Imagem Metodologia automatizada para avaliação da viabilidade financeira de startups em estágio inicial

20 de fevereiro de 2026

Metodologia automatizada para avaliação da viabilidade financeira de startups em estágio inicial

Marcius Leandro Junior; Valquiria Aragão Leoneti

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa desenvolve, aplica e analisa um framework automatizado de avaliação da viabilidade financeira de startups em estágio inicial, combinando métricas quantitativas com percepções qualitativas dos fundadores. A proposta supera as limitações dos métodos de valuation tradicionais, inadequados para o ecossistema de inovação. Startups, operando em alta incerteza, demandam uma abordagem que integre indicadores financeiros à visão estratégica dos empreendedores sobre mercado, clientes e escalabilidade. A ausência de dados históricos torna modelos como o Fluxo de Caixa Descontado (FCD) subjetivos e imprecisos para empresas nascentes. Portanto, a pesquisa estrutura uma metodologia que quantifica o potencial de retorno e serve como ferramenta de diagnóstico e apoio à decisão, alinhando as expectativas de fundadores e investidores para um planejamento estratégico mais assertivo.

A avaliação de novas empresas no cenário digital apresenta desafios únicos. A literatura aponta que o valor de uma startup reside em seus ativos intangíveis, como a força da equipe, a inovação do modelo de negócio e a escalabilidade, não apenas em ativos tangíveis (Moradi e Fadaei, 2021). Métodos convencionais de finanças corporativas falham em capturar essa complexidade. Estudos de Köhn (2018) e Montani et al. (2020) destacam a necessidade de incorporar projeções futuras, análises de cenários e uma compreensão do modelo de negócio no processo de valuation. Nesse contexto, a avaliação torna-se um processo estratégico que orienta a captação de investimentos, a alocação de recursos e a definição de metas de crescimento.

Diante dessa lacuna, a pesquisa responde à questão: “Como testar de forma assertiva a viabilidade financeira de startups iniciantes utilizando uma ferramenta automatizada?”. A justificativa reside na necessidade de um método estruturado que reduza as incertezas do ecossistema empreendedor. A avaliação de startups em estágio inicial é frequentemente mais intuitiva que analítica, o que pode levar a decisões equivocadas por parte de empreendedores, que superestimam ou subestimam seu potencial, e de investidores, que enfrentam dificuldades para mensurar risco e retorno. A metodologia proposta mitiga essa subjetividade ao fornecer um framework que organiza premissas, automatiza cálculos e traduz a estratégia de negócio em projeções financeiras consistentes.

O framework desenvolvido neste estudo já era aplicado em uma aceleradora de empresas onde o autor atua, demonstrando sua eficácia na orientação de decisões. A pesquisa consolida essa metodologia com respaldo acadêmico e científico, compartilhando seus resultados com a comunidade empreendedora. A abordagem não se limita a gerar indicadores financeiros como Valor Presente Líquido (VPL) e Taxa Interna de Retorno (TIR), mas também analisa o impacto qualitativo da ferramenta na percepção dos fundadores. Investiga-se como a interação com o modelo financeiro estruturado altera a visão estratégica dos empreendedores, levando a ajustes no modelo de negócio e a um planejamento mais realista e alinhado às demandas do mercado.

A contribuição central do trabalho é uma ferramenta prática e acessível que sistematiza a análise de viabilidade financeira. Integrando quatro grupos de indicadores – Mercado, Gastos, Faturamento e Administrativos – em uma planilha digital interligada, o framework permite que os fundadores transformem premissas de negócio em um diagnóstico financeiro. Essa estrutura facilita a comunicação com investidores, ao adotar métricas reconhecidas pelo mercado, e educa o empreendedor, forçando-o a refletir sobre as variáveis críticas que determinam o sucesso de sua jornada. A pesquisa avança o conhecimento sobre valuation de startups e oferece uma solução tangível para um dos maiores desafios de empresas em estágio inicial.

A pesquisa utilizou uma abordagem de métodos mistos (Creswell, 2018), combinando análises quantitativas e qualitativas para uma compreensão aprofundada do fenômeno. O delineamento é um estudo de múltiplos casos, aplicado a startups digitais participantes de um programa de aceleração em 2025. Essa escolha metodológica permitiu uma análise comparativa entre empresas de diferentes perfis, como fintechs, e-commerce, Software as a Service (SaaS), marketplaces e healthtechs, enriquecendo a validade externa dos achados. A natureza mista foi essencial para mensurar a viabilidade financeira e capturar o impacto da ferramenta nas decisões estratégicas dos fundadores.

