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24 de fevereiro de 2026

Estratégias de Aprendizagem de Inglês por Brasileiros para Universidades Americanas

Joana Sherrill Duarte; Renato Alessandro dos Santos

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo identificou e analisou as estratégias de jovens brasileiros, majoritariamente de escolas públicas, para alcançar a proficiência em inglês exigida por universidades nos Estados Unidos. A pesquisa detalhou os métodos autodidatas, recursos informais e motivações que permitiram superar as deficiências do ensino formal de idiomas no Brasil. Investigou-se também a percepção desses estudantes sobre a qualidade do ensino de inglês na educação básica, buscando insights para políticas públicas e práticas pedagógicas que democratizem o acesso à educação internacional. A premissa foi que, diante de limitações estruturais, a agência individual e o uso de recursos não convencionais são determinantes para a mobilidade acadêmica de estudantes de baixa renda.

O cenário educacional brasileiro apresenta desafios no ensino de inglês. Apesar da obrigatoriedade do idioma do 6º ano do Ensino Fundamental ao Ensino Médio (Brasil, 1996; Brasil, 2020), a proficiência nacional é baixa. Um estudo do British Council revelou que apenas 5,1% da população com 16 anos ou mais possui algum conhecimento do idioma, número que sobe para 10,3% na faixa de 18 a 24 anos (Patel e Copeland, 2023). Essa deficiência é corroborada pelo Índice de Proficiência em Inglês da Education First, que em 2024 posicionou o Brasil no 81º lugar entre 116 países, com nível de proficiência baixo e atrás de outras nações sul-americanas (Education First [EF], 2024).

Essa barreira linguística impacta a mobilidade internacional. O Instituto de Educação Internacional (IIE) aponta a falta de proficiência em inglês como um obstáculo central para o ingresso em universidades estrangeiras. Em 2016, apenas 0,6% dos graduandos brasileiros participaram de intercâmbios, taxa inferior à de países como Equador (2%) e Colômbia (1,2%) (Robles e Bhandari, 2018). Em 2023, o número de brasileiros iniciando a graduação nos EUA foi de 8.213 (Instituto de Educação Internacional [IIE], 2023). A análise da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) sugere que a abordagem pedagógica, focada em gramática em detrimento da competência comunicativa, contribui para essa formação precária (Ribas, 2018).

A problemática é agravada por desigualdades socioeconômicas. Estudos como o de Borges (2016), sobre o programa Ciência sem Fronteiras, demonstraram que renda, raça e tipo de escola (pública ou privada) se correlacionam ao domínio do inglês. Essa realidade consolida a fluência como um privilégio, alimentando um mercado de cursos particulares que preenche a lacuna do sistema público (Marques, 2021). Nesse contexto, a trajetória de jovens de baixa renda que alcançam a fluência e são admitidos em universidades americanas, muitas vezes com bolsas, é um campo de estudo fundamental, pois suas experiências podem revelar estratégias de aprendizagem eficazes e replicáveis.

A investigação se justifica pela necessidade de compreender os mecanismos de sucesso acadêmico em um ambiente adverso. Ao focar em estudantes de alta performance e baixa renda do EducationUSA Opportunity Program, o estudo busca extrair lições práticas de suas jornadas. A análise de suas estratégias informais, envolvendo o ambiente digital e atividades recreativas, alinha-se a pesquisas sobre a importância da aprendizagem fora da escola formal (Pereira et al., 2019). Os resultados visam informar gestores e formuladores de políticas sobre a urgência de reformular o ensino de inglês para torná-lo mais inclusivo e eficaz.

O estudo adotou uma abordagem de pesquisa descritiva, como um estudo de caso múltiplo, para detalhar as estratégias e percepções do grupo em seu contexto. A amostra foi de 18 estudantes brasileiros, maiores de idade, de diversas regiões, participantes do EducationUSA Opportunity Program entre 2010 e 2025. Este programa do Departamento de Estado Americano apoia jovens de alto potencial e baixa renda, tornando-os um grupo ideal para a análise. A seleção foi por conveniência, via comunidades online do programa. O período de 2010 a 2025 foi escolhido para capturar o uso de tecnologias digitais na aprendizagem autônoma, como aplicativos e plataformas de streaming. A amostra, majoritariamente de egressos de escolas públicas, representa indivíduos que desenvolveram competências linguísticas avançadas por esforço próprio.

