03 de agosto de 2026
Aplicativo de Finanças Pessoais em React Native
Henrique Zarnauskas Dias de Souza Vieira; Victor Inacio de Oliveira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600897
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A educação financeira pessoal é um pilar fundamental para a organização econômica individual, contudo, no contexto brasileiro, ainda se observam limitações significativas que dificultam o controle de gastos e o planejamento financeiro eficaz. Nesse cenário, aplicativos móveis emergem como ferramentas acessíveis para auxiliar na gestão financeira, desde que ofereçam simplicidade de uso e clareza na organização das informações. Desenvolveu-se um aplicativo mobile gratuito de finanças pessoais, utilizando o framework React Native, com foco primordial em usabilidade, armazenamento local de dados e apoio à educação financeira prática. O aplicativo implementou funcionalidades para o cadastro de contas, o registro detalhado de receitas, despesas e transferências, a classificação de gastos por tipo e área, a definição de metas e limites financeiros, e a visualização de análises financeiras por meio de gráficos mensais e anuais. A metodologia adotada caracterizou-se como pesquisa aplicada, com abordagens qualitativa e quantitativa, que envolveu uma revisão bibliográfica abrangente, planejamento, desenvolvimento iterativo, testes com usuários voluntários e refinamento contínuo do software com base nos resultados obtidos. A avaliação da experiência de uso foi realizada por meio da escala System Usability Scale (SUS) e de dados qualitativos coletados. Os resultados demonstraram bom desempenho geral, organização clara das informações e elevada usabilidade, com pontuação média de 89 na escala SUS, além de um impacto positivo na percepção e no controle financeiro dos usuários participantes. Concluiu-se que o aplicativo constitui uma ferramenta funcional, acessível e com potencial de impacto social significativo.
Palavras-chave: Controle financeiro; Desenvolvimento de software; Educação financeira; Planejamento financeiro; Usabilidade.
1. Introdução
A educação financeira pessoal é um pilar fundamental para a organização econômica individual e o bem-estar social. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, 2018) ressalta que a literacia financeira transcende o mero conhecimento, abrangendo comportamentos e atitudes que promovem a gestão responsável do dinheiro. Contudo, no contexto brasileiro, observam-se limitações significativas que impactam diretamente a capacidade dos indivíduos de controlar gastos e realizar um planejamento financeiro eficaz. Dados do Banco Central do Brasil (2024) apontam para um cenário de elevado endividamento e dificuldades na gestão orçamentária, especialmente entre jovens e famílias, o que sublinha a urgência de soluções que promovam a autonomia financeira. A complexidade dos produtos bancários e a escassez de programas de educação financeira acessíveis contribuem para perpetuar esse ciclo de desinformação e vulnerabilidade econômica, tornando a busca por ferramentas de apoio prático uma necessidade premente.
Nesse cenário, aplicativos móveis emergem como ferramentas acessíveis e ubíquas, com potencial para democratizar o acesso à gestão financeira. A eficácia dessas soluções, no entanto, depende criticamente da sua usabilidade, definida pela ISO 9241-11 (2018) como a capacidade de um sistema ser utilizado por usuários para atingir objetivos com eficácia, eficiência e satisfação. Estudos como os de Stefanov et al. (2024) e Xiong (2019) reforçam que a simplicidade de uso e a clareza na organização das informações são essenciais para a adoção e o engajamento, particularmente para usuários com baixo nível de conhecimento financeiro. A System Usability Scale (SUS), proposta por Brooke (1996), é um método amplamente reconhecido para avaliar essa percepção. Embora o mercado ofereça diversas opções, muitas delas apresentam interfaces complexas, exigem assinaturas ou armazenamento em nuvem, o que pode afastar iniciantes e levantar preocupações com privacidade (Cassola et al., 2025; Stefanov et al., 2024). A escolha de tecnologias como o framework React Native, que permite o desenvolvimento multiplataforma com uma única base de código, oferece uma solução eficiente e de baixo custo, alinhando-se à necessidade de acessibilidade e manutenção simplificada para projetos com foco social (Dabit, 2019).
