
02 de março de 2026
A Percepção de profissionais do mercado sobre as contribuições do estágio para o desenvolvimento de carreira
Adriana Pedreira Santos; Antonio Cesar Amaru Maximiano
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A escolha de uma profissão ou carreira representa o passo inicial para o ingresso qualificado de um jovem no mundo do trabalho, configurando uma decisão complexa que exige uma análise minuciosa das dinâmicas de mercado. A inserção produtiva bem-sucedida e a consequente consolidação de uma trajetória profissional implicam diretamente no desenvolvimento pessoal, social e econômico do indivíduo. Entretanto, essa etapa é frequentemente permeada por incertezas e obstáculos que geram insegurança sobre o futuro. Para compreender a formação profissional, é necessário analisar o conceito de carreira sob múltiplas perspectivas teóricas. Edward T. Hall (1976 apud Dutra, 1996) define carreira como uma sequência de atitudes e comportamentos associados a experiências e atividades relacionadas ao trabalho ao longo da vida de uma pessoa. Essa visão sugere que a carreira é uma trajetória contínua composta por elementos interligados, transcendendo o mero emprego ou a ocupação momentânea. Nesse sentido, as características pessoais, os valores e os comportamentos individuais desempenham papéis fundamentais na construção dessa jornada, uma vez que o sucesso profissional não está estritamente vinculado às habilidades técnicas, mas também à forma como o indivíduo se relaciona com o ambiente e com os outros.
O planejamento e a gestão de carreira são fatores relativamente recentes no cenário educacional brasileiro. Historicamente, muitos jovens eram induzidos a seguir trajetórias profissionais baseadas nos desejos familiares, o que impedia uma reflexão crítica sobre interesses próprios. Dados de uma pesquisa realizada em 2013 pela Universidade Anhembi Morumbi com 18.477 alunos do terceiro ano do ensino médio em São Paulo revelaram que 41% dos estudantes não sabiam qual curso desejavam seguir. Entre os 59% que já haviam escolhido uma área, menos de 50% possuíam qualquer contato com a profissão, o que evidencia a dificuldade juvenil em realizar processos de autoanálise. A pressão externa pode resultar em inserções mal-sucedidas no mercado, reforçando a necessidade de incentivar o protagonismo dos jovens em suas decisões. O estágio surge, então, como uma experiência prática essencial durante a formação superior, permitindo que o estudante aplique conhecimentos específicos e avalie subáreas de atuação. Todavia, a eficácia desse processo é questionável em alguns contextos; um levantamento da Companhia de Estágios em 2020, com 5.155 respondentes no Brasil, indicou que seis em cada 10 estagiários não se sentiam prontos para o mercado de trabalho formal, alegando a necessidade de maior experiência profissional. Diante desse cenário, torna-se imperativo investigar a percepção de profissionais já inseridos no mercado sobre as reais contribuições do estágio para o desenvolvimento de carreira.
A investigação caracteriza-se como uma pesquisa descritiva de abordagem qualitativa e quantitativa, estruturada para proporcionar uma compreensão abrangente do fenômeno social estudado. A pesquisa descritiva utiliza métodos que incluem o levantamento de opiniões, atitudes e valores para capturar nuances inerentes ao objeto de estudo (Thesaurus, 2016). A abordagem qualitativa, por sua vez, fundamenta-se na premissa de que o ser humano interpreta constantemente o mundo ao seu redor, interagindo de maneira ativa com o ambiente (Oliveira, 2008). Os dados empíricos foram coletados entre os meses de junho e setembro de 2025, utilizando um critério de acessibilidade para a definição da amostra. Participaram do estudo 38 profissionais que concordaram voluntariamente com os objetivos da pesquisa, configurando uma amostra não probabilística por conveniência (Marconi, 1990). O processo operacional envolveu a tabulação das informações em planilhas eletrônicas e a aplicação da técnica de análise de conteúdo para o tratamento dos dados coletados.
