Artigo

03 de agosto de 2026

A viabilidade econômica de iniciar uma plantação de manga no Vale do São Francisco

Henrique Araújo de Almeida; João Ricardo Malheiros de Souza

DOI: 10.22167/2675-6528-202600890

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O Vale do São Francisco destacou-se como um polo relevante na fruticultura brasileira, com a cultura da manga exercendo grande influência. Analisou-se a viabilidade econômica de iniciar uma plantação de manga na região, sob uma perspectiva de análise econômica detalhada. A metodologia empregou a coleta de dados de mercado para estruturar as variáveis de receita e custo, projetando um fluxo de caixa com horizonte de 20 anos. Para estimar a produtividade da lavoura, aplicou-se a função matemática de Cobb-Douglas, relacionando insumos como irrigação, trabalho e índice de pragas. A avaliação da viabilidade do investimento ocorreu por meio do Valor Presente Líquido (VPL) e da Taxa Interna de Retorno (TIR), adotando 100% do CDI (14,32% a.a.) como Taxa Mínima de Atratividade (TMA) para balizar o custo de oportunidade. Os principais resultados indicaram que a cultura de mangas na região ainda é economicamente viável, mesmo com um custo de oportunidade elevado, obtendo-se uma TIR de 14,79% e um VPL positivo de R$ 215.390,36. Contudo, mudanças em variáveis negativas, como pragas e doenças, poderiam inviabilizar a produção economicamente, e um cenário de estresse com defensivos dobrados resultou em VPL negativo e TIR de 13,62%. Concluiu-se que a melhor alternativa seria prosseguir com a plantação, mas investir o excedente não aplicado na fazenda para obter melhores retornos de capital, embora a vantagem econômica seja baixa e o risco maior em comparação ao custo de oportunidade.

Palavras-chave: Agronegócio; Análise de investimento; Custo de oportunidade; Fruticultura.

1. Introdução

O agronegócio brasileiro é um motor econômico essencial, contribuindo significativamente para o Produto Interno Bruto (PIB) e promovendo o desenvolvimento regional. Em 2024, o setor agropecuário representou 23,5% do PIB nacional de R$ 11,7 trilhões (Nakamura, 2025; CEPEA-ESALQ; CNA, 2025). Essa robusta participação reflete a diversidade produtiva do país e sua capacidade de gerar valor em diversas cadeias. A influência do agronegócio estende-se ao interior, impulsionando o crescimento de cidades e regiões. No Sertão Nordestino, por exemplo, a atividade agrícola tem sido um vetor de transformação. A cidade de Juazeiro, na Bahia, ilustra essa dinâmica, com seu PIB per capita crescendo 159,63% entre 2010 e 2021, superando o aumento nacional no mesmo período (IBGE, 2025). Além disso, 19,1% da população de Juazeiro trabalha no agronegócio (SEBRAE, 2025a), destacando a centralidade do setor para a economia local.

Dentro desse panorama do agronegócio, o Vale do São Francisco consolidou-se como um polo de excelência na fruticultura brasileira, reconhecido pela sua alta capacidade de produção e exportação (Amado, 2025). A região, favorecida por condições climáticas e infraestrutura de irrigação, destaca-se no cultivo de diversas frutas, com a cultura da manga exercendo grande influência. A manga brasileira, especialmente a produzida no Nordeste, tem alcançado recordes de receita e exportação, fortalecendo a posição do país como fornecedor global (Embrapa, 2024). A relevância econômica da mangicultura no Vale do São Francisco é inegável, contribuindo para a balança comercial e para a geração de renda e empregos. Contudo, iniciar um novo empreendimento agrícola exige análise econômica rigorosa. A volatilidade dos preços, os custos de produção (insumos, mão de obra, defensivos) e a suscetibilidade a pragas e doenças representam desafios que precisam ser avaliados para garantir a sustentabilidade e a lucratividade do investimento.

A avaliação da viabilidade econômica de projetos de investimento no agronegócio requer ferramentas financeiras robustas. O Valor Presente Líquido (VPL) e a Taxa Interna de Retorno (TIR) são amplamente utilizados para determinar a atratividade de um investimento, comparando retornos esperados com o capital aportado e outras oportunidades de mercado. O VPL calcula o valor presente dos fluxos de caixa futuros, descontados a uma taxa específica, e a TIR indica a rentabilidade percentual anual que iguala o VPL a zero. O custo de oportunidade, conceito econômico crucial, refere-se ao valor do melhor benefício sacrificado ao se optar por uma alternativa. Ele baliza a tomada de decisão, comparando o retorno do projeto com o que seria obtido em um investimento alternativo de risco comparável, como títulos de renda fixa atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Para modelar a produtividade agrícola, a função de Cobb-Douglas é uma ferramenta econométrica fundamental, que relaciona a produção com insumos como irrigação e trabalho, e pode incorporar variáveis que afetam negativamente a produtividade, como o índice de pragas (Cobb; Douglas, 1928). Essa abordagem permite estimar a eficiência da produção e simular diferentes cenários.

Apesar da consolidação do Vale do São Francisco como polo frutícola e da relevância da cultura da manga, iniciar uma nova plantação envolve riscos e incertezas que demandam análise econômica aprofundada. A complexidade dos fatores de produção, a dinâmica dos mercados e a sensibilidade a variáveis como pragas e doenças tornam imperativa uma avaliação detalhada que vá além dos indicadores superficiais de rentabilidade. A ausência de estudos que integrem robustamente a análise de investimento com a modelagem de produtividade e a consideração de cenários de estresse para a cultura da manga na região representa uma lacuna importante. Dessa forma, o presente artigo tem como objetivo analisar a viabilidade econômica de iniciar uma plantação de manga no Vale do São Francisco, empregando ferramentas de análise de investimento como VPL e TIR, e considerando a função de Cobb-Douglas para estimar a produtividade, além de avaliar o impacto de cenários adversos para fornecer subsídios à tomada de decisão de potenciais investidores e produtores.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza quantitativa, com abordagem econômica, focada na análise de viabilidade de projetos de investimento. O objetivo central foi determinar a atratividade econômica de iniciar uma plantação de manga no Vale do São Francisco. Para tanto, empregou-se uma metodologia baseada na coleta e tratamento de dados de mercado, projeção de fluxos de caixa e aplicação de indicadores financeiros robustos, visando fornecer subsídios para a tomada de decisão de potenciais investidores e produtores na região.