Diante da persistente lacuna na educação financeira brasileira e das limitações das ferramentas existentes, que frequentemente falham em combinar simplicidade, gratuidade e segurança, torna-se evidente a necessidade de uma solução que empodere o indivíduo no controle de suas finanças. A carência de aplicativos que priorizem a usabilidade intuitiva para usuários iniciantes, o armazenamento local de dados para garantir privacidade e a promoção da educação financeira prática justifica o desenvolvimento de uma nova abordagem. Assim, este trabalho teve como objetivo desenvolver um aplicativo mobile gratuito de finanças pessoais, utilizando o framework React Native, com foco primordial em usabilidade, armazenamento local de dados e apoio à educação financeira prática, visando capacitar os usuários a gerenciar suas finanças de forma autônoma e consciente.
2. Material e Métodos
A pesquisa adotou um caráter aplicado, integrando abordagens qualitativa e quantitativa, e configurou-se como uma pesquisa-ação voltada ao desenvolvimento e à avaliação de um produto tecnológico. Este delineamento metodológico permitiu um ciclo iterativo de planejamento, desenvolvimento, testes com usuários e refinamento do aplicativo. A pesquisa-ação é intrínseca à engenharia de software, onde a criação de soluções funcionais e a validação em contexto real são primordiais para a inovação e para garantir que o produto final atenda às necessidades práticas dos usuários e aos objetivos do projeto.
O estudo foi conduzido no contexto brasileiro, visando abordar as limitações na educação financeira pessoal e a carência de ferramentas digitais acessíveis. O local de desenvolvimento e testes não foi explicitamente delimitado a uma instituição física, sendo o processo realizado de forma distribuída, característica de projetos de software. O período de execução da pesquisa abrangeu as etapas de revisão bibliográfica, planejamento, desenvolvimento, testes e refinamento do aplicativo, culminando na versão final do produto. A unidade de análise principal consistiu no aplicativo móvel de finanças pessoais desenvolvido e na experiência de usabilidade dos usuários com essa ferramenta.
A população-alvo da pesquisa compreendeu indivíduos interessados em aprimorar sua organização e controle financeiro pessoal, especialmente aqueles com baixo nível de conhecimento financeiro. Para a etapa de testes e validação, constituiu-se uma amostra por conveniência de cinco usuários voluntários. Embora onze pessoas tenham demonstrado interesse inicial, apenas cinco efetivamente utilizaram o aplicativo e responderam ao formulário de avaliação. Os critérios de seleção basearam-se exclusivamente no interesse dos participantes em testar e fornecer feedback sobre uma ferramenta de gestão financeira, sem exigências de perfil demográfico específico, além da posse de um dispositivo Android.
O desenvolvimento do aplicativo foi realizado utilizando o framework React Native, uma tecnologia multiplataforma que permite a criação de aplicações nativas para Android e iOS a partir de uma única base de código (Dabit, 2019). Para o armazenamento de dados, optou-se por um banco de dados local, garantindo a privacidade e a funcionalidade offline do sistema (Owens; Allen, 2010). Essa escolha tecnológica alinhou-se ao objetivo de oferecer uma solução gratuita, leve e segura, sem a necessidade de cadastro em nuvem ou conexão constante com a internet, priorizando a autonomia do usuário.
Para a coleta de dados sobre a experiência do usuário e a usabilidade do aplicativo, empregou-se a System Usability Scale (SUS), um questionário de dez itens amplamente reconhecido para avaliar a percepção de facilidade de uso e satisfação com sistemas interativos (Brooke, 1996). Adicionalmente, foram coletados dados qualitativos por meio de um formulário de avaliação, que incluiu perguntas abertas sobre o feedback dos participantes e observações diretas durante o uso. Este formulário foi aplicado após um período de uso do aplicativo pelos voluntários, permitindo capturar suas impressões e sugestões de melhoria.
