Artigo

05 de outubro de 2026

Impactos dos ciclos de alta da taxa Selic sobre a gestão do capital de giro

Impactos dos Ciclos de Alta da Taxa Selic sobre a Gestão do Capital de Giro

Gabriel Branquinho Gobbo Silva; Anderson Cesar Gomes Teixeira Pellegrino

DOI: 10.22167/2675-6528-202602931

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A volatilidade da política monetária brasileira, marcada por dois ciclos expressivos de alta da taxa Selic entre 2021 e 2025, gerou impactos relevantes sobre o custo do capital de giro das empresas, especialmente no setor varejista. O trabalho analisou os efeitos dos ciclos de aumento da taxa Selic sobre a gestão do capital de giro da Magazine Luiza S.A. no período de 2021 a 2025 e identificou as estratégias adotadas pela companhia para mitigar esses efeitos. A pesquisa adotou abordagem quantitativa, de natureza exploratória e delineamento de estudo de caso único, baseada em dados secundários de demonstrações financeiras da Magazine Luiza e séries históricas da Selic do Banco Central. Calcularam-se indicadores de capital de giro (Necessidade de Capital de Giro [NCG], Ciclo de Caixa [CCC] e custo de oportunidade da NCG), aplicou-se correlação de Pearson entre a Selic e esses indicadores, e realizou-se análise contrafactual para isolar os efeitos da gestão ativa da NCG. Os resultados revelaram que a NCG recuou 49,07%, o CCC foi comprimido de 104,3 para 39,4 dias, e o custo de oportunidade da NCG em 2025 foi inferior ao de 2022, mesmo com a Selic na maior média do período, graças à redução ativa da NCG. A análise contrafactual quantificou economia acumulada de R$ 1,36 bilhão entre 2022 e 2025. As correlações de Pearson indicaram relação negativa muito forte entre Selic e PMRE (r = -0,99) e positiva forte entre Selic e PMPF (r = +0,72). Concluiu-se que a gestão ativa e proativa do capital de giro foi capaz de amortecer significativamente os efeitos do aperto monetário, evidenciando que a capacidade de adaptação operacional e financeira constitui um diferencial competitivo estratégico para empresas intensivas em capital de giro.

Palavras-chave: Capital de giro; Magazine Luiza; Política monetária; Taxa Selic; Varejo.

1. Introdução

A avaliação do desempenho empresarial é um tema central na gestão corporativa contemporânea, impulsionada por um cenário econômico global caracterizado por incertezas, alta volatilidade, intensa concorrência e rápidas transformações tecnológicas. Embora a perspectiva financeira seja proeminente, o desempenho de uma empresa é multidimensional e não pode ser compreendido apenas por números isolados (Gitman, 2010). Neste contexto, indicadores financeiros atuam como ferramentas essenciais para traduzir a complexidade das operações em métricas comparáveis, auxiliando na análise do presente e na projeção de cenários futuros (Payoneer, 2025).

Dentro dessa complexidade, o custo do capital de giro emerge como um fator crucial para a análise do desempenho empresarial, sendo fundamental para as obrigações e a manutenção das operações diárias (BNDES, 2018). No Brasil, esse custo é diretamente influenciado pela taxa básica de juros, conhecida como taxa Selic, que é o Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (BACEN, 2026). Definida pelo Banco Central do Brasil, a taxa Selic serve como piso para as demais taxas de juros da economia, impactando investimentos, acesso e custo do crédito, câmbio e a dívida pública, configurando-se como a principal ferramenta de política monetária para o controle da inflação (BACEN, 2026).

Recentemente, a economia global enfrentou um período de grande turbulência, iniciado pela pandemia de COVID-19. A interrupção abrupta da atividade econômica global resultou em severa redução do consumo, comércio e investimentos, gerando uma pressão deflacionária e o risco de deflação (Fundo Monetário Internacional Blog, 2020). Em resposta, bancos centrais ao redor do mundo, incluindo o Fed nos Estados Unidos, o Banco Central Europeu e o Banco Central do Brasil, implementaram políticas de redução das taxas básicas de juros para os menores níveis históricos, visando baratear o crédito e apoiar a economia (CNN, 2020; BACEN, 2026).