A pesquisa foi desenvolvida com foco na região do Vale do São Francisco, especificamente no município de Juazeiro, Bahia, reconhecido como um polo frutícola de grande relevância. O período de coleta de dados e estruturação das variáveis ocorreu entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, abrangendo informações atualizadas de mercado. A unidade de análise consistiu em um projeto hipotético de investimento para a implantação de uma cultura de manga, com um horizonte de projeção de fluxo de caixa de vinte anos, permitindo uma avaliação de longo prazo.

Para a definição da unidade de análise, não se utilizou uma população ou amostra no sentido tradicional de estudos sociais, mas sim a seleção de dados de mercado e a escolha de uma propriedade representativa. A propriedade foi selecionada na plataforma MFRURAL (MFRURAL, 2025), com base em critérios de preço, área total e infraestrutura existente, como a presença de irrigação. A escolha recaiu sobre um imóvel de noventa hectares, com irrigação já instalada, assumindo-se a ausência de plantas em produção para simular um novo empreendimento.

Os instrumentos de coleta de dados envolveram a pesquisa de informações em diversas plataformas e fontes especializadas para estruturar as variáveis de receita e custo. O preço da manga (Pm) foi obtido na plataforma Cepea (HORTIFRÚTI/CEPEA, 2025), utilizando o valor da manga “Palmer-produto” no Vale do São Francisco. Os custos de aquisição da terra (Te) e das mudas de manga (PM) foram levantados na plataforma MFRURAL (MFRURAL, 2025), considerando o valor de R$ 45,00 por muda de manga Palmer.

Para os custos de preparo do solo (PS), foram consideradas variáveis como área plantada, número de plantas por hectare, e preços de fertilizantes e cal, com base em dados de Pinheiro Araújo (2021) e Amorim et al. (2020). O maquinário (Ma) foi tratado como investimento inicial, com depreciação, e os valores foram pesquisados em estabelecimentos próximos ao Vale do São Francisco, também via MFRURAL (MFRURAL, 2025). Os impostos foram calculados conforme a legislação vigente, sujeitos ao nível de faturamento (Torres; Dias, 2025).

O custo com mão de obra (CT) foi calculado seguindo a metodologia da Embrapa (Talamini; Santos Filho, 2020), que considera salários, encargos e provisões, alocados por cultura e área. As despesas de irrigação (Ci) e energia elétrica (Ce) foram estimadas com base em valores fixos por hectare, considerando a demanda de água (Philippus Nel, 2024) e o custo da água (Sampaio, 2023), além de gastos energéticos para bombeamento (Miranowski, 2006; Barbosa et al., 2020). O custo logístico (CL) foi determinado pelo transporte de mangas em contêineres refrigerados para exportação (DC Logistics Brasil, 2025; ANTT, 2025).

O custo de defensivos (CD) foi calculado com base na área, quantidade de plantas por hectare e custo por planta do defensivo (Pd), seguindo orientações da Embrapa (Oliveira et al., 2010; Rabelo Barbosa, 2021). A fórmula incluiu uma parte fixa de monitoramento e uma parte variável ajustada por um fator “X” para a frequência de pragas. A produtividade por planta (Pr) foi modelada como uma função da irrigação, quantidade de funcionários e frequência de pragas, sendo um componente crucial para o cálculo do volume de manga produzido (V).

A execução da pesquisa envolveu a estruturação de uma tabela de projeções de fluxo de caixa, utilizando os dados coletados para prever a viabilidade econômica do empreendimento ao longo de vinte anos. Posteriormente, os dados foram inseridos na tabela para análise da operação. Os resultados obtidos foram comparados com o custo de oportunidade da atividade, que representava o retorno de um investimento alternativo mais seguro. Para auxiliar na pesquisa, na busca por fontes originais e na confirmação de raciocínios e deduções matemáticas, empregou-se o uso de inteligência artificial.

Para a estimativa da produtividade por hectare, utilizou-se a função de Cobb-Douglas, um modelo econométrico amplamente empregado para relacionar insumos e produção (Cobb; Douglas, 1928). O modelo adotado foi Pr = I^α * T^β * X^-δ, onde “Pr” representa a produtividade por planta, “I” a irrigação por planta, “T” o insumo trabalho e “X” o índice de pragas. Os expoentes α e β, que representam as elasticidades de irrigação e trabalho, foram definidos como 0,2 e 0,3, respectivamente, para que a produtividade ideal resultasse em 25 toneladas por hectare, conforme Pinheiro Araújo (2021b).

A viabilidade econômica do investimento foi avaliada por meio de indicadores financeiros como o Valor Presente Líquido (VPL) e a Taxa Interna de Retorno (TIR). A Taxa Mínima de Atratividade (TMA) foi estabelecida em 100% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), correspondendo a 14,32% ao ano, servindo como balizador para o custo de oportunidade. Essa abordagem permitiu comparar a rentabilidade do projeto de mangicultura com uma alternativa de investimento de risco comparável, fornecendo uma base sólida para a decisão de investimento.

Para a compreensão detalhada dos insumos agrícolas necessários e seus respectivos custos ao longo dos primeiros seis anos de produção, a Tabela 1 foi utilizada como instrumento de apresentação. Esta tabela sintetiza as quantidades de corretivo de solo, adubo químico, fungicida, inseticida, formicida e água por idade da plantação, até o sexto ano, período em que a cultura atinge a plena produção. Os dados foram baseados em recomendações da Embrapa e no trabalho de Pinheiro Araújo (2021).

