
25 de fevereiro de 2026
Tributação sobre lucro e estratégias para preservação de caixa em empresa de terceirização
Daiane Silva Felis; Roberto Pinheiro Gatsios
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisa o impacto do regime de Lucro Real e do planejamento tributário nos demonstrativos contábeis e financeiros da empresa Foruz Serviços de Logística Ltda. A pesquisa investiga como a aplicação estratégica deste regime influencia a lucratividade de uma organização no setor de terceirização de mão de obra logística. O trabalho utiliza os dados financeiros de 2023 e 2024 e uma projeção orçamentária para 2025 para construir cenários comparativos que isolem os efeitos das decisões fiscais. A análise posiciona a gestão tributária como pilar estratégico, especialmente em um ambiente de negócios com margens estreitas e alta intensidade de capital humano.
O problema central da investigação é a complexidade do sistema tributário brasileiro, que impõe desafios à gestão. A carga tributária no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT, 2022), representa uma parcela substancial do PIB, exigindo das organizações um esforço para manter a conformidade sem comprometer a competitividade. Nesse contexto, a escolha do regime tributário é um fator estratégico. O regime de Lucro Real, embora obrigatório para grandes empresas, é uma opção vantajosa para organizações com prejuízos ou margens de lucro reduzidas, pois permite a compensação de resultados negativos e a dedução de mais despesas operacionais, como defende Fabretti (2018).
A relevância do estudo aumenta ao considerar as particularidades do setor de logística, que, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT, 2022), corresponde a uma parcela expressiva do PIB. Este segmento é caracterizado por uma estrutura de custos elevada, influenciada por despesas com mão de obra, combustíveis e manutenção. A regulamentação da terceirização (Lei nº 13.429/2017) expandiu o mercado para empresas como a Foruz Logística, mas também acentuou a pressão sobre os encargos trabalhistas e tributários. Autores como Oliveira e Silva (2019) destacam que, para essas empresas, a eficiência na gestão de custos e a otimização fiscal são condições essenciais para a sobrevivência.
A empresa objeto deste estudo, Foruz Serviços de Logística Ltda., fundada em 2019, atua no fornecimento de mão de obra temporária e serviços de apoio logístico. Como empresa em consolidação, busca expandir operações e estabelecer uma estrutura financeira robusta. A análise de seu desempenho, com prejuízos em 2023 e 2024 e uma projeção otimista para 2025, oferece uma oportunidade para avaliar o impacto de um planejamento tributário estruturado. A pesquisa diagnostica a situação da empresa e simula os resultados de uma gestão fiscal mais ativa.
O estudo se justifica por demonstrar, com dados concretos, a distinção entre lucro contábil e geração de caixa. Como alerta Assaf Neto (2014), um resultado contábil positivo pode mascarar fragilidades de liquidez. Ao confrontar o resultado líquido obtido via planejamento tributário com um resultado financeiro ajustado, que incorpora obrigações como empréstimos e parcelamentos, a pesquisa fornece aos gestores uma visão mais realista da performance empresarial. O trabalho contribui para a literatura sobre finanças e controladoria ao aplicar conceitos teóricos a um caso prático, ilustrando como a integração entre as áreas contábil, fiscal e financeira é indispensável para a tomada de decisões.
Este estudo é uma pesquisa aplicada, que segundo Gil (2017), gera conhecimento com aplicação prática para a solução de problemas. A natureza da pesquisa é quantitativa, pela análise numérica de demonstrativos, e qualitativa, ao interpretar os dados no contexto empresarial. A abordagem é descritiva e exploratória, buscando descrever a evolução financeira da Foruz e explorar os impactos de diferentes cenários de gestão fiscal. Essa combinação metodológica permite apresentar os fatos financeiros e compreender as relações de causa e efeito entre as estratégias tributárias e os resultados.