A execução da pesquisa iniciou-se com uma revisão bibliográfica abrangente, que envolveu o levantamento de estudos e referências sobre educação financeira, comportamento de usuários em aplicativos de controle financeiro e usabilidade de sistemas. Foram consultadas publicações que abordam frameworks multiplataforma e a importância da simplicidade em soluções digitais (Stefanov et al., 2024; Xiong, 2019). Em seguida, na etapa de planejamento e projeto do sistema, definiram-se os requisitos funcionais e não funcionais do aplicativo, elaborou-se um protótipo de interface e estruturou-se o repositório do projeto de forma modular.
A terceira etapa consistiu no desenvolvimento do aplicativo, onde foram implementadas as funcionalidades essenciais para o controle financeiro pessoal. Isso incluiu o cadastro de contas, o registro de receitas, despesas e transferências, a categorização de gastos por tipo e área, a definição de metas e limites financeiros, e a visualização de análises por meio de gráficos mensais e anuais. A arquitetura modular foi adotada para separar responsabilidades entre interface, lógica de negócio e gerenciamento de estado, facilitando a manutenção e a reutilização de componentes ao longo do processo de desenvolvimento.
Posteriormente, realizou-se a etapa de testes e validação, na qual o aplicativo foi disponibilizado para os usuários voluntários em dispositivos Android. Os participantes utilizaram a ferramenta em situações reais do cotidiano, permitindo a avaliação da usabilidade, desempenho e percepção de utilidade. Durante este período, foram coletados dados por meio do questionário SUS e de um formulário qualitativo, que buscou identificar a experiência de uso e possíveis pontos de melhoria. Esta fase foi crucial para verificar a conformidade do aplicativo com os requisitos definidos e seu desempenho em um ambiente real.
A última etapa de execução foi o refinamento do aplicativo, um processo iterativo baseado nos resultados dos testes preliminares e no feedback dos usuários. Foram implementadas melhorias complexas, como a redefinição da lógica temporal para cálculos de saldo, a introdução de transações recorrentes e um mecanismo de busca. Além disso, ajustes pontuais foram realizados, incluindo correções de cálculos, padronização de datas, formatação monetária, melhorias na entrada de valores e adição de notas explicativas e um tutorial inicial, visando aprimorar a robustez e a experiência do usuário.
Os dados quantitativos coletados por meio da System Usability Scale (SUS) foram analisados para determinar a pontuação média de usabilidade do aplicativo. A escala SUS, que varia de zero a cem, forneceu um indicador objetivo da percepção dos usuários sobre a facilidade de uso e a satisfação com o sistema. Essa análise permitiu classificar o nível de usabilidade do aplicativo, contribuindo para a avaliação de sua eficácia e eficiência. A pontuação obtida foi utilizada para inferir o grau de aceitação da interface e das funcionalidades implementadas.
A análise dos dados qualitativos, obtidos por meio do formulário de avaliação e das observações dos participantes, concentrou-se na identificação de padrões de feedback, sugestões de melhoria e percepções sobre o impacto do aplicativo na organização financeira pessoal. As respostas abertas foram categorizadas e interpretadas para compreender as dificuldades enfrentadas, os pontos positivos e as funcionalidades mais valorizadas pelos usuários. Essa abordagem qualitativa complementou a avaliação quantitativa, fornecendo insights aprofundados sobre a experiência de uso e o potencial educativo da ferramenta.
Os procedimentos éticos da pesquisa envolveram a participação voluntária dos usuários nos testes, garantindo que a adesão fosse por interesse próprio e sem qualquer tipo de coerção. A privacidade dos dados foi assegurada pelo armazenamento local das informações financeiras no dispositivo do usuário, eliminando a necessidade de cadastro em nuvem e, consequentemente, os riscos associados a vazamentos de dados em larga escala. Como limitações metodológicas, identificou-se o número reduzido de participantes na fase de testes, o que restringe a generalização dos resultados, e o curto período de avaliação para observar comportamentos financeiros de longo prazo.
