19 de agosto de 2026
Gastos Públicos com Internações Hospitalares: uma Perspectiva Temporal e Demográfica do Envelhecimento em São Paulo
Ana Carolina Alonso Silva Mattos; Elton Gean Araújo
DOI: 10.22167/2675-6528-202601599
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O envelhecimento populacional acelerado no Brasil, especialmente em São Paulo, pressiona os gastos públicos com saúde no SUS. Este trabalho analisou os gastos per capita com internações da população idosa (60+ anos) em comparação à não idosa (05-59 anos), e identificou padrões temporais e demográficos entre 2020 e 2024, considerando o impacto da Covid-19. Utilizaram-se dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS), abrangendo 12,7 milhões de autorizações de internação (AIHs), agregados por ano, faixa etária quinquenal e sexo. Estimou-se um modelo de regressão linear múltipla do logaritmo do gasto per capita em função de dummies de idade, sexo, ano e proporção de gastos com Covid-19. Os idosos responderam por mais de 40% dos gastos totais, apesar de serem 18% e 21% da população em 2020 e 2024, respectivamente. O gasto per capita acima dos 60 anos foi 76% superior ao grupo 05-59 anos. O modelo confirmou aumentos exponenciais do gasto com a idade, com o grupo 80+ apresentando o maior diferencial. Homens registraram maiores gastos e mais internações do que mulheres no período. A análise temporal indicou crescimento dos gastos per capita ao longo dos anos. Concluiu-se que o envelhecimento eleva estruturalmente os custos hospitalares no SUS paulista, demandando prevenção de doenças crônicas e foco na Atenção Primária.
Palavras-chave: Custos hospitalares; Faixa etária; Gastos com saúde; População idosa; SUS.
1. Introdução
O envelhecimento populacional representa uma das transformações demográficas mais significativas do século XXI no Brasil. Dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que a população com 65 anos ou mais atingiu 10,9% do total no país, um aumento expressivo de 57,4% em comparação com os dados de 2010 (IBGE, 2023). Tal fenômeno é impulsionado pela redução das taxas de fecundidade e pelo aumento da expectativa de vida, elevando a participação dos idosos na população total (Carvalho; Garcia, 2003; Carvalho; Wong, 2008; Reis; Noronha; Wajnman, 2016; ONU, 2024).
Embora o envelhecimento seja uma tendência nacional, sua manifestação é mais acentuada em estados como São Paulo, a unidade federativa mais populosa do Brasil. Entre 2010 e 2022, a população paulista com 65 anos ou mais cresceu de 3,2 milhões para 5,3 milhões de pessoas (SEADE, 2023). Em 2022, a taxa de crescimento da população idosa em São Paulo foi aproximadamente seis vezes maior do que a da população de crianças de zero a quatorze anos (SÃO PAULO (Cidade), 2024). Essa transição demográfica acelerada impõe desafios consideráveis ao sistema de saúde, exigindo adaptações na oferta de serviços e no planejamento de políticas públicas (Carvalho; Garcia, 2003; Carneiro et al., 2013; Reis; Noronha; Wajnman, 2016; OPAS, 2020; Nunes, 2004; ONU, 2024; Luz, 2025).
A relação entre idade e gastos em saúde é um aspecto crucial desse cenário. Estudos demonstram que os gastos com saúde por idade frequentemente seguem um padrão em formato de “J”, com valores mais elevados nas faixas etárias extremas, como a população de zero a quatro anos e, de forma mais acentuada, na população idosa. Os gastos tendem a crescer progressivamente para idades avançadas, sugerindo que a população idosa demanda proporcionalmente mais recursos do sistema de saúde. Com o aumento da população idosa, esses gastos tendem a se expandir e a representar uma parcela crescente do Produto Interno Bruto (PIB) (Cançado, 2020; Rodrigues; Afonso, 2012; Nunes, 2004; Instituto de Saúde Suplementar; 2010).
