Caminhos do conhecimento: a importância da organização na pesquisa científica

Coluna

23 de abril de 2024

Caminhos do conhecimento: a importância da organização na pesquisa científica

Projeto claro com todo o processo detalhado evita possíveis distorções e fugas de rota

“O que não tem certeza, nem nunca terá/O que não tem conserto, nem nunca terá”. Esse trecho da música “Que Será (À Flor da Terra)”, de 1976, composta por Chico Buarque, convida a refletir sobre a jornada da vida e remete à importância de vivenciá-la com sabedoria e flexibilidade. As incertezas, inerentes aos caminhos que as escolhas pessoais traçam, avançam para as diversas áreas da construção do saber.

Essas reflexões sobre a existência, o tempo, o passado e o futuro também são importantes na hora de explorar novas possibilidades na ciência. Como nos versos que questionam as incertezas do percurso, são poucas as certezas de quem inicia uma pesquisa.

O processo da pesquisa é uma construção. O desenvolvimento do estudo de forma estruturada é o alicerce que garante a reprodução de dados confiáveis e significativos, o que, por sua vez, auxilia no entendimento do leitor. A qualidade de qualquer estudo, seja científico, acadêmico ou de mercado, depende em grande parte de como o trabalho vai ser apresentado.

Ao delinear uma pesquisa de forma precisa e organizada, os pesquisadores não apenas garantem a credibilidade de seus resultados, mas também facilitam a compreensão e a interpretação das descobertas por parte do público-alvo. A clareza nesse ponto é de suma importância para que o autor não se perca nas adversidades do caminho, assim como ecoa a canção que é a premissa deste texto (leia mais sobre clareza na última coluna da Editora Pecege, pelo link (https://cms.revistaes.com.br/colunas/onde-esta-a-clareza/).

Cooper e Schindler (2003) salientam, em seu livro sobre métodos e pesquisas em administração, que esse caminho deve ter como base um projeto claro com todo o processo detalhado, com o principal intuito de evitar possíveis distorções e fugas de rota.

Nesse sentido, os autores também abordam que as estratégias devem se basear nos estágios básicos de formulação da pesquisa; por isso, é importante ter um cronograma de cada ação, a partir da escolha das ferramentas de pesquisa que serão utilizadas, para que o autor tenha controle das variáveis que podem vir a ocorrer durante a execução.

Entender essas variáveis envolve escolher a que tipos de texto o pesquisador pretende se dedicar. Para se aprofundar nesse assunto, leia a primeira coluna da Editora Pecege, que aborda a importância do conhecimento científico e as diferenças entre artigo científico e artigo técnico-científico (https://cms.revistaes.com.br/coluna/produzindo-ciencia-gerando-conhecimento/).

Até aqui deve ter ficado patente que conhecer o público-alvo e ter uma estrutura bem definida desde o início da pesquisa são pontos importantes para o sucesso de qualquer estudo. A figura abaixo mostra como esse processo pode ser estruturado:

Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Volpato (2015) e Cyrino (2019).

Estruturar o projeto de maneira adequada não apenas ajuda a evitar distorções e desvios durante o processo, mas também auxilia na superação das dificuldades inerentes à jornada da pesquisa científica, assim como descreve Volpato em seu “Guia Prático para Redação Científica”, de 2015. Uma das principais dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores é a elaboração de um plano de trabalho que concilie um tema com a necessidade de clareza e organização. Essa tarefa pode ser especialmente desafiadora diante das incertezas que permeiam o processo de investigação, exigindo dos pesquisadores habilidades de análise crítica, flexibilidade e adaptação. A seguir um guia ajuda a entender como uma pesquisa pode ser estruturada de maneira eficaz, destacando a importância de cada componente na produção de dados de alta qualidade.

  • Título

Uma descrição curta e informativa do conteúdo do artigo. Algo sucinto e preciso, que represente de forma clara o trabalho. Volpato (2015) salienta que o título é o chamariz do artigo e deve abordar os principais conceitos elencados na pesquisa.

  • Resumo e abstract

Um breve resumo dos principais tópicos do trabalho: objetivos, métodos, resultados e conclusões do estudo. Apresente em forma resumida a essência do trabalho (Volpato, 2015), geralmente entre 100 e 250 caracteres. O resumo deve estar na língua do idioma do texto, acompanhado do abstract, que é a tradução em inglês desse recorte. É comum elaborar esse texto por último, pois é nele que estarão as principais informações de cada seção do trabalho, do objetivo até os resultados.

  • Palavras-chave

O resumo/abstract deve ser acompanhado de palavras-chave. São as palavras principais que norteiam o artigo. Para a publicação e posterior citação dos artigos em revistas, é importante a escolha adequada desses termos, de modo que os textos sejam capturados nos mecanismos de busca dos periódicos e alcancem seus leitores principais (Garcia, Gattaz e Gattaz, 2019). Em geral entre três e cinco palavras são suficientes.

  • Introdução

É nessa seção que o autor apresenta ao leitor o caminho da pesquisa e desperta a atenção para o tema. O tópico deve conter as principais informações que levaram à escolha do tema (Cyrino, 2019). Nessa parte é importante trazer dados de fontes atuais e confiáveis para contextualizar a hipótese e/ou objetivo (exemplo: IBGE, ONU, OMS, IPCA, entre outros indicadores e fontes governamentais); a partir daí é possível elaborar a justificativa do trabalho para desencadear na problemática de estudo.