Tabela 1. Insumos agrícolas para a produção de Manga

Insumo

Unidade

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Ano 4

Ano 5

Ano 6

Corretivo

Kg

2500

125

125

250

250

250

Adubo

Kg

610

735

762

990

1.195

1.225

Fungicida

Kg

4

14

19

25

35

45

Inseticida

L

1

5

7

9

12

14

Formicida

Kg

2

2

2

0

0

0

Água

Mil m³

10

12

14

14

16

16

Fonte: Pinheiro Araújo (2021)

Embora o estudo tenha empregado uma metodologia robusta para a análise de viabilidade econômica, é importante reconhecer algumas limitações inerentes. A dependência de dados de mercado e projeções futuras introduz um grau de incerteza, e a sensibilidade do projeto a variáveis negativas, como o índice de pragas e doenças, pode impactar significativamente a rentabilidade. A análise de cenários adversos, como o aumento dos custos com defensivos, foi realizada para mitigar essa limitação, mas a complexidade do agronegócio sempre envolve riscos que podem não ser totalmente capturados em modelos financeiros.

3. Resultados e Discussão

O presente estudo teve como objetivo primordial aprofundar a análise da viabilidade econômica de um projeto de implantação de cultura de manga no Vale do São Francisco, com foco no município de Juazeiro, Bahia. A abordagem quantitativa e econômica permitiu a estruturação de um modelo robusto, que considerou uma série de variáveis de custo e receita ao longo de um horizonte de projeção de vinte anos. Os resultados obtidos, detalhados a seguir, fornecem uma base sólida para a tomada de decisão, ao mesmo tempo em que revelam a complexidade e os riscos inerentes a investimentos de longo prazo no agronegócio.

A fase inicial do projeto demandou a obtenção de valores para diversas variáveis cruciais, que foram meticulosamente levantadas em plataformas e fontes especializadas. O preço da manga (Pm), por exemplo, foi determinado em R$ 2,04 por quilograma para a variedade “Palmer-produto” no Vale do São Francisco, conforme dados da plataforma Cepea (HORTIFRÚTI/CEPEA, 2025). Este valor de mercado é um pilar fundamental para a projeção de receitas e reflete a dinâmica de oferta e demanda de uma das frutas mais importantes para a região. A estabilidade ou flutuação desse preço ao longo do tempo é um fator crítico que pode impactar significativamente a rentabilidade do empreendimento, exigindo dos produtores um acompanhamento constante das tendências de mercado e, possivelmente, estratégias de comercialização que mitiguem riscos, como contratos de longo prazo ou diversificação de mercados. A literatura de agronegócio frequentemente ressalta a volatilidade dos preços de commodities agrícolas como um dos maiores desafios, e a manga não é exceção, dada a sua natureza perecível e a dependência de mercados de exportação (Amado, 2025).

A aquisição da terra (Te) representou um dos maiores investimentos iniciais, com a escolha recaindo sobre uma propriedade de 90 hectares em Juazeiro, Bahia, com irrigação já instalada, no valor de R$ 3.500.000,00, conforme pesquisa na plataforma MFRURAL (MFRURAL, 2025). A decisão de optar por um terreno com infraestrutura de irrigação preexistente é estratégica no semiárido, onde a disponibilidade hídrica é um fator limitante e a instalação de sistemas de irrigação pode representar um custo inicial proibitivo (Philippus Nel, 2024). Embora o terreno já possuísse plantas em produção, a premissa do estudo foi simular um novo empreendimento, desconsiderando a receita inicial de culturas existentes. Esta escolha reflete a realidade de muitos novos investidores que buscam iniciar do zero, mas também sublinha a importância de avaliar o custo-benefício de adquirir terras já produtivas versus terras brutas, considerando o tempo de maturação da cultura da manga. A densidade de plantio, estabelecida em 250 plantas por hectare com espaçamento de 8,0 m x 5,0 m, seguiu as recomendações da Embrapa para o semiárido baiano (Do Carmo Mouco, 2021), otimizando o uso do espaço e a produtividade por área.

Os insumos agrícolas, essenciais para o desenvolvimento da plantação, foram detalhados na Tabela 1, que apresenta as quantidades de corretivo de solo, adubo químico, fungicida, inseticida, formicida e água por idade da plantação até o sexto ano, período em que a cultura atinge a plena produção (Pinheiro Araújo, 2021). A gestão desses insumos é vital para a saúde das plantas e a produtividade. A Tabela 1, embora não seja reproduzida aqui por ter sido apresentada em seções anteriores, ilustra a variação da demanda por insumos ao longo dos anos, com maior intensidade nos primeiros anos para o estabelecimento da cultura e, posteriormente, para a manutenção da produtividade.

Os custos associados a esses insumos foram calculados com base em preços de mercado. Conforme a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB, 2025), os preços em março de 2025 na Bahia foram de R$ 20,00 por saco de 50 quilos para Calcário Dolomítico, R$ 165,00 por saco de 50 quilos para Adubo NPK, R$ 19,00 por quilo para Manzate (Fungicida), R$ 54,00 por galão de 1 litro para Lannate (Inseticida) e R$ 26,00 por saco de 1 quilo para Formicida em pó. A partir desses valores, foi possível determinar o preço dos insumos por hectare, conforme apresentado na Tabela 2.

Tabela 2. Preço dos insumos agrícolas por hectare

Insumo

Unidade

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Ano 4

Ano 5

Ano 6

Corretivo

R$/ha

1000

50

50

100

100

100

Adubo

R$/ha

2.013

2.425,5

2.514,6

3.267

3.943,5

4.042,5

Fungicida

R$/ha

76

266

361

475

665

855

Inseticida

R$/ha

54

270

378

486

648

756

Formicida

R$/ha

52

52

52

0

0

0

Fonte: Resultados originais da pesquisa, baseados no trabalho de Pinheiro Araújo (2021)

A análise da Tabela 2 revela a dinâmica dos custos de insumos ao longo dos primeiros seis anos. Observa-se que o custo com adubo NPK é o mais significativo, aumentando progressivamente até o sexto ano, o que é esperado à medida que as plantas crescem e demandam mais nutrientes para a produção plena. Os custos com fungicidas e inseticidas também aumentam, refletindo a necessidade de manejo fitossanitário contínuo. Por outro lado, o uso de formicida se concentra nos primeiros anos, diminuindo a zero a partir do quarto ano, o que pode indicar um controle inicial mais intensivo. A variação desses custos sublinha a importância de um planejamento agrícola detalhado e a busca por fornecedores competitivos. A gestão eficiente de insumos é um fator-chave para a rentabilidade, e a otimização de sua aplicação, baseada em análises de solo e monitoramento de pragas, pode reduzir custos e impactos ambientais (Amorim et al., 2020).

