Imagem Debêntures incentivadas na otimização da estrutura de capital no setor de energia

24 de fevereiro de 2026

Debêntures incentivadas na otimização da estrutura de capital no setor de energia

Lucilene Gonçalves Ferreira; Giovani Antonio Silva Brito

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo deste estudo foi analisar o desenvolvimento financeiro de uma companhia de transmissão de energia no Brasil, de 2014 a 2024, focando no impacto da emissão de debêntures incentivadas, reguladas pela Lei nº 12.431/11, em sua estrutura de capital. A investigação apura a evolução dos indicadores de endividamento, liquidez e rentabilidade, calcula o custo de capital de terceiros e avalia se esses títulos contribuíram para uma gestão de passivos mais eficiente, capaz de suportar o crescimento da companhia e otimizar sua estrutura de capital para maximizar o valor para os acionistas.

O setor de transmissão de energia elétrica no Brasil é de capital intensivo, com projetos de infraestrutura de longa maturação, o que exige fontes de financiamento adequadas ao ciclo de vida dos ativos (Empresa de Pesquisa Energética [EPE], 2023). O sucesso das operações depende de uma estrutura de financiamento robusta para sustentar os investimentos em expansão e manutenção, alinhando o perfil da dívida ao fluxo de caixa de longo prazo gerado pelos projetos (Assaf Neto, 2023). Neste cenário, o mercado de capitais surge como alternativa aos financiamentos bancários tradicionais, que frequentemente apresentam custos mais elevados e prazos menos flexíveis para as necessidades do setor (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES], 2021).

As debêntures incentivadas, instituídas pela Lei nº 12.431/2011, ganharam protagonismo ao estimular o financiamento privado de projetos de infraestrutura com benefícios fiscais para investidores (BRASIL, 2011). A isenção de imposto de renda para pessoas físicas e a alíquota reduzida para pessoas jurídicas tornam os títulos atrativos, permitindo que as empresas captem recursos a custos menores e com prazos mais longos. O crescimento no volume de emissões, especialmente no setor de energia, demonstra sua eficácia como mecanismo de fomento (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais [AMBIMA], 2024). Para as emissoras, esses títulos representam uma oportunidade para alongar o perfil de suas dívidas e otimizar seu custo de capital, alinhando as obrigações financeiras ao ciclo de vida de seus ativos (Assaf Neto, 2023).

A gestão da estrutura de capital, a composição entre capital próprio e de terceiros, é uma decisão financeira crítica que impacta o risco, o custo de capital e o retorno dos acionistas (Brealey et al., 2013). A teoria moderna, iniciada por Modigliani e Miller (1958), evoluiu para reconhecer que, em mercados com impostos, a dívida gera um benefício fiscal pela dedutibilidade dos juros, criando valor para a empresa (Modigliani e Miller, 1963). Isso fundamenta a Teoria do Trade-Off, que propõe a busca por um ponto ótimo de endividamento onde o benefício fiscal é balanceado com os custos associados às dificuldades financeiras (Assaf Neto, 2020). As debêntures incentivadas inserem-se neste contexto como uma ferramenta estratégica para empresas de capital intensivo, como as do setor elétrico, alinharem o perfil da dívida ao ciclo de crescimento de seus ativos, otimizando essa relação de trade-off (Empresa de Pesquisa Energética [EPE], 2023).

A pesquisa caracteriza-se como um estudo de caso com abordagem quantitativa, justificada pela necessidade de uma investigação aprofundada da gestão da dívida da empresa selecionada. A abordagem quantitativa baseia-se na coleta e análise de dados numéricos extraídos das demonstrações financeiras (Gil, 2022), complementada pela análise documental de relatórios da administração, comunicados e escrituras de emissão de debêntures para fornecer contexto qualitativo.