O objeto de estudo é a empresa Foruz Serviços de Logística Ltda., sociedade empresária limitada de Campinas/SP (CNPJ nº 34.489.331/0001-59). Fundada em 2019, enquadra-se como microempresa e tem como atividade principal a locação de mão de obra temporária (CNAE 78.20-5-00). A escolha se justifica por representar um perfil comum no Brasil: uma organização em crescimento, em um setor de serviços intensivo em mão de obra e sensível às variações da legislação. A análise de caso único permite uma compreensão detalhada dos desafios enfrentados.
A coleta de dados foi realizada a partir de fontes secundárias. Os principais insumos foram os documentos contábeis e gerenciais da empresa, incluindo as Demonstrações do Resultado do Exercício (DRE) de 2023 e 2024, e a planilha orçamentária com projeções para 2025. Foram consultados documentos públicos, como o registro do CNPJ, para validar informações. O embasamento teórico foi construído a partir da literatura especializada em contabilidade tributária e finanças, com destaque para obras de Assaf Neto (2014), Beuren et al. (2016) e Fabretti (2018), além de normativos legais.
O procedimento de análise dos dados foi estruturado em quatro etapas. A primeira foi a consolidação e análise comparativa das DREs de 2023 e 2024 para diagnosticar as causas dos prejuízos. A segunda envolveu a estruturação da DRE projetada para 2025. Na terceira etapa, realizou-se o cálculo do IRPJ e da CSLL sob as regras do Lucro Real. A quarta etapa foi a construção de três cenários comparativos: o primeiro, simulando o resultado contábil sem planejamento tributário; o segundo, incorporando práticas de elisão fiscal, como deduções e compensação de prejuízos; e o terceiro, ajustando o resultado do segundo cenário para refletir o impacto de compromissos financeiros que afetam o caixa, como amortização de empréstimos e impostos parcelados.
A análise dos resultados financeiros da Foruz Logística para 2023 e 2024 revela um período de desafios. Em 2023, a empresa registrou um prejuízo líquido de R$ 833.698, com custos que superaram a receita líquida de R$ 9.942.834. Em 2024, houve melhora, com o prejuízo líquido reduzido para R$ 157.156. Essa diminuição de mais de 80% no resultado negativo, mesmo com aumento da receita bruta para R$ 17.571.276, sinaliza a implementação de medidas de controle de custos e otimização de processos, indicando uma trajetória de recuperação.
A projeção para 2025 marca um ponto de inflexão. Com base no orçamento, a receita bruta projetada alcança R$ 30.420.389, impulsionando o resultado antes da tributação para um lucro de R$ 2.399.204. Este valor é a base de cálculo para a análise dos cenários. A transição de um prejuízo acumulado para um lucro projetado superior a dois milhões evidencia o potencial de mercado da empresa e a importância de uma gestão financeira e fiscal proativa.
O primeiro cenário, que simula a apuração do resultado sem planejamento tributário, serve como linha de base. Partindo do lucro tributável de R$ 2.399.204, a aplicação das alíquotas de IRPJ (15% mais adicional de 10%) e CSLL (9%) resulta em uma carga tributária de R$ 467.849. O lucro líquido contábil seria de R$ 1.931.355. Este cenário representa uma abordagem passiva à gestão fiscal; a empresa cumpre suas obrigações sem explorar oportunidades de otimização, uma prática que, segundo Beuren et al. (2016), pode comprometer a competitividade.
O segundo cenário demonstra o impacto do planejamento tributário. Ao incorporar práticas de elisão fiscal, a empresa reduz legalmente sua base de cálculo. Foram consideradas deduções de R$ 150.000 e a compensação dos prejuízos fiscais de 2023 e 2024. A legislação do Lucro Real permite que até 30% do lucro do período seja compensado com prejuízos anteriores, o que representou uma redução de R$ 674.761 na base de cálculo. Com os ajustes, o lucro real tributável caiu para R$ 1.574.443, e a carga tributária foi reduzida para R$ 311.144. O resultado foi um lucro líquido contábil de R$ 2.088.060, um incremento de R$ 156.705 em relação ao primeiro cenário. Esse ganho, obtido pela gestão fiscal, corrobora a visão de Martins (2017) sobre o planejamento tributário como ferramenta para maximização de resultados.