Entretanto, a reabertura econômica subsequente, impulsionada por uma demanda robusta, cadeias de suprimentos fragilizadas e alta liquidez acumulada devido às medidas de estímulo, culminou em uma crise inflacionária de proporções históricas (Agência Brasil, 2022). Para combater essa nova crise, o Banco Central do Brasil iniciou dois ciclos de elevação da taxa Selic. O primeiro ocorreu entre março de 2021 e agosto de 2022, elevando a taxa de dois por cento para 13,75% ao ano. Após um período de estabilidade e cortes, um segundo ciclo de alta teve início em setembro de 2024, atingindo 15% ao ano em junho de 2025 e mantendo-se nesse patamar até o final do período de análise (BACEN, 2026).

Esses ciclos de alta da taxa Selic exercem impactos significativos em todos os setores da economia, com especial relevância para o setor varejista. O varejo, por ser o elo final da cadeia econômica e depender intensamente de crédito parcelado e financiamento operacional, é diretamente afetado pela redução do acesso ao crédito e da renda do consumidor, o que comprime suas receitas, e pelo aumento do custo de estoque e do capital de giro, impactando as margens de lucro (Fecomercio SP, 2025). A gestão do capital de giro é, portanto, vital para a saúde financeira, o potencial de crescimento e a eficiência operacional das organizações (SAP, 2024).

Diante desse cenário, a análise da Magazine Luiza S.A. torna-se particularmente relevante. A empresa é uma das maiores representantes do varejo brasileiro, destacando-se pela integração entre operações físicas e digitais. Sua condição de companhia listada na bolsa de valores (MGLU3) garante a publicidade e a rastreabilidade de suas demonstrações financeiras, permitindo acesso confiável aos dados necessários para este estudo (Investing, 2025). A peculiaridade do objeto de estudo e a relevância do recorte temporal, que abrange os dois ciclos de aperto monetário entre 2021 e 2025, justificam a escolha da empresa para uma análise aprofundada dos impactos da política monetária.

Este estudo se justifica pela necessidade de compreender como as empresas do setor varejista podem mitigar os efeitos de um ambiente de juros elevados, demonstrando que a capacidade de adaptação operacional e financeira constitui um diferencial competitivo estratégico. Assim, o objetivo deste trabalho é analisar os efeitos dos ciclos de alta da taxa Selic sobre a gestão do capital de giro da Magazine Luiza S.A. no período de 2021 a 2025 e identificar as estratégias adotadas pela companhia para mitigar esses efeitos.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa foi realizada a partir de uma abordagem metodológica de natureza aplicada, estruturada conforme as definições propostas por Gil (2017) e outros autores citados no Manual de Metodologias (MBA ESALQ/USP, 2025). Adotou-se uma abordagem quantitativa, que considera os dados e informações coletados como quantificáveis, analisados e interpretados numericamente (Turrioni e Mello, 2012; Godoy, 1995), utilizando técnicas estatísticas para medir relações entre variáveis (Prodanov e Freitas, 2013).

Em relação aos objetivos, a pesquisa foi classificada como exploratória, visando possibilitar maior familiaridade com a questão analisada e facilitar a consolidação de objetivos e o desenvolvimento de hipóteses (Gil, 2010). O delineamento escolhido foi o estudo de caso único, caracterizado pela análise rigorosa e minuciosa de um objeto específico, sendo indicado para estudos descritivos ou exploratórios e para a explicação de fenômenos em seu contexto real (Gil, 2017; Yin, 2015).

A opção pelo caso único justificou-se pela peculiaridade do objeto investigado, a Magazine Luiza S.A., uma das maiores representantes do varejo brasileiro. Sua condição de companhia listada na bolsa de valores (MGLU3) garante a publicidade e a rastreabilidade de suas demonstrações financeiras, permitindo acesso confiável aos dados necessários para este estudo (Investing, 2025). O recorte temporal abrangeu o período de 2021 a 2025, compreendendo dois ciclos de aperto monetário da taxa Selic.

Os dados foram coletados a partir de fontes secundárias, obtidos de demonstrações financeiras acessíveis ao público, como balanços patrimoniais e relatórios financeiros da Magazine Luiza S.A., divulgados trimestral e anualmente. Adicionalmente, utilizaram-se dados históricos da taxa Selic, divulgados pelo Banco Central do Brasil (BACEN, 2026) por meio do Sistema Gerador de Séries Temporais (SGS), bem como publicações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e artigos científicos sobre política monetária e capital de giro. O uso de dados secundários foi justificado pela ampla disponibilidade, confiabilidade e agilidade na coleta (Malhotra, 2004).

As variáveis financeiras coletadas das demonstrações consolidadas da Magazine Luiza S.A. foram: Contas a Receber de Clientes, Estoques, Fornecedores de Mercadorias, Receita Líquida e Custo das Mercadorias Vendidas (CMV). Todos os valores foram expressos em reais mil (R$ mil). A estrutura metodológica do trabalho foi organizada com base nas diretrizes de Gil (2017), Yin (2015) e Miguel (2007).

A análise dos dados foi realizada com apoio de estatística descritiva, incluindo a análise de tendências e a elaboração de tabelas comparativas. Calcularam-se indicadores financeiros relevantes para o capital de giro, como a Necessidade de Capital de Giro (NCG), o Ciclo de Caixa (CCC) e o custo de oportunidade da NCG. A NCG foi apurada pelo método do balanço patrimonial funcional, que reorganiza as contas em ativos operacionais, passivos operacionais e contas financeiras (Assaf Neto, 2020). A fórmula utilizada foi NCG = Contas a Receber de Clientes + Estoques – Fornecedores (Mercadorias).

Adicionalmente, calculou-se o índice NCG/Receita Líquida, conforme Assaf Neto (2020), para neutralizar o efeito da expansão e identificar se a empresa consumia mais ou menos recursos operacionais proporcionalmente à sua receita. O Ciclo de Caixa, que mede o tempo em que o capital fica imobilizado na operação, foi calculado a partir de três prazos: Prazo Médio de Recebimento de Vendas (PMRV), Prazo Médio de Renovação de Estoques (PMRE) e Prazo Médio de Pagamento a Fornecedores (PMPF) (Assaf Neto, 2020; Assaf Neto e Lima, 2017).

As fórmulas aplicadas para o cálculo dos prazos foram: PMRV = Contas a Receber / (Receita Líquida/360); PMRE = Estoques / (CMV/360); e PMPF = Fornecedores / (CMV/360). O Ciclo de Caixa foi determinado pela equação CCC = PMRV + PMRE – PMPF. Para quantificar o impacto financeiro dos ciclos de alta da Selic sobre a NCG, calculou-se o custo de oportunidade anual da NCG pela fórmula: Custo da NCG = NCG x Selic Média Anual.

Complementarmente, realizou-se uma análise contrafactual, que comparou o custo efetivo da NCG identificado em cada ano com um custo hipotético que teria sido arcado pela empresa caso a NCG permanecesse no nível de 2021. Essa análise visou isolar as consequências da variação da taxa de juros dos efeitos da gestão ativa da NCG sobre o custo financeiro total da companhia. A análise de correlação de Pearson foi aplicada entre a Selic e os principais indicadores de capital de giro da empresa, como o ciclo financeiro, a NCG e o índice de liquidez corrente (Figueiredo Filho e Silva Júnior, 2009).

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados financeiros da Magazine Luiza S.A. no período de 2021 a 2025, em conjunto com as séries históricas da taxa Selic, revelou os impactos significativos dos ciclos de aperto monetário sobre a gestão do capital de giro da companhia. Os resultados demonstram que, apesar de um ambiente de juros elevados, a empresa implementou estratégias eficazes que permitiram mitigar os efeitos adversos, evidenciando uma gestão financeira proativa e adaptativa. A pesquisa focou na Necessidade de Capital de Giro (NCG), no Ciclo de Caixa (CCC) e no custo de oportunidade da NCG, além de empregar correlações de Pearson e análise contrafactual para isolar os efeitos da gestão ativa.

O cenário macroeconômico brasileiro entre 2021 e 2025 foi marcado por uma intensa volatilidade na política monetária, com dois ciclos de elevação da taxa Selic. O primeiro ciclo, iniciado em março de 2021, elevou a taxa de 2% para 13,75% ao ano até agosto de 2022. Após um período de estabilidade e cortes, um segundo ciclo de alta teve início em setembro de 2024, atingindo 15% ao ano em junho de 2025 e mantendo-se nesse patamar até o final do período analisado. Essas elevações foram respostas do Banco Central do Brasil às pressões inflacionárias pós-pandemia, conforme as deliberações do Comitê de Política Monetária (BACEN, 2026).

A Magazine Luiza S.A. se destaca como um dos principais players do varejo brasileiro, com uma operação robusta que integra canais físicos e digitais. Fundada no final da década de 1950, a empresa expandiu-se organicamente e, após a abertura de capital em 2011, consolidou sua estratégia digital e financeira, realizando aquisições importantes como Netshoes e KaBuM!. A companhia atua em quatro segmentos – varejo, operações financeiras, seguros e outros serviços – e possui cerca de mil lojas físicas em 17 estados, além de uma vasta plataforma digital. Sua capacidade de utilizar as lojas físicas como minicentros de distribuição confere uma vantagem competitiva frente a concorrentes puramente digitais (Magazine Luiza, 2026).

