
25 de fevereiro de 2026
Autopercepção de líderes na primeira liderança em empresas de tecnologia
Dorislene Maria Vieira Lima; Helena Wollinger Costa
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisou a autopercepção de líderes sobre a primeira experiência de liderança em uma empresa de tecnologia, compreendendo os desafios, aprendizados e a jornada transicional vivenciada. A pesquisa investigou a autopercepção de profissionais que tiveram sua primeira liderança em uma organização do setor tecnológico, ambiente caracterizado por dinamismo e alta exigência. A transição para um cargo de liderança é uma profunda transformação de identidade, expondo novos gestores a situações inéditas onde equívocos são comuns, mas o potencial de aprendizado é imenso. A jornada envolve uma reconfiguração da perspectiva sobre a equipe, a busca por referências e a pressão por desempenho, gerando significativa carga emocional e cognitiva.
A literatura descreve a liderança como um processo dinâmico e subjetivo, permeado por elementos transicionais que demandam busca por sentido (Rocha e Messias, 2021). A capacidade de liderar depende da adaptação a mudanças e imprevisibilidades. A passagem de uma função técnica para uma de gestão implica o desenvolvimento de novas habilidades, como construção de vínculos, mediação de conflitos e alocação de recursos. Essa mudança de carreira é uma transformação identitária que exige competências relacionais e emocionais robustas.
Contrariando a expectativa de maior autonomia, a realidade da primeira liderança frequentemente revela maior dependência de processos e das pessoas lideradas. Essa dissonância pode gerar frustração e questionamentos sobre o próprio papel (Amaral e Oliveira, 2016). A gestão de si mesmo emerge como um obstáculo significativo, envolvendo o manejo de frustrações, a resolução de conflitos e a administração de inseguranças. Muitos estudos focam em estratégias para o sucesso, mas a dimensão subjetiva, que engloba medos e vulnerabilidades, é crucial para um desenvolvimento autêntico.
A vulnerabilidade, por vezes percebida como fraqueza, pode fortalecer os laços com a equipe, promovendo proximidade e confiança. Líderes que se permitem errar de forma construtiva humanizam sua gestão, embora seja necessário equilibrar essa abertura para não comprometer a estabilidade da equipe (Rocha e Messias, 2016). Nesse cenário, o suporte organizacional é crítico, seja por meio de programas formais de desenvolvimento ou pelo apoio informal de gestores experientes. Contudo, esse suporte ainda é escasso em muitas organizações, deixando os novos líderes à mercê de suas próprias capacidades de adaptação.
Analisar este fenômeno contribui para uma compreensão aprofundada da jornada de liderança, permitindo que o indivíduo expanda a consciência sobre si, seu papel e sua influência (Almeida e Brandão, 2020). A primeira experiência de liderança, embora desafiadora, é uma oportunidade única de crescimento. Este estudo, realizado em uma empresa de tecnologia que promove a ascensão de colaboradores, oferece um campo fértil para investigar essas percepções e contribuir para o conhecimento sobre o desenvolvimento de líderes.
A metodologia adotada foi qualitativa, escolhida por sua capacidade de decifrar sistemas complexos de significados e traduzir fenômenos sociais (Neves, 1996). A pesquisa qualitativa busca reduzir a distância entre teoria e dados empíricos, gerando um conhecimento crítico e reflexivo que questiona os limites do processo científico, alinhando-se ao objetivo de explorar a autopercepção subjetiva dos líderes (Martins, 2004). A pesquisa foi conduzida em uma empresa multinacional de tecnologia, especializada em conectividade, com sede no interior de São Paulo e aproximadamente mil colaboradores. A escolha foi estratégica, dada sua relevância e a acessibilidade a profissionais promovidos internamente.
O instrumento de coleta de dados foi a entrevista semiestruturada, que combina um roteiro predefinido com flexibilidade. O roteiro, adaptado de Darsie (2018), continha vinte e seis perguntas divididas em três seções: a primeira experiência, o processo de desenvolvimento e os desafios no relacionamento com a equipe. A coleta de dados foi primária, com corte transversal. As entrevistas foram realizadas remotamente via Teams, com gravação de áudio para transcrição e análise. A duração média foi de uma hora, permitindo uma exploração detalhada das experiências.
