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20 de fevereiro de 2026

Análise comparativa de desempenho financeiro no setor brasileiro de celulose e papel

Marcio Luis Doracio Mendes; Matheus da Costa Gomes

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisou e comparou o desempenho financeiro de empresas do setor de celulose e papel no Brasil de 2019 a 2024, correlacionando estratégias de investimento com indicadores de rentabilidade, endividamento e geração de caixa. A análise buscou fornecer um panorama sobre a saúde financeira e a eficiência operacional das empresas, contextualizando seu desempenho em um setor relevante para a economia nacional e influenciado por variáveis macroeconômicas e dinâmicas do mercado global.

O setor de celulose e papel no Brasil apresenta crescimento contínuo, sendo um pilar da economia. Segundo o Relatório Anual 2024 da Indústria Brasileira de Árvores (IBA, 2024), a produção bruta do setor registrou uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 3,2% na última década, com participação de 1,2% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O setor é fortemente exportador, com exportações de US$ 12,7 bilhões em 2023, impulsionadas pela celulose (US$ 7,9 bilhões) e pelo papel (US$ 2,4 bilhões). Cerca de 75% da celulose e 20% do papel produzidos no país são destinados ao mercado externo, evidenciando a competitividade do produto nacional.

O setor também se destaca pela sustentabilidade, um diferencial competitivo. O plantio de 1,5 milhão de árvores por dia para fins industriais contribui para o sequestro de gases de efeito estufa e para as metas de mitigação das mudanças climáticas (Fonseca, 2022). Atualmente, o setor gerencia quase 10 milhões de hectares de áreas plantadas e preserva outros 6 milhões de hectares de florestas nativas. Técnicas de manejo modernas formam corredores ecológicos que protegem a biodiversidade, integrando produção e conservação.

A força do setor é confirmada por anúncios de investimentos. Conforme a IBA (2024), estão previstos aportes de R$ 105 bilhões até 2028, concentrados em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Contudo, o setor enfrenta desafios. Estudos como o de Funchal (2025) apontam que variações cambiais, custos logísticos, concorrência asiática e tensões geopolíticas pressionam as margens das empresas. A análise de Viana (2024) sobre a Suzano entre 2017 e 2021 reforça que uma boa gestão financeira permite superar desafios externos, mantendo a solidez e a liquidez mesmo em períodos de alto investimento.

Neste contexto, a análise comparativa do desempenho financeiro é essencial. Neves (2020) demonstrou a influência de variáveis econômicas, como o PIB, no desempenho financeiro das empresas do setor, especialmente na margem EBITDA. Uma gestão rigorosa dos indicadores financeiros otimiza resultados e mitiga o impacto de crises. Este trabalho analisa os indicadores de duas grandes empresas do setor para entender como suas decisões de investimento e gestão se traduzem em rentabilidade e valor, oferecendo uma visão das alavancas de desempenho que sustentam seu crescimento.

A metodologia é uma pesquisa descritiva com abordagem quantitativa, baseada em dados secundários. O universo da pesquisa foi composto pelas duas maiores empresas de capital aberto do setor, Suzano S. A. e Klabin S. A. O período de análise foi de 2019 a 2024, permitindo a observação de tendências e ciclos de investimento. Os dados foram coletados de fontes públicas, como relatórios financeiros e demonstrativos de resultados disponibilizados nos sites de Relação com Investidores, e dados consolidados do setor foram obtidos no portal do Instituto Assaf para benchmarking.

Para a análise, foram calculados indicadores financeiros e operacionais, organizados em três categorias: vendas e receita, rentabilidade, e investimento e endividamento. Para os indicadores de rentabilidade, seguiu-se o modelo de conceito amplo de Assaf Neto (2020) para determinar a margem de lucro bruto, a margem EBIT e a margem EBITDA. O EBITDA foi escolhido por sua ampla utilização no mercado para comparar empresas, apesar das críticas sobre não considerar despesas com capital de giro e investimentos (Assaf Neto, 2020; Macedo, 2012). É importante ressaltar que os cálculos de EBIT e EBITDA neste estudo consideraram a exclusão apenas das despesas financeiras, conforme o conceito amplo, e não os valores ajustados que as empresas por vezes divulgam.

