Imagem Reconfiguração de stakeholders em fusões e aquisições no setor de distribuição de alimentos

25 de fevereiro de 2026

Reconfiguração de stakeholders em fusões e aquisições no setor de distribuição de alimentos

Dyhonattans Eurípedes Fonseca; Roberto Pinheiro Gatsios

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisa os impactos financeiros e operacionais de fusões e aquisições na configuração dos stakeholders de uma distribuidora de alimentos, avaliando indicadores de desempenho e estrutura de capital de 2019 a 2024. À luz da Teoria dos Stakeholders, a investigação busca compreender como o crescimento inorgânico reconfigura as relações empresariais e afeta a sustentabilidade competitiva. A análise mapeia os trade-offs entre expansão acelerada e estabilidade financeira, oferecendo uma visão dos desafios e oportunidades no contexto brasileiro.

Os processos de Fusão e Aquisição (M&A) são uma estratégia para expansão de mercado, obtenção de sinergias e ganhos de competitividade, mas implicam transformações na estrutura organizacional e nas relações com stakeholders. Nesse contexto, a qualidade da informação contábil é central, pois decisões estratégicas dependem de dados tempestivos, confiáveis e relevantes para múltiplos usuários (Hendrksen; Van Breda, 1999). A contabilidade, portanto, atua como ferramenta prospectiva para a avaliação de riscos e retornos associados a estratégias de crescimento.

A Teoria dos Stakeholders (Freeman, 1984) é o arcabouço teórico para esta análise. Ela postula que o sucesso organizacional depende da gestão equilibrada dos interesses de todos os grupos impactados por suas atividades — como colaboradores, clientes, fornecedores, credores e a comunidade — e não apenas da maximização do valor para os acionistas. Estudos subsequentes, como os de Donaldson e Preston (1995), reforçaram que a criação de valor sustentável está ligada à capacidade da empresa de manter relações de confiança com seu ecossistema de stakeholders.

A literatura financeira demonstra que os resultados de M&A são graduais e heterogêneos, com impactos distintos para os diversos stakeholders (Ross et al., 2015). No ambiente empresarial brasileiro, a análise é complexa devido a características como a concentração de controle acionário e as particularidades do mercado de capitais. A avaliação da Performance Financeira Corporativa (CFP), por meio de um conjunto de indicadores contábeis e de mercado, é uma ferramenta indispensável para mensurar os efeitos das estratégias de crescimento sobre a criação ou destruição de valor para as diferentes partes interessadas (Orlitzky; Schmidt; Rynes, 2003).

Esta investigação se justifica pela crescente frequência de operações de M&A no setor de distribuição alimentícia brasileiro. Compreender como essas estratégias afetam não apenas os balanços financeiros, mas toda a rede de relacionamentos da empresa, é fundamental para avaliar a sustentabilidade de seu modelo de negócios. O estudo preenche uma lacuna ao aplicar a Teoria dos Stakeholders a um caso prático, demonstrando como a análise financeira pode ser utilizada para decodificar a reconfiguração de poder e influência entre os diferentes grupos de interesse após um ciclo de crescimento inorgânico.

A metodologia adotada é documental, quantitativa, exploratória e ex-post facto, com análises realizadas após a ocorrência dos eventos de fusão e aquisição (Gil, 2009; Prodanov e Freitas, 2013). A base de dados foi constituída por informações contábeis da empresa, coletadas de relatórios financeiros de 2019 a 2024. A análise dos indicadores financeiros é crucial para a avaliação de riscos e retornos (Gitman, 2010). Foram calculados e analisados diversos índices de desempenho financeiro, selecionados com base na literatura (Assaf Neto, 2015), empregando análises horizontal e vertical das demonstrações financeiras para oferecer uma visão completa da evolução patrimonial e da representatividade das contas.

Para a análise sob a ótica da Teoria dos Stakeholders, os indicadores financeiros foram classificados em quatro grupos. O primeiro, “Impacto nos Acionistas e Controladores”, focou em métricas de rentabilidade como o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (RSPL) e a Margem Líquida (ML), e de alavancagem como o Grau de Alavancagem Financeira (GAF). O segundo, “Impacto nos Credores e Instituições Financeiras”, utilizou indicadores de liquidez, endividamento e cobertura de dívida, como a relação Dívida Líquida/EBITDA e o Índice de Kanitz (Kanitz, 1976). O terceiro grupo, “Impacto nos Colaboradores”, foi analisado pela evolução do quadro de funcionários e da massa salarial, a partir de relatórios internos. O quarto, “Impacto na Cadeia de Suprimentos (Fornecedores)”, foi avaliado pelos indicadores de ciclo operacional, com destaque para o Prazo Médio de Pagamento (PMP). Essa estrutura permitiu traduzir os números em consequências concretas para cada parte interessada, alinhando a análise quantitativa ao referencial teórico.

A empresa objeto deste estudo atua no setor de “food service”, que abastece estabelecimentos de refeições fora do lar. O mercado brasileiro demonstrou uma expansão notável, com crescimento de 184,2% entre 2009 e 2019 (ABIA 2021). Em 2023, o setor movimentou R$ 217,6 bilhões, consolidando-se como um dos maiores mercados globais, embora ainda fragmentado. A pandemia de COVID-19 acelerou a digitalização e o delivery como vetores de crescimento, exigindo maior investimento em tecnologia (ABRASEL 2024). Globalmente, o mercado de “food service” é estimado em US$ 3,6 trilhões, com mais de 75% das vendas ocorrendo fora dos Estados Unidos (Technomic 2023), o que evidencia o potencial de crescimento do setor.