O custo do preparo do solo (PS) foi calculado utilizando a fórmula PS = A * D * (F + C), que considera a área plantada (A), o número de plantas por hectare (D), o preço do fertilizante por planta (F) e o preço da cal por planta (C). Os valores resultantes para o custo de preparo do solo são apresentados na Tabela 3.

Tabela 3. Custo do Preparo de Solo

Variável

Unidade

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Ano 4

Ano 5

Ano 6

PS

R$

271.170

222.795

230.814

303.030

363.915

372.825

Fonte: Resultados originais da pesquisa, baseados no trabalho de Pinheiro Araújo (2021)

A Tabela 3 demonstra que o custo de preparo do solo é substancial, especialmente no primeiro ano, e continua a ser um componente relevante dos custos operacionais nos anos subsequentes. Este custo reflete não apenas a aquisição de fertilizantes e corretivos, mas também as operações de campo necessárias para garantir um ambiente propício ao desenvolvimento das mudas. A preparação adequada do solo é um investimento crítico que impacta diretamente a produtividade futura e a saúde das plantas, minimizando problemas que poderiam surgir mais tarde e exigir intervenções mais caras. A literatura agronômica enfatiza que a correção da acidez do solo e a reposição de nutrientes são etapas indispensáveis para culturas perenes como a manga, especialmente em solos tropicais que podem apresentar deficiências nutricionais (Pinheiro Araújo, 2021).

O custo dos defensivos (CD) foi outro componente importante, calculado com base na fórmula CD = M * A * D + (A * D * Pd) * X, onde M representa o custo fixo de monitoramento por planta, A a área, D a densidade de plantas, Pd o custo por planta do defensivo e X o fator de frequência de pragas. Para o monitoramento, foi adotada uma metodologia que considera o número de funcionários dedicados a essa tarefa, multiplicado pelo salário e dividido pelo número de plantas. Com 90 hectares e 5 funcionários adicionais para monitoramento, e desconsiderando o fator X (já que os parâmetros da Embrapa indicam os valores necessários), os custos com defensivos foram calculados e apresentados na Tabela 4.

Tabela 4. Custo dos defensivos na plantação

Variável

Unidade

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Ano 4

Ano 5

Ano 6

CD

R$

28.880

65.420

83.690

98.990

130.670

157.490

Fonte: Resultados originais da pesquisa, baseados no trabalho de Pinheiro Araújo (2021)

A Tabela 4 mostra um aumento progressivo nos custos com defensivos ao longo dos anos, o que é um reflexo natural do crescimento da plantação e da maior suscetibilidade a pragas e doenças em culturas mais maduras. Este achado ressalta a importância de um programa de manejo integrado de pragas (MIP), que combine monitoramento constante, uso de defensivos biológicos e químicos de forma racional, e práticas culturais que minimizem a incidência de problemas fitossanitários (Oliveira et al., 2010; Rabelo Barbosa, 2021). A dependência de defensivos químicos, embora eficaz, pode representar um risco ambiental e financeiro, especialmente se houver o surgimento de resistência ou restrições regulatórias. A pesquisa e o desenvolvimento de variedades mais resistentes e a adoção de tecnologias de aplicação de precisão são estratégias que podem mitigar esses custos e riscos a longo prazo.

O maquinário (Ma) representou um investimento inicial de R$ 241.470,00, não recorrente, e incluiu itens essenciais como trator de médio porte, pulverizador, enxada rotativa e tanque de transbordo. Os valores foram pesquisados na plataforma MFRURAL (MFRURAL, 2025), priorizando ofertas próximas a Juazeiro para facilitar o transporte. A Tabela 5 detalha esses custos.

Tabela 5. Custo dos Ativos Fixos

Ativo fixo

Unidade

Valor

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Trator de médio porte

R$

150.000

Trator Is Tractor R60 Ano 2017 em Juazeiro BA à venda. Compre 783825

Pulverizador

R$

40.000

Pulverizador de Arrasto Jacto Usado em Santa Rosa do Tocantins 753907

Enxada rotativa

R$

6.470

Motocultivador À Gasolina – 209Cc – Enxada Rotativa em Nova 857550

Tanque de transbordo

R$

45.000

Carreta Basculhante Cemag em Cícero Dantas BA à venda. Compre 846237

Ma total

R$

241.470

Fonte: MFRURAL

O investimento em maquinário, conforme a Tabela 5, é um capital intensivo inicial, mas crucial para a eficiência e escala da operação. A escolha de equipamentos adequados e a manutenção preventiva são fundamentais para evitar interrupções na produção e custos adicionais. A depreciação desses ativos ao longo dos anos deve ser considerada no planejamento financeiro, e a decisão de adquirir maquinário novo ou usado, como no caso do pulverizador, reflete uma estratégia de otimização de custos iniciais. A mecanização na agricultura moderna é indispensável para aumentar a produtividade e reduzir a dependência de mão de obra manual, que pode ser escassa e cara em certas regiões (Oliveira et al., 2010).

O custo com mão de obra (CT) foi calculado seguindo a metodologia da Embrapa (Talamini; Santos Filho, 2020), que considera salários, encargos e provisões. A quantidade de trabalhadores varia com a sazonalidade da plantação, sendo maior no ano inicial para o plantio (N1 = 90 funcionários) e no restante da produção (N2 = 180 funcionários), com um salário assumido de R$ 2.500,00 por funcionário. Isso resultou em custos de R$ 225.000,00 (C1) e R$ 450.000,00 (C2) anuais. A mão de obra é um dos maiores custos variáveis em qualquer empreendimento agrícola, e a sua gestão eficiente é crucial. A sazonalidade da demanda por trabalhadores, especialmente em épocas de colheita, exige flexibilidade e planejamento para garantir a disponibilidade de pessoal qualificado. A metodologia da Embrapa, ao considerar encargos e provisões, oferece uma visão mais realista do custo total do trabalhador, que vai além do salário base. A escassez de mão de obra rural e o aumento dos custos trabalhistas são tendências observadas no agronegócio brasileiro, o que impulsiona a busca por tecnologias que otimizem o uso do trabalho e aumentem a produtividade por funcionário (SEBRAE, 2025b).

As despesas de irrigação (Ci) e energia elétrica (Ce) foram estimadas com base em valores fixos por hectare. O custo da irrigação foi de R$ 4.346,88 por ano, derivado do consumo de água de 33,5 litros por planta por dia (Philippus Nel, 2024) para 22.500 plantas, totalizando 275.118.750 litros anuais, e o custo da água de R$ 0,0158 por metro cúbico, conforme a Resolução ANA n° 124/19 (Sampaio, 2023). O custo de eletricidade foi estimado em R$ 78.414,68 por ano, com base em estudos de Miranowski (2006) e Barbosa et al. (2020) para uma área de 100 hectares em Goiás. A irrigação é um fator crítico para a mangicultura no Vale do São Francisco, uma região semiárida. A disponibilidade e o custo da água e da energia para bombeamento são determinantes para a viabilidade do projeto. A adoção de tecnologias de irrigação eficientes, como a microaspersão, é fundamental para otimizar o uso da água e reduzir os custos energéticos. A política de preços da água e da energia elétrica, muitas vezes sujeita a regulamentações governamentais, pode introduzir incertezas e riscos para o produtor, exigindo um acompanhamento atento das políticas públicas e a busca por fontes de energia alternativas ou mais eficientes, como a energia solar (Miranowski, 2006).

A produtividade (Pr) foi modelada utilizando a função de Cobb-Douglas (Cobb; Douglas, 1928), Pr = I^α * T^β * X^-δ, onde “I” é a irrigação por planta, “T” o insumo trabalho e “X” o índice de pragas. Os expoentes α (0,2) e β (0,3) foram definidos para que a produtividade ideal resultasse em 25 toneladas por hectare, conforme Pinheiro Araújo (2021b), com X=1 (índice de pragas ideal). O volume produzido (V) foi, portanto, de 2.250 toneladas por ano (25 toneladas/hectare * 90 hectares). A função de Cobb-Douglas é amplamente utilizada em economia para modelar a relação entre insumos e produção, e sua aplicação aqui permite entender como a irrigação e o trabalho impactam a produtividade. A sensibilidade da produtividade ao índice de pragas (X) é um lembrete da vulnerabilidade da agricultura a fatores biológicos e climáticos. Atingir e manter a produtividade de 25 toneladas por hectare é crucial para a rentabilidade, e isso depende diretamente da gestão eficaz da irrigação, da mão de obra e do controle de pragas.

O custo logístico (CL) foi de R$ 668.859,65 por ano, baseado no transporte de mangas em contêineres refrigerados para exportação. Um contêiner padrão de 40 pés pode transportar até 51.300 mangas (cerca de 20,52 toneladas), e o frete de Juazeiro a Salvador (513 km) foi estimado em R$ 6.100,00 por caminhão de quatro eixos, conforme a ANTT (ANTT, 2025; DC Logistics Brasil, 2025). A logística de exportação de frutas frescas é complexa e cara, envolvendo transporte refrigerado e infraestrutura portuária. O custo logístico significativo ressalta a importância da eficiência da cadeia de suprimentos e da negociação de fretes. A localização do Vale do São Francisco, embora estratégica para a produção, impõe desafios logísticos para o acesso a portos de exportação. Melhorias na infraestrutura de transporte e a busca por rotas mais eficientes podem contribuir para a redução desses custos e aumentar a competitividade do produto no mercado internacional.

A receita (R) do projeto foi calculada multiplicando o preço da manga pelo volume produzido, resultando em R$ 4.590.000,00 por ano quando a plantação atinge a plena produção, a partir do sexto ano. Nos primeiros cinco anos, a fazenda não gera receitas com a manga, o que é típico de culturas perenes e exige um planejamento financeiro robusto para cobrir os custos iniciais. A Tabela 6 sumariza as variáveis de custos nos primeiros anos, evidenciando o alto investimento inicial e a ausência de receita nos primeiros anos.

Tabela 6. Variáveis de custos nos primeiros anos

Variáveis de custo em (em R$)

Ano 0

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Ano 4

Ano 5

Ano 6

Custo da Terra

3.500.000

Preparo do solo

271.170

222.795

230.814

303.030

363.915

372.825

Custo com Defensivos

28.880

65.420

83.690

98.990

130.670

157.490

Maquinário

241.470

Funcionários

450.000

225.000

225.000

225.000

225.000

450.000

Irrigação

4.347

4.347

4.347

4.347

4.347

4.347

Eletricidade

78.414

78.414

78.414

78.414

78.414

78.414

Custo Logístico

668.860

Custo Total

3.741.470

832.811

595.976

622.265

709.781

802.346

1.731.936

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Tabela 6 ilustra claramente a fase de investimento intensivo do projeto. No Ano 0, o custo total é dominado pela aquisição da terra e maquinário. Nos anos subsequentes, os custos de preparo do solo, defensivos, mão de obra, irrigação e eletricidade são os principais componentes. A ausência de receita nos primeiros cinco anos, combinada com esses custos operacionais crescentes, resulta em um fluxo de caixa negativo significativo, o que é uma característica intrínseca de projetos agrícolas de longo ciclo. Este período de “vale da morte” financeiro exige que o investidor tenha capital suficiente ou acesso a financiamento de longo prazo para sustentar a operação até que a produção comece a gerar receita.

Para determinar o imposto de renda e o lucro líquido, foi necessário calcular o lucro operacional, conforme a Tabela 7.