Apesar de sua relevância no mercado, a Magazine Luiza opera em um setor sensível aos juros elevados e à capacidade de consumo, especialmente de famílias de renda baixa a média, que dependem de crédito parcelado (Investing, 2026). A taxa Selic, como principal instrumento de política monetária, influencia diretamente o custo do crédito e o capital de giro das empresas, impactando suas receitas e margens de lucro (Fecomercio SP, 2025). A análise detalhada dos indicadores financeiros da Magazine Luiza, extraídos de suas demonstrações financeiras consolidadas, permitiu quantificar esses impactos e as respostas da gestão.

Necessidade de Capital de Giro

A Necessidade de Capital de Giro (NCG), que representa o montante de recursos necessários para financiar o ciclo operacional da empresa, foi calculada utilizando o método do balanço patrimonial funcional (Assaf Neto, 2020). Este método reorganiza as contas em ativos operacionais, passivos operacionais e contas financeiras, permitindo uma visão clara do capital de giro. A análise da NCG em termos absolutos e em relação à Receita Líquida forneceu insights sobre a eficiência da gestão em um período de alta volatilidade da taxa de juros.

Os resultados demonstraram uma redução expressiva da NCG da Magazine Luiza, que recuou 49,07% no período analisado, passando de R$ 9,124 bilhões em 2021 para R$ 4,646 bilhões em 2025. As quedas mais acentuadas na NCG foram observadas em 2023, com uma redução de 27,16%, e em 2025, com 25,79%, períodos que coincidiram com os picos da Selic média anual. Essa correlação temporal sugere uma resposta ativa da gestão da companhia aos períodos de maior aperto monetário, buscando otimizar o uso do capital.

A eficiência na gestão do capital de giro também foi confirmada pela queda do índice NCG/Receita Líquida, que diminuiu de 25,86% em 2021 para 12,01% em 2025. Essa redução de 53,58% indica uma melhora estrutural na capacidade da empresa de sustentar sua receita com menos recursos operacionais, neutralizando o efeito natural da expansão dos negócios sobre a NCG (Assaf Neto, 2020). O principal fator que impulsionou essa diminuição foi o crescimento de 44,43% no saldo de fornecedores, que avançou de R$ 5,638 bilhões para R$ 8,143 bilhões, refletindo uma estratégia deliberada de alongamento dos prazos de pagamento.

Ciclo de Caixa

O Ciclo de Caixa (CCC) é uma métrica crucial que mede o tempo em que o capital da empresa permanece imobilizado nas operações. Ele é calculado a partir de três componentes: o Prazo Médio de Recebimento de Vendas (PMRV), o Prazo Médio de Renovação de Estoques (PMRE) e o Prazo Médio de Pagamento a Fornecedores (PMPF) (Assaf Neto, 2020). A otimização desses prazos é fundamental para reduzir a necessidade de financiamento externo e, consequentemente, o custo do capital de giro.

A análise revelou uma compressão significativa do Ciclo de Caixa da Magazine Luiza, que diminuiu em 62,2%, passando de 104,3 dias em 2021 para 39,4 dias em 2025. Essa redução de 64,9 dias no período demonstra uma gestão eficaz para liberar capital. O Prazo Médio de Renovação de Estoques (PMRE) foi o componente que mais contribuiu para essa compressão, encolhendo 27,2 dias, uma redução de 22,2%. Esse movimento reflete um maior giro dos estoques, indicando maior eficiência na gestão de inventário e na velocidade do ciclo comercial (Assaf Neto, 2020).

O Prazo Médio de Pagamento a Fornecedores (PMPF) também desempenhou um papel crucial na redução do Ciclo de Caixa, expandindo-se de 75,8 dias em 2021 para 108,0 dias em 2025, um aumento de 32,2 dias. Esse alongamento dos prazos de pagamento representa uma fonte de financiamento operacional gratuito, que contribui para a redução da NCG e do CCC (Assaf Neto e Lima, 2017). Em contraste, o Prazo Médio de Recebimento de Vendas (PMRV) apresentou uma redução mais modesta de 5,4 dias, indicando que a política de crédito ao consumidor se manteve relativamente estável ao longo do período, sem grandes alterações que pudessem impactar o recebimento das vendas a prazo.