3. Resultados e Discussão
Os resultados deste trabalho abrangem o ciclo completo de desenvolvimento, validação e refinamento de um aplicativo móvel de finanças pessoais, concebido e construído com base em requisitos detalhados definidos nas etapas iniciais de planejamento e projeto do sistema. A abordagem metodológica, caracterizada como pesquisa-ação com componentes qualitativos e quantitativos, permitiu não apenas a implementação funcional de um sistema robusto, mas também sua avaliação em um contexto real de uso, culminando em um processo iterativo de melhorias significativas. A versão final do aplicativo, portanto, reflete uma solução aprimorada que integra as principais funcionalidades de gestão financeira, como cadastro de contas, registro e categorização de transações, definição de metas e limites, e visualização de dados por meio de análises gráficas mensais e anuais.
A arquitetura modular adotada no desenvolvimento do aplicativo, conforme detalhado na seção de Métodos, demonstrou ser altamente eficaz para a evolução do sistema. Essa estrutura, que separa responsabilidades entre interface, lógica de negócio e gerenciamento de estado, facilitou a implementação incremental de melhorias e a adição de novas funcionalidades sem comprometer a estabilidade ou a manutenibilidade da aplicação. Tal abordagem está em consonância com as melhores práticas da engenharia de software, que preconizam a modularidade para garantir escalabilidade e flexibilidade em projetos complexos (Dabit, 2019). A capacidade de evoluir o sistema de forma controlada foi crucial para incorporar o feedback dos usuários e adaptar o aplicativo às suas necessidades emergentes.
A etapa de testes com usuários desempenhou um papel central e indispensável na validação do sistema, fornecendo insights críticos sobre a usabilidade, desempenho e percepção de utilidade do aplicativo. Os resultados quantitativos, obtidos por meio da System Usability Scale (SUS), revelaram uma pontuação média de 89 pontos. Este valor posiciona a aplicação em um nível de usabilidade considerado “excelente”, de acordo com as classificações padrão da escala SUS (Brooke, 1996). Uma pontuação acima de 80,3 é geralmente classificada como “excelente”, indicando que os usuários percebem o sistema como fácil de usar, intuitivo e eficiente. Este achado é particularmente relevante, pois a usabilidade é um fator crítico para a adoção e retenção de usuários em aplicativos de finanças pessoais, onde a complexidade pode ser um grande obstáculo para indivíduos com baixo conhecimento financeiro (Stefanov et al., 2024). A alta usabilidade sugere que o aplicativo consegue mitigar a barreira de entrada para novos usuários, promovendo uma interação eficiente e satisfatória.
A análise do perfil dos participantes, embora limitada a uma amostra de conveniência de cinco usuários, revelou uma diversidade etária, com 40% entre 20 e 35 anos, 40% entre 36 e 50 anos, e 20% com menos de 20 anos, conforme ilustrado na Figura 1 (Idade dos participantes). Esta distribuição, mesmo que pequena, permitiu coletar feedback de diferentes gerações, cada uma com suas próprias expectativas e familiaridade com tecnologias digitais. Além disso, a Figura 2 (Experiência com organização financeira) indicou que 80% dos usuários já utilizavam algum método de organização financeira, predominantemente planilhas, antes de usar o aplicativo. Este dado é significativo, pois permitiu avaliar o aplicativo não apenas sob a perspectiva de iniciantes, mas também de usuários com experiência prévia em gestão financeira, que podem ter expectativas mais elevadas em relação à funcionalidade e eficiência. A capacidade do aplicativo de satisfazer tanto usuários novatos quanto aqueles com experiência prévia reforça sua versatilidade e potencial de adoção em um público mais amplo.

Figura 1. Idade dos participantes.
Fonte: Autoria própria

Figura 2. Experiência com organização financeira.
