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20 de fevereiro de 2026

Análise econômico-financeira de uma cervejaria no período de 2018 a 2024

Tiago Costa Góes; Marco Antonio Alves de Souza Junior

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa analisa as demonstrações financeiras de uma cervejaria de capital aberto, listada na B3, entre 2018 e 2024. Utilizando um conjunto de indicadores econômico-financeiros, avalia-se a evolução do desempenho, a eficiência operacional e a rentabilidade da organização ao longo de sete anos. A análise busca identificar tendências, variações e pontos de inflexão no comportamento financeiro da empresa, fornecendo um diagnóstico de sua saúde financeira e da eficácia de suas estratégias de gestão.

A análise de demonstrações contábeis é fundamental para a compreensão da dinâmica empresarial. Conforme destaca Procópio (2024), essas demonstrações são representações estruturadas das transformações ocorridas no patrimônio de uma entidade, refletindo as operações e decisões de gestão. Documentos como o Balanço Patrimonial, a Demonstração de Resultado do Exercício (DRE) e a Demonstração dos Fluxos de Caixa formam a base para a avaliação, permitindo que analistas, investidores e gestores compreendam a posição patrimonial e o desempenho financeiro de uma organização. A complexidade de cada empresa, com suas variáveis internas e externas, torna cada análise um exercício único.

Para conferir objetividade e padronização a essas avaliações, a literatura financeira desenvolveu um conjunto de indicadores. Segundo Souza (2023), esses indicadores, que abordam dimensões como liquidez, endividamento, eficiência e rentabilidade, funcionam como ferramentas diagnósticas. Eles permitem quantificar o desempenho subjacente aos números reportados, facilitando a identificação de problemas operacionais, oportunidades de melhoria e os pontos fortes da companhia. A utilização desses instrumentos transforma dados históricos em insights prospectivos, pois, como aponta Siebeneichler (2022), a análise das demonstrações contábeis utiliza o passado como guia para antecipar desafios e oportunidades futuras.

A escolha do setor industrial como foco deste estudo justifica-se por sua relevância para a economia brasileira. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que a indústria responde por aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, além de ser um motor para as exportações, pesquisa e desenvolvimento (P&D) e arrecadação tributária (PORTAL DA INDÚSTRIA, 2025). A saúde financeira das empresas industriais, portanto, impacta diretamente o desenvolvimento econômico e social do país. Analisar uma empresa inserida neste contexto permite avaliar sua performance individual e inferir sobre as dinâmicas do setor.

Dentro do universo industrial, o setor cervejeiro foi selecionado por sua importância econômica e cultural. Além de sua contribuição para o PIB, a indústria cervejeira está enraizada no tecido social brasileiro. Lavinscky (2017) argumenta que a consolidação da cerveja no Brasil foi impulsionada por transformações técnicas e urbanas que democratizaram seu acesso, integrando-a às práticas de lazer. Estratégias empresariais, como o patrocínio de eventos culturais e a publicidade, associaram o produto a manifestações populares como o carnaval. Portanto, analisar uma empresa deste setor implica compreender suas métricas financeiras e sua capacidade de navegar em um mercado influenciado por fatores culturais.

A metodologia adotada foi o estudo de caso, abordagem que permite uma investigação aprofundada e contextualizada de um fenômeno (Becker, 1994). O processo metodológico seguiu as etapas propostas por Gil (1995), começando pela delimitação da unidade-caso: uma empresa do setor de bebidas, com capital aberto na B3, com período de análise de 2018-2024 e indicadores financeiros pré-definidos. A empresa selecionada é uma das maiores do setor na América Latina, e sua condição de capital aberto, regulamentada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), garante o acesso público aos dados necessários.

A segunda etapa do processo metodológico consistiu na coleta de dados, que envolveu a extração e consolidação dos demonstrativos financeiros publicados pela empresa em seu site de relações com investidores e em bases de dados como a do Instituto Assaf, para o período de 2018 a 2024. A terceira etapa envolveu o tratamento, a análise e a interpretação dos dados. As informações foram organizadas no software Microsoft Excel, o que facilitou o cálculo dos indicadores e a comparação temporal. Para avaliar o desempenho, foram selecionados seis indicadores financeiros chave, calculados segundo a metodologia de Assaf Neto (2010): Margem Operacional, Margem EBITDA, Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), Giro do Ativo, Grau de Alavancagem Financeira (GAF) e Retorno sobre o Ativo (ROA).

Cada indicador oferece uma perspectiva distinta. A Margem Operacional e a Margem EBITDA medem a lucratividade das operações principais. O ROE avalia a rentabilidade do capital investido pelos acionistas. O Giro do Ativo mede a eficiência com que a empresa utiliza seus ativos para gerar vendas. O Grau de Alavancagem Financeira (GAF) analisa o impacto do endividamento na rentabilidade, enquanto o Retorno sobre o Ativo (ROA) oferece uma visão da capacidade da empresa de gerar lucro a partir de sua base total de ativos. A aplicação conjunta desses indicadores permite a construção de um diagnóstico financeiro robusto.

A análise dos resultados inicia-se com o Grau de Alavancagem Financeira (GAF), que mensura o efeito do endividamento sobre o lucro. Um GAF superior a 1 indica que a alavancagem é positiva. Os dados revelam que a empresa manteve um GAF positivo durante todo o período, variando de 1,25 a 1,55. O indicador apresentou estabilidade entre 2018 e 2021, seguido por um pico de 1,55 em 2022, sugerindo maior capacidade de conversão de lucro operacional em lucro líquido. Contudo, em 2023 e 2024, o indicador recuou para 1,42 e 1,25, respectivamente, sinalizando uma perda de eficiência na utilização da alavancagem. Comparativamente, o estudo de Holanda (2024) sobre empresas da B3 mostrou uma média de GAF muito inferior no mesmo período, o que evidencia que, apesar da queda recente, a alavancagem da cervejaria analisada permaneceu mais eficiente que a média do mercado.