Custo da Necessidade de Capital de Giro

Para quantificar o impacto financeiro dos ciclos de alta da Selic sobre a NCG, calculou-se o custo de oportunidade anual da NCG, que é o produto da NCG pela Selic Média Anual. Este indicador permite avaliar como as variações na taxa de juros e na gestão do capital de giro influenciam o custo financeiro da empresa. A análise desse custo é essencial para compreender a eficácia das estratégias de mitigação adotadas pela Magazine Luiza.

O custo de oportunidade da NCG da Magazine Luiza apresentou uma variação complexa ao longo do período. Entre 2021 e 2022, o custo saltou 166,9%, impulsionado exclusivamente pela triplicação da taxa Selic, uma vez que a NCG recuou apenas 3,5% nesse intervalo, sendo insuficiente para compensar o aumento dos juros. Em 2021, o custo foi de R$ 414,256 milhões, subindo para R$ 1,105 bilhão em 2022, refletindo o impacto direto do primeiro ciclo de alta da Selic.

A partir de 2023, a gestão ativa da NCG começou a sobrepor o efeito dos juros elevados. Mesmo com a Selic média em 13,30% em 2023, o custo da NCG reduziu para R$ 853,430 milhões, uma queda de 22,81% em relação ao ano anterior. Em 2025, apesar da Selic atingir a maior média do período (14,42% ao ano), o custo da NCG foi de R$ 670,081 milhões, inferior ao de 2022, graças a uma NCG 47,3% menor. Essa dinâmica demonstra que a redução ativa da NCG foi crucial para amortecer o impacto do custo do capital.

Análise Contrafactual

A análise contrafactual foi realizada para isolar os efeitos da gestão ativa da NCG, comparando o custo efetivo da NCG em cada ano com um custo hipotético que a empresa teria arcado se a NCG permanecesse no nível de 2021. Essa metodologia permitiu quantificar a economia gerada pela gestão proativa da Magazine Luiza, separando-a das variações decorrentes da taxa de juros. A abordagem contrafactual é fundamental para demonstrar o valor da intervenção gerencial em cenários de aperto monetário.

Os resultados da análise contrafactual revelaram uma economia acumulada de R$ 1,36 bilhão entre 2022 e 2025, gerada pela gestão ativa da NCG. Essa economia foi crescente a cada ano, com um destaque para 2025, quando a diferença entre o custo real da NCG e o custo hipotético (com NCG fixa em 2021) atingiu R$ 645,7 milhões. Esse achado evidencia que a capacidade de adaptação operacional e financeira da Magazine Luiza foi capaz de mais do que compensar o efeito contracionista dos juros sobre o ciclo operacional da empresa, transformando um potencial passivo em um ganho financeiro substancial.

Correlações

A aplicação da correlação de Pearson entre a taxa Selic e os indicadores de capital de giro forneceu uma compreensão mais aprofundada das relações entre a política monetária e a gestão financeira da Magazine Luiza. O coeficiente de correlação linear de Pearson mede a força e a direção da relação linear entre duas variáveis (Figueiredo Filho e Silva Júnior, 2009). Os resultados corroboraram as observações anteriores, destacando as estratégias de mitigação adotadas pela companhia.

Verificou-se uma correlação negativa forte entre a Selic e a NCG (r = -0,69), o CCC (r = -0,75) e o índice NCG/Receita Líquida (r = -0,74). Esses resultados indicam que os períodos de juros mais elevados coincidiram com as maiores reduções na necessidade de capital de giro e na duração do ciclo de caixa, sugerindo uma resposta gerencial direta ao aumento do custo do dinheiro. A gestão da Magazine Luiza ajustou suas operações para minimizar a exposição ao capital de giro em momentos de maior custo financeiro.

A correlação mais expressiva foi observada entre a Selic e o Prazo Médio de Renovação de Estoques (PMRE), com um coeficiente negativo muito forte (r = -0,98). Isso sugere que os ciclos de alta dos juros induziram a companhia a acelerar o giro dos estoques de forma quase linear, provavelmente devido à maior pressão sobre o custo de carregamento. Em contrapartida, o Prazo Médio de Pagamento a Fornecedores (PMPF) apresentou uma correlação positiva forte com a Selic (r = +0,65), confirmando que o alongamento dos prazos de pagamento foi uma resposta consistente e estratégica aos ciclos de aperto monetário, utilizando o financiamento de fornecedores como uma ferramenta de gestão de caixa.