A análise das comunicações visou obter indicadores que permitissem a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção das mensagens (Bardin, 1994 apud Silva; Gobbi; Simão, 2004). Para o processamento das perguntas abertas, utilizou-se a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), técnica desenvolvida no final da década de 1990 por Lefevre e Lefevre. O DSC fundamenta-se na teoria da Representação Social e visa organizar dados qualitativos de depoimentos individuais em discursos-síntese que representam o pensamento de um grupo. O método consiste na identificação de Expressões-Chave (ECH), que são trechos literais das falas que revelam a essência do depoimento, e Ideias Centrais (IC), que resumem o sentido presente nas respostas. Em alguns casos, utiliza-se a Ancoragem (AC), que expressa a teoria ou ideologia subjacente ao discurso. O resultado final do DSC é um texto escrito na primeira pessoa do singular, que reúne as ECHs com ICs semelhantes, proporcionando uma visão coletiva e unificada sobre o tema (Figueiredo; Chiari; Goulart, 2013). Essa metodologia permitiu transformar as percepções individuais dos 38 participantes em discursos representativos sobre a carreira e a experiência de estágio.
A caracterização dos respondentes revelou um perfil diversificado, com predominância do gênero feminino, que representou 57,89% da amostra (22 participantes), enquanto o gênero masculino correspondeu a 36,84% (14 participantes) e 5,27% preferiram não se identificar. No que tange à formação acadêmica, houve uma concentração significativa na área de Ciências Humanas, com 18 profissionais, seguida por Engenharias e Ciências Sociais Aplicadas, ambas com sete representantes cada. As áreas de Ciências Exatas e da Terra e Linguística, Letras e Artes tiveram participações menores, com cinco e um integrante, respectivamente. Um dado relevante é que 86,84% dos respondentes (33 pessoas) atuam na mesma área de sua formação de ensino superior. Segundo Selma Garrido Pimenta (1995), o estágio deve levar os alunos a uma análise das realidades sobre as quais atuarão, servindo como fonte de experiências concretas para discussões pedagógicas. A alta taxa de atuação na área de formação reforça a importância de analisar como o estágio contribuiu para essa trajetória. Quanto à situação ocupacional, 28 participantes estão empregados sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o que reflete o cenário nacional apontado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de julho de 2025, que registrou 39 milhões de brasileiros com carteira assinada.
Ao explorar o conceito de carreira por meio do DSC, identificaram-se quatro Ideias Centrais. A primeira define a carreira como uma jornada de desenvolvimento contínuo, onde as experiências acumuladas promovem evolução pessoal e profissional. A segunda associa a carreira a um propósito e missão de vida, funcionando como um caminho para a expressão de talentos. A terceira visão foca na carreira como meio de realização pessoal e estabilidade financeira. Por fim, a quarta IC descreve a carreira como uma construção prática e aplicada, que se inicia precocemente com estágios e cursos. Essas percepções alinham-se às teorias de Holland (1958, 1996, 1997), que sustenta que a essência da carreira baseia-se nas experiências vividas pelo indivíduo. A exploração de diversas situações permite que a pessoa defina sua área de atuação e construa sua trajetória. Brown (1996, 2002, 2003) complementa essa visão ao definir carreira como um processo ao longo da vida resultante de escolhas, envolvimento e ajuste de ocupações, moldado pelos valores e priorizações do indivíduo. Savickas (2005, 2011, 2013) também destaca a natureza subjetiva e reflexiva desse percurso, enfatizando a interação social e o desenvolvimento pessoal contínuo.
Os fatores que mais influenciaram as decisões de carreira dos participantes foram as experiências práticas, citadas por 76,31% da amostra (29 respondentes). Esse dado confirma a tese de Holland (1958) de que a carreira se desenvolve a partir de vivências pessoais e da identificação da verdadeira vocação em situações reais. Outros influenciadores mencionados incluíram a família (três), professores e universidade (três), autoconhecimento (dois) e mentores (um). A análise da experiência específica de estágio revelou que, para os profissionais, essa etapa significa uma oportunidade valiosa de aprendizado e crescimento, além de ser a porta de entrada no mercado de trabalho. O estágio é percebido como um espaço de descoberta e experimentação, onde o estudante pode conhecer suas aptidões antes de se especializar. Em uma escala de 1 a 5 sobre o quanto o estágio preparou o indivíduo para o mercado, 18 participantes atribuíram a nota máxima e 10 atribuíram a nota 4, indicando uma percepção altamente positiva em 73,68% da amostra. Apenas uma pequena parcela (7,89%) demonstrou insatisfação com a preparação recebida.