O instrumento de coleta de dados foi um questionário estruturado (survey) no Google Forms, combinando perguntas fechadas (múltipla escolha, escala Likert) para dados quantitativos e perguntas abertas para dados qualitativos sobre experiências e estratégias. O questionário foi divulgado em dois grupos privados de WhatsApp de participantes do programa, garantindo participação voluntária e anônima. A pesquisa seguiu preceitos éticos, com um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) detalhando os objetivos, a natureza voluntária e a confidencialidade dos dados. O TCLE informava sobre o baixo risco e o uso exclusivo das informações para fins acadêmicos. Essa abordagem mista permitiu quantificar tendências e capturar a riqueza das narrativas individuais.

A análise demográfica revelou um grupo com idades entre 18 e 38 anos, de dez estados brasileiros e três já nos EUA (Texas, Kentucky e Illinois). O dado mais expressivo foi que 94,4% (17 de 18) cursaram o Ensino Médio em escolas públicas. Todos tiveram contato formal com inglês na educação básica (94,4% no Ensino Fundamental II e 88,9% no Ensino Médio), indicando o cumprimento da legislação (Brasil, 2018), mas não sua eficácia.

A percepção sobre o ensino formal foi majoritariamente negativa. Questionados se as aulas os prepararam para testes de proficiência (como TOEFL, Duolingo ou IELTS), 88,9% (16 participantes) discordaram totalmente. De forma similar, 94,4% (17 participantes) discordaram totalmente que a escola os preparou para o processo de candidatura como um todo, que envolve redações e portfólios. Isso evidencia uma desconexão entre o currículo e as competências para mobilidade acadêmica, como apontado por Lage e Cavalcante (2022).

Apesar da avaliação crítica, 88,9% dos respondentes se sentiam “confiantes” (66,7%) ou “muito confiantes” (22,2%) em sua comunicação em inglês, sugerindo que a proficiência foi adquirida por meios externos à escola. A análise qualitativa reforça isso: 14 de 18 estudantes mencionaram a repetitividade do conteúdo, com foco excessivo em gramática básica como o “verbo to be”, e 13 apontaram a falta de prática das habilidades comunicativas (listening, speaking, writing), corroborando a crítica de Ribas (2018) sobre a negligência da competência performativa.

As narrativas revelaram temas recorrentes, como a percepção de aulas “rasas” e problemas com a qualificação docente, incluindo pronúncia incorreta ou ausência de professor. Pontos positivos, como o uso de músicas e filmes, foram vistos como iniciativas isoladas e insuficientes. Quatro estudantes afirmaram explicitamente que o aprendizado efetivo ocorreu fora da escola, usando o ambiente formal apenas como uma introdução básica, enquanto a fluência foi construída de forma autônoma.

A investigação sobre estratégias autônomas revelou que 61,1% dos estudantes não frequentaram cursos particulares de inglês. Deste grupo, 27,8% do total da amostra aprenderam o idioma exclusivamente por conta própria, enquanto 33,3% reconheceram uma contribuição secundária da escola. Isso desafia a noção de que o aprendizado de inglês no Brasil depende do setor privado (Marques, 2021), mostrando a emergência do aprendizado autodidata. A exposição contínua e a imersão foram citadas como fatores cruciais, com o consumo de conteúdo em inglês sendo uma prática universal: filmes e séries (utilizado por 100% dos respondentes), músicas (94,4%) e livros (88,9%).

A tecnologia foi central: 83,3% usaram aplicativos móveis gratuitos e o acesso a vídeos e aulas online foi frequente, alinhando-se às observações de Pereira et al. (2019) sobre aprendizagem com mídias digitais. Além do consumo passivo, a prática ativa foi crucial, incluindo conversação com outros falantes (83,3%), estudo deliberado da gramática (88,9%) e consulta a dicionários (88,9%), indicando uma abordagem de aprendizado multifacetada. A interação com falantes nativos, facilitada por redes sociais, foi destacada por proporcionar prática autêntica.

Questionados sobre o suporte que as escolas poderiam oferecer, as sugestões focaram em apoio estruturado e individualizado. A mentoria com alunos experientes foi a mais popular (77,8%), seguida por aulas particulares e grupos de estudo (66,7%) e mais aulas de inglês no contraturno (61,1%). Também enfatizaram a importância da capacitação docente, divulgação de oportunidades e recursos gratuitos, e o desenvolvimento de programas extracurriculares. Houve um apelo por apoio psicológico e por uma mudança na cultura escolar para desconstruir o estigma de que estudar no exterior é inalcançável para alunos de baixa renda.

As conclusões apontam uma lacuna crítica entre o ensino de inglês na educação básica pública e as competências para processos seletivos internacionais. A percepção negativa dos estudantes sobre a escola contrasta com sua alta autoconfiança, evidenciando que seu sucesso é produto de iniciativa própria, resiliência e uso de recursos de aprendizagem informais e autodidatas. A forte dependência de mídias digitais, como filmes, séries, músicas e aplicativos, demonstra uma mudança de paradigma na aquisição de idiomas; a agência do aprendiz e a imersão digital desempenham um papel mais significativo do que a instrução formal.

As implicações práticas destes achados são substanciais. É imperativo investir na qualidade do ensino, com formação continuada de professores, metodologias focadas em competências comunicativas e diversificação de recursos. As sugestões dos estudantes — mentoria, aulas de reforço e orientação sobre o processo de candidatura — oferecem um roteiro para que as escolas assumam um papel mais ativo no apoio a seus alunos. Promover uma cultura escolar que valorize e apoie a busca por oportunidades globais, independentemente da origem socioeconômica, é fundamental para democratizar o acesso e desenvolver talentos nacionais. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que jovens brasileiros de escolas públicas utilizam predominantemente estratégias de aprendizagem autodidatas e informais, baseadas no consumo de mídia e no uso de tecnologia, para superar as deficiências do ensino formal e alcançar a proficiência em inglês necessária para se candidatarem a universidades nos Estados Unidos.

Referências:
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BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP nº 1, de 17 de junho de 2020. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e Ensino Fundamental. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 jun. 2020.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996.
Education First [EF]. 2024. English Proficiency Index. Disponível em https://www. ef. com/assetscdn/WIBIwq6RdJvcD9bc8RMd/cefcom-epi-site/reports/2024/ef-epi-2024-english. pdf. Acesso em 6 mar. 2024.
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Lage, P. B. L.; Cavalcante, P. S. 2022. Inglês on-line na universidade: o que dizem os estudantes?. In: XXVIII Workshop de Informática na Escola [WIE]. Sociedade Brasileira de Computação: 89-99.
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Moita Lopes, L. P. 2003. A nova ordem mundial, os parâmetros curriculares nacionais e o ensino de inglês no Brasil: a base intelectual para uma ação política. Reflexão e ações no ensino-aprendizagem de línguas. Mercado de Letras: 29-57.
Patel, M.; Solly, M.; Copeland, S. 2023. The future of English: Global perspectives. Research Summary. London: The British Council.
Pereira, S.; Fillol, J.; Moura, P. 2019. Young people learning from digital media outside of school: the informal meets the formal. Comunicar 27(58): 41-50.
Reikdal, S. M.; Meneses, A. K. O.; da Silva, F. G. P.; Hora, J. C.; Coelho, M. P. 2011. Inglês: um luxo desnecessário? A percepção da importância do estudo de uma segunda língua em alunos de classes sociais distintas. Scientia Plena 4(8).
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Robles, C., & Bhandari, R. (2018). Expanding vistas – International academic mobility in Brazil. IEE Center for Academic Mobility Research and Impact. https://www. iie. org/Research-and-Insights/Publications/Expanding-Vistas
Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação e Cultura [MEC]. 1998. Parâmetros Curriculares Nacionais [PCN]. Terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental – Língua Estrangeira. Brasília.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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