LEMBRETE: um bom estudo deve ter um problema claro a ser resolvido. Uma vez estabelecido, ele ajuda a traçar o objetivo geral e os eventuais objetivos específicos que servirão de auxílio para responder à problemática central do artigo.

  • Levantamento do estado da arte/revisão da literatura/referencial teórico

Essa seção, que tem várias nomenclaturas, a depender da estrutura do trabalho, diz respeito a todo o contexto intelectual e literário existente sobre o assunto. Em alguns tipos de texto, como os técnicos-científicos, a base de literatura deve ser apresentada juntamente com a introdução. Cooper e Schindler (2003) argumentam que, para que um projeto seja reconhecido, é necessário conhecer e utilizar uma vasta bibliografia a respeito do assunto tratado.

Nessa seção deve ser construída a estrutura de contextualização do estudo, com o intuito de abordar uma análise aprofundada sobre o tema, procurando possíveis lacunas e/ou contribuições acerca do que se tem estabelecido na literatura. Vale lembrar que a literatura deve estar presente em todo o desenvolvimento do texto para contextualização do assunto e validação da metodologia adotada, que também deve ser representada por referências do assunto.

  • Materiais e métodos/metodologia

Nessa parte o pesquisador deve realizar uma descrição detalhada dos métodos e procedimentos utilizados para conduzir o estudo, incluindo informações sobre o desenho da pesquisa, amostras, materiais e instrumentos utilizados. É nessa seção que deverá estar presente o caminho por onde sua pesquisa irá percorrer, as ferramentas metodológicas que foram utilizadas, quem e quantas pessoas/empresas foram estudas. Aqui você deve traçar o cronograma das tarefas evidenciando como o trabalho foi conduzido.

Em seu livro “Segredos e Truques da Pesquisa”, Becker (2008) salienta que a base metodológica de uma pesquisa desempenha um papel crucial na garantia da qualidade e credibilidade dos resultados. O autor avalia que é essencial que os pesquisadores identifiquem os métodos mais adequados para coletar e analisar os dados necessários para responder às suas perguntas de pesquisa. Isso pode envolver uma variedade de técnicas, desde entrevistas e observações até análises estatísticas complexas, dependendo da natureza do problema de pesquisa e dos dados disponíveis.

  • Resultados e análise dos dados/discussão

Nessa seção, devem ser apresentadas as principais contribuições e resultados do estudo da forma mais clara e concisa que for possível. Geralmente, esses dados são acompanhados por tabelas, gráficos ou figuras, e o autor pode validar ou refutar as variáveis, tratar os dados e informações coletadas e detalhar as descobertas da pesquisa.

Cyrino (2019) destaca que, dependendo do formato do texto e do veículo de publicação escolhido, os resultados e a discussão podem ser apresentados de forma combinada e intercalada. Isso envolve compartilhar as descobertas da pesquisa conforme os métodos empregados, ao mesmo tempo em que é feita a discussão e interpretação dos dados, trazendo as reflexões embasadas pelo autor.

Em alguns periódicos e trabalhos, recomenda-se separar essas duas seções. Portanto, é crucial estudar o periódico antes de submeter um texto à publicação, para compreender suas diretrizes específicas.

  • Conclusão/considerações finais

As principais conclusões do estudo devem aparecer nesse trecho do artigo, além das impressões do autor a respeito das implicações do estudo para o campo de pesquisa e as recomendações para pesquisas futuras que porventura retomem os principais pontos do estudo. É nessa seção que devem ser apresentadas as contribuições que os resultados do trabalho trouxeram, além de responder ao objetivo proposto pela pesquisa.

  • Referências

A seção de referências é responsável pela credibilidade e pela validação do trabalho acadêmico. Não se trata apenas de uma formalidade, mas sim de uma parte essencial do processo de pesquisa, que demonstra a base teórica e metodológica utilizada pelo autor.

Cada periódico possui suas especificidades para a citação das referências. ABNT, APA e Vancouver são algumas das principais normas utilizadas para formular as citações. É interessante investigar os parâmetros do periódico escolhido antes de submeter o artigo à publicação e, depois, adequar o texto às normas e modelos exigidos (Cyrino, 2019).

Assim como a jornada da vida, a construção de um artigo científico é permeada por incertezas, desafios e descobertas. Da mesma forma que os versos de Chico Buarque nos convidam a refletir sobre os caminhos que percorremos, a preparação para a escrita de um artigo científico chama o pesquisador para vivenciar a trajetória da pesquisa científica com sabedoria e estruturação. Esperamos que esse texto auxilie você a trilhar um caminho mais claro para seus estudos!

Para ter acesso às referências desse texto clique aqui.

Este conteúdo foi produzido por:

Luiz Eduardo Giovanelli

LinkedIn/Lattes

Editor assistente da Revista Estratégias e Soluções. Mestrando em Administração pela Universidade de São Paulo. Especialista em Gestão Pública pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e graduado em Administração pela Universidade Estadual do Norte do Paraná. 

Quem publicou esta coluna

Editora Pecege

Produz materiais nas áreas de agronegócios, educação, gestão e tecnologia, prestando serviços de padronização, revisão, elaboração de ficha catalográfica e produção gráfica. Gerencia a publicação das revistas Quaestum (científica) e Estratégias e Soluções – E&S – (técnico-científica) e publica livros em diversas áreas.

Você também pode gostar

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade