Artigo

03 de agosto de 2026

Agricultura regenerativa e solos degradados: desafios e oportunidades para empresas estrangeiras no Brasil

Hao Zhang Zan; Felipe Machado De Oliveira Lourenço

DOI: 10.22167/2675-6528-202600887

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A degradação dos solos agrícolas no Brasil representa um desafio significativo para a sustentabilidade e produtividade do setor agropecuário. Este estudo analisou as percepções, os desafios e as estratégias de empresas estrangeiras atuantes no Brasil em relação à recuperação de solos degradados por meio da agricultura regenerativa. A metodologia envolveu uma revisão bibliográfica e a aplicação de um questionário estruturado, respondido por 51 profissionais de diferentes níveis hierárquicos de empresas estrangeiras do setor agrícola. Os resultados revelaram que a maioria das empresas possuía conhecimento intermediário (37,3%) ou avançado (39,2%) sobre agricultura regenerativa, e 66,7% consideraram a recuperação de solos uma oportunidade estratégica de médio prazo. Os principais desafios identificados foram os altos custos de implementação (64,7%), a resistência de produtores e parceiros locais (56,9%) e a dificuldade em mensurar o retorno financeiro (54,9%). Entre as estratégias adotadas, destacaram-se o planejamento de longo prazo (47,1%), o uso de bioinsumos e compostagem (60,8%) e práticas de agricultura de precisão voltadas à regeneração (60,8%). Concluiu-se que, apesar das barreiras econômicas e culturais, houve um consenso otimista (80,4%) sobre o potencial do Brasil para se tornar referência global no tema, desde que sejam ampliados os incentivos fiscais, o apoio técnico e os mecanismos de fomento capazes de viabilizar e escalar investimentos. A transição para sistemas regenerativos mostrou-se viável, desde que apoiada por conhecimento técnico e planejamento de longo prazo, com políticas públicas consistentes e programas de apoio técnico e financeiro essenciais para a ampliação dessas práticas.

Palavras-chave: Estratégias empresariais; Investimento corporativo; Sustentabilidade; Transição agrícola; Uso do solo.

1. Introdução

A degradação dos solos agrícolas constitui um desafio global formidável, impactando diretamente a produtividade, a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental. No Brasil, um dos maiores produtores de commodities agrícolas do mundo, essa problemática assume proporções ainda mais críticas devido ao uso intensivo da terra e a práticas de manejo inadequadas (Souza et al., 2020). Estimativas recentes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa, 2024) revelam que aproximadamente 28 milhões de hectares de pastagens apresentam algum grau de degradação, com oito vírgula oito milhões aptos para a intensificação do cultivo de soja e milho, incluindo a segunda safra. Essa área representa cerca de 35% da área total dedicada ao cultivo de grãos na safra 2022/2023 (Bolfe et al., 2024). A persistência da degradação do solo não apenas compromete a capacidade produtiva, mas também exacerba questões ambientais como a perda de biodiversidade e a diminuição do sequestro de carbono, demandando soluções urgentes.

Nesse cenário de crescente preocupação ambiental e econômica, a agricultura regenerativa emerge como abordagem promissora e estratégica para reverter os processos de degradação do solo. Este conceito integra princípios ecológicos, manejo sustentável e práticas agronômicas inovadoras, visando conciliar alta produtividade agrícola com a conservação ambiental (Dias, 2023). A essência da agricultura regenerativa reside na restauração da saúde e funcionalidade do solo, promovendo o aumento da matéria orgânica, a melhoria da estrutura, a otimização do ciclo da água e o incremento da biodiversidade microbiana. Ao fazer isso, contribui significativamente para a redução da pegada de carbono das atividades agropecuárias, através do sequestro de carbono. Contudo, apesar de sua crescente adoção e reconhecimento de benefícios, a agricultura regenerativa ainda enfrenta desafios importantes, como a ausência de consenso conceitual global e a falta de métricas padronizadas para avaliação de resultados. Essa lacuna gera incertezas quanto à quantificação precisa de seus benefícios econômicos e ambientais, influenciando a forma como empresas e formuladores de políticas públicas incorporam essa abordagem (Shennan-Farpón et al., 2025). A complexidade de sua implementação e a necessidade de adaptação a diversos contextos edafoclimáticos também contribuem para a variabilidade de resultados.

A crescente demanda global por sistemas alimentares mais sustentáveis e a pressão por práticas agrícolas que mitiguem os impactos ambientais impulsionam empresas estrangeiras atuantes no Brasil a explorar ativamente oportunidades relacionadas à agricultura regenerativa e à recuperação de solos degradados. O Brasil, com sua vasta extensão territorial e papel central na produção global de alimentos, representa um campo fértil para a implementação e escalabilidade dessas iniciativas. No entanto, a transição para sistemas regenerativos não é isenta de complexidades. A implementação dessas práticas envolve desafios significativos, que vão além dos aspectos técnicos. Barreiras regulatórias, incertezas de mercado quanto ao retorno sobre o investimento, riscos financeiros associados à adoção de novas tecnologias e a necessidade de adaptação às particularidades agronômicas e culturais do país são fatores que influenciam diretamente a viabilidade e a escalabilidade desses projetos (Borges, 2023). A resistência de produtores e parceiros locais a mudanças em métodos de cultivo, somada à carência de conhecimento técnico especializado e à dificuldade em mensurar o retorno financeiro, são obstáculos frequentemente citados. Compreender a percepção dessas empresas estrangeiras sobre a recuperação de solos degradados no Brasil, os obstáculos que enfrentam e as estratégias que adotam para viabilizar iniciativas regenerativas é, portanto, crucial para o avanço do setor.