A trajetória da empresa analisada revela uma estratégia de crescimento inorgânico iniciada em 2014. O período de 2019 a 2022 foi intenso, com a consolidação da operação em Campinas (2019), a aquisição de carteiras de clientes em São Sebastião (2021) e a compra de uma distribuidora na capital paulista, além da diversificação para o segmento de proteínas animais (2022). As aquisições visaram aumentar a participação de mercado, otimizar a eficiência logística através de sinergias em rotas e “cross-docking”, e padronizar processos. A capacidade de adaptação durante a pandemia de COVID-19 demonstrou a resiliência da gestão estratégica.

Um dos impactos diretos dessa expansão foi sobre os colaboradores. Entre 2019 e 2024, o quadro de funcionários cresceu de 453 para 769 profissionais, um aumento de quase 70%. Simultaneamente, a média salarial anual por colaborador aumentou de R$ 46.763,60 para R$ 75.961,91, um aumento real significativo. Este crescimento reflete a absorção de equipes das empresas adquiridas e a necessidade de reforçar a estrutura. No entanto, a pressão financeira decorrente do endividamento introduz incertezas sobre a sustentabilidade desses ganhos no longo prazo, como apontado por estudos sobre gestão de pessoas em processos de integração pós-fusão (Guimarães et al., 2021).

A análise do Balanço Patrimonial mostra um aumento relevante nas rubricas de contas a receber, estoques e ativos permanentes, refletindo o crescimento operacional. A análise vertical do passivo demonstrou uma mudança estrutural: a participação do Patrimônio Líquido no financiamento total foi reduzida, enquanto a dependência de empréstimos, financiamentos e fornecedores aumentou. O índice de Endividamento (Participação de Capital de Terceiros) saltou de 0,25 em junho de 2019 para um pico de 0,86 em dezembro de 2022, indicando que a maior parte dos ativos passou a ser financiada por credores externos. Essa mudança elevou o perfil de risco da companhia, um ponto de atenção para as instituições financeiras.

A Demonstração de Resultado mostra que, embora a receita tenha crescido em função das aquisições, os custos e as despesas financeiras aumentaram em proporção superior, resultando em uma compressão das margens de lucro. A Margem Líquida, que era positiva em 2019, tornou-se negativa em diversos períodos entre 2020 e 2021. Para os acionistas, isso significou uma volatilidade acentuada nos retornos: o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (RSPL) variou de -11% em junho de 2020 para +20% em junho de 2023. Adicionalmente, o Grau de Alavancagem Financeira (GAF) manteve-se consistentemente abaixo de 1, indicando que o uso de capital de terceiros não estava ampliando os retornos para os sócios, cenário que pode sugerir um efeito de entrincheiramento dos controladores, que priorizam o crescimento em detrimento da eficiência (Castro, 2018).

A análise dos indicadores de liquidez e alavancagem detalha a pressão financeira. A empresa transitou de uma posição de caixa líquido até 2020 para um ciclo de forte endividamento a partir de 2021. O indicador de Alavancagem da Dívida Líquida pelo EBITDA (ADLE) atingiu níveis críticos, superando 6,0x em 2021 e 2022, muito acima dos limites considerados saudáveis. Isso significa que a empresa levaria mais de seis anos de sua geração de caixa operacional para quitar sua dívida líquida. Os indicadores de liquidez corrente e seca também se deterioraram, com o Capital de Giro Líquido (CCL) tornando-se negativo a partir de 2023, indicando que os ativos de curto prazo já não eram suficientes para cobrir as obrigações de curto prazo. Essa situação corrobora os riscos de perda de flexibilidade financeira em estratégias de crescimento acelerado (Assaf Neto, 2015).

Em contrapartida, a gestão demonstrou melhorias na eficiência do capital de giro. Após um desajuste em 2020, a empresa otimizou seus processos. O Prazo Médio de Estocagem (PME) e o Prazo Médio de Cobrança (PMC) foram reduzidos, enquanto o Prazo Médio de Pagamento (PMP) aos fornecedores foi alongado, passando de 26 dias em 2019 para 51 dias em 2024. Essa combinação resultou em uma drástica redução do Ciclo Financeiro (CF), que caiu de 52 dias para apenas 14 dias. Na prática, a empresa passou a financiar uma parte maior de sua operação com os recursos de seus fornecedores, uma estratégia que, embora melhore o fluxo de caixa, pode tensionar as relações na cadeia de suprimentos (Procianoy e Schnorrenberger, 2019).

A integração desses resultados, sob a ótica da Teoria dos Stakeholders, evidencia os trade-offs da estratégia adotada. A busca por crescimento rápido, priorizada pelos controladores, beneficiou o grupo de colaboradores com mais empregos e melhores salários, mas transferiu um risco significativo para os credores e

Referências:
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Castro, M. M. M. de. 2018. Efeitos do controle e governança familiar em fusões e aquisições: evidências de uma economia emergente . Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, SP, Brasil.
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Gil, A. C. 2009. Métodos e técnicas de pesquisa social . 6. Ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Gitman, L. J. 2010. Princípios de Administração Financeira . 12 ed. Pearson Prentice Hall, São Paulo, SP, Brasil.
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Hendriksen, Eldon. S.; Van Breda, Michael F. 1999. Teoria da Contabilidade . Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
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Prodanov, C.; Freitas E. 2013. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Feevale, Novo Hamburgo, RS, Brasil.
Ross, S. S.; Westerfield, J. F.; Jaffe, R.; Lamb, R. 2015. Administração financeira – Corporate finance. 10 ed. AMGH, Porto Alegre, RS, Brasil.
Technomic. 2023. Global Foodservice Trends and Outlook. Chicago, IL, USA.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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