O indicador de Giro do Ativo, que mede a eficiência na utilização dos investimentos para gerar receita, apresentou uma trajetória de oscilação. O índice, que era de 52% em 2018, sofreu uma queda para 47% em 2020, ano em que se observou um aumento de 23% no ativo total da empresa. Este movimento sugere que os novos investimentos demoraram a se traduzir em vendas. Nos anos seguintes, o indicador se recuperou, atingindo um pico de 60% em 2023, indicando melhora na eficiência operacional. No entanto, em 2024, o giro recuou para 55%. Apesar dessa melhora em relação ao início do período, o desempenho da empresa permanece abaixo da média do setor de Alimentos e Bebidas, que, segundo o Instituto Assaf (2025), operou com giros superiores a 100%. Essa disparidade, também observada por Alves (2025), aponta para uma oportunidade de melhoria na gestão de ativos da companhia.

A análise do Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), indicador importante para os acionistas, revela uma tendência de declínio na capacidade da empresa de remunerar o capital próprio. O ROE, que atingiu seu pico de 19,8% em 2018, caiu para 14,9% em 2024, o menor valor do período. A decomposição do indicador mostra que essa queda foi impulsionada pela compressão da Margem Líquida, que recuou de 22,6% para 16,6% no mesmo intervalo. Embora o Giro do Patrimônio Líquido tenha apresentado melhora em 2022 e 2023, não foi suficiente para compensar a deterioração da lucratividade. O crescimento do patrimônio líquido, que aumentou 73% entre 2018 e 2024, não foi acompanhado por um crescimento proporcional do lucro líquido, que avançou apenas 31%. Isso indica que os novos investimentos e os lucros retidos estão gerando retornos decrescentes.

A Margem Operacional, que reflete a lucratividade das atividades principais, corrobora a tese de perda de eficiência. O indicador apresentou uma queda consistente, saindo de 35% em 2018 para 27% em 2024. Essa redução de 8 pontos percentuais ocorreu apesar de um crescimento de 78% na receita operacional durante o período. O lucro operacional, por sua vez, cresceu apenas 37%, evidenciando que o aumento dos custos e despesas operacionais consumiu uma parcela crescente das receitas. Conforme Ludícibus (2010), uma margem operacional decrescente pode indicar pressões competitivas ou ineficiências internas. Embora a margem da empresa ainda seja superior à média do setor, que oscilou entre 4,75% e 8,49% (Instituto Assaf, 2025), a tendência de queda é um ponto de atenção.

A Margem EBITDA, indicador utilizado para medir a geração de caixa operacional, segue uma trajetória semelhante à da margem operacional. O indicador declinou de 44% em 2018 para 35% em 2024. O EBITDA, em termos absolutos, cresceu 41% no período, um ritmo inferior ao crescimento de 78% da receita líquida. Aranha (2014) destaca que a Margem EBITDA é um termômetro da eficiência produtiva. A queda observada sugere que, embora a empresa tenha expandido suas vendas, não foi capaz de converter esse crescimento em geração de caixa operacional na mesma proporção, indicando uma deterioração da performance de sua atividade-fim. Assim como na margem operacional, a empresa ainda supera a média setorial, mas a tendência negativa é inegável.

O Retorno sobre o Ativo (ROA), que mede a capacidade da empresa de gerar lucro a partir de seus ativos, também apresentou uma tendência de queda. O ROA diminuiu de 21% em 2018 para 17% em 2024. A análise da composição do indicador revela a mesma dinâmica: a base de ativos totais expandiu-se em 70% no período, enquanto o lucro operacional cresceu apenas 37%. Segundo Matarazzo (2003), o ROA evidencia a eficiência da gestão na utilização dos recursos disponíveis. A redução do ROA sinaliza que o crescimento da estrutura patrimonial da empresa ocorreu em ritmo mais acelerado do que sua capacidade de transformar esses investimentos em lucro, sugerindo desafios na gestão e alocação de capital.

Os achados desta pesquisa ilustram a importância da aplicação de um conjunto diversificado de indicadores para um diagnóstico empresarial completo. Uma análise focada apenas no crescimento da receita levaria a uma conclusão equivocada sobre o sucesso da empresa. A avaliação integrada de métricas de eficiência, rentabilidade e alavancagem revela fragilidades estruturais e desafios de gestão. A perda de eficiência na conversão de investimentos em lucro é o principal gargalo identificado, sugerindo que a estratégia de expansão da base de ativos precisa ser reavaliada para garantir que o crescimento futuro seja sustentável e agregue valor aos acionistas.

O estudo demonstrou a aplicabilidade e o poder diagnóstico dos indicadores financeiros na avaliação do desempenho de uma grande empresa do setor cervejeiro. Durante o período de 2018 a 2024, a companhia passou por uma fase de expansão de sua base de ativos e receitas, mas enfrentou uma deterioração em sua eficiência operacional e rentabilidade. Indicadores como ROE, ROA, Margem Operacional e Margem EBITDA registraram quedas, apontando para uma menor capacidade de converter crescimento em lucro. Embora a empresa ainda apresente margens superiores à média setorial, a tendência de declínio é um sinal de alerta. O estudo ressalta a complexidade da gestão em um setor competitivo e a necessidade de um monitoramento contínuo do desempenho financeiro para subsidiar decisões estratégicas. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que, apesar do crescimento em receita e ativos, a cervejaria analisada enfrentou desafios na manutenção de sua lucratividade e eficiência operacional entre 2018 e 2024.

Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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