Tabela 7. Lucro Operacional (em R$)

Ano

Receita

Custo

Lucro Operacional

Ano 0

3.741.470

-3.741.470

Ano 1

832.811

-832.811

Ano 2

595.976

-595.976

Ano 3

622.265

-622.265

Ano 4

709.781

-709.781

Ano 5

802.346

-802.346

Ano 6

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 7

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 8

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 9

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 10

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 11

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 12

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 13

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 14

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 15

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 16

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 17

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 18

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 19

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Ano 20

4.590.000

1.731.936

2.858.064

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Tabela 7 demonstra que o lucro operacional é negativo nos primeiros cinco anos, refletindo a fase de implantação e maturação da cultura. A partir do Ano 6, com o início da produção em plena capacidade, o lucro operacional torna-se substancialmente positivo, atingindo R$ 2.858.064,00 anuais. Essa transição de perdas para lucros operacionais é um marco crucial para a viabilidade do projeto e valida a premissa de que a mangicultura é uma cultura de longo prazo. A análise do lucro operacional é fundamental para entender a capacidade intrínseca do negócio de gerar valor antes da consideração de impostos e despesas financeiras.

Com esses rendimentos, a alíquota de imposto de renda mais adequada é a de 27,5%, o patamar mais elevado. Dessa forma, o lucro líquido da operação pode ser encontrado na Tabela 8.

Tabela 8. Lucro Líquido, após impostos (em R$)

Ano

IR

Lucro Líquido

Ano 0

-3.741.470

Ano 1

-832.811

Ano 2

-595.976

Ano 3

-622.265

Ano 4

-709.781

Ano 5

-802.346

Ano 6

785.968

2.072.096

Ano 7

785.968

2.072.096

Ano 8

785.968

2.072.096

Ano 9

785.968

2.072.096

Ano 10

785.968

2.072.096

Ano 11

785.968

2.072.096

Ano 12

785.968

2.072.096

Ano 13

785.968

2.072.096

Ano 14

785.968

2.072.096

Ano 15

785.968

2.072.096

Ano 16

785.968

2.072.096

Ano 17

785.968

2.072.096

Ano 18

785.968

2.072.096

Ano 19

785.968

2.072.096

Ano 20

785.968

2.072.096

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Tabela 8 mostra que, mesmo após a incidência do imposto de renda, o lucro líquido do projeto é robusto a partir do Ano 6, atingindo R$ 2.072.096,00 anuais. Os primeiros anos, como esperado, apresentam lucro líquido negativo devido aos investimentos e à ausência de receita. A capacidade de gerar um lucro líquido consistente por um período prolongado é um forte indicativo da atratividade do projeto. No entanto, a magnitude do imposto de renda (IR) de R$ 785.968,00 anuais a partir do Ano 6 ressalta a importância de um planejamento tributário eficiente para otimizar a rentabilidade líquida do produtor.

Para uma análise completa da viabilidade, foi essencial comparar o projeto com um custo de oportunidade, que representava o retorno de um investimento alternativo mais seguro. Foi estimado o valor de rendimento de investimentos em um título de renda fixa mais conservador, com rendimento de 100% do CDI, assumindo o CDI estável na média de 2025 (14,32% ao ano). Os fluxos de caixa de investimento para o custo de oportunidade respeitaram as despesas anuais com a fazenda até o ano em que a empresa começou a apresentar lucros, totalizando um investimento de R$ 7.304.649,00 do ano inicial até o ano cinco. A Figura 1 ilustra essa comparação.

Figura 1. Custo de Oportunidade (em R$)

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 1 é um elemento visual crucial que compara o investimento anual no projeto de mangicultura com o valor final acumulado de um investimento em CDI. O gráfico de barras representa os investimentos anuais na fazenda (que são negativos nos primeiros anos, indicando desembolsos), enquanto a linha crescente mostra o valor acumulado se o mesmo montante fosse investido em renda fixa. Após vinte anos, o valor acumulado em renda fixa seria de R$ 102.512.741,01, com uma taxa anual de 14,32%. Esta comparação é fundamental para a tomada de decisão, pois permite ao investidor visualizar o sacrifício financeiro inicial e o retorno potencial de uma alternativa de baixo risco. A Tabela 9 detalha o rendimento do investimento em CDI.

Tabela 9. Rendimento do investimento em CDI (em R$)

Ano

Investimento anual

Valor Final

Rendimento

Fluxo de Caixa

Ano 0

3.741.470

4.277.248,50

535.778,50

-3.205.691,50

Ano 1

832.811

5.841.820,02

1.564.571,52

731.760,52

Ano 2

595.976

7.359.688,42

1.517.868,39

921.892,39

Ano 3

622.265

9.124.969,14

1.765.280,73

1.143.015,73

Ano 4

709.781

11.243.086,37

2.118.117,22

1.408.336,22

Ano 5

802.346

13.770.338,28

2.527.251,91

1.724.905,91

Ano 6

15.742.250,72

1.971.912,44

1.971.912,44

Ano 7

17.996.541,03

2.254.290,30

2.254.290,30

Ano 8

20.573.645,70

2.577.104,67

2.577.104,67

Ano 9

23.519.791,76

2.946.146,06

2.946.146,06

Ano 10

26.887.825,95

3.368.034,18

3.368.034,18

Ano 11

30.738.162,62

3.850.336,68

3.850.336,68

Ano 12

35.139.867,51

4.401.704,89

4.401.704,89

Ano 13

40.171.896,54

5.032.029,03

5.032.029,03

Ano 14

45.924.512,12

5.752.615,58

5.752.615,58

Ano 15

52.500.902,25

6.576.390,14

6.576.390,14

Ano 16

60.019.031,46

7.518.129,20

7.518.129,20

Ano 17

68.613.756,76

8.594.725,30

8.594.725,30

Ano 18

78.439.246,73

9.825.489,97

9.825.489,97

Ano 19

89.671.746,86

11.232.500,13

11.232.500,13

Ano 20

102.512.741,01

12.840.994,15

12.840.994,15

Fonte: Resultados originais da Pesquisa

A Tabela 9 reforça a magnitude do custo de oportunidade. O investimento em CDI, embora mais seguro, gera um retorno financeiro substancial ao longo de vinte anos. A comparação direta entre o retorno do projeto agrícola e o CDI é essencial para que o investidor compreenda o “custo” de não ter escolhido a alternativa de menor risco. Um projeto agrícola, por sua natureza, envolve riscos intrínsecos (climáticos, de mercado, fitossanitários) que não estão presentes em um investimento em renda fixa. Portanto, para ser considerado viável, o projeto agrícola deve oferecer um retorno superior ao custo de oportunidade, compensando os riscos adicionais assumidos.