A determinação dos gastos com saúde não se restringe apenas ao envelhecimento populacional. A idade, o sexo e outras características sociodemográficas também desempenham um papel relevante (De Meijer et al., 2013; Andersen; Newman, 1973; Cançado, 2020). Pesquisas indicam que o aumento dos gastos é mais pronunciado entre os indivíduos mais velhos. Um estudo revelou que os gastos para o grupo de 55 a 59 anos foram 2,4 vezes maiores, e para pessoas com 80 anos ou mais, 7,6 vezes superiores em comparação com o grupo de referência de 5 a 54 anos (Cançado, 2020). Quanto ao sexo, a taxa de internação masculina entre idosos é maior do que a feminina, com homens entre 65 e 69 anos internando cerca de 2,4 vezes mais do que mulheres (Nunes, 2004).
Nesse contexto de crescente demanda por serviços de saúde, a pandemia de Covid-19 (2020-2021) introduziu um fator de perturbação significativo. A pandemia alterou drasticamente a utilização dos serviços de saúde, modificando os padrões de morbimortalidade e o comportamento das internações hospitalares. A população idosa foi particularmente afetada, concentrando a maior parte das hospitalizações e óbitos no Brasil, e especialmente em São Paulo (Lorenz et al., 2021). Além disso, a Covid-19 provocou um aumento nas internações de longa duração e de alto custo, notadamente em unidades de terapia intensiva (Santos et al., 2020). O comportamento dos gastos hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS) durante esse período desviou-se do esperado, tornando essencial controlar o efeito da pandemia para isolar os impactos demográficos estruturais dos efeitos conjunturais (Santos et al, 2021; Luz, 2025; Miethke-Morais et al., 2021).
Diante da complexidade e da relevância do envelhecimento populacional para o sistema de saúde, e considerando a influência da pandemia de Covid-19, torna-se fundamental investigar os padrões de gastos hospitalares em um período recente e pouco explorado pela literatura. Este estudo, portanto, busca analisar os gastos públicos per capita com internações hospitalares da população idosa em São Paulo entre 2020 e 2024, comparando-os com a população não idosa e identificando padrões temporais e demográficos, controlando o impacto da Covid-19. O objetivo é quantificar a magnitude dos gastos com internações da população idosa (60 anos ou mais) em comparação à população não idosa (5 a 59 anos), avaliar a evolução temporal dessa relação com controle da Covid-19, e determinar a influência de características demográficas como idade e sexo nos padrões de gastos.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa, de natureza descritiva e analítica, com o objetivo de investigar os padrões de gastos públicos per capita com internações hospitalares. A abordagem metodológica comparou a população idosa com a não idosa, identificando padrões temporais e demográficos em São Paulo. O controle explícito do impacto da pandemia de Covid-19 foi crucial para isolar os efeitos demográficos estruturais dos efeitos conjunturais sobre os custos.
A unidade de análise empírica compreendeu os gastos públicos com internações hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS) para o estado de São Paulo. A escolha dessa unidade federativa justifica-se por sua relevância demográfica, epidemiológica e estrutural no contexto nacional do SUS, concentrando o maior número de estabelecimentos médicos e hospitais do país. O período de análise abrangeu cinco anos recentes, de 2020 a 2024, permitindo uma investigação atualizada sobre a dinâmica dos gastos em saúde.
Os dados foram obtidos do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS), disponibilizados mensalmente pelo Departamento de Informação e Informática do Ministério da Saúde (DATASUS). A amostra total consistiu em aproximadamente 12,7 milhões de Autorizações de Internação Hospitalar (AIHs) registradas no período. As informações populacionais necessárias para o cálculo per capita foram extraídas das Projeções Populacionais do Brasil e Unidades da Federação – revisão de 2024, específicas para o estado de São Paulo, garantindo a padronização dos gastos por grupo etário e sexo.
As variáveis utilizadas foram extraídas diretamente dos registros de Autorização de Internação Hospitalar (AIH). O gasto total por internação foi determinado pela soma do valor total da AIH e dos gastos com Unidade de Terapia Intensiva (UTI), registrados separadamente. As variáveis demográficas incluíram idade, agrupada em faixas etárias quinquenais (0–4, 05–09,…, 80+), e sexo (masculino/feminino). O ano de competência e o diagnóstico principal (CID-10, código B34.2 para Covid-19) foram empregados como variáveis de contexto para a análise.