O objeto de estudo é uma holding de capital aberto do setor elétrico, com operações desde 2007, principalmente em transmissão de energia. A empresa foi selecionada por ser de capital intensivo e uma emissora relevante de debêntures, tornando-a um caso representativo. Os dados quantitativos públicos, de 1º de janeiro de 2014 a 31 de dezembro de 2024, foram extraídos das Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP) e Informações Trimestrais (ITR) consolidadas, disponíveis no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e na seção de Relações com Investidores (RI) da companhia.

Os dados coletados foram organizados em planilhas do Microsoft Excel para o cálculo dos indicadores financeiros e elaboração de tabelas. Para comparar a performance financeira antes e depois da intensificação do uso de debêntures, a análise foi dividida em dois quinquênios: 2014 a 2018 e 2019 a 2024. Essa divisão permite avaliar os efeitos da mudança na estratégia de captação de recursos.

Os indicadores financeiros utilizados, baseados na literatura de finanças corporativas (Assaf Neto, 2020), foram: Endividamento Geral (EG), que mede a proporção dos ativos financiados por capital de terceiros; Participação de Capital de Terceiros (PCT), que avalia a alavancagem financeira; Liquidez Corrente (LC), indicador de solvência de curto prazo; Custo de Capital de Terceiros (Kd), que representa o custo da dívida onerosa, calculado na forma bruta e líquida de imposto de renda; Retorno sobre o Ativo (ROA), que mede a capacidade de gerar lucro a partir dos ativos; e Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), que avalia a eficiência no uso do capital dos sócios.

A análise da estrutura de capital revela uma mudança estratégica na política de endividamento a partir de 2019. O Endividamento Geral (EG), que indica a proporção dos ativos financiados por terceiros, passou de uma média de 55,9% no primeiro quinquênio (2014-2018) para 61,4% no segundo (2019-2024). A Participação de Capital de Terceiros (PCT) seguiu a mesma tendência, aumentando de uma média de 55,92% para 61,42%. Este aumento da alavancagem foi uma decisão consciente da administração, alinhada à teoria de que o endividamento pode ampliar o ROE se os recursos captados forem investidos em ativos que gerem um retorno superior ao custo da dívida (Assaf Neto, 2020).

Apesar do aumento no volume de endividamento, o indicador de Liquidez Corrente (LC) não apenas se manteve em patamares saudáveis (acima de 1,0), como apresentou melhora, com a média subindo de 2,00 para 2,05 entre os dois períodos. Este resultado indica a eficácia da estratégia de financiamento via debêntures de longo prazo. Ao captar recursos com prazos estendidos, a empresa alocou a maior parte das novas obrigações no passivo não circulante, evitando pressionar seu caixa de curto prazo. A proporção da dívida de longo prazo em relação à dívida total consolidou-se em um patamar médio de 88% no segundo período, com picos de 91% em 2020 e 2021. Essa gestão do passivo (liability management) permitiu à empresa financiar sua expansão de forma sustentável, mitigando o risco de liquidez.

A viabilidade de uma estratégia de maior alavancagem depende da gestão do custo do endividamento. A análise do Custo da Dívida (Kd) revela que, mesmo com um volume de dívida maior no segundo período, a empresa conseguiu reduzir o custo médio de seu financiamento. O custo bruto médio da dívida (Kd) caiu de 8,23% no primeiro quinquênio para 7,79% no segundo. Essa redução representa uma economia expressiva em despesas financeiras, especialmente sobre um montante de dívida que ultrapassou R$ 12 bilhões em 2024.

A flutuação do Kd ao longo dos anos está ligada ao cenário macroeconômico brasileiro, em particular às variações da taxa Selic e do IPCA. A mínima histórica do custo da dívida em 2019 (3,88%) e 2020 (4,37%) coincide com um período de juros baixos no Brasil. Por outro lado, a elevação do custo a partir de 2021, com pico de 10,15% em 2022, reflete o ciclo de aperto monetário. O fato de a média do segundo período (7,79%) ter se mantido abaixo da média do primeiro (8,23%), mesmo com juros crescentes, evidencia a vantagem estrutural obtida pela emissão de debêntures incentivadas, que permitem acessar o mercado de capitais com custos mais competitivos.