Para uma análise mais precisa da viabilidade econômica, foram aplicados os indicadores financeiros Valor Presente Líquido (VPL) e Taxa Interna de Retorno (TIR). A Taxa Mínima de Atratividade (TMA) foi estabelecida em 100% do CDI, correspondendo a 14,32% ao ano, servindo como balizador para o custo de oportunidade. A Tabela 10 apresenta a demonstração de resultados do exercício até o sexto ano, consolidando as informações de custos e receitas.

Tabela 10. Demonstração de Resultados do Exercício até o sexto ano (em R$)

Fluxo (R$)

Ano 0

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Ano 4

Ano 5

Ano 6

Investimento

– 3.741.470

Receita Operacional

4.590.000

Custos

832.811

595.976

622.265

709.781

802.346

1.731.936

Lucro Operacional

– 832.811

– 595.976

– 622.265

– 709.781

– 802.346

2.858.064

Imposto de Renda

– 785.967

Lucro Líquido

– 832.811

– 595.976

– 622.265

– 709.781

– 802.346

2.072.096

Fluxo de Caixa

– 3.741.470

– 832.811

– 595.976

– 622.265

– 709.781

– 802.346

2.072.096

Fonte: Resultados originais da Pesquisa

A Tabela 10 é uma síntese dos fluxos financeiros nos primeiros anos, destacando a fase de investimento e a transição para a lucratividade. O “Fluxo de Caixa” negativo nos primeiros cinco anos, seguido por um fluxo positivo no Ano 6, ilustra a curva de investimento e retorno. Esta tabela é crucial para o planejamento de capital e para a compreensão da necessidade de financiamento durante a fase de implantação.

Os indicadores financeiros finais, apresentados na Tabela 11, são a síntese da análise de viabilidade.

Tabela 11. Indicadores

Indicador

Resultado

CDI

14,32%

Taxa Mínima de Atratividade (TMA)

14,32%

Valor Presente Líquido (VPL)

R$ 215.390,36

Taxa Interna de Retorno (TIR)

14,79%

Fonte: Resultados originais da Pesquisa e indicadores de mercado

Conforme a Tabela 11, a Taxa Interna de Retorno (TIR) do projeto após 20 anos é de 14,79%, e o Valor Presente Líquido (VPL) é de R$ 215.390,36. Comparando com a Taxa Mínima de Atratividade (TMA) de 14,32% (equivalente a 100% do CDI), nota-se que a TIR do projeto é ligeiramente superior à TMA. Um VPL positivo, mesmo que modesto, e uma TIR que excede a TMA, indicam que o projeto é economicamente viável e gera valor para o investidor acima do custo de oportunidade. Isso significa que, do ponto de vista puramente financeiro, seguir com a plantação de manga é uma alternativa mais rentável do que investir o mesmo capital em renda fixa. No entanto, a pequena diferença entre a TIR e a TMA (0,47 pontos percentuais) sugere que a margem de segurança é estreita, tornando o projeto sensível a variações negativas nas premissas. Este resultado, embora positivo, exige cautela e uma gestão rigorosa para garantir que as projeções se concretizem. A literatura de finanças de projetos frequentemente adverte que pequenas diferenças entre TIR e TMA em projetos de longo prazo podem ser rapidamente erodidas por eventos adversos não previstos (Torres; Dias, 2025).

Diante da pequena diferença entre a TIR do projeto e a taxa do CDI, foi imperativo realizar uma análise de sensibilidade para avaliar a robustez da viabilidade em um cenário mais adverso. Um cenário de estresse plausível foi simulado, considerando um ataque de pragas mais elevado, que resultaria na duplicação dos gastos com defensivos. A Tabela 12 apresenta o custo com defensivos nesse cenário de estresse.

Tabela 12. Variável de Custo com Defensivos em caso de ataque de pragas

Variável

Unidade

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Ano 4

Ano 5

Ano 6

CD

R$

57.760

130.840

167.380

197.980

261.340

314.980

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Tabela 12 mostra que a duplicação dos custos com defensivos eleva significativamente as despesas operacionais. Por exemplo, no Ano 6, o custo com defensivos salta de R$ 157.490,00 para R$ 314.980,00. Esse aumento tem um impacto cascata nos resultados financeiros, como demonstrado na Tabela 13, que apresenta a demonstração de resultados do exercício em estresse.

Tabela 13. Demonstração do Resultado de Exercício em estresse (em R$)

Fluxo (R$)

Ano 0

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Ano 4

Ano 5

Ano 6

Investimento

– 3.741.470

Receita Operacional

4.590.000

Custos

861.691

661.396

705.955

808.771

933.016

1.889.426

Lucro Operacional

– 861.691

– 661.396

– 705.955

– 808.771

– 933.016

2.700.574

Imposto de Renda

– 742.657

Lucro Líquido

– 861.691

– 661.396

– 705.955

– 808.771

– 933.016

1.957.916

Fluxo de Caixa

– 3.741.470

– 861.691

– 661.396

– 705.955

– 808.771

– 933.016

1.957.916

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Tabela 13 revela que, no cenário de estresse, o lucro operacional e, consequentemente, o lucro líquido são reduzidos. O impacto mais crítico é observado nos indicadores financeiros, conforme a Tabela 14.