Analisou-se o investimento e o endividamento através dos valores de CAPEX, da relação entre investimento e EBITDA, e entre investimento e receita líquida. Para a estrutura de dívida, foram utilizados os conceitos de dívida líquida e alavancagem financeira, medida pela razão Dívida Líquida/EBITDA. Segundo Ross (1995), esses indicadores são cruciais para avaliar a probabilidade de insolvência e o uso de capital de terceiros. A relação entre alavancagem e rentabilidade foi contextualizada à luz de estudos como o de Marschner (2019), que encontrou uma relação negativa para empresas com alta alavancagem no mercado brasileiro.

Para a saúde financeira de curto prazo, calculou-se o saldo de tesouraria, definido como a diferença entre ativos e passivos circulantes financeiros, extraídos dos balanços patrimoniais. Este indicador oferece uma visão da liquidez imediata. A análise comparativa foi realizada indicador por indicador, com tabelas e gráficos. Optou-se por não considerar os efeitos da inflação nos valores nominais, pois o impacto seria similar para ambas as empresas, não comprometendo a comparação relativa. A combinação desses métodos permitiu uma avaliação abrangente do desempenho da Suzano e da Klabin.

A análise revela crescimento no volume de vendas e na receita líquida para ambas as empresas de 2019 a 2024. A Suzano registrou aumento de 15,3% no volume de vendas (1,6 milhão de toneladas), resultando em um crescimento de 82,2% na receita líquida. A Klabin apresentou crescimento de volume de 16,3% (0,5 milhão de toneladas), com um avanço de 91,1% na receita líquida. Essa expansão reflete os investimentos em capacidade produtiva. A estrutura de vendas, no entanto, difere: a Suzano concentra 89% de seu volume na venda de celulose, enquanto a Klabin possui um mix mais diversificado, com 58,7% do volume de papel e embalagens.

O mix de produtos impacta a receita por tonelada. A Klabin apresentou vantagem neste indicador, com valor médio de R$ 4.366,00 por tonelada, 1,31 vezes superior à média de R$ 3.337,00 da Suzano. A maior receita da Klabin pode ser atribuída à venda de produtos de maior valor agregado. Apesar disso, as margens brutas foram similares: Klabin com média de 40,9% e Suzano, 41,3%. Isso indica que o menor custo por tonelada da Suzano, beneficiado por ganhos de escala, compensou sua menor receita específica, equalizando a margem bruta.

A Suzano apresentou margens EBIT e EBITDA superiores. A margem EBIT média da Suzano foi de 44,2%, contra 33,5% da Klabin, enquanto a margem EBITDA atingiu 63,8% para a Suzano, 1,23 vezes maior que os 51,9% da Klabin. A superioridade da Suzano se explica por dois fatores: maior eficiência na gestão de despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A), que consumiram em média 10,6% da receita líquida da Suzano, contra 14,2% na Klabin; e receitas financeiras maiores, especialmente em 2022 e 2023, computadas no EBIT segundo o conceito de Assaf Neto (2020). Desconsiderando esses ganhos, a margem EBITDA da Suzano se aproximaria de 55%, mais próxima à da Klabin.

O EBITDA absoluto reflete a diferença de escala. A Suzano gerou um EBITDA acumulado de R$ 149,5 bilhões, 3,0 vezes superior aos R$ 50,1 bilhões da Klabin. No entanto, na geração de caixa por tonelada, os valores se aproximam, com a Klabin apresentando leve vantagem (R$ 2.267/ton contra R$ 2.128/ton da Suzano). Isso demonstra que a Klabin extrai um valor de caixa marginalmente superior por unidade, reforçando a eficiência de seu modelo de negócio. Os resultados de ambas superam a média do mercado brasileiro, cuja margem EBITDA consolidada, segundo o Instituto Assaf, é de cerca de 30%, destacando a rentabilidade do setor.

O crescimento foi sustentado por investimentos contínuos. A Suzano investiu R$ 68,4 bilhões, 2,7 vezes mais que os R$ 25,1 bilhões da Klabin. Em termos relativos, os investimentos representaram, em média, 29,2% da receita líquida da Suzano e 26,0% da Klabin. A relação Investimento/EBITDA também foi elevada, com médias de 45,7% para a Suzano e 50,1% para a Klabin, indicando que uma parcela substancial do caixa gerado foi reinvestida.

