar o “fit” cultural, a seleção pode resultar em uma contratação desalinhada. Isso evidencia a necessidade de modelos de seleção que integrem a avaliação cultural de forma estruturada, superando percepções subjetivas e vieses inconscientes.
A pesquisa investigou as práticas, desafios e impactos da integração da cultura organizacional nos processos seletivos de grandes empresas no Brasil. O estudo buscou oferecer subsídios para o aprimoramento dos modelos de seleção, com foco na cultura como diferencial competitivo. A análise das experiências de Diretores de Recursos Humanos permitiu mapear como o alinhamento cultural se traduz em indicadores de negócio e quais as barreiras para sua avaliação, especialmente em um ambiente com múltiplas gerações que exige adaptação das práticas de gestão (Smola & Sutton, 2002).
A pesquisa utilizou uma abordagem qualitativa, exploratória e descritiva. A metodologia se justifica pela complexidade do objeto de estudo. Optou-se pelo estudo de caso múltiplo, envolvendo cinco empresas de grande porte no Brasil (quatro multinacionais e uma nacional), com faturamento médio anual superior a R$ 2 bilhões, atuantes nos ramos de indústria de consumo e agronegócio, localizadas nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Essa diversidade permitiu analisar contextos corporativos distintos que, no entanto, compartilham valores como inovação, colaboração e foco no cliente.
Para garantir robustez, adotou-se a triangulação de dados, combinando múltiplas fontes. As fontes foram: dados primários, coletados por meio de entrevistas semiestruturadas com os Diretores de Recursos Humanos de cada empresa; dados secundários, como taxas de “turnover”, tempo de adaptação e causas de desligamentos; e uma extensa revisão bibliográfica como alicerce teórico.
As entrevistas semiestruturadas, realizadas entre 20 de junho e 6 de julho de 2025, tiveram duração média de 40 minutos e seguiram um roteiro flexível. A técnica, defendida por Minayo (2012), permite explorar tópicos emergentes. O roteiro abordou fatores culturais que impactam o processo seletivo, métodos de avaliação do alinhamento cultural, a relação entre “fit”, desempenho e “turnover”, e os desafios na avaliação de candidatos de diferentes gerações. As entrevistas foram registradas por anotações e gravações de áudio, com consentimento dos participantes.
A análise dos dados foi realizada por meio da análise de narrativa, para identificar padrões e temas nos discursos. O processo analítico incluiu: transcrição das entrevistas; codificação temática (estilo de liderança, comunicação, autonomia, valores); triangulação das informações, cruzando dados das entrevistas com indicadores de RH e a literatura; e, por fim, a interpretação crítica, relacionando os padrões com os conceitos de autores como Schein (1992), Freitas (1991a), Collins (2001) e Goleman (1998).
A análise dos dados revela uma influência direta da cultura organizacional sobre a assertividade dos processos seletivos. Um achado concreto é a correlação entre desalinhamento cultural e “turnover”. Quatro das cinco empresas apresentaram taxas de “turnover” anuais entre 17% e 35%. Destas, três relataram que mais de 40% dos desligamentos voluntários nos primeiros meses foram atribuídos ao desalinhamento entre os valores do colaborador e a cultura da empresa. Este dado corrobora estudos como o de Groysberg et al. (2018), que posicionam a compatibilidade de valores como fator crítico para retenção. A falta de um processo estruturado para avaliar o “fit” cultural gera custos tangíveis.
O tempo médio de adaptação dos novos colaboradores também se mostrou sensível ao alinhamento cultural. Nas empresas que dependiam de métodos subjetivos para avaliar o “fit”, o tempo para um novo contratado atingir o desempenho esperado foi de 5,1 meses. Na única empresa que implementou um questionário padronizado de “fit” cultural, esse tempo foi reduzido para 3,2 meses. A diferença de quase dois meses representa um ganho de produtividade e reforça a tese de Collins (2001) de que a integração eficaz entre pessoas e cultura é indispensável para resultados sustentáveis.
As entrevistas identificaram fatores culturais críticos no processo de seleção. O estilo de liderança foi consistentemente citado como elemento central. Conforme a teoria de Schein (1992, 1985), os líderes modelam a cultura, e um desalinhamento entre o estilo de gestão e o perfil do colaborador pode gerar conflitos. O grau de autonomia esperado, a clareza da comunicação interna e a vivência dos valores institucionais também foram apontados como decisivos. Candidatos tecnicamente qualificados, mas com perfil comportamental divergente, apresentaram maiores dificuldades de adaptação, o que está em linha com a concepção de Freitas (2002) sobre a cultura como um conjunto de expectativas compartilhadas.
Um dos desafios mais proeminentes foi a diversidade geracional. Os Diretores de RH relataram dificuldades em avaliar o “fit” cultural de candidatos de diferentes gerações. Um entrevistado destacou que “os Millennials esperam feedback constante e autonomia em projetos, o que nem sempre se alinha aos processos tradicionais da empresa”, enquanto outro apontou que “profissionais da Geração Z demandam aprendizado rápido e crescimento acelerado”. Esses relatos materializam as teorias de Mannheim (1952) e os estudos de Twenge (2010) e Smola & Sutton (2002) sobre as diferenças intergeracionais. O desafio é criar um processo que identifique o alinhamento com valores centrais, ao mesmo tempo que valoriza a diversidade de perspectivas geracionais.
A pesquisa expôs uma lacuna entre a importância atribuída ao “fit” cultural e as práticas adotadas. Em quatro das cinco empresas, a avaliação da compatibilidade cultural depende da percepção subjetiva dos gestores. A ausência de métodos estruturados, como testes situacionais ou entrevistas comportamentais focadas em valores, aumenta o risco de decisões baseadas em vieses. A experiência da quinta empresa, que observou uma redução de 18% no “turnover” após implementar um questionário de “fit” cultural, evidencia o valor de instrumentalizar essa avaliação, confirmando as advertências de Ployhart e Schneider (2002) sobre os perigos da subjetividade.
Um tema transversal foi a importância da preparação e do autoconhecimento das lideranças. Um diretor afirmou: “Líderes que não investem em autoconhecimento frequentemente interpretam mal o comportamento dos candidatos, o que prejudica a avaliação de ‘fit’ cultural”. Outro complementou que “a autoconsciência é essencial; quanto mais o gestor conhece suas próprias forças e limitações, mais eficaz se torna na identificação de candidatos alinhados”. Essa percepção encontra respaldo na literatura sobre inteligência emocional, especialmente nos trabalhos de Goleman (1998), que posicionam a autoconsciência como competência fundamental para uma liderança eficaz.
Líderes com maior autoconsciência demonstraram ser mais capazes de conduzir entrevistas de forma estratégica, mitigando vieses pessoais. A capacidade de refletir sobre os próprios preconceitos e compreender os valores da empresa permite que façam perguntas mais pertinentes. Como afirmou um entrevistado, “é preciso que os gestores compreendam profundamente a cultura da empresa e saibam refletir sobre seus próprios vieses para garantir contratações consistentes”. Isso transforma a entrevista em uma ferramenta de diagnóstico cultural.
O desenvolvimento das lideranças também impacta a integração e retenção. Um diretor observou que “gestores que se conhecem melhor conseguem orientar e engajar novos colaboradores desde o início, diminuindo o tempo de adaptação”. Esta observação alinha-se com a visão de Collins (2001), que argumenta que líderes eficazes criam um ambiente de forte alinhamento entre pessoas e cultura. A preparação das lideranças influencia ainda a comunicação da cultura aos candidatos. Um líder consciente transmite com clareza o que a organização espera, permitindo que o candidato faça uma autoavaliação mais precisa. A relação entre liderança e gestão da cultura, como destacado por Kotter (1996), mostra-se um ciclo virtuoso.