A relevância deste estudo reside em preencher uma lacuna na literatura, analisando a interseção entre investimentos estrangeiros, recuperação de solos degradados e agricultura regenerativa no Brasil. Ao gerar informações sobre percepções, desafios e estratégias das empresas estrangeiras, esta pesquisa fornece subsídios para políticas públicas, atração de investimentos e fortalecimento do ecossistema de inovação no agronegócio. A promoção de sistemas produtivos equilibrados, que integrem eficiência econômica, conservação ambiental e responsabilidade social, é imperativa para a sustentabilidade do setor. Assim, o objetivo geral deste estudo é analisar a percepção de empresas estrangeiras atuantes no Brasil sobre iniciativas de recuperação de solos degradados por meio da agricultura regenerativa, identificando as principais barreiras, oportunidades e estratégias adotadas para a implementação desses projetos.

2. Material e Métodos

O presente estudo adotou uma abordagem metodológica mista, combinando elementos quantitativos e qualitativos para investigar a percepção de empresas estrangeiras sobre a agricultura regenerativa no Brasil. A dimensão quantitativa foi empregada na análise descritiva dos dados coletados por meio de um questionário estruturado, permitindo a identificação de padrões, frequências e tendências nas respostas dos participantes. Complementarmente, a abordagem qualitativa foi utilizada na interpretação aprofundada dos resultados, na discussão das percepções das empresas e na contextualização dessas informações com a literatura científica existente, buscando uma compreensão mais rica e multifacetada do fenômeno estudado.

Quanto à sua natureza, a pesquisa classifica-se como aplicada, pois seu propósito principal foi gerar conhecimento diretamente voltado à solução de problemas práticos. Especificamente, buscou-se abordar questões relacionadas à adoção da agricultura regenerativa e à recuperação de solos degradados no contexto brasileiro, oferecendo subsídios para a tomada de decisões estratégicas. Em relação aos objetivos, o estudo caracterizou-se como exploratório e descritivo. Foi exploratório por investigar um tema ainda pouco abordado na literatura nacional, buscando compreender percepções e estratégias. Adicionalmente, foi descritivo ao apresentar o perfil dos respondentes, seus desafios e as estratégias de atuação das empresas.

A pesquisa foi desenvolvida no contexto do agronegócio brasileiro, focando em empresas estrangeiras que atuam no país e demonstram interesse ou já investem em iniciativas de recuperação de solos degradados. A unidade de análise consistiu em profissionais dessas empresas, de diferentes níveis hierárquicos, que possuem conhecimento e experiência relevantes sobre o tema. A coleta de dados de campo foi realizada especificamente entre os meses de maio e junho de 2025, período em que o questionário estruturado foi disponibilizado e as respostas foram compiladas. Este recorte temporal e geográfico permitiu capturar percepções atuais e relevantes para o cenário agrícola brasileiro.

A amostra do estudo foi de natureza não probabilística, selecionada por conveniência, devido à dificuldade de acesso direto e sistemático a profissionais de empresas estrangeiras atuantes no setor agrícola brasileiro. Essa abordagem foi considerada adequada para os objetivos exploratórios da pesquisa, que visavam compreender percepções, experiências e estratégias de atores organizacionais específicos, sem a pretensão de realizar inferências estatísticas para a população total. Foram obtidas 51 respostas válidas de profissionais que atuam em empresas estrangeiras com operações agrícolas no Brasil, garantindo uma diversidade de perspectivas dentro do grupo-alvo.

Os procedimentos técnicos da pesquisa envolveram duas etapas principais: a revisão bibliográfica e a coleta de dados de campo. A etapa bibliográfica consistiu na análise sistemática de artigos científicos, relatórios institucionais e documentos técnicos relevantes. O foco dessa revisão foi aprofundar o conhecimento sobre os conceitos de agricultura regenerativa, as práticas associadas à recuperação de solos degradados e o panorama dos investimentos estrangeiros no setor agrícola brasileiro. Essa fundamentação teórica foi crucial para contextualizar os achados empíricos e embasar a discussão dos resultados, garantindo que a pesquisa estivesse alinhada com o conhecimento científico atual.

A etapa de campo foi conduzida por meio da aplicação de um questionário estruturado, desenvolvido especificamente para este estudo. O instrumento foi disponibilizado online utilizando a plataforma “Google Forms”, facilitando o acesso e a coleta das respostas. O link para o questionário foi amplamente compartilhado em redes de contato profissional e grupos de “WhatsApp”, visando alcançar um número significativo de profissionais de diferentes níveis hierárquicos em empresas estrangeiras com operações agrícolas no Brasil. Essa estratégia permitiu coletar dados de uma amostra diversificada, refletindo variadas perspectivas dentro do setor.

O questionário foi cuidadosamente organizado em seis seções distintas, cada uma projetada para captar diferentes dimensões relacionadas ao tema central do estudo. A primeira seção dedicou-se à caracterização do perfil dos respondentes e das empresas, abordando aspectos como cargo, tempo de atuação, porte e origem. A segunda seção buscou avaliar as percepções das empresas em relação à agricultura regenerativa e à recuperação de solos degradados no Brasil. A terceira seção focou na identificação dos principais desafios e riscos associados ao investimento em iniciativas de regeneração de solos, enquanto a quarta explorou as tecnologias e práticas regenerativas adotadas ou planejadas.