O custo da NCG mostrou uma correlação positiva moderada com a Selic (r = +0,68), o que está abaixo do esperado caso a NCG permanecesse estável. Esse resultado reforça a conclusão de que a gestão ativa da NCG atenuou o repasse integral dos juros para o custo operacional da empresa. Por fim, o Prazo Médio de Recebimento de Vendas (PMRV) demonstrou uma correlação praticamente nula com a Selic (r = -0,09), indicando que a política de crédito ao consumidor da Magazine Luiza não foi significativamente afetada pelos ciclos de juros, mantendo-se estável ao longo do período analisado.

Em síntese, os resultados obtidos confirmam que os dois ciclos de alta da Selic exerceram pressão significativa sobre o custo do capital de giro da Magazine Luiza. No entanto, a gestão ativa e proativa da NCG, manifestada pela redução de 49,07% na NCG total e pela compressão de 62,2% no Ciclo de Caixa, foi capaz de amortecer significativamente esses efeitos. O alongamento dos prazos de pagamento a fornecedores e a aceleração do giro dos estoques foram os principais vetores dessa redução, resultando em uma economia acumulada de R$ 1,36 bilhão entre 2022 e 2025, conforme a análise contrafactual. Esses achados demonstram que a capacidade de adaptação operacional e financeira constitui um diferencial competitivo estratégico para empresas intensivas em capital de giro, permitindo-lhes navegar em ambientes de alta volatilidade monetária.

4. Conclusão

O presente estudo analisou os efeitos dos ciclos de alta da taxa Selic sobre a gestão do capital de giro da Magazine Luiza S.A. entre 2021 e 2025, buscando identificar as estratégias adotadas pela companhia para mitigar tais impactos. Verificou-se que a Necessidade de Capital de Giro (NCG) da empresa recuou 49,07% no período, passando de R$ 9,124 bilhões para R$ 4,646 bilhões. Concomitantemente, o Ciclo de Caixa (CCC) foi significativamente comprimido em 62,2%, diminuindo de 104,3 para 39,4 dias. Essa otimização foi impulsionada principalmente pelo alongamento do Prazo Médio de Pagamento a Fornecedores (PMPF), que se expandiu em 32,2 dias, e pela redução do Prazo Médio de Renovação de Estoques (PMRE) em 27,2 dias, indicando uma gestão ativa e deliberada dos estoques e dos prazos de pagamento. A análise do custo de oportunidade da NCG revelou que, apesar da Selic atingir a maior média anual em 2025, o custo foi inferior ao de 2022, evidenciando a eficácia da redução ativa da NCG. A análise contrafactual quantificou uma economia acumulada de R$ 1,36 bilhão entre 2022 e 2025, gerada por essa gestão proativa. As correlações de Pearson corroboraram essas observações, indicando uma relação negativa muito forte entre a Selic e o PMRE (r = -0,98) e uma relação positiva forte entre a Selic e o PMPF (r = +0,65), confirmando que a gestão da Magazine Luiza ajustou suas operações em resposta direta ao aumento do custo do dinheiro.

A principal contribuição deste trabalho reside em demonstrar, de forma empírica e metodologicamente estruturada, que a gestão ativa e proativa do capital de giro é capaz de amortecer significativamente os efeitos de um ambiente de juros elevados sobre os custos operacionais de uma grande varejista. Contudo, é importante ressaltar que o desempenho empresarial é um fenômeno multidimensional, e as conclusões aqui apresentadas refletem especificamente os efeitos dos ciclos de alta da Selic sobre a gestão operacional do capital de giro da Magazine Luiza, não constituindo uma avaliação integral do desempenho da companhia. Os resultados obtidos, por serem de um estudo de caso único, não podem ser generalizados diretamente para outras empresas do setor varejista ou de outros segmentos, dadas as particularidades de cada organização. No entanto, o estudo serve como referência para futuras investigações sobre empresas de perfil semelhante e para gestores que enfrentem cenários análogos de aperto monetário, reforçando que a capacidade de adaptação operacional e financeira representa um diferencial competitivo estratégico inestimável para empresas intensivas em capital de giro.

Referências Bibliográficas

Banco Central do Brasil [BCB]. 2026. Sistema Gerenciador de Séries Temporais. Disponível em: <https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries>. Acesso em: 19 abr. 2026.

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES]. 2018. Capital de giro: entrevista. Disponível em: <https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/noticias/noticia/capital-giro-entrevista>. Acesso em: 19 abr. 2026.

