Resumo Executivo

18 de maio de 2026

Ancoragem na escolha de livros didáticos de português

Stela Maris Detregiacchi Gabriel Danna; Eleandra Maria Prigol Meneghini

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A atuação docente no ambiente escolar contemporâneo revela-se uma tarefa de elevada complexidade, transcendendo a mera transmissão de conteúdos programáticos em sala de aula. O profissional da educação enfrenta o desafio constante de mediar o conhecimento para uma diversidade crescente de perfis discentes, ao mesmo tempo em que lida com pressões institucionais por resultados e a necessidade de adequação a diretrizes normativas rigorosas. Somam-se a esse cenário as rápidas inovações tecnológicas que reconfiguram as práticas pedagógicas (Galvão e Casimiro, 2023; Paludo, 2020). Nesse contexto, o livro didático consolida-se como uma ferramenta de trabalho tradicional e central, cuja relevância é validada institucionalmente por políticas públicas como o Programa Nacional do Livro Didático, em vigor desde 1985 (Freisleben e Kaercher, 2022). A escolha desse material não é trivial, pois as editoras investem massivamente na promoção de suas coleções, cabendo ao professor a responsabilidade de analisar e selecionar a obra mais adequada. Pesquisas indicam que essa decisão costuma ser pautada em critérios declaradamente racionais, como a qualidade do texto, a pertinência das atividades propostas e a adequação do conteúdo ao perfil dos alunos (Bisognin, 2010; Boerkamp, 2019; Perfeito, 2020; Tagliani, 2009).

Entretanto, a prática cotidiana nem sempre espelha essa racionalidade idealizada. Conceitos como qualidade ou adequação carecem de precisão técnica, e a escassez de tempo para uma análise minuciosa do material didático levanta dúvidas sobre a objetividade do processo de escolha (Oliveira-Mendes, Silva e Santos, 2019). Tais limitações abrem espaço para que elementos subjetivos e menos conscientes influenciem a tomada de decisão, permitindo a atuação de vieses cognitivos (Avanzi et al., 2020; Tversky e Kahneman, 1974; Kahneman e Tversky, 1979; Thaler, 1980). A compreensão desses mecanismos mentais é facilitada pela distinção entre dois sistemas de pensamento: o sistema 1, que opera de forma automática, rápida e intuitiva, e o sistema 2, caracterizado por ser mais lento, analítico e racional (Kahneman, 2012). Embora os educadores frequentemente acreditem utilizar o sistema 2 ao selecionar seus materiais, as condições de pressão e o acesso limitado a informações completas sugerem que o sistema 1 pode exercer uma influência predominante, dando margem a padrões de comportamento enviesados.

Dentre os vieses cognitivos mais relevantes para esse processo, destaca-se a ancoragem, que ocorre quando um indivíduo baseia seu julgamento ou decisão em um dado inicial de referência, independentemente de sua veracidade ou relação direta com o problema em questão (Tversky e Kahneman, 1974; Mussweiler e Strack, 2001). Esse fenômeno tem sido observado em diversos experimentos e áreas do conhecimento, demonstrando como uma informação prévia pode condicionar estimativas e escolhas subsequentes (Santos, 2022). No campo educacional, especificamente na escolha de livros de língua portuguesa, a identificação desse viés torna-se crucial, dado que esse componente curricular serve de base para os demais saberes da educação básica e prepara o estudante para a atuação em múltiplas esferas sociais (Brasil, 2018). Compreender se e como a ancoragem se manifesta nesse contexto permite desvelar os desafios enfrentados pelos professores e o impacto real do livro didático na prática pedagógica.