A quinta seção do questionário concentrou-se nas estratégias e recomendações utilizadas pelas empresas para viabilizar economicamente os projetos de recuperação de solos, além de identificar os tipos de apoio considerados necessários para ampliar esses investimentos. Por fim, a sexta e última seção contemplou as considerações finais dos respondentes, incluindo sua percepção sobre o potencial do Brasil como referência global em agricultura regenerativa, e ofereceu um espaço para comentários adicionais. A íntegra das perguntas utilizadas no questionário encontra-se apresentada no Apêndice, assegurando a transparência metodológica e a replicabilidade do estudo.

Para o tratamento e análise dos dados quantitativos, as respostas coletadas foram exportadas para planilhas eletrônicas no software “Microsoft Excel”. Nesse ambiente, os dados foram organizados, tabulados e transformados em gráficos e tabelas, o que possibilitou o cálculo de frequências e porcentagens, facilitando a visualização e a compreensão dos resultados descritivos. A interpretação desses dados contou com o apoio de ferramentas de gestão estratégicas, como a Análise SWOT e a Matriz de Risco, que auxiliaram na identificação e sistematização de forças, fraquezas, oportunidades, ameaças e riscos associados à adoção de práticas regenerativas.

A Matriz de Risco foi elaborada para classificar os riscos percebidos pelas empresas estrangeiras, utilizando dois critérios principais: Probabilidade (P) e Impacto (I). A Probabilidade de ocorrência foi definida como a chance de o risco se concretizar, classificada em níveis de baixa, média ou alta frequência. O Impacto referiu-se à magnitude das consequências caso o risco ocorresse, também categorizado em baixo, médio ou alto. A combinação desses parâmetros resultou em três classificações de risco: Crítico (P alta + I alta), Significativo (combinações altas e médias) e Moderado (P e I em níveis baixo ou médio), permitindo uma priorização estruturada dos riscos identificados.

A análise qualitativa foi conduzida a partir da interpretação dos comentários adicionais fornecidos pelos participantes na seção final do questionário. Esses relatos foram comparados e triangulados com a literatura revisada, permitindo construir uma visão abrangente e aprofundada sobre o tema. Essa abordagem qualitativa complementou a análise quantitativa, oferecendo nuances e contextos que não seriam capturados apenas por dados numéricos. O objetivo geral da análise foi compreender as percepções organizacionais, os processos decisórios, a avaliação de riscos e as expectativas empresariais, sem a pretensão de mensurar diretamente o desempenho agronômico das práticas adotadas.

É importante reconhecer algumas limitações metodológicas inerentes ao estudo. A utilização de uma amostra não probabilística, selecionada por conveniência, restringe a generalização dos resultados para a totalidade das empresas estrangeiras atuantes no setor agrícola brasileiro. Além disso, os dados coletados são autodeclarados, o que pode introduzir vieses de percepção por parte dos respondentes. A ausência de análises econômicas detalhadas, como o retorno financeiro real das práticas regenerativas, também limita a compreensão completa da viabilidade econômica. Essas considerações são cruciais para a interpretação dos achados e para orientar futuras investigações.

3. Resultados e Discussão

A análise dos resultados buscou compreender as percepções, os desafios e as estratégias adotadas por empresas estrangeiras atuantes no setor agrícola brasileiro em relação à implementação de práticas de agricultura regenerativa, com foco na recuperação de solos degradados. A amostra do estudo, composta por 51 respostas válidas de profissionais de diferentes níveis hierárquicos e áreas de atuação, permitiu uma visão multifacetada que integra perspectivas estratégicas e operacionais. Essa abordagem é crucial para capturar a complexidade das decisões corporativas em um tema emergente e de alto impacto como a agricultura regenerativa.

A composição da amostra revelou uma predominância de profissionais em cargos de gerência (19,6%), coordenação (15,7%) e direção (15,7%), conforme apresentado na Figura 1. Esse perfil é altamente relevante, pois indica que as percepções coletadas refletem diretamente os processos decisórios organizacionais, especialmente aqueles relacionados ao planejamento estratégico, à inovação e à alocação de investimentos. A presença significativa de líderes e gestores sugere que as informações obtidas não são meramente operacionais, mas sim estratégicas, influenciando a direção e o futuro das iniciativas de sustentabilidade. A literatura corrobora essa observação, destacando que, no contexto corporativo, a adoção de práticas associadas à agricultura regenerativa depende fortemente da capacidade dos gestores de conciliar objetivos ambientais e econômicos, uma tarefa particularmente complexa em empresas com forte inserção em mercados internacionais (Bless et al., 2025). A tomada de decisão nesses níveis hierárquicos frequentemente envolve a avaliação de múltiplos fatores, desde a viabilidade financeira e o retorno sobre o investimento até a reputação da marca e o cumprimento de metas de sustentabilidade, o que confere maior robustez e profundidade às percepções levantadas.

Figura 1. Perfil dos profissionais entrevistados

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Adicionalmente, a experiência dos respondentes no ambiente corporativo brasileiro é um fator que confere maior credibilidade aos resultados. A maior parte dos participantes atua há mais de cinco anos na empresa, com 27,5% entre 5 e 10 anos e 31,4% com mais de 10 anos de atuação, conforme indicado na Figura 2. Essa longevidade sugere uma familiaridade aprofundada com o contexto regulatório, institucional e agronômico do Brasil, o que é fundamental para avaliações mais realistas dos riscos e oportunidades associados à adoção de práticas regenerativas. Profissionais com vasta experiência local tendem a possuir um entendimento mais matizado das particularidades do agronegócio brasileiro, incluindo as dinâmicas de mercado, as relações com produtores locais e as especificidades edafoclimáticas. Estudos comparativos, como os de Shennan-Farpón et al. (2025), indicam que a experiência organizacional é um fator relevante para a forma como as empresas percebem a viabilidade de transições sustentáveis, especialmente em contextos caracterizados por elevada heterogeneidade produtiva, como o Brasil. Essa perspectiva experiente é crucial para evitar abordagens simplistas e para desenvolver estratégias que sejam verdadeiramente adaptadas à realidade local, mitigando riscos e maximizando o potencial de sucesso das iniciativas regenerativas.