Fonte: Autoria própria
A exploração das funcionalidades do aplicativo pelos participantes, conforme apresentado na Figura 3 (Uso de funções no aplicativo), demonstrou que a maioria dos recursos foi utilizada. Notavelmente, 100% dos usuários registraram receitas e despesas, e 60% visualizaram os gráficos na aba de análise. No entanto, observou-se uma inconsistência: apenas 40% relataram ter cadastrado contas, embora o registro de transações dependa intrinsecamente do cadastro prévio de contas. Essa discrepância pode indicar uma falha na clareza do questionário ou na compreensão da terminologia por parte dos usuários, e não necessariamente uma subutilização da funcionalidade de cadastro de contas. Este achado sublinha a importância de uma linguagem clara e de um fluxo de onboarding intuitivo em aplicativos financeiros, para garantir que os usuários compreendam e utilizem todas as funcionalidades essenciais. A literatura sobre design de UX (User Experience) enfatiza que a clareza na interface e a minimização da carga cognitiva são cruciais para a adoção de novas ferramentas digitais, especialmente em domínios complexos como finanças pessoais (Xiong, 2019).

Figura 3. Uso de funções no aplicativo.
Fonte: Autoria própria
Funcionalidades como a definição de metas de poupança, limites de crédito e limites de gasto mensal apresentaram menor taxa de utilização inicial, com apenas 20% dos usuários explorando cada uma delas. Isso sugere que, embora essas funcionalidades sejam importantes para um planejamento financeiro mais avançado, elas podem não ter sido suficientemente destacadas ou compreendidas pelos usuários na fase inicial de testes. Este resultado aponta para uma oportunidade de melhoria na interface do usuário, talvez através de tutoriais mais contextuais ou prompts que incentivem a exploração dessas ferramentas. Stefanov et al. (2024) argumentam que a adoção de funcionalidades mais complexas em aplicativos de gestão financeira é frequentemente gradual e depende de uma interface que guie o usuário de forma progressiva, evitando sobrecarga de informação.
Em termos de desempenho, os testes evidenciaram um bom funcionamento geral do aplicativo. A avaliação da velocidade de resposta, conforme a Figura 4 (Avaliação da velocidade de resposta do aplicativo), mostrou que 60% dos usuários classificaram a velocidade como “5” (excelente) e 40% como “4” (muito boa) ao alternar abas ou salvar transações. Nenhum usuário relatou problemas de lentidão extrema, travamentos ou fechamentos inesperados, como indicado na Figura 5 (Avaliação de lentidão e erros do aplicativo), onde 80% afirmaram “Nunca” ter experimentado tais problemas e 20% “Raramente”. Este desempenho robusto é um reflexo positivo da escolha do framework React Native e da arquitetura de armazenamento local. Dabit (2019) destaca que o React Native, ao permitir a criação de aplicações com desempenho próximo ao nativo, é uma escolha eficaz para garantir uma experiência de usuário fluida e responsiva. A ausência de problemas críticos de desempenho é fundamental para a confiança do usuário, especialmente em um contexto financeiro onde a precisão e a estabilidade são primordiais.

Figura 4. Avaliação da velocidade de resposta do aplicativo.
Fonte: Autoria própria

Figura 5. Avaliação de lentidão e erros do aplicativo.
Fonte: Autoria própria
A decisão de utilizar armazenamento local para os dados financeiros, em vez de soluções baseadas em nuvem, revelou-se um diferencial importante, especialmente no que tange à segurança e privacidade. Owens e Allen (2010) ressaltam que o armazenamento local oferece maior controle sobre os dados, eliminando a dependência de servidores externos e reduzindo os riscos associados a vazamentos de dados em larga escala. Os usuários expressaram maior confiança na segurança e privacidade de suas informações financeiras, um fator crucial para a adoção de qualquer ferramenta de gestão de dinheiro. Além disso, o armazenamento local contribuiu para a rapidez das operações e a funcionalidade offline do sistema, permitindo que os usuários gerenciem suas finanças a qualquer momento e em qualquer lugar, sem a necessidade de conexão constante com a internet. Embora essa abordagem possa limitar funcionalidades avançadas como sincronização entre múltiplos dispositivos, a percepção de segurança e a autonomia do usuário foram priorizadas, alinhando-se aos objetivos do projeto de oferecer uma solução gratuita, leve e segura.