A investigação desse fenômeno foi conduzida por meio de uma pesquisa de caráter exploratório com aplicação de método misto, integrando abordagens quantitativas e qualitativas. Essa escolha metodológica possibilitou uma análise combinada, permitindo o entrelaçamento de dados numéricos expressivos com as percepções detalhadas dos participantes, o que minimiza as limitações intrínsecas de cada abordagem isolada (Creswell, 2010; Creswell e Clark, 2013). O estudo estruturou-se em etapas sequenciais, iniciando-se com uma revisão bibliográfica profunda sobre o processo de escolha de livros didáticos e a literatura técnica referente ao viés de ancoragem. Posteriormente, procedeu-se à elaboração de um questionário quantitativo, validado previamente por um grupo piloto composto por cinco professores, garantindo a clareza e a confiabilidade do instrumento. Esse formulário baseou-se em estudos e modelos de coleta de dados já validados academicamente (Araújo, 2024; Boerkamp, 2019; Santos, 2022; Silva e Lucena, 2022).

O levantamento de campo ocorreu entre os meses de março e junho, focando exclusivamente em professores de língua portuguesa atuantes na rede particular de ensino, visto que o processo de adoção de livros em escolas públicas segue ritos diferenciados. A amostra quantitativa contou com 32 respondentes, enquanto a etapa qualitativa foi aprofundada por meio de entrevistas semiestruturadas com seis participantes selecionados. A coleta de dados foi realizada de forma on-line, utilizando a plataforma Google Forms para o questionário e softwares de comunicação para as entrevistas, que foram gravadas e transcritas integralmente, preservando o anonimato dos envolvidos. O critério de seleção exigia experiência em sala de aula e atuação em escolas privadas, independentemente de terem participado diretamente de processos de escolha de material anteriormente, uma vez que se observou que tal decisão muitas vezes recai sobre a coordenação ou direção escolar.

O instrumento de coleta foi dividido em três seções fundamentais: a primeira dedicada ao perfil socioeconômico dos participantes; a segunda focada na avaliação de três estudos de caso com diferentes âncoras (custo, dado numérico inverídico sobre multimodalidade e autoridade da Base Nacional Comum Curricular – BNCC); e a terceira voltada para a autopercepção da relevância de critérios de decisão. Nas entrevistas, buscou-se capturar os argumentos subjacentes às escolhas, evitando-se o uso explícito de termos como viés ou ancoragem para não induzir as respostas. A análise dos dados quantitativos empregou estatística descritiva, enquanto os dados qualitativos foram submetidos à análise de conteúdo (Bardin, 1977). A triangulação final entre os dados numéricos, os depoimentos e a base teórica permitiu compreender a complexidade da manifestação da ancoragem na adoção de livros didáticos.

A amostra de 32 participantes apresentou um perfil homogêneo, com predominância do gênero feminino, representando 81% do total (26 respondentes). A faixa etária predominante situou-se entre 35 e 44 anos, abrangendo 47% da amostra. No que tange à formação acadêmica, 72% possuem graduação em Linguística, Letras ou Artes, e a maioria detém títulos de pós-graduação. A experiência profissional é sólida, com 53% dos docentes acumulando mais de oito anos de atuação no ensino de língua portuguesa, concentrando-se majoritariamente nos Anos Finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Geograficamente, a pesquisa concentrou-se na região Sudeste, com apenas dois representantes de outras regiões, o que reflete uma característica específica do mercado editorial e educacional dessa localidade.

No primeiro estudo de caso, que testou a âncora do desconto, apresentou-se uma situação em que uma nova coleção de alfabetização custaria R$ 300,00, valor 20% inferior ao material em uso, que custava R$ 375,00. Os resultados indicaram que o fator preço atuou como um ponto de referência significativo, com 87,5% dos respondentes (28 pessoas) indicando que a adoção seria provável ou muito provável. Curiosamente, nenhum participante escolheu a opção certamente, sugerindo que, embora a âncora numérica tenha exercido influência, ela não foi o único determinante. Na autopercepção, 90% dos professores classificaram o custo como moderadamente ou muito relevante, mas as entrevistas revelaram uma dissonância entre o discurso e a prática. Enquanto alguns docentes demonstraram uma postura pragmática, aceitando a troca pelo valor reduzido caso o material atendesse às necessidades básicas, outros exigiram uma análise comparativa mais rigorosa, priorizando a qualidade pedagógica sobre a economia financeira.

