Imagem Perspectivas sobre a motivação de docentes no interior paulista

27 de fevereiro de 2026

Perspectivas sobre a motivação de docentes no interior paulista

Gabriela Jorge Calore; Marilda Aparecida dos Santos

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisou as perspectivas sobre a motivação de docentes da Educação Básica, de redes públicas e privadas, no município de Rio Claro (SP). A pesquisa buscou compreender os fatores que os mantêm na carreira diante de obstáculos e as estratégias que adotam para superar desafios. A investigação utilizou a percepção dos próprios educadores, com base na Teoria da Autodeterminação, para analisar as motivações intrínsecas e extrínsecas que moldam a experiência no magistério.

O cenário educacional brasileiro justifica a relevância da pesquisa. Dados do Censo da Educação Superior indicam uma queda nas matrículas em Licenciaturas: de 20,5% do total de ingressantes em 2018 para 16,7% em 2023 (INEP, 2024a). Essa tendência aponta para uma futura escassez de professores, um risco iminente segundo o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (SEMESP, 2022). O quadro é agravado pela desvalorização da carreira, marcada por baixa remuneração, longas jornadas e condições precárias de trabalho (Lucyk, 2017).

Para compreender por que muitos profissionais permanecem na docência apesar do cenário adverso, o estudo utiliza a Teoria da Autodeterminação de Edward Deci e Richard Ryan. A teoria distingue a motivação intrínseca, que emerge do prazer na própria atividade, da motivação extrínseca, impulsionada por recompensas externas como salário (Ryan e Deci, 2000). A motivação intrínseca está associada à satisfação de três necessidades psicológicas: autonomia (capacidade de tomar decisões), competência (percepção de ser eficaz) e relacionamento (sensação de conexão). O atendimento dessas necessidades no ambiente de trabalho aumenta o engajamento e o bem-estar do professor (Deci e Ryan, 2013).

A motivação extrínseca, embora importante, tem efeitos complexos. Fatores como salário justo e plano de carreira são essenciais. Contudo, a teoria sugere que uma ênfase excessiva em recompensas externas pode diminuir a motivação intrínseca. No contexto docente, a valorização financeira é crucial, mas não substitui a necessidade de um ambiente que promova autonomia pedagógica, desenvolvimento de competências e relações saudáveis. A interação entre os dois tipos de motivação é central para entender o engajamento docente.

A identificação dos fatores que sustentam a motivação docente é fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas e práticas de gestão escolar eficazes. Este estudo visa contribuir para esse conhecimento, esperando que seus resultados promovam reflexões sobre como fortalecer o bem-estar dos professores e atrair mais profissionais qualificados para o magistério. A análise se concentra no interior paulista, mas dialoga com uma problemática nacional, oferecendo insights para gestores e formuladores de políticas.

A metodologia adotada foi aplicada e descritiva, com abordagem quali-quantitativa, visando identificar e analisar os fatores de motivação docente. A pesquisa utilizou o método de levantamento por survey para a coleta de informações, escolhido por sua eficácia em capturar percepções e atitudes de um grupo específico.

A coleta de dados ocorreu por meio de um questionário semiestruturado, aplicado via Google Forms em fevereiro e março de 2025. O formulário foi elaborado com base na Teoria da Autodeterminação. A pesquisa foi conduzida em Rio Claro (SP), com uma amostra por conveniência de professores da Educação Básica, convidados por redes sociais. A participação foi anônima, garantindo o sigilo.

O formulário foi estruturado em três seções. A primeira continha o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A segunda coletou dados demográficos e profissionais, como gênero, idade, escolaridade, nível de ensino, carga horária, tempo de experiência e tipo de rede. A terceira seção abordou a motivação docente, investigando o nível de motivação (sim, não, parcialmente) e a natureza dos fatores motivacionais (intrínsecos, extrínsecos ou ambos). Os participantes selecionaram os três principais fatores de cada categoria a partir de listas pré-definidas, que incluíam desde a satisfação no desenvolvimento dos estudantes até o reconhecimento e salário. O questionário também incluiu uma pergunta sobre os maiores desafios enfrentados e duas questões abertas sobre estratégias para se manter motivado e mudanças necessárias para melhorar a motivação no Brasil. Os dados foram submetidos a análises quantitativas e qualitativas.

O Censo Escolar de 2023 revela que o Brasil tem 2,4 milhões de professores na Educação Básica, atendendo 47,3 milhões de estudantes. A rede pública concentra 80% desses docentes (INEP, 2024a). O professor é o agente fundamental para a aprendizagem, e sua valorização é um investimento na qualidade do ensino. No entanto, a ausência de condições de trabalho adequadas contribui para o adoecimento físico e mental dos educadores. Fatores como sobrecarga, precarização e pressão por resultados geram estresse e ansiedade, comprometendo a permanência na carreira (Vista, 2025).

A amostra de 36 professores de Rio Claro reflete a diversidade local: 94,4% do gênero feminino, com idades de 18 a mais de 60 anos. A predominância da rede pública (80,6%) alinha-se ao cenário nacional. A maioria atua na Educação Infantil (58,3%) e no Ensino Fundamental I (63,9%), etapas de intenso envolvimento afetivo. Quanto à escolaridade, 61,1% possuem especialização, indicando busca por formação continuada, mas com progressão limitada para mestrado e doutorado.

As distinções entre as redes de ensino privada, municipal e estadual influenciam a motivação, com diferenças em salários, recursos e infraestrutura. A precarização da atividade docente, com remuneração insuficiente e sobrecarga, compromete o ingresso e a permanência na carreira (Silva e Santos, 2024). O reconhecimento e a satisfação são essenciais para a motivação em qualquer rede (Meireles, 2015). A Teoria das Necessidades de Maslow também é relevante, pois postula que a autorrealização depende da satisfação de necessidades básicas. Para docentes, isso se traduz na necessidade de salários dignos e condições de trabalho adequadas como pré-requisito para o engajamento profissional.

Os resultados sobre o nível de motivação indicam que apenas 25% dos professores se declararam totalmente motivados. A maioria (63,9%) se sente parcialmente motivada e 11,1% afirmaram não ter motivação, significando que três em cada quatro professores da amostra manifestaram baixa ou nenhuma motivação. A análise por tempo de experiência sugere um padrão de desgaste: a motivação é maior no início da carreira (até 1 ano), diminui na faixa de 6 a 10 anos e apresenta uma recuperação entre profissionais com mais de dez anos, o que pode indicar resiliência ou a saída da profissão por parte dos desmotivados.

A análise dos fatores motivacionais revela uma interação complexa entre aspectos intrínsecos e extrínsecos. A maioria (63,9%) indicou que ambos são importantes, mas a força dos fatores intrínsecos é notável: 33,3% se motivam exclusivamente por eles. O principal fator intrínseco foi a “satisfação pessoal ao auxiliar no desenvolvimento dos estudantes” (72,2%), seguido pelo “propósito, significado ou identificação com a profissão” (58,3%). Os dados demonstram que a motivação docente está ligada ao impacto positivo na vida dos alunos, reforçando o caráter vocacional da profissão.

Em contrapartida, a análise dos fatores extrínsecos expõe as carências do sistema. Os aspectos mais valorizados foram “ambiente e relacionamentos interpessoais saudáveis” (58,3%) e “formação continuada” (58,3%). Fatores como salário e oportunidades de promoção (38,9%) e reconhecimento da sociedade (33,3%) apareceram com menor frequência. O “suporte do poder público por meio de políticas e programas de incentivo” foi o fator menos selecionado (8,3%), sugerindo um sentimento de desamparo e a percepção de ineficácia das políticas de valorização.

Os maiores desafios corroboram a percepção de desvalorização. A “falta de valorização docente”, manifestada em baixos salários, foi o desafio mais citado (63,9%). Em segundo lugar, a dificuldade de lidar com “turmas com muitas diferenças de aprendizado” (61,1%), problema agravado pela “falta de recursos” (52,8%) e “condições precárias de infraestrutura” (47,2%). A falta de reconhecimento profissional (44,4%) e de apoio da administração escolar (27,8%) completam o quadro. Docentes motivados são essenciais para criar ambientes de aprendizagem dinâmicos (Pinto e Rosado, 2012).