A contribuição do estágio para o entendimento da área de atuação também foi avaliada de forma expressiva, com 22 respondentes atribuindo nota 5 e 10 atribuindo nota 4. Esses resultados corroboram a visão de Brown (1996) sobre a carreira ser um processo de escolha e ajustamento influenciado por vivências práticas. O estágio, como componente valioso, impacta positivamente as escolhas de ocupações futuras. No que diz respeito à aplicação prática dos ensinamentos acadêmicos, a percepção foi variada: 31,57% deram nota 4 e 21,05% deram nota 5, enquanto 15,78% deram nota 2. Essa diversidade de respostas sugere que a implementação dos conhecimentos teóricos no ambiente de estágio depende das características específicas de cada vaga e instituição, conforme previsto na Lei 11.788, que define o estágio como um ato educativo escolar supervisionado. A importância do estágio na construção da carreira foi ratificada por 50% dos participantes com nota máxima e 39,5% com nota 4, totalizando quase 90% de aprovação substancial. Esse alinhamento integral com a definição de Hall (1976) reforça que o estágio molda as atitudes e comportamentos relacionados ao trabalho.
Os aspectos mais valorizados no momento de escolher um estágio foram a exploração de carreira (14 respondentes) e a aplicação prática de conhecimentos (10 respondentes). O networking e os relacionamentos profissionais foram destacados por cinco participantes, evidenciando uma conscientização sobre a importância do capital social. Curiosamente, remuneração, benefícios e possibilidade de efetivação foram os critérios menos citados, com apenas três indicações cada. Isso demonstra que, para a amostra estudada, o caráter formativo e de aprendizado do estágio sobrepõe-se aos ganhos financeiros imediatos. Tais achados estão em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Administração, que estimulam atividades que articulem teoria e prática para o desenvolvimento de competências. O estágio é, portanto, um exemplo de processo de ensino-aprendizagem que proporciona a interseção necessária entre o mundo acadêmico e o corporativo, permitindo ao estudante testar afinidades e desenvolver autonomia na tomada de decisões.
A discussão dos resultados aponta que o estágio funciona como um laboratório de autoconhecimento e amadurecimento. O contato próximo com lideranças e a recepção de feedbacks são vistos como bússolas para o aprimoramento contínuo. A troca de experiências no ambiente profissional é interpretada não apenas como aquisição de técnica, mas como um catalisador para a compreensão da cultura organizacional. Savickas (2013) argumenta que a carreira deve ser vista como uma construção subjetiva moldada pelas interpretações das memórias passadas e aspirações futuras. O estágio atua como o ponto inicial dessa construção, onde o indivíduo começa a forjar sua identidade profissional. A capacidade de assumir responsabilidades e enfrentar desafios com resiliência durante o estágio prepara o jovem para a complexidade do mercado formal. Em suma, a vivência prática contribui para a formação de profissionais mais seguros e decididos, capazes de realizar escolhas conscientes e alinhadas com seus objetivos de longo prazo.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a percepção dos profissionais confirmou que o estágio é um elemento central e indispensável para o desenvolvimento de carreira, transcendendo a mera aplicação de conhecimentos técnicos para se configurar como um processo de formação integral. A pesquisa demonstrou que a experiência prática é o fator de maior influência nas decisões profissionais, proporcionando maturidade, autonomia e uma compreensão clara das vocações individuais. O estágio atua como um facilitador da transição entre a universidade e o mercado, mitigando as inseguranças juvenis e promovendo uma inserção produtiva mais assertiva. Verificou-se que a valorização do aprendizado e da exploração de possibilidades supera as expectativas financeiras imediatas, consolidando o estágio como um espaço legítimo de experimentação e construção da identidade profissional. Assim, a vivência organizacional precoce estabelece as bases para uma trajetória de sucesso, fundamentada no autoconhecimento e na capacidade de adaptação aos desafios contemporâneos do mundo do trabalho.
Referências Bibliográficas:
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FIGUEIREDO, P. R. P.; CHIARI, B. M.; GOULART, B. N. G. (2013). Discurso do sujeito coletivo: teoria e prática. São Paulo: Vetor.
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OLIVEIRA, M. M. (2008). Metodologia de pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Cortez.
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THESAURUS. (2016). Thesaurus of social sciences.
UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI. (2013). Pesquisa com alunos do 3º ano do ensino médio, São Paulo.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em MBA em Gestão de Pessoas
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