A amostra foi composta por oito líderes de diferentes áreas, selecionados por conveniência. A intenção inicial era entrevistar dez profissionais, mas a indisponibilidade de dois reduziu a amostra final. Os participantes foram contatados por e-mail e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A pesquisa seguiu os preceitos éticos, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) via Plataforma Brasil (CAAE: 85580624.4.0000.9927), reforçando sua validade. Antes de cada entrevista, os objetivos e o TCLE foram explicados, assegurando a confidencialidade e os direitos dos participantes.
A análise dos dados utilizou a Análise de Conteúdo de Bardin, que se desdobra em três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados (Sousa e Santos, 2020). Na pré-análise, as 140 páginas de transcrições foram organizadas e submetidas a uma leitura flutuante. Na exploração, os dados foram codificados e categorizados com base nos temas do roteiro, identificando padrões. A análise categorial decompôs o texto em unidades de registro, agrupadas em categorias. Na etapa final, o tratamento dos resultados consistiu na inferência e interpretação dos dados, conectando os achados empíricos ao referencial teórico.
A amostra foi composta por oito líderes, quatro homens e quatro mulheres, com idades entre 27 e 42 anos. A idade em que assumiram a primeira liderança variou de 25 a 35 anos. Sete dos oito ocupavam um cargo formal de liderança (coordenador ou gerente), com equipes de quatro a 24 liderados. A diversidade na formação acadêmica, de graduação incompleta a mestrado, enriqueceu a análise. Emergiram três categorias centrais: a primeira experiência em liderar, o processo de desenvolvimento para a liderança e os desafios em gerir uma equipe.
Na primeira categoria, um achado significativo foi que, para a maioria (sete de oito), a liderança surgiu de forma natural, como um reconhecimento de seu desempenho, e não como um objetivo de carreira premeditado. Relatos como “não era um sonho ser líder” foram comuns, sugerindo que a transição foi impulsionada por oportunidades internas. Este achado alinha-se à visão de que a liderança é um processo subjetivo e transicional, moldado por vivências (Rocha e Messias, 2021). A promoção foi uma consequência do desenvolvimento profissional e da influência já exercida informalmente.
Apesar da naturalidade, a insegurança inicial foi um sentimento proeminente, mencionado por cinco dos oito líderes. A transição de uma posição técnica para uma de gestão de pessoas foi um grande desafio, envolvendo a necessidade de passar confiança à equipe mesmo diante das próprias incertezas. A mudança de foco, de “liderar atividades” para “liderar pessoas”, exigiu uma adaptação profunda, marcada pela motivação de se provar capaz. Essa motivação para superar a insegurança demonstra como a necessidade de realização impulsiona a dedicação (Brunório et al., 2017). A dificuldade em delegar e confiar na equipe também foi um desafio recorrente, especialmente para aqueles com forte background técnico.
A delegação de tarefas, um dos primeiros desafios da liderança, está ligada ao desenvolvimento de pessoas. Quando bem executada, promove autonomia e conhecimento para a equipe, descentralizando responsabilidades (Silva et al., 2019). Em alguns casos, a transição foi facilitada pelo reconhecimento informal prévio do grupo. Profissionais já vistos como referência tiveram uma adaptação mais suave, pois a legitimidade de sua liderança já estava estabelecida. Isso reforça que a liderança eficaz depende não apenas das ações do líder, mas de como ele é percebido pela equipe (Pereira et al., 2023). A percepção de que o sucesso passou a depender da equipe marcou uma mudança fundamental de mentalidade.
No processo de desenvolvimento, todos os oito participantes destacaram a importância dos treinamentos internos, como o programa de formação de novos líderes. A participação nesses programas antes da promoção facilitou a transição. A combinação de aprendizagem formal (treinamentos) e informal (mentoria) foi apontada como ideal para o desenvolvimento de competências (Lins e Andrade, 2014). O programa de mentoria da empresa foi especialmente valorizado como fonte de conhecimento prático. Essas estratégias de aprendizagem desenvolvem competências e fortalecem a cultura organizacional (Brito et al., 2017).
A maioria (sete de oito) descreveu seu estilo de liderança como baseado na escuta, apoio e humanização, tendo seus próprios líderes como modelo positivo. A liderança humanizada, que enxerga os colaboradores como seres integrais, fortalece a confiança e o bem-estar, resgatando o papel do líder como facilitador do desenvolvimento (Marini e Genari, 2024). Além do suporte organizacional, a busca ativa por desenvolvimento contínuo (cursos, podcasts) foi mencionada por metade dos participantes, especialmente os que assumiram a liderança com mais de 30 anos. Isso indica proatividade em complementar a formação, utilizando formatos flexíveis, o que é essencial em um cenário que exige a gestão do conhecimento como elemento estratégico (Besen et al., 2017).