Do ponto de vista qualitativo, os resultados foram particularmente encorajadores no que diz respeito ao impacto educativo do aplicativo. Conforme evidenciado na Figura 6 (Melhoras na consciência de gastos dos usuários), 100% dos usuários relataram um aumento na consciência sobre seus gastos após a utilização do aplicativo. Da mesma forma, a Figura 7 (Ajuda do app na análise de gastos dos usuários) mostrou que 100% dos participantes consideraram que os gráficos de análise mensal/anual facilitaram sua tomada de decisão financeira. Estes achados reforçam o papel do aplicativo não apenas como uma ferramenta operacional de registro, mas como um instrumento eficaz de apoio à educação financeira prática. A capacidade de visualizar padrões de gastos e receitas por meio de gráficos intuitivos, como os implementados no aplicativo, é um pilar fundamental para a compreensão do comportamento financeiro e para a formação de hábitos saudáveis (Lusardi; Mitchell, 2014; OECD, 2018).

Figura 6. Melhoras na consciência de gastos dos usuários.
Fonte: Autoria própria

Figura 7. Ajuda do app na análise de gastos dos usuários.
Fonte: Autoria própria
O componente explicativo “O que é Tipo e Área?”, ilustrado na Figura 2 (Aba Transações) e validado na Figura 8 (Validação da explicação de tipos e área), foi bem recebido, com 80% dos usuários afirmando que ajudou “Sim, muito” e 20% “Um pouco” a entender melhor seus gastos. Este recurso, que detalha os conceitos de despesas fixas, variáveis, extras e adicionais, bem como as áreas de gasto, é crucial para a educação financeira. A correta classificação das despesas é um dos conceitos fundamentais para o controle financeiro pessoal, permitindo aos usuários identificar oportunidades de economia e estabelecer prioridades (Gitman; Zutter, 2017). A eficácia deste componente educativo, mesmo entre usuários que já possuíam algum nível de organização financeira, demonstra o potencial do aplicativo em aprofundar o conhecimento e a prática da gestão financeira.

Figura 8. Validação da explicação de tipos e área.
Fonte: Autoria própria
Os testes também revelaram limitações e oportunidades de melhoria, que foram diretamente abordadas na etapa de refinamento do aplicativo. As sugestões dos usuários, como a necessidade de uma versão para iOS e a implementação de transações recorrentes, foram cruciais. Os elogios à simplicidade, praticidade e ao armazenamento local dos dados reforçaram os pontos fortes do projeto. O processo de refinamento foi, portanto, um ciclo iterativo de aprimoramento contínuo, onde o feedback dos usuários foi incorporado para aumentar a robustez, a usabilidade e a confiabilidade da aplicação.
Entre os aprimoramentos mais complexos, destaca-se a redefinição da lógica temporal do aplicativo. Anteriormente, o sistema poderia interpretar o valor inicial da conta como o valor final no cálculo do saldo, gerando inconsistências. Com a melhoria, o aplicativo passou a considerar apenas transações até a data atual nos cálculos de saldo, limites e análises financeiras. Transações futuras podem ser registradas, mas seus efeitos são aplicados somente quando a data correspondente é atingida. Essa modificação é fundamental para que o aplicativo reflita com precisão a realidade financeira do usuário, evitando que projeções futuras distorçam a visão atual do orçamento. Tal precisão é vital para a tomada de decisões financeiras informadas, conforme enfatizado por Cassola et al. (2025) ao discutir a importância da acurácia de dados em ferramentas de finanças digitais.