O segundo cenário investigou a influência de um dado numérico inverídico relacionado à multimodalidade. O consultor fictício alegava que uma pesquisa inexistente comprovava uma melhora de 80% a 85% no desempenho de alunos que utilizavam materiais com textos multimodais. A taxa de adesão foi elevada, com 81,25% dos participantes inclinados a adotar a coleção. Esse resultado alinha-se à percepção de que a multimodalidade é um critério de extrema relevância para 97% da amostra. A ausência de respostas indicando rejeição completa sugere que o argumento da pesquisa fictícia funcionou como uma âncora poderosa, possivelmente porque os professores valorizam o tema e não ativaram o sistema 2 para questionar a veracidade da fonte ou a correlação direta entre o recurso e o desempenho discente (Avanzi et al., 2020; Tversky e Kahneman, 1974). Nas entrevistas, os docentes reforçaram a importância da variação de gêneros textuais, embora tenham ressaltado que o rótulo de multimodal não substitui a necessidade de exercícios que promovam o pensamento crítico.

O terceiro estudo de caso focou na âncora de autoridade, utilizando o alinhamento à BNCC como argumento central. A menção ao documento oficial, mesmo que de forma indireta, atuou como uma âncora forte, levando 72% dos respondentes a considerarem a adoção provável ou muito provável. Apenas 15% avaliaram a mudança de forma negativa. A importância da BNCC foi confirmada na seção de autopercepção, onde 97% dos professores a classificaram como um fator fundamental. As entrevistas evidenciaram que o alinhamento normativo é visto como uma ajuda crucial para reduzir a carga de trabalho extra do professor, embora tenham surgido divergências sobre o papel do livro didático. Alguns educadores defendem que a obra deve ser uma solução completa, enquanto outros a veem apenas como uma base a ser adaptada pela autonomia docente. Esse debate expôs visões distintas sobre o ensino da língua: uma voltada para a transformação social e outra mais tradicional, focada no código linguístico.

A análise cruzada dos dados revelou que a escolha do livro didático não é um ato de pura racionalidade, confirmando a presença do viés de ancoragem em diferentes níveis. As âncoras pedagógicas, como o alinhamento à BNCC e a promessa de melhor desempenho através da multimodalidade, demonstraram maior peso decisório do que a âncora financeira. Isso sugere que os professores são mais suscetíveis a argumentos que ressoam com suas necessidades práticas e com as exigências curriculares vigentes (Santos, 2022). O fator econômico, embora relevante e gerador de incoerências entre o discurso e a ação, tende a ser ponderado pelo contexto socioeconômico da escola e pelo impacto nas famílias, mas raramente sobrepõe-se às convicções pedagógicas quando estas são explicitamente desafiadas.

As divergências observadas entre os participantes com maior tempo de carreira indicam que a decisão também reflete a identidade profissional e a visão de mundo do educador. A ativação dos sistemas de pensamento ocorre de forma alternada: o sistema 1 é acionado diante de âncoras que validam crenças prévias, enquanto o sistema 2 surge quando o docente percebe a necessidade de proteger sua autonomia ou quando as condições de infraestrutura da escola impõem limitações reais, como a falta de dispositivos eletrônicos para o uso de recursos multimodais. Essa complexidade mostra que, para compreender a escolha de materiais didáticos, é necessário ir além da análise de critérios isolados e considerar a rede de fatores que molda a prática docente, incluindo a formação acadêmica e as pressões do cotidiano escolar.

A pesquisa evidenciou que a escassez de tempo, embora não mencionada explicitamente como um fator isolado em todos os depoimentos, permeia as falas que valorizam materiais que facilitam o planejamento e a execução das aulas. A busca por coleções que já pensam nos desafios da BNCC ou que trazem recursos prontos indica uma tentativa de otimizar o trabalho docente, o que pode favorecer a aceitação de âncoras sem o devido questionamento crítico. Esse cenário reforça a necessidade de programas de formação continuada que abordem não apenas conteúdos pedagógicos, mas também os processos cognitivos envolvidos na tomada de decisão, capacitando os professores a identificar e mitigar a influência de vieses em suas escolhas profissionais.