A terceira categoria, focada nos desafios, revelou que a dificuldade em lidar com conflitos foi unânime. Os conflitos exigem do líder a habilidade de mediar situações e buscar soluções construtivas, assumindo um papel central para preservar a cooperação (Kumenda, 2024). Manter a motivação da equipe, especialmente sob pressão, foi outro desafio amplamente citado. As estratégias variaram de Planos de Desenvolvimento Individual (PDIs) à adoção de uma postura de “mão na massa”. O conhecimento profundo de cada membro da equipe foi apontado como fundamental para entender o que motiva cada um e engajar o time (Brunório et al., 2017).
A dificuldade em dar feedbacks difíceis foi mencionada por metade da amostra, evidenciando o desafio de equilibrar assertividade e empatia. O medo de cometer injustiças torna essa tarefa complexa para novos líderes. O feedback, no entanto, é uma ferramenta estratégica para a comunicação transparente e o desenvolvimento, exigindo preparo (Zwirtes et al., 2018). Por fim, o desafio de desenvolver a equipe foi destacado como uma responsabilidade central. A missão de impulsionar as pessoas e oferecer apoio para que alcancem seus objetivos foi vista como essencial. Líderes assertivos criam um ambiente de cooperação e estimulam o desenvolvimento de talentos, transformando a equipe em um diferencial competitivo (Coelho e Sousa, 2021).
Em síntese, a primeira experiência de liderança em uma empresa de tecnologia é um processo que transcende o domínio técnico, exigindo intenso desenvolvimento de habilidades interpessoais e emocionais. A transição é marcada por desafios como a insegurança inicial, a gestão de conflitos e a complexidade de manter a equipe motivada. Esses obstáculos exigem dos novos líderes adaptação, resiliência e inteligência emocional. A passagem de um papel de executor para um de facilitador representa uma mudança de paradigma, na qual o sucesso individual se torna indissociável do coletivo.
O estudo demonstrou que o suporte organizacional é um fator decisivo para o sucesso dessa transição. Programas estruturados de desenvolvimento, como treinamentos e mentoria, contribuíram significativamente para o amadurecimento e a confiança dos entrevistados. O apoio interno equipa os novos gestores com ferramentas e cria uma rede de segurança. A preparação para a liderança deve ser uma iniciativa estratégica das organizações, que devem oferecer suporte estruturado e contínuo. As limitações deste estudo residem no fato de ter sido realizado em uma organização com cultura de desenvolvimento de liderança, o que pode ter minimizado dificuldades. Sugere-se, para pesquisas futuras, a investigação em empresas sem programas formais de apoio e em diferentes setores. Diante do exposto, conclui-se que o objetivo foi atingido: analisou-se a autopercepção de líderes sobre a primeira liderança em uma empresa de tecnologia, revelando os desafios e os fatores de apoio que marcam essa transição profissional.
Referências:
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Amaral, R. C. G.; Oliveira, L. B. 2016. Os Desafios da Primeira Gestão: Uma Pesquisa com Jovens Gestores. RAC 21(3): 373-392.
Besen, F.; Tecchio, E.; Fialho, F. A. P. 2017. Liderança autêntica e a gestão do conhecimento. Gest. Prod. 24(1): 2-14.
Brito, L. M. P.; Silva, A. S.; Castro, A. B. C. 2017. Programa de mentoria: uma estratégia seminal de compartilhamento do conhecimento em uma empresa pública de energia. RACE 16(3): 209-234.
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Lins, M. P. B. E.; Andrade, J. E. B. 2014. Expressão de competências de liderança e aprendizagem no trabalho. Estudos de Psicologia 19(3): 157-238.
Marini, A.; Genari, D. 2024. Relações entre a liderança humanizada e o engajamento no trabalho. Trabalho de Conclusão de Curso em Processos Gerenciais. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, Rio Grande do Sul, RS, Brasil.
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Souza, J. R.; Santos, S. C. M. 2020. Análise de conteúdo em pesquisa qualitativa: modo de pensar e de fazer. Pesquisa e Debate em Educação 10(2): 1396-1416.
Zwirtes, A. I. A.; Sobral, A. V.; Ravanello, I. M.; Casagrande, D. F. M. 2018. Feedback: um ato aliado no processo gerencial. RECSA 7(2): 49-69.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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