A análise dos indicadores de rentabilidade, Retorno sobre o Ativo (ROA) e Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), é essencial para avaliar a criação de valor. No primeiro período (2014-2018), os indicadores apresentaram declínio, com o ROA caindo de 8,42% para 5,14% e o ROE de 19,38% para 11,99%. Este cenário se inverteu no segundo período. Em 2019, o ROA atingiu 8,47% e o ROE 21,77%. O pico de desempenho foi em 2020, com um ROA de 9,10% e um ROE de 22,98%. Este crescimento está associado à otimização da estrutura de capital e à redução do custo da dívida, que potencializaram o retorno sobre o capital dos acionistas.

A partir de 2021, a rentabilidade inverteu sua trajetória, com um declínio até 2023, quando o ROA atingiu 4,05% e o ROE 10,83%. Essa queda pode ser explicada pelo aumento da base de ativos devido a novos investimentos que ainda não atingiram a plena maturação para gerar lucro proporcional, algo comum em projetos de infraestrutura com longos ciclos. No entanto, o ano de 2024 sinaliza uma recuperação, com o ROA subindo para 6,06% e o ROE para 15,86%. Essa melhora sugere que a empresa está começando a colher os frutos de seus investimentos estratégicos. Os resultados demonstram que a emissão de debêntures incentivadas foi uma estratégia financeira bem-sucedida, permitindo à empresa financiar seu crescimento através de um endividamento maior, porém mais qualificado, com prazos mais longos e custo inferior, sustentando a rentabilidade no longo prazo.

Este trabalho teve como objetivo analisar a influência da emissão de debêntures na estrutura de endividamento e na gestão financeira da empresa. Os resultados obtidos permitem afirmar que a estratégia foi bem-sucedida. A análise demonstrou uma mudança estratégica a partir de 2019, com a empresa operando com um nível de alavancagem superior, evidenciado pelo aumento do Endividamento Geral médio de 55,9% para 61,4%. Este aumento da dívida foi executado de forma qualitativa, com um alongamento do perfil do passivo, o que se refletiu na melhora do indicador de Liquidez Corrente. Adicionalmente, a empresa conseguiu reduzir seu custo médio de capital de terceiros, com o custo bruto da dívida caindo de 8,23% para 7,79%. A análise de rentabilidade, após um pico em 2020 e um declínio até 2023, mostrou uma recuperação em 2024, com o ROA atingindo 6,06% e o ROE 15,86%, sugerindo que os projetos financiados pelas debêntures estão começando a gerar os retornos esperados. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que as debêntures incentivadas foram um instrumento fundamental que permitiu à empresa financiar seu ciclo de crescimento com custos menores e prazos mais adequados à natureza de seus investimentos, otimizando sua estrutura de capital e contribuindo para a sustentabilidade de seus retornos. Este estudo reforça a importância do mercado de capitais para o financiamento da infraestrutura no Brasil. Uma limitação da pesquisa é a análise restrita aos dados contábeis consolidados. Sugere-se, para pesquisas futuras, um estudo comparativo do retorno de projetos financiados com debêntures versus outras fontes.

Referências:
Assaf Neto, A. 2020. Estrutura e análise de balanços. 12 ed. Editora Atlas, São Paulo, SP. Brasil
Assaf Neto, A. 2023. Finanças corporativas e valor. 9 eds. Editora Atlas, São Paulo, SP. Brasil
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Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES]. 2021. O mercado de capitais e o financiamento da infraestrutura no Brasil. Revista do BNDES, Rio de Janeiro, n. 55, p. 7-38, jun. 2021. Disponível em: <https://web. bndes. gov. br/bib/jspui/handle/1408/21607> Acesso em: 15 jun. 2025.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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