30 de abril de 2026
Gestão de projetos na advocacia: produtividade e competitividade
Larissa Ferreira Menezes Somogyi; Aline Gisele Zanão Benatto
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O Direito, enquanto construção humana e fenômeno social, exige constantes reformulações para acompanhar as transformações da sociedade e assegurar a manutenção da paz, da justiça e da segurança jurídica. A necessidade de novos procedimentos torna-se imperativa para que o sistema não perca a capacidade de garantir o equilíbrio social em um cenário de crescente complexidade (Nader, 2021). Tradicionalmente, a área jurídica é reconhecida pelo rigor técnico e pela natureza intelectual de suas atividades, porém, o cenário contemporâneo impõe desafios que transcendem o conhecimento doutrinário e jurisprudencial. A evolução das demandas e a celeridade das comunicações exigem que o profissional jurídico adote uma postura voltada à eficiência operacional, especialmente no que tange ao cumprimento de prazos e à padronização de procedimentos internos.
A formação acadêmica convencional, no entanto, prioriza quase exclusivamente as competências técnico-jurídicas, deixando lacunas significativas em áreas como gestão, empreendedorismo e controle financeiro. Essa carência de habilidades gerenciais reflete-se na dificuldade de muitos profissionais em lidar com o aumento natural do volume de trabalho, o que eleva o risco de perdas processuais e prejuízos financeiros tanto para os advogados quanto para os clientes. O mercado jurídico brasileiro apresenta uma saturação notável, com a maior proporção de advogados por habitante no mundo, registrando um profissional para cada 164 pessoas (OAB, 2022). Além disso, a predominância do trabalho autônomo, que atinge 72% da categoria, reforça a necessidade de diferenciais competitivos que permitam a sobrevivência e o destaque em um ambiente altamente disputado (FGV, 2023).
Nesse contexto, a gestão de projetos surge como uma disciplina estratégica capaz de oferecer ferramentas e metodologias aplicáveis a qualquer ramo de atividade, inclusive à advocacia. O cenário competitivo é intensificado pela rapidez com que os temas jurídicos evoluem, demandando inovação, agilidade e mudanças estruturais nas organizações jurídicas (Barbosa; Coelho; Gonçalves, 2023). A adoção de práticas recomendadas, técnicas e procedimentos orientados para a entrega de resultados com excelência pode impactar positivamente a rotina do advogado, garantindo que os compromissos sejam honrados e que a documentação interna seja gerida de forma sistemática. Segundo as diretrizes do guia de conhecimentos em gerenciamento de projetos, uma metodologia de trabalho estruturada é essencial para orientar a execução de tarefas e assegurar a qualidade das entregas (PMI, 2021).
A investigação sobre o nível de conhecimento e a percepção dos profissionais jurídicos acerca dessas ferramentas é fundamental para compreender como a tecnologia e os processos de gestão podem ser integrados à prática cotidiana. O objetivo central reside em analisar a maturidade desses profissionais em relação às boas práticas de gestão de procedimentos e prazos, verificando o impacto real da implementação dessas metodologias na produtividade e na redução de riscos operacionais. A transição de um modelo puramente artesanal para uma gestão profissionalizada é o caminho para que a advocacia mantenha sua relevância e eficácia frente aos novos desafios do século XXI.
Para a consecução dos objetivos propostos, a investigação fundamentou-se em uma abordagem de natureza descritiva e quantitativa, método adequado para a análise de fenômenos nas Ciências Sociais, onde se busca compreender os significados e as regularidades de comportamentos em grupos específicos. A pesquisa descritiva permitiu detalhar as particularidades da população estudada e identificar a relação entre as variáveis de gestão e o desempenho profissional, enquanto a vertente quantitativa possibilitou a mensuração de hipóteses e a compreensão da sistemática de atitude dos entrevistados (Marconi; Lakatos, 2022). O instrumento de coleta de dados consistiu em um questionário estruturado, elaborado na plataforma Google Forms, e distribuído de forma estratégica para profissionais em diferentes estágios de carreira e modelos de atuação.
O questionário foi composto por 27 questões, organizadas em quatro blocos temáticos para garantir a clareza e a profundidade da coleta. O primeiro bloco dedicou-se à identificação do perfil profissional, abordando o tempo de atuação e a ocupação atual no meio jurídico. O segundo bloco investigou a aderência às ferramentas de gestão, incluindo o uso de softwares específicos, a existência de Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) e a revisão contínua de fluxos de trabalho. O terceiro bloco focou nos desafios e problemas enfrentados, como a gestão de prazos, volume de trabalho e os impactos da desorganização. Por fim, o quarto bloco avaliou o interesse dos respondentes em treinamentos e na adoção de novas metodologias de gestão aplicadas à advocacia.