Figura 2. Tempo de atuação

Fonte: Resultados originais da pesquisa

No que tange ao porte das empresas, o estudo revelou uma clara predominância de grandes empresas, representando 90,2% da amostra, conforme ilustrado na Figura 3. Esse achado é consistente com a literatura que aponta que empresas de maior porte tendem a liderar iniciativas de sustentabilidade e inovação agrícola. Essa liderança é atribuída a diversos fatores, incluindo maior capacidade financeira para investir em pesquisa e desenvolvimento, acesso facilitado a tecnologias avançadas e uma maior pressão de mercados globais e cadeias de suprimento por padrões ambientais mais rigorosos (Bless et al., 2025). Grandes corporações frequentemente possuem estruturas mais robustas para absorver os custos iniciais e os riscos associados à transição para sistemas regenerativos, além de terem maior poder de influência para engajar parceiros e fornecedores em suas cadeias de valor. A implicação prática desse resultado é que as estratégias de escalabilidade da agricultura regenerativa no Brasil podem se beneficiar ao focar inicialmente em grandes players, que podem atuar como catalisadores e disseminadores de boas práticas, criando um efeito cascata para empresas de menor porte. Contudo, é fundamental que políticas públicas e programas de apoio também sejam desenhados para incluir e capacitar pequenas e médias empresas, garantindo que a transição regenerativa seja abrangente e equitativa.

Figura 3. Porte das empresas

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Em relação ao nível de conhecimento sobre agricultura regenerativa, os dados indicam que o tema já está relativamente consolidado no ambiente corporativo analisado, com 37,3% das empresas declarando possuir conhecimento intermediário e 39,2% conhecimento avançado (totalizando 76,5%), conforme a Figura 4. Esse alto nível de familiaridade sugere que a agricultura regenerativa não é mais um conceito totalmente novo para essas organizações, mas sim uma abordagem que já faz parte de suas discussões estratégicas e operacionais. No entanto, a literatura ressalta que, mesmo com a maior difusão do conceito, ainda persistem ambiguidades quanto à sua definição, ao escopo e aos critérios de avaliação de resultados (Shennan-Farpón et al., 2025). Essa falta de padronização pode influenciar a forma como as empresas operacionalizam esse conhecimento, levando a abordagens inconsistentes ou a uma dificuldade em mensurar os benefícios reais. A implicação prática é a necessidade urgente de desenvolver métricas claras e padronizadas, bem como diretrizes conceituais mais robustas, para garantir que o conhecimento seja aplicado de forma eficaz e que os resultados sejam comparáveis e verificáveis. Isso também ajudaria a mitigar o risco de “greenwashing” e a fortalecer a credibilidade das iniciativas regenerativas no setor.

Figura 4. Percepções sobre agricultura regenerativa

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A percepção das empresas sobre a recuperação de solos degradados como uma oportunidade estratégica de médio prazo é um achado central, com 66,7% dos respondentes classificando-a dessa forma, conforme a Figura 5. Esse resultado é particularmente encorajador, pois sugere que a regeneração de solos não é vista como uma ação de curto prazo ou uma mera obrigação ambiental, mas sim como um elemento integrado à estratégia corporativa de longo prazo. Essa visão estratégica é fundamental para a sustentabilidade das iniciativas, pois implica um compromisso com investimentos contínuos e uma abordagem holística. Estudos recentes indicam que, no setor privado, a agricultura regenerativa tende a ser incorporada de forma mais consistente quando associada a benefícios econômicos futuros, como a redução de riscos produtivos, o acesso a mercados diferenciados e o fortalecimento da reputação socioambiental, e não apenas por motivações ambientais isoladas (Bless et al., 2025). A implicação prática é que as empresas precisam desenvolver modelos de negócios claros que demonstrem o retorno sobre o investimento (ROI) das práticas regenerativas, não apenas em termos ambientais, mas também financeiros e de resiliência operacional. A comunicação desses benefícios de médio prazo é essencial para justificar os investimentos e engajar as partes interessadas internas e externas.

Figura 5. Percepções sobre agricultura regenerativa

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Apesar do otimismo e do reconhecimento estratégico, os principais desafios identificados pelas empresas estrangeiras são significativos e refletem barreiras econômicas, operacionais e sociais. Os altos custos de implementação foram citados por 64,7% dos respondentes, a resistência de produtores e parceiros locais por 56,9%, e a dificuldade em mensurar o retorno financeiro por 54,9%, conforme detalhado na Figura 6. Esses resultados estão em consonância com a literatura, que aponta que a transição para sistemas regenerativos envolve investimentos iniciais substanciais, mudanças culturais nos sistemas produtivos e desafios metodológicos para a quantificação precisa dos retornos econômicos e ambientais (Shennan-Farpón et al., 2025). Os custos elevados podem incluir a aquisição de novas tecnologias, a adaptação de maquinário, a capacitação de mão de obra e os investimentos em bioinsumos. A resistência de produtores e parceiros locais, por sua vez, pode ser atribuída à aversão ao risco, à falta de conhecimento sobre as novas práticas e à inércia cultural de sistemas produtivos estabelecidos. A dificuldade em mensurar o retorno financeiro, em particular, reflete uma limitação amplamente discutida nos estudos sobre agricultura regenerativa, sobretudo pela ausência de métricas padronizadas e pela variabilidade dos resultados conforme o contexto edafoclimático e o histórico de uso do solo. Essa incerteza tende a reforçar estratégias empresariais mais conservadoras e graduais (Bless et al., 2025), o que pode retardar a escalabilidade das iniciativas.