Tabela 14. Indicadores (Stress)

Indicador

Resultado

CDI

14,32%

Taxa Mínima de Atratividade (TMA)

14,32%

VPL

317.948,93

TIR

13,62%

Fonte: Resultados originais da Pesquisa e indicadores de mercado

A Tabela 14 é um alerta crucial. No cenário de estresse, a TIR do projeto cai para 13,62%, tornando-se inferior à TMA de 14,32%. Consequentemente, o VPL, embora ainda positivo em R$ 317.948,93, é significativamente menor do que no cenário normal e, mais importante, a TIR abaixo da TMA indica que o projeto não é mais economicamente atrativo em comparação com o custo de oportunidade. Isso significa que, em uma situação de ataque severo de pragas que duplique os custos com defensivos, o investimento na plantação de manga se torna menos vantajoso do que a aplicação do capital em um título de renda fixa. Este achado sublinha a alta sensibilidade do projeto a variáveis negativas, como pragas e doenças, e a necessidade de estratégias robustas de mitigação de riscos. A gestão de riscos no agronegócio, incluindo seguros agrícolas e investimentos em pesquisa e desenvolvimento de variedades mais resistentes, torna-se ainda mais relevante (SEBRAE, 2025a).

Em suma, os resultados indicam que, em condições normais, o projeto de implantação de manga no Vale do São Francisco é economicamente viável, com um VPL positivo e uma TIR ligeiramente superior à TMA. No entanto, essa viabilidade é marginal e altamente sensível a fatores adversos. A estratégia ideal, portanto, seria aliar as duas soluções: investir na plantação de manga, mas aplicar o excedente de lucros gerado na agricultura em renda fixa para gerar rendimentos futuros. Essa abordagem permite diversificar o risco e manter um retorno longevo, combinando o potencial de crescimento da agricultura com a segurança dos investimentos financeiros.

As implicações práticas são vastas. Para potenciais investidores e produtores, é fundamental um planejamento financeiro extremamente detalhado, que contemple não apenas os custos e receitas projetados, mas também a necessidade de capital de giro para os primeiros anos de fluxo de caixa negativo. A busca por linhas de crédito específicas para o agronegócio, com taxas de juros e prazos de carência adequados ao ciclo da cultura da manga, é essencial. Além disso, a gestão de riscos deve ser uma prioridade, com a implementação de programas de manejo integrado de pragas e doenças, monitoramento constante das condições climáticas e de mercado, e, se possível, a contratação de seguros agrícolas. A diversificação da produção ou a agregação de valor ao produto (por exemplo, processamento de manga) também podem ser estratégias para aumentar a resiliência do negócio.

A dependência de dados de mercado e projeções futuras introduz um grau de incerteza, e a sensibilidade do projeto a variáveis negativas, como o índice de pragas e doenças, pode impactar significativamente a rentabilidade. A análise de cenários adversos, como o aumento dos custos com defensivos, foi realizada para mitigar essa limitação, mas a complexidade do agronegócio sempre envolve riscos que podem não ser totalmente capturados em modelos financeiros. A pesquisa também destaca a importância de políticas públicas que apoiem o agronegócio, como subsídios para irrigação eficiente, linhas de crédito com juros subsidiados e programas de pesquisa e extensão rural que forneçam informações atualizadas e tecnologias para os produtores. Um aumento na taxa SELIC, por exemplo, poderia elevar a TMA e reduzir ainda mais a atratividade do projeto, especialmente se o produtor depender de financiamento bancário.

A viabilidade econômica de iniciar uma plantação de manga no Vale do São Francisco é confirmada, mas com ressalvas importantes. O projeto exige um capital inicial substancial e uma gestão cuidadosa para navegar pelos desafios dos primeiros anos e mitigar os riscos inerentes à atividade agrícola. A combinação de investimento na fazenda e aplicação de lucros excedentes em renda fixa emerge como a estratégia mais prudente para maximizar retornos e garantir a sustentabilidade a longo prazo.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, ao analisar a viabilidade econômica de iniciar uma plantação de manga no Vale do São Francisco, empregando ferramentas como VPL e TIR, e a função de Cobb-Douglas para estimar a produtividade, além de avaliar o impacto de cenários adversos. Os resultados indicaram que o projeto é economicamente viável em condições normais, com uma Taxa Interna de Retorno (TIR) de 14,79% e um Valor Presente Líquido (VPL) de R$ 215.390,36, superando marginalmente a Taxa Mínima de Atratividade (TMA) de 14,32%. Contudo, essa viabilidade mostrou-se altamente sensível a fatores negativos, como um aumento nos custos com defensivos devido a ataques de pragas, que reduziu a TIR para 13,62%, tornando o projeto menos atrativo que o custo de oportunidade. A estratégia ideal sugerida é a combinação do investimento na plantação com a aplicação dos lucros excedentes em renda fixa, visando diversificar riscos e garantir retornos longevos.

As limitações do estudo incluem a dependência de dados de mercado e projeções futuras, que introduzem incertezas, e a complexidade inerente ao agronegócio, cujos riscos podem não ser totalmente capturados em modelos financeiros. A sensibilidade a variáveis como o índice de pragas e a taxa SELIC, que pode afetar o custo de financiamento, é um ponto crítico. Para estudos futuros, sugere-se aprofundar a análise de cenários de estresse mais abrangentes, incluindo variações climáticas e de preços de mercado. Recomenda-se também investigar estratégias de mitigação de riscos, como seguros agrícolas e diversificação da produção, além de explorar modelos de arrendamento de terras e o impacto de políticas públicas de fomento ao agronegócio.

Referências Bibliográficas

Amado, A. 2025. Vale do São Francisco, o sertão tecnológico. Agência Brasil. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-07/vale-do-

Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada [CEPEA-ESALQ]; Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil [CNA]. 2025. PIB do agronegócio brasileiro. Acesso em: 10 de nov. de 2025.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE]. 2025. Juazeiro – Dados IBGE. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/ba/juazeiro.html>. Acesso em: 4 out. 2025.

Nakamura, J. 2025. Brasil cai e encerra 2024 como 10° maior economia do mundo; veja ranking. CNN Brasil. Acesso em: 10 mar. 2025.

Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas [SEBRAE]. 2025a. Juazeiro – SEBRAE. Disponível em: <https://datampe.sebrae.com.br/profile/geo/juazeiro>. Acesso em: 4 out. 2025.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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