A coleta de dados ocorreu em cinco etapas. Na primeira, um questionário exploratório inicial (survey) capturou as percepções dos fundadores sobre a viabilidade de seus negócios antes da intervenção, utilizando escalas Likert (Feijó, Vicente e Petri, 2020) e campos abertos. Na segunda, os participantes inseriram dados financeiros de suas operações. A terceira etapa consistiu no uso da ferramenta automatizada, que processou os dados para gerar projeções de fluxo de caixa e calcular indicadores como VPL e TIR. Na quarta etapa, o mesmo questionário foi reaplicado para mensurar mudanças na percepção dos empreendedores. Na quinta etapa, realizou-se uma análise comparativa entre os dados pré e pós-uso da ferramenta.

Para a análise qualitativa, foram coletados feedbacks por meio de perguntas abertas sobre a experiência de uso. As respostas foram submetidas a um processo de análise de sentimento e processamento de linguagem natural (PLN) com um script em Python (bibliotecas NLTK e TextBlob), seguindo os princípios da análise de conteúdo de Bardin (2011). Essa abordagem classificou as percepções em positivas, negativas ou neutras e identificou os termos mais recorrentes com uma nuvem de palavras, conforme sugerido por Camargo e Justo (2013). A escolha por perguntas abertas e neutras buscou evitar vieses e capturar de forma autêntica os pontos fortes e as dificuldades encontradas, seguindo as práticas de pesquisa qualitativa de Flick (2009) e Patton (2015).

A confidencialidade e a proteção dos dados dos participantes foram garantidas. Todas as informações foram coletadas e apresentadas de forma anonimizada e agregada, sem identificação individual. Acordos de confidencialidade (NDA) já estavam em vigor entre as empresas e a aceleradora. A participação foi voluntária, em contrapartida ao uso gratuito do framework, e não envolveu dados sensíveis, o que, aliado à ausência de riscos, dispensou a submissão a um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). A metodologia assegurou que os resultados fornecessem insights relevantes sobre o papel do valuation automatizado no desenvolvimento de startups.

Os resultados quantitativos, de um questionário com 20 respondentes, revelaram lacunas no domínio de indicadores financeiros por parte dos fundadores. A segmentação por estágio mostrou que 36,4% das empresas estavam na fase de validação, enquanto maturidade, escala e operação representavam 18,2% cada. A fase de tração, o “vale da morte”, continha apenas 9,1%. A análise das respostas em escala Likert indicou que métricas de mercado como TAM (Total Addressable Market), SAM (Serviceable Available Market) e SOM (Serviceable Obtainable Market) apresentaram domínio intermediário (médias entre 3,27 e 3,45 em uma escala de 5), sugerindo uma compreensão superficial sobre dimensionamento de mercado.

A análise dos indicadores de faturamento mostrou que, enquanto Markup e Faturamento eram bem compreendidos (médias de 4,18 e 4,55), métricas cruciais para modelos escaláveis, como a Receita Recorrente Anual (ARR), apresentaram baixa familiaridade (média de 3,09). Nos gastos, os dados confirmaram a dificuldade em diferenciar despesas operacionais (OPEX) de investimentos de capital (CAPEX), com médias de 3,73 e 3,36, respectivamente. No grupo de indicadores administrativos, métricas de análise de investimentos como TIR (3,55) e VPL (3,36) também mostraram domínio intermediário, contrastando com a maior familiaridade com o ponto de equilíbrio (Break-even), com média de 4,09. Esses achados validaram a necessidade do framework.

Com base nesses resultados, foram realizadas alterações no framework. A principal foi reordenar as abas da planilha, posicionando “Gastos” antes de “Faturamento”. Essa mudança induz o empreendedor a quantificar sua estrutura de custos antes de definir seu modelo de precificação, mitigando o erro comum de precificar sem uma base de custos sólida. O framework foi enriquecido com novos indicadores. Na aba “Mercado”, foram incluídos cálculos de Churn, Growth Mensal (Gm) e Net Growth. Na aba “Gastos”, os custos foram categorizados em blocos (Estratégico, Comercial e Operacional) e o cálculo do Markup foi integrado para conectar custos à precificação.

A aba “Faturamento” foi aprimorada com indicadores como ARR, Custo de Aquisição de Cliente (CAC), Margem Operacional (MO) e Margem Líquida (ML), métricas essenciais para modelos de negócio digitais. Na aba “Avaliação”, o indicador de “crise” foi substituído por cálculos de Payback (tempo de retorno do investimento) e Maturação (tempo para o faturamento igualar as saídas), fortalecendo o rigor analítico. A consolidação do framework em uma planilha interligada permitiu que premissas inseridas em uma aba alimentassem automaticamente os cálculos nas outras, criando um modelo financeiro integrado que evolui com a maturidade do empreendedor.