Figura 6. Principais desafios

Fonte: Resultados originais da pesquisa

As implicações práticas desses desafios são multifacetadas. Para os altos custos de implementação, é imperativo o desenvolvimento de mecanismos de financiamento inovadores, como linhas de crédito verde com juros subsidiados, incentivos fiscais e programas de co-investimento público-privado. A resistência de produtores e parceiros locais exige estratégias robustas de engajamento, que incluam demonstrações de campo, programas de capacitação técnica e a criação de redes de troca de experiências. É fundamental que as empresas estrangeiras invistam na construção de confiança e na demonstração dos benefícios a longo prazo para as comunidades locais. Quanto à dificuldade de mensurar o retorno financeiro, a pesquisa e o desenvolvimento de metodologias de avaliação de impacto mais precisas e acessíveis são cruciais. Isso inclui a padronização de indicadores econômicos e ambientais, a utilização de tecnologias de monitoramento e a colaboração com instituições de pesquisa para validar os resultados. A superação desses desafios requer uma abordagem integrada que combine apoio financeiro, capacitação técnica, engajamento social e inovação metodológica, envolvendo múltiplos atores do ecossistema agrícola.

Para mitigar os riscos associados à adoção de práticas regenerativas, as empresas têm adotado estratégias proativas, com destaque para o planejamento de longo prazo (47,1%), seguido por parcerias com universidades/institutos (19,6%), apoio técnico local (17,6%) e captação de financiamento com incentivos sustentáveis (13,7%), conforme ilustrado na Figura 7. O planejamento de longo prazo é uma resposta direta à natureza gradual dos benefícios da agricultura regenerativa e à necessidade de investimentos iniciais significativos. Essa estratégia permite que as empresas estabeleçam metas realistas, aloquem recursos de forma consistente e monitorem o progresso ao longo do tempo, ajustando as abordagens conforme necessário. A literatura reforça que a transição para sistemas mais sustentáveis é um processo contínuo que exige visão estratégica e resiliência (Shennan-Farpón et al., 2025).

Figura 7. Estratégias e práticas adotadas

Fonte: Resultados originais da pesquisa

As parcerias com universidades e institutos de pesquisa são cruciais para o desenvolvimento e a validação de tecnologias e práticas adaptadas às condições locais, além de fornecerem um suporte técnico e científico robusto. Essa colaboração permite que as empresas acessem conhecimento especializado, compartilhem riscos e acelerem a inovação. O apoio técnico local, por sua vez, é fundamental para a capacitação de produtores e equipes de campo, garantindo a correta implementação das práticas e a superação de barreiras de conhecimento. A captação de financiamento com incentivos sustentáveis demonstra a busca por soluções financeiras que alinhem os objetivos econômicos com os ambientais, aproveitando o crescente interesse de investidores em projetos com impacto positivo. A implicação prática dessas estratégias é que as empresas estão reconhecendo a necessidade de uma abordagem colaborativa e multifacetada para a agricultura regenerativa. Elas buscam não apenas implementar as práticas, mas também construir um ecossistema de apoio que envolva pesquisa, capacitação e financiamento, elementos essenciais para a escalabilidade e o sucesso a longo prazo. Essas ações demonstram um amadurecimento na forma como o setor privado aborda a sustentabilidade, transformando-a de uma responsabilidade isolada em uma oportunidade estratégica de colaboração e inovação.

Entre as práticas regenerativas mais mencionadas pelas empresas, destacam-se o uso de bioinsumos e compostagem (60,8%) e a agricultura de precisão voltada à regeneração (60,8%), seguidas pelo plantio direto (54,9%), conforme apresentado na Figura 8. Esses achados são consistentes com as tendências globais em agricultura sustentável, que enfatizam a saúde do solo e a eficiência dos recursos. O uso de bioinsumos e compostagem reflete um compromisso com a melhoria da biologia do solo, a ciclagem de nutrientes e a redução da dependência de fertilizantes químicos sintéticos. A literatura científica, como a de Hajji-Hedfi et al. (2025), demonstra que essas práticas promovem melhorias significativas na saúde do solo, aumentam a biodiversidade microbiana e contribuem para a redução da pegada de carbono. No entanto, esses benefícios tendem a se manifestar de forma gradual e exigem uma integração entre múltiplas práticas, o que reforça a importância de abordagens de longo prazo e adaptadas às condições locais.

Figura 8. Estratégias e práticas adotadas

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A agricultura de precisão, por sua vez, representa a aplicação de tecnologia para otimizar o manejo agrícola, permitindo a aplicação direcionada de insumos, o monitoramento da saúde do solo e das culturas, e a tomada de decisões baseadas em dados. Quando voltada à regeneração, essa tecnologia pode maximizar a eficácia das práticas regenerativas, reduzindo desperdícios e aumentando a produtividade de forma sustentável. O plantio direto, uma prática já consolidada no Brasil, complementa essas abordagens ao minimizar a perturbação do solo, proteger contra a erosão e aumentar o acúmulo de matéria orgânica. As implicações práticas desses resultados são que as empresas estão investindo em um portfólio de práticas que visam a saúde do solo e a eficiência. No entanto, a implementação bem-sucedida dessas práticas requer não apenas a adoção individual, mas a sua integração em um sistema de manejo holístico. Isso demanda capacitação técnica contínua, acesso a tecnologias e um entendimento aprofundado das interações entre as diferentes práticas e o ambiente local. A combinação de bioinsumos, compostagem e agricultura de precisão pode criar sinergias que aceleram os processos regenerativos e aumentam a resiliência dos sistemas agrícolas.