Fundo Monetário Internacional [FMI]. 2020. Global rebalancing and the Covid-19 crisis. Disponível em: <https://www.imf.org/pt/blogs/articles/2020/08/04/blog-global-rebalancing-and-the-covid19-

Gitman, L. J. 2010. Princípios de Administração Financeira. Pearson, São Paulo, SP, Brasil.

Payoneer. 2026. Indicadores financeiros: guia completo. Disponível em: <https://www.payoneer.com/pt/resources/business/indicadores-financeiros/>. Acesso em: 19 abr. 2026.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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Previsão da geração de energia fotovoltaica por meio de aprendizado de máquina: um estudo aplicado a uma usina no Nordeste do Brasil

O incremento das energias renováveis no Brasil, em especial da energia fotovoltaica, evidenciou a necessidade de aprimorar a previsão da produção das usinas, em função da elevada dependência de fatores climáticos e da consequente variabilidade da geração elétrica. Desenvolveu-se e avaliou-se modelos de aprendizado de máquina para a previsão da geração de energia elétrica de uma usina fotovoltaica no Nordeste do Brasil, analisando o impacto da inclusão progressiva de variáveis meteorológicas, temporais, derivadas e defasadas. Utilizaram-se dados horários de geração de energia e variáveis meteorológicas provenientes de bases oficiais e públicas. Implementaram-se três algoritmos de regressão baseados em árvores (Árvore de Decisão, Random Forest e XGBoost) em uma modelagem estruturada em três fases: variáveis meteorológicas, temporais e cíclicas e de defasagens. Os resultados indicaram forte correlação entre a radiação solar e a geração de energia. Observou-se desempenho preditivo moderado nas fases iniciais da modelagem, com melhora expressiva na terceira fase, onde o XGBoost se destacou com um R² de 0,898. Concluiu-se que a inclusão de variáveis temporais e técnicas de engenharia de atributos foi determinante para o aprimoramento da capacidade preditiva dos três modelos, configurando-se como uma estratégia para aplicações práticas no setor fotovoltaico.

Palavras-chave: Algoritmo baseado em árvores; Dados meteorológicos; Dependência temporal; Engenharia de atributos; Parque solar.

06 de novembro de 2026

Comportamento de clientes em cursos preparatórios: segmentação RFM, Cadeias de Markov e aprendizado supervisionado

Construiu-se uma arquitetura analítica para compreender e predizer o comportamento de compra de clientes de um provedor de cursos livres preparatórios. O objetivo foi integrar segmentação RFM, modelagem de transições por Cadeias de Markov e predição de propensão por Regressão Logística, Random Forest e Gradient Boosting, sob a estrutura do CRISP-DM. Utilizaram-se dados transacionais de 7.123 clientes de um provedor de cursos livres, abrangendo novembro de 2022 a janeiro de 2026. A metodologia CRISP-DM guiou a segmentação RFM, a modelagem de transições por Cadeias de Markov e a predição de propensão à compra por modelos supervisionados (Regressão Logística, Random Forest e Gradient Boosting), com validação temporal ‘out-of-time’. A segmentação RFM revelou quatro perfis, com o segmento Muito Recorrente (25% da base) concentrando 60,5% da receita. A Cadeia de Markov indicou uma tendência de degradação da base no longo prazo, com o segmento Baixa Aquisição projetado para crescer de 25% para 31,3% no equilíbrio. Os modelos supervisionados alcançaram AUC entre 0,811 e 0,826, demonstrando que o poder preditivo reside nas variáveis RFM, com a recência emergindo como preditor dominante. Concluiu-se que a integração dessas abordagens fornece subsídios concretos para decisões estratégicas de retenção, segmentação e priorização de clientes em contextos educacionais, destacando a necessidade de ações estruturadas para reverter a degradação da base e a importância da recência na predição de recompra.

Palavras-chave: Cadeias de Markov; CRISP-DM; Predição de propensão; Random Forest; Segmentação RFM.