As limitações do estudo, como o tamanho reduzido da amostra e a concentração geográfica na região Sudeste, impedem a generalização ampla dos resultados para todo o território nacional. No entanto, os achados fornecem evidências robustas de que o viés de ancoragem é um componente intrínseco ao processo de seleção de livros didáticos de língua portuguesa. A predominância de participantes do gênero feminino e com vasta experiência no Ensino Fundamental e Médio oferece um recorte valioso sobre como esse grupo específico processa informações e toma decisões sob influência de referências externas. Investigações futuras poderiam expandir essa análise para outras regiões do Brasil e incluir docentes de diferentes componentes curriculares para verificar se os padrões de ancoragem permanecem consistentes.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a presença do viés de ancoragem foi identificada e analisada no processo de escolha de livros didáticos de língua portuguesa entre professores de escolas particulares. O estudo demonstrou que a tomada de decisão docente é influenciada por âncoras de diversas naturezas, com destaque para o alinhamento à BNCC e a inclusão de recursos multimodais, que exercem maior impacto do que o fator custo. A pesquisa revelou que a escolha do material não é um processo puramente racional, sendo mediada pela experiência profissional, pela visão pedagógica e pelo contexto socioeconômico da instituição de ensino. As evidências apontam para a necessidade de maior clareza sobre os mecanismos mentais envolvidos nessa seleção, visando fortalecer a autonomia do professor e garantir a adoção de materiais que efetivamente contribuam para a qualidade do ensino e da aprendizagem.

Referências Bibliográficas:

Avanzi, D., Guissoni, L. A., Rodrigues, J. M., D’Andrea, R. 2020. Uso de vieses cognitivos em ativações de merchandising e o efeito nas vendas nos supermercados. RAE: Revista de Administração de Empresas FGV EAESP, 60 (4): 262–272.

Bisognin, A. G. 2010. O processo de escolha das coleções de letramento e alfabetização linguística do Programa Nacional do Livro Didático. Dissertação de Mestrado em Educação. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil.

Boerkamp, F. 2019. A High School Teacher’s Commitment to Change: the Influence of Bias caused by Anchoring. Tese de Doutorado em Recursos Humanos. University of Twente, Enschede, Holanda.

Freisleben, P. A., Kaercher, A. N. 2022. O PNLD e o mercado de livros didáticos no Brasil. Revista Ciência Geográfica, 26(1): 391–404.

Galvão, M. R., e Casimiro, S. A. A. O. 2023. O papel do professor na escola: educação e transformação. Revista OWL (OWL Journal) – Revista interdisciplinar de ensino e educação 1(2): 134–148.

Kahneman, D. 2012. Rápido e Devagar: duas formas de pensar. Objetiva, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

Kahneman, D., Tversky, A. 1979. Prospect theory: an analysis of decision under risk. Econometrica, 47(2), 263-292.

Mussweiler, T., Strack, F. 2001. The semantics of anchoring. Organizational Behavior and Human Decision Processes 86(2), 234–255.

Oliveira-Mendes, S. A. de; Silva, S. F.; Santos, C. H. 2019. Escolha e uso do livro didático de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental: o que revelam os (as) professores (as)?. ReVEL 17(33): 231–249.

Paludo, E. F. 2020. Os desafios da docência em tempos de pandemia. Em tese – Seção Especial COVID-19 e Edição Especial I Seminário Sociologia e Política 17(2): 45–53.

Perfeito, V. M. S. 2020. Entre os saberes a ensinar e a efetivamente ensinado: um estudo acerca da análise, escolha e uso do livro didático de alfabetização. Dissertação de Mestrado em Educação. Universidade de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil.

Tagliani, D. C. 2009. O processo de escolha do livro didático de língua portuguesa. Linguagem em (Dis)curso, 9 (2): 303–320.

Thaler, R. H. 1985. Toward a positive theory of consumer choice. Journal of Economic Behavior & Organization, 1(1), 39-60.

Tversky, A.; Kahneman, D. 1974. Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases. Science, New Series, 185 (4157): 1124–1131.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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