Outra funcionalidade relevante implementada foi a introdução de transações recorrentes. Uma nova seção foi criada na aba de transações, permitindo o cadastro de movimentações que se repetem mensalmente. O sistema agora gera automaticamente essas transações quando a data definida é atingida ou ultrapassada, eliminando a necessidade de lançamentos manuais repetitivos. Essa funcionalidade, ilustrada na Figura 9 (Aba de transações com suporte a transações recorrentes e filtros de busca), não só reduz a carga de trabalho do usuário, mas também incentiva o uso contínuo da aplicação e promove uma gestão financeira mais proativa. A automação de tarefas repetitivas é um princípio de design de software que visa aumentar a eficiência e a satisfação do usuário, liberando-o para se concentrar em tarefas de maior valor agregado, como a análise e o planejamento financeiro.
Figura 9. Aba de transações com suporte a transações recorrentes e filtros de busca.
Fonte: Autoria própria
Adicionalmente, foi implementado um mecanismo de busca de transações, também visível na Figura 9. Essa funcionalidade permite localizar, editar e excluir registros de forma mais eficiente, sendo particularmente útil em cenários com grande volume de dados. A capacidade de filtrar transações por nome, conta, tipo ou data melhora significativamente a navegabilidade e a capacidade de auditoria pessoal das finanças, um aspecto crucial para a manutenção do controle financeiro a longo prazo.
Com base na observação de baixa utilização de algumas funcionalidades durante os testes iniciais, foi desenvolvido um tutorial na aba inicial do aplicativo, apresentado no primeiro uso. Este recurso, visível na Figura 10 (Tela inicial com avisos, notas explicativas e acesso ao tutorial) e detalhado na Figura 11 (Tutorial inicial do aplicativo com apresentação das funcionalidades), orienta o usuário sobre o funcionamento geral da aplicação e destaca funcionalidades menos evidentes. O tutorial visa aumentar o engajamento e o melhor aproveitamento do sistema, garantindo que os usuários explorem todas as ferramentas disponíveis para uma gestão financeira completa. A inclusão de um tutorial é uma prática recomendada em design de interfaces para reduzir a curva de aprendizado e aumentar a autoeficácia do usuário (Xiong, 2019).
Figura 10. Tela inicial com avisos, notas explicativas e acesso ao tutorial.
Fonte: Autoria própria
Figura 11. Tutorial inicial do aplicativo com apresentação das funcionalidades.
Fonte: Autoria própria
Também foram adicionados alertas automáticos relacionados a metas e limites financeiros, conforme mostrado na Figura 10. O sistema agora notifica o usuário quando limites de crédito são atingidos ou ultrapassados, quando metas são alcançadas ou excedidas, e quando o prazo definido para uma meta é atingido. Esses avisos contribuem para uma gestão financeira mais ativa e consciente, agindo como lembretes proativos que incentivam o usuário a manter-se dentro do planejado e a tomar ações corretivas quando necessário. A psicologia comportamental financeira sugere que feedback imediato e lembretes podem ser poderosos motivadores para a mudança de comportamento (Gitman; Zutter, 2017).
Além dos aprimoramentos complexos, uma série de ajustes pontuais foi realizada para otimizar a experiência do usuário e a robustez do sistema. Isso incluiu a correção de erros de cálculo, como a interpretação incorreta do valor inicial da conta, e o reposicionamento do botão de adição de limite de crédito para alinhar-se ao padrão visual das metas de poupança. Os títulos das abas foram ajustados para evitar repetições, e o cálculo das porcentagens de gastos na análise mensal foi corrigido. A data padrão para novas transações foi definida como o dia atual, eliminando inconsistências, e o comportamento do fundo escurecido em janelas modais foi aprimorado para evitar defeitos ao acionar o teclado.
Outras melhorias pontuais incluíram o ajuste do preenchimento das cores de metas e limites de crédito para evitar distorções em casos de valores negativos, a implementação de formatação monetária no padrão brasileiro (separação por milhar com pontos e uso de vírgula como casa decimal), e a melhoria na entrada de valores, que passou a adotar um comportamento semelhante ao de aplicativos bancários, com inserção progressiva dos números começando pelos centavos. A inclusão de proteção visual ao minimizar o aplicativo, impedindo a visualização de dados sensíveis na tela de aplicativos recentes, e a adição de notas explicativas sobre o comportamento de transações futuras, também foram implementadas. Por fim, ajustes de espaçamento e dimensionamento de elementos foram realizados para melhorar a responsividade em diferentes tamanhos de tela. Esses ajustes, embora menores individualmente, contribuíram coletivamente para uma experiência de usuário mais polida, intuitiva e confiável.
A decisão de não implementar um sistema de autenticação interna (login) foi mantida após avaliação. Considerou-se que a introdução desse mecanismo traria complexidade adicional, como a necessidade de recuperação de senha, sem ganhos significativos de segurança, dado que os dados são armazenados localmente no dispositivo. Manter o armazenamento local prioriza a privacidade do usuário e evita os riscos associados a vazamentos de dados em larga escala, comuns em sistemas baseados em nuvem. Embora limite funcionalidades como sincronização automática entre dispositivos, a funcionalidade de exportar e importar dados pode suprir parte dessa necessidade, permitindo ao usuário transferir suas informações financeiras entre aparelhos de forma manual e segura. Essa abordagem está em consonância com o objetivo de oferecer uma solução gratuita e acessível, sem a necessidade de cadastro ou conexão constante com a internet, priorizando a autonomia e a segurança do usuário.
De forma geral, os resultados indicam que o aplicativo atingiu os objetivos propostos, apresentando desempenho adequado, alta usabilidade e um impacto positivo na percepção e no comportamento financeiro dos usuários. O processo iterativo de desenvolvimento, testes e refinamento mostrou-se eficaz para a construção de uma solução funcional, acessível e alinhada às necessidades do público-alvo. As melhorias implementadas, baseadas no feedback dos usuários e nas melhores práticas da engenharia de software, transformaram uma versão inicial funcional em uma ferramenta mais madura e completa, com potencial para promover a educação financeira e o controle orçamentário pessoal.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido com sucesso, por meio do desenvolvimento de um aplicativo mobile gratuito de finanças pessoais, utilizando o framework React Native. O projeto priorizou a usabilidade intuitiva, o armazenamento local de dados para garantir privacidade e o apoio à educação financeira prática, capacitando os usuários a gerenciar suas finanças de forma autônoma e consciente. Os resultados dos testes com usuários demonstraram uma alta usabilidade, com pontuação média de 89 na System Usability Scale (SUS), e um desempenho robusto. Qualitativamente, a ferramenta promoveu um aumento significativo na consciência de gastos e na facilidade de tomada de decisões financeiras, confirmando seu potencial educativo e social.
Entretanto, o estudo apresentou limitações importantes. A amostra reduzida de cinco participantes restringe a generalização dos resultados, e o curto período de avaliação não permitiu analisar mudanças comportamentais financeiras de longo prazo. Adicionalmente, a escolha pelo armazenamento local, embora reforce a privacidade, limita a sincronização entre múltiplos dispositivos, e a aplicação foi inicialmente gerada apenas para o sistema Android. Como trabalhos futuros, sugere-se expandir os testes para um grupo mais amplo de usuários, desenvolver uma versão para iOS, explorar a implementação de funcionalidades de sincronização de dados com foco em segurança e privacidade, e realizar estudos longitudinais para mensurar o impacto duradouro do aplicativo na literacia e nos hábitos financeiros dos usuários.
Referências Bibliográficas
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XIONG, J. SUSapp: A free mobile application that makes the System Usability Scale (SUS) easy to apply. UXPA Journal, 2019. Disponível em: https://uxpajournal.org/susapp-mobile-system-usability-scale/. Acesso em: 20 out. 2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq
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