As empresas indicaram como essenciais os incentivos fiscais (56,9%) e os programas públicos de apoio técnico para ampliar os investimentos em regeneração de solos, conforme a Figura 9. Esse resultado evidencia a percepção de que o ambiente institucional e o suporte governamental desempenham um papel fundamental na viabilização e escalabilidade dessas iniciativas. A ausência de políticas públicas claras e de incentivos financeiros específicos pode atuar como uma barreira significativa para a adoção em larga escala da agricultura regenerativa. Estudos internacionais, como os de Bless et al. (2025) e Shennan-Farpón et al. (2025), mostram que, embora governos frequentemente evitem adotar explicitamente o termo “agricultura regenerativa”, há um crescente apoio a práticas e resultados associados a esse modelo, especialmente quando vinculados a políticas de mitigação climática, conservação do solo e mercados de serviços ecossistêmicos. Esse padrão reforça a importância de políticas públicas consistentes para reduzir incertezas, estimular a participação do setor privado e criar um ambiente favorável ao investimento.

Figura 9. Recomendações e apoio necessário

Fonte: Resultados originais da pesquisa

As implicações práticas dessa demanda por apoio governamental são claras. Os formuladores de políticas públicas precisam desenvolver e implementar um arcabouço regulatório que ofereça segurança jurídica e incentivos financeiros tangíveis para as empresas que adotam práticas regenerativas. Isso pode incluir isenções fiscais, linhas de crédito com condições favoráveis, subsídios para a aquisição de bioinsumos e tecnologias de agricultura de precisão, e programas de pagamento por serviços ambientais. Além disso, a criação de programas públicos de apoio técnico, em parceria com instituições de pesquisa e extensão rural, é fundamental para disseminar conhecimento, capacitar produtores e técnicos, e validar a eficácia das práticas em diferentes contextos brasileiros. A cooperação técnica com instituições locais e a certificação de sustentabilidade também foram mencionadas, indicando a necessidade de um ecossistema de apoio robusto que promova a confiança e a transparência. A atuação coordenada entre governo, setor privado e academia é essencial para superar as barreiras institucionais e acelerar a transição para uma agricultura mais regenerativa e sustentável no Brasil.

Na questão aberta final, os respondentes demonstraram um otimismo notável quanto ao potencial do Brasil para se tornar uma referência global em agricultura regenerativa, com 80,4% dos participantes expressando essa visão, desde que sejam fortalecidos os mecanismos de integração entre o setor público e privado, o suporte técnico e a segurança regulatória, conforme a Figura 10. Essa percepção é coerente com a literatura, que reconhece o elevado potencial brasileiro, dada sua vasta extensão territorial, diversidade de biomas e papel estratégico na segurança alimentar mundial. No entanto, a consolidação de sistemas regenerativos depende de coordenação institucional, estabilidade regulatória e estratégias de longo prazo capazes de sustentar investimentos e promover a escalabilidade das práticas (Bless et al., 2025). O Brasil possui características únicas que o posicionam favoravelmente, como a experiência com o plantio direto e a capacidade de inovar em sistemas de produção.

Figura 10. Potencial do Brasil em agricultura regenerativa

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Os comentários adicionais dos respondentes, apresentados na Figura 11, reforçam essa visão positiva ao destacarem que o alcance desse potencial está diretamente associado à realização de investimentos consistentes, ao planejamento estratégico de longo prazo e ao fortalecimento de políticas públicas e parcerias institucionais. Relatos como “O Brasil pode ser referência em agricultura regenerativa, desde que haja foco no negócio, com investimentos em tecnologia e capacitação” e “É essencial tirar o tema da polarização política e tratá-lo como estratégia de desenvolvimento sustentável” sublinham a necessidade de uma abordagem pragmática e colaborativa. A menção de que “o Brasil desde a década de 70 já adota a prática do plantio direto” e que isso pode gerar “mais visibilidade e oportunidade de implantar isso em campo em uma escala abrangente” demonstra a base histórica e o potencial de expansão. Outros comentários enfatizam que a agricultura regenerativa “vai muito além do foco ambiental”, trazendo “economia no médio/longo prazo no custo de produção” e promovendo a “reposição natural dos nutrientes extraídos e um equilíbrio na biópsia fauna do solo”, o que ressalta a dimensão econômica e de resiliência dos sistemas produtivos.

Figura 11. Considerações finais dos respondentes

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Esses relatos complementam os resultados quantitativos ao evidenciar que, para além do reconhecimento conceitual da agricultura regenerativa, há uma expectativa concreta de avanço no tema, desde que sejam criadas condições estruturais favoráveis à sua implementação e expansão. A implicação prática é que o Brasil tem uma janela de oportunidade única para se posicionar como líder global em agricultura regenerativa. Para isso, é fundamental que o governo, o setor privado e a sociedade civil trabalhem em conjunto para criar um ambiente propício, investindo em pesquisa e desenvolvimento, capacitação, infraestrutura e políticas públicas que apoiem a transição. A superação da polarização política em torno do tema e a sua abordagem como uma estratégia de desenvolvimento sustentável e econômico são passos cruciais para transformar esse potencial em realidade, atraindo mais investimentos estrangeiros e promovendo a segurança alimentar e ambiental.