O terceiro cenário oferece a visão mais crítica da saúde financeira, ao confrontar o lucro contábil com as obrigações de caixa. Partindo do lucro líquido otimizado (R$ 2.088.060), foram subtraídos ajustes financeiros de R$ 928.368, referentes a amortização de empréstimos, pagamento de parcelamentos de impostos e investimentos. O resultado financeiro final ajustado cai para R$ 1.159.692. Esta análise expõe a lacuna entre a lucratividade apurada no regime de competência e a liquidez real da organização. Este achado está em linha com as advertências de Assaf Neto (2014), que enfatiza que o lucro, por si só, não paga as contas, e que uma gestão focada apenas no DRE pode levar a crises de liquidez.
A discussão comparativa dos cenários evidencia a complexidade da gestão financeira. O Cenário 1 revela o custo da inércia fiscal; a empresa deixa de reter mais de R$ 150 mil. O Cenário 2 ilustra o benefício quantificável do planejamento tributário, que se traduz em maior lucro e capacidade de reinvestimento. A compensação de prejuízos fiscais mostrou-se uma ferramenta poderosa para a Foruz, transformando resultados negativos passados em benefício fiscal presente, um dos atrativos do Lucro Real para empresas em recuperação (Zdanowicz, 2018).
A análise mais contundente emerge da comparação entre o Cenário 2 e o Cenário 3. A diferença de quase R$ 1 milhão entre o lucro contábil e o resultado financeiro demonstra que a otimização tributária é apenas parte da solução. Para uma empresa de logística, a gestão do capital de giro e do fluxo de caixa é tão importante quanto a gestão de impostos. O caso da Foruz ilustra que, mesmo em um ano de alta lucratividade, compromissos financeiros anteriores podem consumir uma parcela significativa dos ganhos, limitando o crescimento.
Essa constatação reforça a necessidade de uma abordagem integrada da controladoria, alinhando estratégias fiscais, contábeis e financeiras. A decisão de tomar um empréstimo ou parcelar um tributo deve ser avaliada não apenas pelo custo financeiro, mas pelo impacto futuro na liquidez. A pesquisa demonstra que o regime de Lucro Real, ao exigir um controle contábil rigoroso, pode fornecer as informações para essa visão integrada, mas cabe aos gestores utilizar esses dados para ir além do cumprimento de obrigações. A experiência da Foruz serve como alerta de que o sucesso não se mede apenas pela última linha da DRE, mas pela capacidade de converter lucro em caixa.
Este estudo concluiu que a aplicação do regime de Lucro Real, combinada com um planejamento tributário estratégico, gera impactos positivos no resultado contábil da Foruz Serviços de Logística Ltda. A análise revelou que, para 2025, a adoção de práticas de elisão fiscal, como a compensação de prejuízos, pode gerar uma economia tributária de R$ 156 mil, elevando o lucro líquido de R$ 1.931.355 para R$ 2.088.060. Este resultado quantifica o valor gerado pela gestão fiscal ativa, confirmando-a como ferramenta estratégica para a maximização da rentabilidade.
Contudo, a análise demonstrou a diferença crítica entre o resultado contábil e a realidade do fluxo de caixa. Ao ajustar o lucro líquido otimizado pelos compromissos financeiros que demandam desembolso — como empréstimos e parcelamentos —, o resultado efetivo foi reduzido para R$ 1.159.692. Essa descoberta sublinha que a lucratividade contábil não é sinônimo de liquidez e que uma gestão focada em otimização fiscal, sem um controle rigoroso do caixa, pode mascarar vulnerabilidades financeiras. A principal contribuição do estudo é evidenciar a necessidade de uma visão gerencial integrada, que harmonize a estratégia tributária e a gestão do capital de giro para assegurar a sustentabilidade. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a aplicação do regime de Lucro Real, quando combinada com planejamento tributário e uma análise criteriosa do fluxo de caixa, impacta de forma multifacetada os resultados contábil e financeiro da empresa, revelando tanto oportunidades de otimização fiscal quanto riscos de liquidez.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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