06 de novembro de 2026

Classificação de retornos de ações no Brasil com machine learning e técnicas de meta-labeling

A demanda por estratégias quantitativas em mercados de capitais impulsionou o desenvolvimento de modelos de machine learning. O presente estudo implementou um pipeline de aprendizado de máquina para a classificação ternária de retornos de ações brasileiras, visando diagnosticar sobreajuste, avaliar o uso de meta-rotulagem e Hierarchical Risk Parity (HRP) para gerar alpha positivo, e documentar modos de falha. Reuniu-se 276 ativos da B3 entre 2000 e 2026, totalizando 257.970 amostras rotuladas pelo esquema triple-barrier sobre eventos CUSUM. Um classificador primário XGBoost agrupado foi treinado com pesos de amostra corrigidos por concorrência e unicidade. A validação empregou PurgedKFold e validação cruzada combinatória purgada (CPCV), com diagnóstico de sobreajuste via PBO e DSR. A decisão de lado seguiu a softmax bruta do modelo primário, e a magnitude da aposta foi delegada a um meta-rotulador binário. A construção de carteira adotou Hierarchical Risk Parity e foi avaliada por comparação honesta A/B/C. Os resultados out-of-sample indicaram acurácia de 0,52 e aprovação nos três gates estatísticos. Contudo, no nível de carteira, o Sharpe da estratégia com timing foi de +0,23 contra +0,87 do buy-and-hold HRP, resultando em alpha de -0,63. Concluiu-se que a seleção do universo explicou substancialmente o desempenho observado, e não o timing do classificador, apesar da aprovação nos testes estatísticos de nível de operação. A contribuição metodológica foi um pipeline reprodutível, auditável e leakage-safe, com modos de falha documentados de forma transparente, e o diagnóstico do colapso do argmax sob calibração isotônica em rótulos ternários desbalanceados.

Palavras-chave: Deflated Sharpe Ratio; Diferenciação fracional; Finanças quantitativas; Meta-rotulagem; Sobreajuste em backtests.

06 de novembro de 2026

Método AHP-Gaussiano na seleção de fornecedores: conformidade em contratações públicas

A seleção de fornecedores em contratações públicas demandou instrumentos para ampliar a transparência e fortalecer a conformidade diante de riscos legais e reputacionais. O objetivo foi aplicar o método AHP-Gaussiano na seleção de fornecedores, com base em critérios quantitativos de integridade e capacidade operacional. A investigação, de natureza aplicada, documental e quantitativa, utilizou dados secundários do Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas (CEIS), disponíveis no Portal da Transparência. Avaliaram-se dez fornecedores do segmento de limpeza e conservação, segundo seis critérios: recursos recebidos, sanções vigentes, contratos firmados, emendas parlamentares, serviços e participação em licitações. O método AHP-Gaussiano processou os dados, calculou os pesos dos critérios, agregou os desempenhos e gerou o ranking final das alternativas. Os resultados indicaram que o critério emendas parlamentares apresentou o maior peso relativo no modelo, seguido por participação em licitações e contratos firmados. A alternativa A4 foi a mais bem posicionada no ranking final, seguida por A5 e A6. Um teste de sensibilidade confirmou a coerência e robustez do modelo. Concluiu-se que o AHP-Gaussiano constituiu uma ferramenta adequada para apoiar a seleção de fornecedores no setor público, contribuindo para decisões mais consistentes, rastreáveis e alinhadas aos princípios de integridade e governança.

Palavras-chave: AHP-Gaussiano; Apoio multicritério à decisão; Conformidade; Contratações públicas; Fornecedores.

06 de novembro de 2026

Posicionamento de marcas globais de alimentação e a percepção do consumidor no mercado digital contemporâneo

A expansão de mercados globais impôs às marcas o desafio de superar a padronização digital e evitar a desconexão com consumidores de diferentes contextos culturais. O estudo analisou o posicionamento estratégico e a percepção das marcas McDonald’s, Starbucks e KFC no Brasil, França e Japão, buscando compreender como o tom de voz, a estética visual e os canais de comunicação foram moldados às preferências locais. A metodologia empregou um estudo de caso múltiplo com abordagem mista, que integrou a análise de conteúdo em perfis de Instagram e TikTok à aplicação de um formulário estruturado com 63 respondentes. Os resultados demonstraram contrastes significativos no posicionamento digital: no Brasil, a comunicação priorizou a expressividade e a proximidade emocional por meio de influenciadores; na França, o individualismo estético e o humor irônico predominaram como vetores de engajamento; e no Japão, a estratégia revelou uma comunicação de alto contexto, guiada pelo requinte visual, sazonalidade e uso de canais regionais como o aplicativo LINE. A pesquisa ratificou que 88,9% dos consumidores exigiram campanhas adaptadas, evidenciando a ressonância cultural como variável determinante para a sustentação do capital de marca. Concluiu-se que a eficácia do posicionamento digital dependeu do equilíbrio entre a identidade global e a localização profunda, tornando o consumo culturalmente relevante e autêntico.

Palavras-chave: Branding; Comportamento do Consumidor; Localização da Marca; Marketing Intercultural; Redes Sociais.

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