A coleta de dados ocorreu entre 02 de fevereiro de 2025 e 29 de agosto de 2025, resultando em uma amostra de 47 respostas válidas. Para a mensuração das percepções, utilizou-se a escala Likert de cinco pontos, variando de “discordo totalmente” (1) a “concordo totalmente” (5). Esse método permitiu capturar a intensidade da concordância ou discordância dos profissionais em relação às afirmações apresentadas, facilitando a análise estatística da maturidade gerencial do grupo. O processo de distribuição do formulário envolveu o compartilhamento em grupos de profissionais vinculados à Ordem dos Advogados do Brasil, grupos de estudos e mentorias jurídicas em redes sociais como WhatsApp e Instagram, garantindo uma diversidade de perspectivas dentro do ecossistema jurídico.
Os aspectos éticos foram rigorosamente observados, com o encaminhamento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido a todos os participantes, assegurando a voluntariedade da participação e o anonimato das respostas. A análise dos dados foi realizada de forma agregada, impedindo a identificação individual e focando nas tendências e padrões observados na amostra. O detalhamento de cada etapa operacional, desde a escolha da escala de medida até os canais de divulgação, visou garantir a replicabilidade do estudo e a confiabilidade dos resultados obtidos, permitindo uma discussão profunda sobre a realidade da gestão no cotidiano jurídico.
A análise do perfil dos respondentes revelou que 59,6% da amostra possui até cinco anos de atuação profissional, enquadrando-se na categoria de jovens advogados. Esse grupo, devido à recente inserção no mercado, frequentemente carece de suporte e orientação em aspectos práticos da profissão que não foram abordados durante a graduação (OAB, 2015). Quanto ao regime de trabalho, a maioria absoluta, correspondente a 61,7%, atua de forma autônoma, o que reforça a importância da autogestão e da organização pessoal para a sustentabilidade do negócio jurídico. A presença de profissionais sócios de escritórios, associados e advogados sob o regime celetista em menor escala demonstra que, independentemente do vínculo, a necessidade de ferramentas de apoio é uma constante.
No que tange à aderência às ferramentas de gestão, observou-se que 38,2% dos participantes concordam possuir um sistema eficiente para gerir prazos processuais. Embora existam diversas opções tecnológicas no mercado para otimizar tarefas, a utilização de metodologias ágeis é apontada como um fator que aumenta a previsibilidade e o controle, independentemente das particularidades da profissão (Carminatti; Santos, 2021). A consciência sobre a importância da organização digital é elevada, visto que 40,4% dos respondentes atribuíram a nota máxima ao uso de ferramentas digitais para gerenciar compromissos, e outros 25,5% escolheram a opção quatro, indicando uma forte tendência de adesão tecnológica para ganho de produtividade.
O impacto positivo dos softwares jurídicos foi reconhecido por 59,6% dos profissionais, que concordam que tais ferramentas melhoram a organização do trabalho. A tecnologia é percebida como uma aliada primordial na rotina, especialmente no controle de tarefas e cronogramas (Pereira; Rosa, 2021). Contudo, um ponto crítico identificado foi a ausência de padronização: 40,4% dos participantes afirmaram não possuir Procedimentos Operacionais Padrão, enquanto apenas 17% seguem rotinas bem definidas. A falta de POPs pode gerar inconsistências nos processos e comprometer a eficiência, evidenciando a necessidade de documentar formalmente as atividades para reduzir a margem de erro (Moutinho; Rabechini Jr., 2020).
A estruturação dos fluxos de trabalho também apresentou resultados heterogêneos. Enquanto 44,6% dos respondentes demonstram possuir fluxos estruturados, uma parcela de 25,5% ainda se encontra em processo de organização. A clareza nos fluxos, aliada a metodologias de gestão de projetos, é essencial para elevar o nível de qualidade do serviço prestado (Carminatti; Santos, 2021). Positivamente, 61,7% dos profissionais afirmaram revisar e melhorar continuamente seus processos, o que indica a existência de uma cultura de melhoria contínua e busca por eficiência operacional, muitas vezes apoiada por ferramentas digitais (César; Martins Jr.; Makiya, 2024).
A aplicação de metodologias de gestão de projetos na prática jurídica já é uma realidade para 53,2% dos entrevistados, que utilizam essas ferramentas para ganhar qualidade e organização. O uso de softwares de gestão visual e tarefas, como Trello e Asana, foi citado como útil por 72,4% dos participantes, demonstrando que tais recursos promovem melhor coordenação e reduzem o retrabalho (Pereira; Rosa, 2021). Entretanto, os desafios permanecem latentes: a gestão de prazos é considerada um desafio constante por 53,2% da amostra, e 21,3% admitiram já ter perdido prazos por falta de organização interna, o que gera insegurança jurídica e prejuízos financeiros (Moutinho; Rabechini Jr., 2020).
A dificuldade de organização pessoal foi relatada por 40,4% dos respondentes, refletindo a falta de aderência a ferramentas que facilitem a estruturação das tarefas diárias (César; Martins Jr.; Makiya, 2024). Além disso, 44,7% concordam que o alto volume de prazos compromete a qualidade do trabalho executado, exigindo estratégias de priorização e planejamento para evitar a sobrecarga (Carminatti; Santos, 2021). Um dado preocupante é que 55,3% dos profissionais afirmaram não possuir tempo suficiente para revisar sua gestão interna e processos, o que pode perpetuar falhas organizacionais a longo prazo (Moutinho; Rabechini Jr., 2020).
A escassez de ferramentas adequadas e o desconhecimento sobre gestão de projetos foram apontados por 61,7% dos participantes como fatores que impactam negativamente a rotina e dificultam a implementação de metodologias ágeis (Pereira; Rosa, 2021). A ausência de procedimentos internos afeta a produtividade de 61,7% da amostra, reforçando a importância de implementar rotinas claras e documentadas. Por outro lado, o reconhecimento do valor da gestão é alto: 91,4% acreditam que a adoção de metodologias de gestão pode melhorar o desempenho profissional, e 89,3% veem nos POPs uma ferramenta capaz de otimizar a rotina e reduzir o retrabalho (César; Martins Jr.; Makiya, 2024).
A percepção de que uma gestão eficiente reduz perdas financeiras foi compartilhada por 89,3% dos respondentes, evidenciando o potencial estratégico dessas práticas para evitar prejuízos e aumentar a qualidade do serviço (Carminatti; Santos, 2021). Além disso, 89,4% concordam que práticas organizacionais estruturadas auxiliam no cumprimento de prazos com maior eficácia (Pereira; Rosa, 2021). O interesse do público em se capacitar é notável, com 82,9% demonstrando desejo de aprender mais sobre gestão aplicada à advocacia e 66% manifestando interesse em implementar tais metodologias em seus ambientes de trabalho (César; Martins Jr.; Makiya, 2024).
A demanda por capacitação é reforçada pelo fato de 68,1% dos participantes buscarem cursos ou treinamentos na área, reconhecendo que a melhoria de processos é vital para a evolução profissional (Carminatti; Santos, 2021). O planejamento estratégico é visto como um diferencial competitivo por 82,9% da amostra, o que demonstra uma visão empreendedora crescente entre os advogados. Por fim, a disposição para testar novos modelos de gestão voltados para a advocacia autônoma foi confirmada por 70,2% dos respondentes, indicando um cenário fértil para a introdução de soluções adaptadas à realidade jurídica (César; Martins Jr.; Makiya, 2024).
A discussão dos resultados aponta para uma evolução na maturidade dos profissionais jurídicos, que, apesar de majoritariamente jovens e autônomos, reconhecem as lacunas de sua formação tradicional e buscam ativamente por ferramentas de gestão. A tecnologia, embora amplamente aceita, não é suficiente se não estiver acompanhada de uma mudança de cultura organizacional que valorize a padronização e a revisão contínua de processos. As limitações identificadas, como a falta de tempo para a gestão interna e a perda de prazos por desorganização, são sintomas de uma estrutura laboral que ainda resiste à profissionalização gerencial. No entanto, o alto interesse em capacitação e a abertura para novos modelos indicam que o mercado jurídico está em um momento de transição, onde a eficiência operacional passará a ser tão valorizada quanto o saber jurídico.
As evidências coletadas sugerem que a implementação de práticas de gestão de projetos não apenas mitiga riscos financeiros e operacionais, mas também eleva a qualidade de vida do profissional ao reduzir a sobrecarga e o estresse causados pela desorganização. A correlação entre o uso de ferramentas digitais e o aumento da produtividade é clara, mas a eficácia plena depende da criação de fluxos de trabalho que sejam compreendidos e seguidos com rigor. A advocacia, ao integrar esses conhecimentos, caminha para um modelo de atuação mais estratégico e orientado a resultados, capaz de responder com agilidade às demandas de uma sociedade em constante transformação.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise demonstrou que os profissionais jurídicos possuem consciência sobre a importância da gestão de projetos, embora enfrentem desafios práticos na implementação de procedimentos padronizados e na conciliação da rotina técnica com a gestão interna. A pesquisa evidenciou que a maioria dos advogados, especialmente os autônomos e em início de carreira, reconhece a tecnologia como aliada, mas ainda carece de metodologias estruturadas para evitar a perda de prazos e a queda na qualidade dos serviços. O elevado interesse em capacitação e a disposição para adotar novos modelos gerenciais confirmam que existe uma demanda reprimida por educação em gestão no setor jurídico. Portanto, a integração de ferramentas de gestão de projetos à prática jurídica é um diferencial competitivo essencial, capaz de reduzir perdas financeiras, otimizar a produtividade e garantir a sustentabilidade profissional em um mercado saturado e complexo.
Referências Bibliográficas:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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