Imagem O papel do gestor escolar em redes bilíngues franqueadas

26 de fevereiro de 2026

O papel do gestor escolar em redes bilíngues franqueadas

Gabriel dos Santos Macedo; Milena Pedroso Ruella Martins

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa analisou as práticas de gestão em franquias de escolas bilíngues, identificando os desafios, as estratégias e os impactos na qualidade educacional. O foco foi a conciliação entre as diretrizes padronizadas da franqueadora, as demandas da comunidade escolar e as exigências legais do sistema educacional brasileiro. A expansão de instituições de ensino bilíngue no Brasil, impulsionada pela demanda por uma formação globalizada e pelos benefícios cognitivos do bilinguismo, cria um cenário de gestão complexo. Essas escolas operam no equilíbrio entre a padronização do modelo de franquia e a flexibilidade exigida pelas particularidades locais e normativas nacionais. Nesse contexto, o gestor escolar atua como agente central na implementação de estratégias que visam a excelência pedagógica e a sustentabilidade administrativa.

A literatura sobre gestão escolar reforça a importância de uma liderança que transcenda a administração de recursos. Lück (2009) defende que a gestão eficaz deve ser articuladora, integrando as dimensões pedagógica, administrativa e comunitária. O gestor não é apenas um administrador, mas um líder pedagógico que fomenta processos participativos. Essa visão é complementada pela crítica de Paro (2001), que argumenta que a gestão democrática é condição para que a escola cumpra sua função social. Decisões centralizadas e padronizadas, comuns em franquias, tendem a restringir a autonomia institucional e o potencial transformador da escola. A análise de como as franquias bilíngues navegam essa tensão entre padronização e autonomia é, portanto, de alta relevância.

O arcabouço legal brasileiro adiciona complexidade. O Ministério da Educação (MEC), por meio do Parecer CNE/CEB nº 2/2020, estabelece diretrizes para o ensino bilíngue, enfatizando a necessidade de um currículo único e integrado que atenda às exigências de duas línguas e às competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A BNCC (Brasil, 2017), embora não trate diretamente da educação bilíngue, é o documento orientador para todos os currículos no país. A articulação entre um currículo internacional, proposto pela franqueadora, e as diretrizes da BNCC representa um dos principais desafios para os gestores, exigindo conhecimento das normativas locais e das propostas pedagógicas globais.

O escopo desta pesquisa foca no modelo português-língua estrangeira, predominantemente o inglês. Diferentemente das escolas internacionais, que seguem currículos estrangeiros, as franquias investigadas operam sob a legislação brasileira, integrando o ensino de duas línguas em uma proposta alinhada à BNCC. Elas também se diferenciam de escolas que oferecem apenas carga horária estendida de inglês, pois nestas o bilinguismo é um componente estruturante do processo de ensino-aprendizagem. Este estudo, ao aprofundar a compreensão sobre a gestão dessas instituições, ilumina a complexidade da integração curricular e a necessidade de diálogo entre famílias, franqueadoras e exigências legais. A análise das práticas em três unidades de franquias bilíngues, localizadas em Salvador (BA) e Jundiaí (SP), investiga como os gestores lidam com autonomia, estrutura organizacional, adaptação curricular e práticas administrativas, oferecendo um panorama dos mecanismos de liderança que sustentam essas escolas.

A pesquisa utilizou uma abordagem qualitativa de estudo de caso múltiplo com enfoque interinstitucional, permitindo uma análise comparativa aprofundada. O estudo envolveu três gestoras de franquias distintas, codificadas como E1, E2 e E3 para garantir o anonimato, com suas gestoras designadas como GE1, GE2 e GE3. As escolas E1 e E2 estão em Salvador (BA), e a E3 em Jundiaí (SP). Todas oferecem percurso educacional da Educação Infantil ao Ensino Médio e possuem portes semelhantes: E1 com aproximadamente 600 alunos, E2 com 500 e E3 com 540. A seleção das instituições foi intencional, guiada por critérios de representatividade e acessibilidade. A coleta de dados ocorreu por meio de questionários semiestruturados aplicados via Google Forms, com perguntas abertas que permitiram respostas detalhadas. Todas as gestoras assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A análise dos dados seguiu a técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2011), permitindo a identificação de categorias temáticas e padrões. A análise focou nos quatro primeiros blocos do questionário, respondidos integralmente por todas as participantes, garantindo a consistência da comparação. Esses blocos abordavam: A) Sobre a franquia e o gestor; B) Sobre a estrutura e a autonomia; C) Sobre práticas de gestão; e D) Sobre currículo e a BNCC. A dificuldade em obter respostas completas para todo o questionário foi um desafio metodológico que reforçou a delimitação da análise. A fundamentação teórica apoia-se nos princípios da pesquisa qualitativa e narrativa (Bolívar, 2012), com a legislação vigente como eixo transversal, incluindo as Diretrizes Curriculares Nacionais (Brasil, 2013), a BNCC (Brasil, 2017) e o Parecer CNE/CEB nº 2/2020 (Brasil, 2020).