Os investimentos foram financiados em parte por endividamento. A dívida líquida da Suzano atingiu R$ 79,1 bilhões em 2024, e a da Klabin, R$ 33,3 bilhões. A alavancagem financeira (Dívida Líquida/EBITDA) mostrou gestão prudente. Embora o indicador tenha oscilado, com picos de até 5,0 vezes, as empresas demonstraram capacidade de reduzir a alavancagem posteriormente, devido à forte geração de caixa. Em 2024, a alavancagem da Suzano era de 3,3 vezes, e a da Klabin, 4,5 vezes.

A saúde financeira de curto prazo, medida pelo saldo de tesouraria, permaneceu sólida. Ambas mantiveram saldos positivos e substanciais, consistentemente acima de cinco bilhões de reais, mesmo durante picos de investimento. A Suzano apresentou valores maiores entre 2021 e 2023, possivelmente devido aos ganhos financeiros. Essa liquidez evidencia uma gestão financeira disciplinada, que equilibra investimento e solvência.

A análise comparativa revela que Suzano e Klabin tiveram um desempenho notável entre 2019 e 2024, com crescimento, forte geração de caixa e gestão de endividamento eficaz. Os investimentos foram fundamentais para a expansão da capacidade e o aumento do volume de vendas. Manter a alavancagem controlada e um saldo de tesouraria robusto durante um ciclo de investimentos intensivo atesta a solidez da gestão financeira. A pesquisa corrobora que o setor de celulose e papel no Brasil é altamente rentável, superando a média de outros setores, como evidenciado por Ferreira Neto (2022) sobre o desempenho de empresas na B3.

Os resultados indicam que, apesar das diferentes estratégias de produto — com a Suzano focada em escala e commodities (celulose) e a Klabin em produtos de maior valor agregado (papel e embalagens) —, ambas alcançaram patamares de rentabilidade elevados. A Suzano se destacou por suas margens operacionais superiores, impulsionadas pela eficiência de custos e ganhos de escala, enquanto a Klabin demonstrou maior eficácia na geração de receita por tonelada. A convergência na geração de caixa específica (EBITDA/tonelada) sugere que os dois modelos de negócio são igualmente viáveis e eficientes dentro de suas respectivas estratégias. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que, através de uma gestão financeira disciplinada e investimentos estratégicos, as empresas do setor de celulose e papel conseguiram expandir suas operações e manter uma performance financeira robusta, mesmo diante das pressões macroeconômicas e das oscilações do mercado.

Referências:
Assaf Neto, Alexandre. Finanças Corporativas e Valor. 8ª ed. SP: Atlas, 2020.
Assaf Neto, Alexandre e Lima, Fabiano Guasti. Curso de Administração Financeira. 3ª ed. SP: Atlas, 2020.
Ferreira Neto, Miguel; Rosseti, Nara; Meirelles, Jorge. Análise de indicadores financeiros e operacionais utilizados na avaliação de desempenho de empresa não financeira listadas na B3. 2022.
Fonseca Jr., Jose Carlos. Artigo da Revista O Papel, setembro de 2022, pg28.
Funchal, Marcio. Artigo da Revista O Papel, abril de 2025, pg22 e janeiro de 2025, pg 24.
Indústria Brasileira de Árvores (IBA). Relatório Anual 2024.
Indústria Brasileira de Árvores (IBA). Release feito em 23/08/24.
Indústria Brasileira de Árvores (IBA). Revista O Papel – Agosto 2025.
Instituto Assaf. Site do Instituto Assaf.
Macedo M.; Machado M., Murcia F., Machado M. Análise da Relevância do EBITDA versus Fluxo de caixa operacional no mercado brasileiro de capitais. 2012.
Marschner, Paulo F; Dutra, Vanessa R; Ceretta, Paulo S. Alavancagem Financeira e Rentabilidade nas empresas listadas na B3. 2019.
Neves, Leonardo Lima; Miguita, Andrea Tamiko. O impacto das variações macroeconômicas no segmento de papel e celulose: um estudo das empresas listadas na B3. Brazilian Journal of Development, 2020.
Ross, Stephen; Westerfield, R. W.; Jaffe, J. F. Administração Financeira. 3ª ed. SP: Atlas, 1995.
Viana, Benedito S C; Araujo, Maria Eugenia. A função dos indicadores financeiros na análise econômica-financeira de empresas: uma aplicação nas demonstrações contábeis da Empresa Suzano S/S no período de 2107 a 2021. 2024.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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