A coleta de dados foi realizada de forma sistemática, acessando as bases de dados públicas do SIH-SUS no DATASUS. As informações foram compiladas para o período de 2020 a 2024, abrangendo todas as internações hospitalares registradas no estado de São Paulo. Este procedimento garantiu a abrangência necessária para a análise dos gastos públicos com internações, permitindo a construção de um panorama detalhado sobre a utilização dos serviços de saúde pela população paulista.
No tratamento inicial dos dados, foram removidas observações com inconsistências nos campos de custo, especificamente registros com valor total de AIH igual a zero, e não foram identificadas linhas duplicadas. Os dados individuais das AIHs foram agregados em células, combinando ano de competência, grupo etário quinquenal e sexo, resultando em 160 observações. Para cada célula, somaram-se os gastos totais das internações e dividiu-se pela população estimada para calcular o gasto per capita. Para lidar com a não linearidade do gasto por idade, utilizou-se seu logaritmo natural, aplicando a transformação de Box-Cox para ajustar a linearidade e a normalidade dos resíduos do modelo (Box e Cox, 1964).
Para a análise estatística, estimou-se um modelo de regressão linear múltipla. As variáveis independentes incluíram dummies para idade (grupos 0–4, 60–64, 65–69, 70–74, 75–79 e 80+ anos, com 05–59 anos como referência), sexo (masculino, com feminino como referência) e ano (2021 a 2024, com 2020 como referência). Uma variável contínua, a proporção de gastos com Covid-19 em cada célula, foi incluída para controlar o efeito pandêmico, calculada como a razão entre o custo Covid e o custo total na célula.
Os erros-padrão do modelo foram estimados com correção robusta à heterocedasticidade, utilizando o estimador HC3 (Long e Ervin, 2000). Os pressupostos do modelo de regressão linear múltipla foram verificados por meio de diagnósticos de multicolinearidade, heterocedasticidade e independência dos resíduos, seguindo Fávero e Belfiore (2024). As análises foram realizadas em Python, utilizando as bibliotecas pandas, statsmodels e scikit-learn.
3. Resultados e Discussão
A análise dos dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS) para o estado de São Paulo, entre 2020 e 2024, revelou padrões significativos nos gastos públicos com internações, especialmente em relação ao envelhecimento populacional. O número total de internações no SUS para a população residente do estado cresceu 26,1% no período, passando de 2.264.895 para 2.855.539. Esse aumento foi ainda mais acentuado entre os idosos, com um crescimento de 38,3% no total de internações, indicando uma pressão crescente sobre o sistema de saúde.
A participação da população idosa (60 anos ou mais) nas internações totais também se mostrou desproporcional. Em 2020, os idosos representavam 30,2% das internações e, em 2024, essa proporção subiu para 33,1%. Este aumento é notável quando comparado à sua representatividade na população total de São Paulo, que era de 18% em 2020 e 21% em 2024. Esse padrão é consistente com estudos anteriores que já apontavam a maior demanda por serviços hospitalares por parte da população idosa, como documentado por Silveira et al. (2013).
Em termos de gastos totais, corrigidos para julho de 2025, o período analisado registrou um pico em 2021, com R$ 8.999.543.484,19, e uma tendência crescente pós-pandemia, alcançando R$ 6.813.373.101,53 em 2024. A participação dos idosos nos gastos totais oscilou entre 40,5% e 41,9% ao longo do período. Embora essa estabilidade percentual possa sugerir uma constância, a análise do gasto per capita revela um diferencial substancial e crescente, que reflete o impacto do envelhecimento na demanda por recursos.
Os gastos per capita com internações exibiram um formato em “J” evidente em todos os anos analisados, conforme ilustrado na Figura 1. Observou-se um aumento progressivo dos gastos a partir dos 45 anos, com os valores mais elevados concentrados na população idosa. Esse padrão, que se intensifica com o avançar da idade, é consistente com achados de Gregersen (2014) para dados noruegueses e de Cançado (2020) para o Brasil, que também identificaram um crescimento acentuado dos gastos per capita em idades mais avançadas.