A análise qualitativa, com respostas de 5 empreendedores, complementou os achados quantitativos. A análise de sentimento revelou avaliações positivas, especialmente sobre a clareza que a ferramenta trouxe aos indicadores. A nuvem de palavras destacou termos como “ajudar”, “indicador”, “custo”, “premissa” e “retorno”. As palavras “ajudar” e “organizar” refletem a utilidade da ferramenta para estruturar o pensamento financeiro, enquanto “custo” e “premissa” apontam para a conscientização gerada sobre as variáveis críticas do negócio.

O gráfico de similitude mostrou fortes conexões entre “custo”, “receita” e “indicador” com termos como “projetar” e “viabilidade”, indicando que o framework auxiliou os empreendedores a conectar suas operações com a estratégia financeira de longo prazo. A análise de clusterização via K-Means identificou quatro núcleos semânticos: um operacional (cálculo, facilidade, dificuldade); um estratégico (indicador, viabilidade, custo, aquisição); um financeiro (investimento, modelo, retorno); e um de percepções críticas (difícil, fácil, premissa). Essa organização demonstra que o framework atua tanto como uma calculadora operacional quanto como um instrumento de reflexão estratégica.

A discussão integrada dos resultados reforça a tese de que um framework automatizado e estruturado é uma ferramenta poderosa para aumentar a maturidade financeira de startups. Os dados quantitativos expuseram as lacunas de conhecimento dos empreendedores, enquanto os aprimoramentos no framework foram desenhados para preencher essas lacunas de forma didática. A realocação da aba “Gastos” foi uma resposta direta à dificuldade observada na conexão entre custos e preços. A análise qualitativa confirmou que as melhorias foram bem-sucedidas, com os empreendedores relatando maior clareza e capacidade de tomar decisões mais embasadas.

A pesquisa consolidou e aprimorou uma ferramenta automatizada de valuation que capacita empreendedores a avaliar a viabilidade financeira de seus negócios com maior precisão. O framework demonstrou ser um recurso acessível para o planejamento estratégico, minimizando riscos e ampliando as chances de sucesso. A análise do impacto da ferramenta revelou que a exposição a métricas objetivas promove ajustes nos modelos de negócio e nas estratégias de crescimento, fomentando uma cultura de gestão baseada em dados. A ausência de planejamento financeiro é uma das principais causas de falha em novos empreendimentos, e este estudo oferece uma solução prática para mitigar esse problema.

A combinação de métodos quantitativos e qualitativos validou a robustez técnica do modelo e permitiu compreender a experiência do usuário, resultando em um instrumento poderoso e intuitivo. A pesquisa contribui para o ecossistema de inovação ao fornecer um referencial mais sólido para a tomada de decisão, beneficiando tanto empreendedores, que ganham clareza sobre seu potencial, quanto investidores, que contam com análises mais estruturadas. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que um framework automatizado que integra métricas quantitativas e percepções qualitativas é uma ferramenta eficaz para testar a viabilidade financeira de startups em estágio inicial e para apoiar a tomada de decisões estratégicas mais assertivas.

Referências:
Bardin, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.
Camargo, B. V.; Justo, A. M. IRAMUTEQ: um software gratuito para análise de dados textuais. Temas em Psicologia, v. 21, n. 2, p. 513-518, 2013.
Creswell, J. W.; Creswell, J. D. 2018. Research design: qualitative, quantitative, and mixed methods approaches. 5ed. Sage Publications, Thousand Oaks, CA, EUA.
Feijó, A. M.; Vicente, E. F. R.; Petri, S. M. 2020. O uso das escalas Likert nas pesquisas de contabilidade. RGO – Revista Gestão Organizacional 13(1): 27-41.
Flick, U. Introdução à pesquisa qualitativa. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.
Köhn, A. 2018. The determinants of startup “valuation” in the venture capital context: A systematic review and avenues for future research. Management Review Quarterly 68(1): 3-36.
Montani, D.; Rabetino, R.; Pöppel, M.; Figueiredo, L. 2020. Startup “valuation” in business ecosystems: A systematic review and research agenda. Journal of Small Business and Enterprise Development 27(4): 541-567.
Moradi, M.; Fadaei, F. 2021. Evaluating startup “valuation” methods: The role of intangible assets and business model factors. Journal of Business Research 130(2): 300-315.
Patton, M. Q. Qualitative research & evaluation methods. 4. ed. Thousand Oaks: Sage, 2015.
Ross, S. A., Westerfield, R. W., & Jaffe, J. F. (2012). Corporate finance. McGraw-Hill/Irwin.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Digital Business do MBA USP/Esalq

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