A análise dos dados revela que a gestão em franquias bilíngues é marcada por uma tensão constante entre a padronização do modelo de negócio e a necessidade de adaptação local. As gestoras entrevistadas apresentam perfis profissionais robustos, com experiência na área educacional variando de 10 a 47 anos e formações que combinam Pedagogia com áreas como Psicologia e Administração. Essa qualificação, aliada à capacidade de aprendizado contínuo e articulação de saberes defendida por Lück (2009), é fundamental para navegar entre as diretrizes da franqueadora, as demandas da comunidade e as exigências legais.

Quanto à estrutura e autonomia, as escolas operam sob uma estrutura administrativa hierarquizada com forte suporte das franqueadoras, mas a autonomia das unidades é parcial e negociada. A GE1 relata liberdade para adaptar projetos e eventos, desde que alinhados ao projeto pedagógico da rede. A GE2 descreve um modelo híbrido, no qual a franqueadora canadense define metodologia e carga horária, enquanto a escola local tem autonomia para projetos culturais e adaptações curriculares. Já a GE3, como representante da franqueadora, reforça que aspectos como metodologia e padrões arquitetônicos são de cumprimento obrigatório. Este cenário de autonomia limitada dialoga com a crítica de Sacristán (1998), que alerta para o risco de as escolas se tornarem meras executoras de modelos pré-formatados, reduzindo sua capacidade de inovação.

A gestão da relação com as famílias é apontada por todas as gestoras como o pilar mais complexo de sua atuação. A GE1 destaca as expectativas elevadas e heterogêneas dos pais. A GE2 aprofunda a questão, identificando a dificuldade de muitas famílias em compreender metodologias centradas no aluno, que priorizam o pensamento crítico em detrimento de resultados em exames padronizados como o ENEM. Essa dissonância entre a proposta pedagógica, alinhada à BNCC (Brasil, 2017), e as expectativas familiares exige do gestor um papel de mediador, o que corrobora estudos como o de Padinha e Goia (2021) sobre as tensões na educação bilíngue privada.

As práticas de gestão mais eficazes convergem para a escuta ativa, a formação continuada e o acompanhamento pedagógico. A GE1 enfatiza o uso de indicadores de aprendizagem e uma cultura colaborativa. A GE2 apresenta uma abordagem sistêmica, com treinamentos contínuos e avaliação de desempenho baseada em metas. A GE3 reafirma a escuta como pilar central. Essas práticas estão em consonância com os princípios de gestão participativa (Lück, 2009; Martins, 2023). No entanto, os indicadores de eficácia revelam ênfases distintas. Enquanto a GE1 adota uma visão integradora (indicadores acadêmicos, de retenção e de satisfação), a GE2 e a GE3 demonstram um foco mais acentuado em métricas financeiras (matrícula, faturamento), o que pode indicar um risco de secundarizar a dimensão pedagógica, como adverte Sacristán (1998).

A articulação entre o currículo da franquia e a BNCC é realizada de forma sistemática, utilizando mapeamentos curriculares, projetos interdisciplinares e rubricas bilíngues. A GE1 e a GE2 descrevem práticas robustas de planejamento para garantir a coerência entre as normativas nacionais e a proposta internacional. A GE2, por exemplo, oferece uma dupla certificação no Ensino Médio. A flexibilidade para adaptar o currículo às demandas locais é valorizada, com a incorporação de temas da cultura regional, em alinhamento com a BNCC (Brasil, 2017). Essa contextualização é crucial para que a proposta bilíngue não se descole da realidade dos estudantes, como aponta Quadros (2024).

A qualificação da equipe docente é reconhecida como um eixo fundamental. A GE2, em particular, descreve um modelo sistemático de formação continuada, com treinamentos oferecidos por especialistas nacionais e internacionais e avaliação de desempenho. A GE1 também destaca o investimento constante no desenvolvimento profissional. A literatura (Padinha & Goia, 2021) confirma que a qualidade da educação bilíngue está associada à qualificação docente. Na gestão das expectativas familiares sobre a fluência em inglês, as estratégias de comunicação variam. A GE1 adota uma abordagem transparente desde a matrícula, com marcos de desenvolvimento e portfólios. A GE2 foca em explicar o percurso natural de aquisição da linguagem. A comunicação clara é imperativa para alinhar as expectativas com os tempos reais do desenvolvimento linguístico, evitando frustrações.