Figura 1. Gasto per capita por faixa etária (2020-2024)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise do gasto per capita total para o grupo acima de 60 anos foi aproximadamente 76,3% superior ao do grupo de referência de 05-59 anos. Essa diferença se manteve estável ao longo do período, com uma razão média de 1,76 vezes e uma diferença absoluta média de R$ 836,69 per capita por ano, em valores corrigidos para julho de 2025. Esse resultado corrobora a literatura internacional, como o estudo de Li, Du e Hu (2020) sobre a China, que também identificou um gasto hospitalar per capita significativamente maior para a população idosa.
Para compreender os determinantes desse diferencial de gastos, o gasto per capita foi decomposto em custo médio por internação e taxa de internação. O custo médio por internação, que representa o preço dos procedimentos, apresentou um padrão de “U” invertido, crescendo progressivamente até os 69 anos e decrescendo após os 70 anos, conforme demonstrado na Figura 2. Esse comportamento é similar ao observado por Cançado (2020) e Nunes (2004), que identificaram picos de custos em faixas etárias intermediárias de idosos.
Figura 2. Custo médio de internações por grupo etário e ano (2020-2024)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Os custos médios de internação foram mais elevados nos anos de pandemia, com 2021 registrando os maiores valores para todos os grupos etários. Nos anos subsequentes (2022-2024), os custos médios não se elevaram, indicando que, do ponto de vista dos preços dos procedimentos, as internações hospitalares não se tornaram mais caras. Em contraste, as taxas de internação, que medem a frequência de utilização dos serviços, foram consistentemente mais altas para os idosos em todos os anos, atingindo o pico no grupo 80+, como evidenciado na Figura 3.
Figura 3. Taxas de internação por grupo etário ao longo dos anos (por mil habitantes, São Paulo, 2020-2024)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
As taxas de internação para o grupo 80+ apresentaram um crescimento de 5,2% entre 2023 e 2024, passando de 152,6 para 160,6 internações por mil habitantes. Em contrapartida, as menores taxas foram observadas entre crianças de 10-14 anos, com 19,0 internações por mil habitantes em 2023, cerca de oito vezes menor que a população 80+. Esse contraste reflete a menor incidência de condições que requerem hospitalização em faixas etárias mais jovens e a maior fragilidade e acúmulo de comorbidades entre os idosos, que aumentam o risco de desfechos adversos e a necessidade de cuidados hospitalares.
A decomposição do gasto per capita revela que o elevado gasto hospitalar dos idosos decorre, principalmente, da maior frequência de internações, e não do aumento do custo médio dos procedimentos após os 69 anos. Nunes (2004) e o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (2010) também apontaram que o aumento dos gastos com saúde é impulsionado pela frequência de utilização dos serviços. Esse achado tem implicações importantes para o planejamento do sistema de saúde, sugerindo que o foco deve ser na prevenção e na gestão de comorbidades para reduzir a necessidade de internações.
O contexto da pandemia de Covid-19 impactou significativamente os padrões de internações e gastos. Em 2020, o total de internações foi de 2.264.895, com 58.224 casos de Covid-19. Em 2021, o total de internações subiu para 2.376.690, com 105.944 casos de Covid-19. Os gastos totais com internações por coronavírus representaram 20% do total em 2020 e 43% em 2021, evidenciando o choque conjuntural da pandemia. Após o fim do Estado de Emergência em Saúde Pública, os gastos com internações por Covid-19 caíram drasticamente para 5% em 2022, 0,2% em 2023 e 0,05% em 2024.
As principais causas de internação de idosos em São Paulo, considerando o diagnóstico principal, foram dominadas pela infecção por coronavírus em 2020 e 2021. A partir de 2022, observou-se a retomada do padrão histórico, com pneumonia, acidente vascular cerebral (AVC), infecções e doenças cardíacas como as causas mais frequentes. As doenças cardíacas (R$ 747 milhões), infecções (R$ 466 milhões), pneumonias (R$ 285 milhões) e doenças cerebrovasculares (R$ 251 milhões) foram as mais onerosas ao SUS entre 2022 e 2024, desconsiderando a Covid-19.
Em termos de custo médio por internação, as doenças cardíacas (R$ 5.059) e cerebrovasculares (R$ 3.120) superaram a pneumonia (R$ 2.407). Essas doenças, que requerem maior tempo de utilização dos serviços de saúde, geram um impacto significativo no sistema, conforme apontado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (2010). A prevalência de doenças crônicas e suas complicações entre os idosos, como sequelas de AVC e insuficiências cardíacas, contribui para a demanda por cuidados prolongados e, consequentemente, para os gastos hospitalares (Chaimowicz, 1997).
A análise detalhada por grupos etários de idosos revela padrões específicos de internações e gastos. Os grupos de 60-64 e 65-69 anos concentraram o maior volume absoluto de internações, com 158.352 e 146.029 em 2020, respectivamente, e atingindo 208.052 e 210.103 em 2024. Esse volume é reflexo do maior tamanho populacional dessas faixas etárias, que têm aumentado com o envelhecimento da população, conforme dados do Censo Demográfico.
Em contraste, os grupos mais velhos, acima de 75 anos, apresentaram as taxas de internação e os gastos per capita mais elevados, evidenciando uma maior intensidade de uso dos serviços hospitalares com o avanço da idade. Por exemplo, o grupo 80+ registrou uma taxa de internação de 160,6 por mil habitantes e um gasto per capita de R$ 385,46 em 2024. Essa dinâmica sugere que políticas de prevenção e gestão de comorbidades são cruciais para os idosos mais jovens (60-69 anos), enquanto estratégias de cuidado continuado e atenção domiciliar são mais relevantes para os grupos acima de 75 anos.
As diferenças de sexo também são um fator importante nos padrões de internação e gastos. A quantidade de internações femininas superou as masculinas entre 15 e 49 anos, com um diferencial máximo de 217,9% no grupo de 20-24 anos, principalmente devido ao elevado volume de internações obstétricas. A partir dos 50 anos, entretanto, os homens passaram a registrar um maior volume absoluto de internações, e essa predominância masculina se acentuou nos grupos de 60 a 79 anos, com uma diferença de 3,2% no total de internações e máxima de 15,7% no grupo de 65-69 anos.
Em relação aos custos, os custos médios de internação masculinos foram superiores aos femininos em todas as idades acima de 15 anos, como ilustrado na Figura 4. O gasto total com internações masculinas no período foi de R$ 7.549.372.157,94, o que representa 20,2% a mais que o gasto feminino de R$ 6.282.996.103,17. Essa discrepância entre o volume de internações e o gasto total sugere que as internações de homens idosos são, em média, mais caras, com um custo médio por internação masculina 16,4% superior ao feminino.
Figura 4. Custo médio por internação, por sexo e faixa etária (2020-2024)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Esse padrão indica que homens idosos tendem a apresentar internações de maior complexidade, possivelmente associadas a condições mais graves, maior tempo de permanência ou maior utilização de procedimentos de alta complexidade. A literatura brasileira, como Nunes (2004) e Silveira et al. (2013), corrobora esses achados, atribuindo as maiores taxas de internação masculina e os custos mais elevados à menor proatividade preventiva dos homens e à busca tardia por assistência, resultando em diagnósticos mais avançados e tratamentos mais caros.
Os resultados do modelo de regressão linear múltipla confirmaram que as variáveis de faixa etária, sexo, ano e proporção de gastos com Covid-19 são preditores significativos dos gastos per capita com internações hospitalares. Os coeficientes para os grupos etários acima de 60 anos foram positivos e estatisticamente significativos, com aumentos progressivos conforme a idade avança. Idosos entre 60-64 anos apresentaram gastos com internações cerca de 3,2 vezes maiores do que o grupo de 05-59 anos, enquanto o grupo 80+ registrou gastos aproximadamente 4,9 vezes maiores, mantendo constantes as demais variáveis.
O coeficiente positivo e estatisticamente significativo para a variável sexo indicou que os homens tendem a ter gastos com internações hospitalares 11,6% mais altos em comparação às mulheres. Esse resultado, consistente com Cançado (2020), captura o diferencial médio de gastos ao longo de todas as faixas etárias analisadas. A variável ano de competência, ajustada pelo percentual de gastos com Covid-19, revelou que o ano de 2021 apresentou uma redução de 19,6% nos gastos per capita em relação a 2020, o que se explica pela diminuição de internações eletivas durante o pico pandêmico e o represamento de procedimentos (Luz et al., 2025).