Os resultados desta pesquisa demonstram que o alinhamento entre o perfil dos candidatos e a cultura organizacional influencia decisivamente a efetividade dos processos seletivos. As evidências apontam para uma relação mensurável entre desalinhamento cultural, aumento do “turnover” e prolongamento do tempo de adaptação. A organização que adota estratégias estruturadas para avaliar a compatibilidade cultural apresentou indicadores mais positivos de retenção. Com base nessas conclusões, recomenda-se que as lideranças definam com clareza os valores da empresa, implementem instrumentos estruturados para avaliar o “fit” cultural (questionários, entrevistas comportamentais) e capacitem líderes e recrutadores em inteligência emocional para reduzir vieses (Goleman, 1998). Sugere-se também a criação de programas de integração cultural e o monitoramento de métricas de retenção.
A principal limitação deste trabalho é sua abordagem qualitativa e o universo restrito a cinco empresas, o que impede a generalização dos resultados. Sugere-se que pesquisas futuras explorem o tema com amostras mais amplas e diversificadas, incluindo empresas de diferentes portes e segmentos, e utilizem abordagens quantitativas para validar as correlações aqui identificadas. Tal expansão permitiria aprofundar o conhecimento sobre como a cultura organizacional pode ser gerenciada para atrair e reter talentos. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o alinhamento entre os valores dos candidatos e a cultura organizacional influencia diretamente a assertividade dos processos seletivos, impactando indicadores de retenção e desempenho.
Referências:
Breaugh, J. A. 2008. Employee recruitment: current knowledge and future directions. Annual Review of Psychology, v. 59, p. 779-808.
Chiavenato, I. 2014. Introdução à Teoria Geral da Administração. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier.
Collins, J. 2001. Empresas feitas para vencer. Rio de Janeiro: Campus.
Deal, J. J.; Altman, D. G.; Rogelberg, S. G. 2010. Managing the millennial: a guide to hiring, engaging, and retaining the next generation of talent. Greensboro: Center for Creative Leadership.
Freitas, M. E. 1991a. Cultura Organizacional: Formação, Tipologias e Impacto. São Paulo: Makron Books.
Freitas, M. E. 2002. Cultura Organizacional: Identidade, Sedução e Carisma?. Rio de Janeiro: FGV.
Goleman, D. 1998. Working with Emotional Intelligence. New York: Bantam Books.
Groysberg, B.; Lee, J.; Price, J.; Youssouf, J. 2018. The Leader’s Guide to Corporate Culture. Harvard Business Review.
Hofstede, G. 2003. Cultura e Organizações: a cooperação internacional e suas implicações. 3. ed. Rio de Janeiro: LTC.
Kotter, J. P. 1996. Leading Change. Boston: Harvard Business School Press.
Kristof-Brown, A. L.; Zimmerman, R. D.; Johnson, E. C. 2005. Consequences of individuals’ fit at work: a meta-analysis of person-job, person-organization, person-group, and person-supervisor fit. Personnel Psychology, v. 58, n. 2, p. 281-342.
Mannheim, K. 1952. The Problem of Generations. In: Mannheim, K. Essays on the Sociology of Knowledge. New York: Oxford University Press. p. 276-322.
Marras, J. P. 2011. Administração de Recursos Humanos: do operacional ao estratégico. 14. ed. São Paulo: Saraiva.
Minayo, M. C. S. 2012. O Desafio do Conhecimento: Pesquisa Qualitativa em Saúde. 12. ed. São Paulo: Hucitec.
Ployhart, R. E.; Schneider, B. 2002. Human resource strategies for attracting and retaining qualified job applicants. In: Hitt, M. A.; Freeman, R. E.; Harrison, J. S. (eds.). The Blackwell Handbook of Strategic Management. Blackwell Publishing. p. 222-243.
Schein, E. H. 1985. Organizational Culture and Leadership. San Francisco: Jossey-Bass.
Schein, E. H. 1992. Organizational culture and leadership. San Francisco: Jossey-Bass Publishers.
Smola, K. W.; Sutton, M. A. 2002. Generational differences: revisiting the generation gap. Journal of Business Administration Online, v. 1, n. 2.
Strauss, W.; Howe, N. 1991. Generations: the history of America’s future, 1584 to 2069. New York: Quill.
Twenge, J. M. 2010. A review of the empirical evidence on generational differences in work attitudes and behaviors. Journal of Applied Psychology, v. 95, n. 5, p. 954-968.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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