Em conjunto, os resultados indicam um cenário de elevada familiaridade corporativa com o tema da agricultura regenerativa e o reconhecimento do valor estratégico da recuperação de solos degradados, condicionado, entretanto, por incertezas econômicas e operacionais. Observa-se que a decisão de avançar com iniciativas regenerativas tende a depender de três fatores centrais: (i) viabilidade financeira e horizonte de retorno, (ii) capacidade de implementação e engajamento de parceiros locais e (iii) ambiente institucional e mecanismos de incentivo. Esses elementos fundamentam a aplicação das ferramentas analíticas apresentadas na sequência, especificamente a Análise SWOT e a Matriz de Risco, que sintetizam os achados e oferecem uma estrutura para a compreensão estratégica.

A Análise SWOT, elaborada com base nos resultados obtidos no questionário, permitiu identificar as principais forças, fraquezas, oportunidades e ameaças relacionadas à adoção de práticas de agricultura regenerativa e à recuperação de solos degradados no Brasil, conforme detalhado na Figura 12.

Figura 12. Análise “SWOT”

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Entre as forças, destacam-se a predominância de grandes empresas (90,2%), que possuem maior capacidade financeira e estrutural para investir em inovação, e o elevado nível de conhecimento técnico intermediário e avançado sobre agricultura regenerativa (76,5%). A forte presença de gestores e diretores (51%) indica um maior envolvimento estratégico e uma tomada de decisão qualificada. A adoção consolidada de tecnologias sustentáveis, como bioinsumos, compostagem e agricultura de precisão (60,8%), reforça o compromisso corporativo com práticas inovadoras e eficientes. Por fim, o reconhecimento do potencial do Brasil como referência global em regeneração (80,4%) é uma força que pode atrair investimentos e parcerias. Essas forças internas sugerem que as empresas estrangeiras no Brasil possuem uma base sólida para avançar na agenda regenerativa, com recursos, conhecimento e liderança para impulsionar a mudança. A implicação prática é que as empresas devem capitalizar essas forças, utilizando sua capacidade financeira e conhecimento técnico para desenvolver e escalar projetos-piloto, demonstrando a viabilidade e os benefícios da agricultura regenerativa.

As fraquezas internas, por outro lado, concentram-se em desafios de ordem econômica, operacional e cultural. Os custos elevados de implementação (64,7%) e a dificuldade em mensurar o retorno financeiro dos investimentos (54,9%) emergem como obstáculos centrais, corroborando achados da literatura que apontam o investimento inicial como uma das principais barreiras à transição para sistemas sustentáveis (Shennan-Farpón et al., 2025). A resistência de produtores e parceiros locais às mudanças (56,9%) e o déficit de conhecimento técnico local e mão de obra especializada (35,3%) reforçam a necessidade de capacitação e assistência técnica estruturada. A dependência de políticas públicas e incentivos governamentais ainda incipientes também é uma fraqueza que limita a escalabilidade. As implicações práticas dessas fraquezas são que as empresas precisam desenvolver estratégias robustas para mitigar esses desafios. Isso inclui a busca por financiamentos verdes, o desenvolvimento de métricas de desempenho claras, programas de engajamento e capacitação para parceiros locais, e a advocacy por políticas públicas mais favoráveis.

No ambiente externo, as oportunidades identificadas demonstram um cenário favorável para a expansão das práticas regenerativas. A crescente valorização da sustentabilidade e da agricultura regenerativa no mercado internacional cria um nicho para produtos diferenciados e agrega valor à marca. A possibilidade de acesso a financiamentos e linhas de crédito verdes oferece alternativas para superar a barreira dos custos iniciais. O planejamento estratégico de longo prazo (47,1%) é uma ferramenta de viabilização econômica que permite às empresas se adaptarem e prosperarem nesse novo paradigma. O potencial para diferenciação competitiva e fortalecimento da imagem corporativa é um incentivo poderoso. Por fim, a expansão de parcerias público-privadas e programas de incentivo à recuperação de solos pode criar um ecossistema de apoio robusto. As implicações práticas dessas oportunidades são que as empresas devem ser proativas na busca por certificações de sustentabilidade, na exploração de mercados premium, na formação de alianças estratégicas e na participação ativa em fóruns de discussão sobre políticas públicas.

Por sua vez, as ameaças mostram que ainda existem barreiras importantes para a expansão dessas práticas. Barreiras regulatórias e burocráticas, incertezas econômicas e instabilidade política, resistência cultural e operacional por parte de atores do agronegócio, escassez de infraestrutura e suporte técnico especializado em algumas regiões, e a lentidão na formulação e implementação de políticas públicas específicas podem comprometer a continuidade e a escalabilidade dos investimentos estrangeiros no setor. As implicações práticas dessas ameaças são que as empresas devem adotar uma postura de gestão de riscos ativa, diversificando investimentos, buscando clareza regulatória e engajando-se em diálogos com stakeholders governamentais e locais para mitigar esses riscos. A análise SWOT, portanto, fornece um mapa estratégico que orienta as empresas a alavancar suas forças e oportunidades enquanto gerenciam suas fraquezas e ameaças no caminho para a agricultura regenerativa.