As respostas abertas aprofundaram a compreensão sobre as estratégias de resiliência e as demandas da categoria. Para se manterem motivados, os professores recorrem a fatores emocionais (foco no progresso dos alunos), profissionais (formação continuada) e financeiros (necessidade de sustento). Alguns relatos revelaram profundo desgaste. Questionados sobre as mudanças necessárias, os professores foram unânimes em apontar a urgência da valorização profissional, começando por salários dignos, cumprimento do piso e planos de carreira. Reivindicaram também a redução do número de alunos por sala, a presença de professores auxiliares, melhorias na infraestrutura e diminuição da carga burocrática. A necessidade de maior respeito e reconhecimento da autoridade do professor foi um ponto recorrente. A trajetória docente é um processo dinâmico que exige políticas de formação e valorização que acompanhem essa jornada (Bittencourt e Silva, 2024).

A pesquisa concluiu que a motivação dos professores é sustentada predominantemente por fatores intrínsecos, como a realização pessoal e o propósito de educar. No entanto, essa base é minada pela fragilidade de fatores extrínsecos, como baixa remuneração, infraestrutura inadequada e falta de reconhecimento. Este quadro de desvalorização sistêmica impacta negativamente o bem-estar e a permanência na carreira. Os dados revelam a necessidade urgente de políticas de valorização que se materializem em melhores condições de trabalho, planos de carreira consistentes e incentivo à formação, especialmente em contextos do interior.

Os resultados oferecem subsídios para a gestão escolar, demonstrando que ações que fortalecem a autonomia, o pertencimento e o reconhecimento podem impactar a motivação docente. Para gestores, os achados indicam a importância de promover um ambiente colaborativo e otimizar as condições de trabalho. A valorização docente não é uma demanda corporativa, mas uma condição para a melhoria da qualidade da Educação Básica e para o desenvolvimento social. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a motivação docente em Rio Claro é uma construção complexa, sustentada por fatores intrínsecos, mas severamente ameaçada por deficiências extrínsecas e estruturais que demandam atenção imediata de gestores e formuladores de políticas públicas.

Referências:
Alcoforado, F. 2023. A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea. Editora CRV, Curitiba, PR, Brasil.
Bittencourt, R. L.; Silva, R. da. 2024. Os ciclos de vida profissional docente: reflexões e desafios na contemporaneidade. Educação por Escrito, Porto Alegre, v. 15, n. 1: 1-13.
Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais [INEP]. 2019. Censo da Educação Superior. Disponível em: <https://www. gov. br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticase-indicadores/censo-da-educacao-superior>. Acesso em: 20 fev. 2025.
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Deci, E. L.; Ryan, R. M. 2013. Intrinsic motivation and self-determination in human behavior. Springer Science & Business Media.
Lucyk, V. P. K.; Graupmann, E. H. 2017. A desvalorização do trabalho docente brasileiro: uma reflexão de seus aspectos históricos. Humanas Sociais & Aplicadas, v. 7, n. 20.
Meireles, C. D. de. 2015. O papel da motivação na prática docente. Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB, Brasil.
Pinto, A. S.; Rosado, A. F. 2012. Motivação para a prática desportiva: Estudo comparativo entre atletas federados e não federados. Motricidade, 8(S2), 943-951.
Rio Claro. Secretaria Municipal de Educação de Rio Claro [SME-RC]. 2012. Plano Municipal de Educação de Rio Claro. Disponível em: <https://www. educacaorc. com. br/media/biblioteca/7000354/Doc_FinalPME. pdf >. Acesso em: 25 mar. 2025.
Ryan, R. M.; Deci, E. L. 2000. Self-determination theory and the facilitation of intrinsic motivation, social development, and well-being. American Psychologist, v. 55, n. 1, p. 68.
São Paulo. 2023. Lei nº 18.063, de 2023. Diário Oficial Cidade de São Paulo, São Paulo, 29 de dezembro de 2023. Seção 1, p. único, páginas 09, 10 e 11.
Silva, C. R. L.; Santos, M. R. N. dos. 2024. Profissionalidade e (des)motivação docente: desafios à uma atuação qualificada. Revista Educação Online 19(47): 1-22.
Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo [SEMESP]. 2022. Risco de Apagão de Professores no Brasil. Disponível em: <https://www. semesp. org. br/wpcontent/uploads/2022/09/pesquisa-semesp-1. pdf>. Acesso em: 07 jan. 2025.
Vista, A. 2025. Adoecimento de professores do ensino básico e fatores associados: uma revisão de literatura. Vista, 2025: 1-22.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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