Nos anos seguintes, de 2022 a 2024, observou-se um crescimento sustentado do gasto per capita, com aumentos de 31%, 41% e 50% em relação a 2020, respectivamente. Essa tendência crescente reflete os efeitos estruturais da transição demográfica, o acúmulo de condições crônicas em uma população envelhecida e a recuperação da demanda pós-pandemia. A variável proporção de gastos com Covid-19 apresentou um coeficiente positivo, indicando que um aumento de 10 pontos percentuais nessa proporção está associado a um aumento de aproximadamente 28% no gasto per capita total, confirmando o impacto direto do choque pandêmico.
Em síntese, os resultados evidenciam que o envelhecimento populacional, o avanço da idade e as diferenças de sexo são fatores centrais para o crescimento dos gastos per capita com internações hospitalares no SUS paulista entre 2020 e 2024. A maior proporção de idosos na população, combinada à elevada frequência de internações, gera um impacto desproporcional sobre o financiamento do sistema, enquanto os homens apresentam gastos hospitalares mais elevados devido à maior complexidade das internações. A pandemia de Covid-19 atuou como um choque conjuntural, mas o modelo permitiu isolar sua influência, confirmando uma tendência estrutural de crescimento dos gastos per capita, o que reforça a necessidade de estratégias focadas na prevenção de doenças crônicas e no fortalecimento da Atenção Primária.
4. Conclusão
Este estudo analisou os gastos públicos per capita com internações hospitalares da população idosa em São Paulo entre 2020 e 2024, comparando-os com a população não idosa e identificando padrões temporais e demográficos, com controle do impacto da Covid-19. Verificou-se que a população idosa (60 anos ou mais) foi responsável por mais de 40% dos gastos totais do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado, apesar de representar uma parcela significativamente menor da população. O gasto per capita para indivíduos acima de 60 anos mostrou-se 76% superior ao do grupo de 05-59 anos. A análise por faixas etárias revelou aumentos exponenciais dos gastos com o avanço da idade, com o grupo 80+ apresentando o maior diferencial. Observou-se também que homens registraram gastos hospitalares e internações mais elevados do que mulheres no período. A evolução temporal indicou um crescimento sustentado dos gastos per capita nos anos pós-pandemia, evidenciando uma tendência estrutural. A principal contribuição deste trabalho reside na quantificação e isolamento dos efeitos demográficos do envelhecimento sobre os custos hospitalares no SUS paulista, fornecendo dados recentes e robustos para o planejamento de políticas de saúde.
Apesar de sua relevância, o estudo concentrou-se nos dados do estado de São Paulo, o que pode limitar a generalização direta dos achados para outras unidades federativas com diferentes estágios da transição demográfica. Contudo, os resultados reforçam a necessidade de repensar as estratégias de prevenção de doenças crônicas e o fortalecimento da Atenção Primária, especialmente para a população idosa, a fim de reduzir a frequência de internações hospitalares. Sugere-se que políticas focadas na gestão de comorbidades para idosos mais jovens (60-69 anos) e na atenção continuada e domiciliar para os mais velhos (acima de 75 anos) podem mitigar a pressão sobre o sistema. Para estudos futuros, recomenda-se expandir a análise para todas as Unidades Federativas do Brasil, utilizando modelos multiníveis para uma compreensão mais abrangente dos padrões regionais e temporais dos gastos com internações no SUS.
Referências Bibliográficas
AGÊNCIA IBGE NOTÍCIAS. Censo 2022: número de pessoas com 65 anos ou mais de idade cresceu 57,4% em 12 anos. Disponível em: Acesso em: 27 de fev. de 2025.
Carvalho JAM, Garcia RA. O envelhecimento da população brasileira: um enfoque demográfico. Cadernos de Saúde Pública 2003; 19(3) doi: 10.1590/S0102-311X2003000300005
CARVALHO, J. A. M.; WONG, L. L. R. 2008. A Transição da Estrutura Etária da população brasileira na primeira metade do século XXI. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(3):597-605
REIS, C. S. dos; NORONHA, K.; WAJNMAN, S. Envelhecimento populacional e gastos
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