Com base nas respostas obtidas no questionário, foi elaborada uma Matriz de Risco (Figura 13) com o objetivo de classificar os principais riscos percebidos pelas empresas estrangeiras que atuam no setor agrícola brasileiro quanto à adoção de práticas de agricultura regenerativa. Os riscos foram avaliados a partir de dois critérios: Probabilidade de ocorrência (P), entendida como a chance de o risco se concretizar (baixa, média ou alta); e Impacto (I), referente à magnitude das consequências caso o risco ocorra (baixo, médio ou alto). A combinação entre P e I permitiu classificar cada risco como crítico, significativo ou moderado, oferecendo uma priorização estruturada para a gestão de riscos.

Figura 13. Matriz de Risco

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Os resultados demonstram que dois riscos foram considerados críticos, ambos relacionados à viabilidade econômica das práticas regenerativas: o alto custo de implementação e a dificuldade de mensurar o retorno financeiro. Ambos foram classificados com Probabilidade Alta e Impacto Alto. Esses fatores representam os principais entraves iniciais para a adoção de tecnologias regenerativas, uma vez que envolvem investimentos elevados e incertezas quanto ao horizonte de retorno. A implicação prática é que as empresas devem priorizar o desenvolvimento de modelos financeiros robustos que demonstrem o ROI a longo prazo e buscar ativamente mecanismos de financiamento que mitiguem os custos iniciais. Para a dificuldade de mensurar o retorno financeiro, é crucial investir em sistemas de monitoramento e avaliação que permitam quantificar os benefícios econômicos e ambientais de forma clara e verificável, utilizando indicadores padronizados e ferramentas de análise de dados.

Os riscos classificados como significativos abrangem aspectos operacionais e institucionais. Entre eles, destacam-se a resistência de produtores e parceiros locais (P Alta, I Média), a falta de conhecimento técnico especializado (P Média, I Alta), as barreiras regulatórias e burocráticas (P Média, I Alta), a instabilidade política e econômica (P Média, I Alta) e a escassez de incentivos financeiros e fiscais (P Alta, I Média). Esses elementos influenciam diretamente a disposição das empresas em expandir iniciativas regenerativas e indicam a necessidade de maior integração entre governo, setor privado e agentes locais para mitigar incertezas e promover condições de implementação mais favoráveis. As implicações práticas para esses riscos incluem o investimento em programas de capacitação e extensão rural para superar a resistência e o déficit de conhecimento técnico. Para as barreiras regulatórias e a instabilidade política/econômica, as empresas devem engajar-se em diálogos com formuladores de políticas, buscando clareza e estabilidade regulatória, além de diversificar suas estratégias de investimento para reduzir a exposição a riscos macroeconômicos. A escassez de incentivos financeiros e fiscais reforça a necessidade de advocacy por políticas públicas que estimulem a transição regenerativa.

Já os riscos moderados envolvem desafios estruturais e organizacionais, como a escassez de infraestrutura rural adequada (P Média, I Média), o desalinhamento entre a matriz estrangeira e a operação local (P Baixa, I Média) e a lentidão na formulação de políticas públicas específicas (P Média, I Média). Embora não representem impeditivos imediatos, esses fatores podem comprometer a eficiência operacional e retardar a expansão das práticas regenerativas em escala. As implicações práticas para esses riscos moderados incluem a colaboração com governos e outras empresas para desenvolver infraestrutura rural, o estabelecimento de canais de comunicação claros entre a matriz e a operação local para alinhar objetivos e estratégias, e a participação em grupos de trabalho e associações setoriais para influenciar a formulação de políticas públicas.

De maneira geral, a Matriz de Risco evidencia que a adoção da agricultura regenerativa por empresas estrangeiras no Brasil demanda planejamento estratégico de longo prazo, fortalecimento das capacidades técnicas locais, ampliação do acesso a financiamento verde e maior clareza regulatória. A identificação dos riscos e sua classificação permite compreender os principais pontos de atenção e orientar ações mitigadoras que viabilizem a ampliação dessas práticas no país. A gestão proativa desses riscos, combinada com o aproveitamento das forças e oportunidades identificadas na análise SWOT, é fundamental para que o Brasil possa consolidar sua posição como líder em agricultura regenerativa e atrair investimentos sustentáveis.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido ao analisar a percepção de empresas estrangeiras atuantes no Brasil sobre iniciativas de recuperação de solos degradados por meio da agricultura regenerativa, identificando as principais barreiras, oportunidades e estratégias adotadas para a implementação desses projetos. Os resultados revelaram que a agricultura regenerativa é vista como uma oportunidade estratégica de médio prazo, impulsionada por um alto nível de conhecimento corporativo e pela adoção de práticas como bioinsumos, compostagem e agricultura de precisão. Contudo, desafios significativos persistem, notadamente os altos custos de implementação, a resistência de produtores locais e a dificuldade em mensurar o retorno financeiro. Para mitigar esses riscos, as empresas priorizam o planejamento de longo prazo e parcerias estratégicas, demonstrando um otimismo quanto ao potencial do Brasil como referência global, desde que haja fortalecimento institucional e incentivos.

Este estudo, contudo, apresenta limitações importantes. A amostra não probabilística, composta exclusivamente por profissionais de empresas estrangeiras, restringe a generalização dos resultados. Além disso, a dependência de dados autodeclarados pode introduzir vieses de percepção, e a ausência de análises econômicas detalhadas limita a compreensão do retorno financeiro real das práticas regenerativas. Para pesquisas futuras, recomenda-se aprofundar análises comparativas entre empresas de diferentes portes e origens, ampliar o recorte geográfico, incorporar indicadores financeiros e ambientais medidos em campo, e desenvolver estudos longitudinais para avaliar os impactos econômicos, sociais e ecológicos da agricultura regenerativa ao longo do tempo.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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