A análise das práticas de gestão nas franquias bilíngues investigadas permite concluir que, embora existam estratégias consistentes, o equilíbrio entre padronização, autonomia e qualidade educacional é um processo dinâmico. As lideranças demonstram experiência e um compromisso com a escuta ativa e a formação continuada, e a articulação entre os currículos internacional e nacional é realizada de forma estruturada. No entanto, a pesquisa revelou desafios importantes, como a autonomia limitada das unidades, a forte pressão por resultados de fluência que pode ofuscar outras dimensões formativas, e a pouca evidência de mecanismos de participação democrática mais amplos. A comunicação com as famílias, embora eficiente, parece centrada na gestão de expectativas sobre o bilinguismo, com menor ênfase em aspectos como o desenvolvimento socioemocional e a formação para a cidadania, que são igualmente centrais na BNCC.

Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que as práticas de gestão em franquias bilíngues, embora estruturadas e conduzidas por profissionais experientes, enfrentam um desafio contínuo para conciliar as diretrizes da franqueadora, as exigências legais brasileiras e as diversas expectativas da comunidade escolar. A autonomia local emerge como um fator crítico para a inovação pedagógica e a adaptação contextual, e sua negociação constante com as forças padronizadoras do modelo de franquia define o campo de atuação desses gestores. Os achados fornecem subsídios relevantes para gestores, franqueadoras e formuladores de políticas, e apontam para a necessidade de futuras investigações que aprofundem o impacto concreto dessas práticas na aprendizagem e na formação integral dos estudantes.

Referências:
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2011.
BOLÍVAR, Antonio. Metodología de la investigación biográfico-narrativa: recogida y análisis de datos. In: PASSEGGI, Maria Conceição; ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto (org.). Dimensões epistemológicas e metodológicas da investigação (auto)biográfica. Tomo II. Porto Alegre: PUCRS, 2012. p. 79–109.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: Lei nº 9.394/1996. 7. ed. Brasília, DF: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2023.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
BRASIL. Ministério da Educação; Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer CNE/CEB nº 2/2020, de 9 de julho de 2020. Diretrizes Curriculares Nacionais para a oferta de Educação Plurilíngue. Brasília, DF: MEC/CNE/CEB, 2020.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. Brasília: MEC/SEB/DICEI, 2013.
FERNANDES, Eliana Aparecida Araújo. Experiências linguísticas: como se faz a educação bilíngue com implementação da metodologia do Projeto Escola Intercultural Bilíngue de Fronteira na fronteira entre Brasil e Paraguai. Ponta Porã, MS: Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), 2013. Projeto de pesquisa (Pós-Graduação stricto sensu) — FACALE/UFGD.
LÜCK, Heloísa. Dimensões da gestão escolar e suas competências. Curitiba: Editora Positivo, 2009.
MARTINS, Milena Pedroso Ruella. Avaliação na/da educação infantil paulistana: uma análise de narrativas de professoras. 2023. Tese (Doutorado em Educação) — Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023.
MAZON, Caroline Martins; OPPENHEIMER-FLEURY, Fernanda; BALDISSERI, Anne Taffin d’Heursel; AVILA, Clara Regina Brandão de. Efeito do bilinguismo no resgate automático das palavras nos anos iniciais do ensino fundamental. Audiology – Communication Research, v. 23, e1849, 2018. DOI: 10.1590/2317-6431-2017-1849.
MENDES, Dinarah Carissa Bezerra. O impacto do método de ensino bilíngue em São Luís do Maranhão: o caso de sucesso da escola Maple Bear. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Administração) — Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2020.
PADINHA, Thais Arantes; GOIA, Marisol Rodriguez. As escolas privadas bilíngues e a qualificação docente. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 51, e07113, 2021. DOI: 10.1590/198053147113.
PARO, Vitor Henrique. Gestão democrática da escola pública. 4. ed. rev. e atual. São Paulo: Cortez Editora, 2016.
QUADROS, Silvia Cristina de Oliveira. Processo de internacionalização na Educação Básica: rumos e perspectivas. Educação (Porto Alegre), v. 47, n. 1, e-46316, 2024, p. 1–13.
SACRISTÁN, J. Gimeno; PÉREZ GÓMEZ, A. I. Compreender e transformar o ensino. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.
THIESEN, Juares da Silva. Escolas Internacionais e bilíngues como representação global de currículos internacionalizados na Educação Básica brasileira. Educar em Revista, v. 40, e94402, 2024. DOI: 10.1590/1984-0411.94402.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Manual de Instruções e Normas do TCC — 1º semestre de 2025. Piracicaba: USP/ESALQ, 2025.
VIAN JR., Orlando; WEISSHEIMER, Janaina; LEITE, Lígia; QUEIROZ, Rodrigo; SOARES, Wilka; UCHÔA, José Mauro; VASCONCELOS, James. O ensino bilíngue em Natal/RN: um mapeamento preliminar do contexto. Revista da ANPOLL, Florianópolis, n. 34, p. 233–257, jan./jun. 2013.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

Saiba mais sobre o curso; clique aqui:

Quem editou este artigo

Você também pode gostar

Quer ficar por dentro das nossas últimas publicações? Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade