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20 de fevereiro de 2026

Análise da eficiência logística no escoamento de grãos nas regiões brasileiras

Manoel Tiago Lima da Silva; Ana Beatriz Pereira Sette

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo avaliou a eficiência de eixos logísticos de escoamento de soja e milho com a Análise Envoltória de Dados (DEA) para identificar diferenças de desempenho e oportunidades de melhoria. A pesquisa mensura quantitativamente o desempenho relativo dos principais corredores de exportação do país, utilizando variáveis de recursos consumidos e volume escoado. Ao estabelecer uma fronteira de eficiência baseada nas melhores práticas observadas, a pesquisa oferece um diagnóstico sobre quais corredores operam em nível ótimo e quais apresentam gargalos, fornecendo subsídios para a alocação de recursos e o desenvolvimento de políticas públicas para o setor.

O agronegócio brasileiro é um pilar da economia nacional, posicionando o Brasil como um dos maiores exportadores de soja e milho. Essa proeminência, no entanto, é desafiada por deficiências na infraestrutura logística. A competitividade do setor é afetada por gargalos em transporte, armazenagem e operações portuárias, que elevam custos. Conforme Cardoso et al. (2025), embora o Brasil seja líder mundial na exportação de produtos do agronegócio, a sustentabilidade dessa posição depende da superação desses entraves logísticos. A eficiência na complexa cadeia de suprimentos de grãos, que se estende do interior do país aos terminais portuários, é um fator determinante para a margem de lucro dos produtores.

A literatura acadêmica identifica a infraestrutura inadequada como um dos principais obstáculos ao crescimento do agronegócio. Um estudo de Gonçalves et al. (2024) sintetizou os desafios mais urgentes: a excessiva dependência do modal rodoviário, mais oneroso; os elevados custos logísticos; a burocracia excessiva; e a carência de investimentos em modais alternativos como ferrovias e hidrovias. A diversificação da matriz de transportes é um consenso para reduzir a pressão sobre as rodovias e otimizar o fluxo de mercadorias.

Nesse cenário, a modernização e a integração dos modais de transporte são imperativas. Investimentos em terminais de transbordo, melhorias na malha rodoviária e ferroviária e a expansão do uso de hidrovias, segundo Fatoretto e Oliveira (2019), tendem a reduzir os custos de transporte e agilizar o escoamento. A implementação de políticas públicas eficazes e o fomento ao uso de tecnologias de gestão são igualmente fundamentais para aprimorar a coordenação da cadeia logística. A superação desses desafios fortaleceria a competitividade do agronegócio e geraria benefícios econômicos mais amplos.

Para analisar a eficiência em sistemas complexos, a Análise Envoltória de Dados (DEA) tem se destacado no setor logístico como uma metodologia robusta para medir a eficiência relativa (Silva et al., 2021). A técnica identifica as melhores práticas e quantifica o grau de ineficiência das demais unidades. Em uma aplicação ao escoamento de soja, Fatoretto e Oliveira (2019) utilizaram a DEA para comparar rotas de exportação, demonstrando que a eficiência varia drasticamente e que a combinação de modais tende a apresentar desempenho superior. Este trabalho aplica a DEA para fornecer um panorama comparativo da eficiência dos corredores logísticos de grãos no Brasil.

A metodologia baseou-se na análise de 4.506 observações de dados secundários de 2024, de municípios inseridos nos eixos logísticos de grãos. As fontes foram: Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) para tempo médio de atracação e movimentação de soja e milho; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para distâncias; e Pesquisa Agrícola Municipal (PAM/IBGE) para o valor da produção. A variável de distância foi a média em quilômetros entre cada porto e os municípios produtores, ponderada pela produção. A colheita foi o valor total produzido (em reais) em cada corredor. O tempo médio atracado foi o período, em horas, que as embarcações permaneceram nos berços. A movimentação de carga foi medida em milhões de toneladas. Para eixos com múltiplos portos, como Paranaguá/São Francisco do Sul e Belém/Barcarena, os dados foram agregados.

A técnica analítica foi a Análise Envoltória de Dados (DEA), metodologia não paramétrica que avalia a eficiência relativa de Decision Making Units (DMUs), originada nos trabalhos de Farrel (1957) e generalizada por Charnes, Cooper e Rhodes (1978). Cada eixo logístico foi definido como uma DMU. As variáveis de entrada (inputs) foram o tempo médio atracado, a distância média ponderada e o valor da colheita (soja ou milho), enquanto a variável de saída (output) foi a movimentação do respectivo grão. O modelo orientado a output visa maximizar o volume escoado. Conforme Tiryaki e Andrade (2017), a DEA não exige a definição de pesos para as variáveis nem que possuam a mesma unidade de medida, fornecendo um escore de eficiência (entre 0 e 1) e identificando benchmarks. Adotou-se o modelo BCC (Banker, Charnes e Cooper, 1984), que assume retornos variáveis de escala, apropriado para unidades que operam em diferentes escalas. A análise foi conduzida no software R com o pacote “DeaR”.

A rede logística de grãos, mapeada pelo Ministério dos Transportes (2017), estrutura-se em eixos que integram modais. Na região Norte (Arco Norte), o eixo Madeira escoa a produção do oeste de Mato Grosso e Rondônia via Porto Velho e rios Madeira e Amazonas. O eixo Tapajós utiliza a BR-163 para levar a produção do Centro-Oeste aos portos de Santarém e Belém. O eixo Tocantins atende ao estado homônimo e leste de MT e PA, usando as BR-158 e BR-153 para o complexo de Belém/Barcarena. No Nordeste, o eixo São Luís conecta Maranhão e Piauí ao Porto de Itaqui (BR-230, BR-135), e o eixo Salvador atende ao oeste da Bahia (BR-242). No Sudeste, o eixo Vitória utiliza a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) e a Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM). O eixo Santos, o mais movimentado, recebe produção do Centro-Oeste e SP, consolidando o Porto de Santos como o maior da América Latina. No Sul, o eixo Paranaguá escoa a produção do PR, MS e parte do Centro-Oeste (BR-277, Ferroeste), e o eixo Rio Grande integra a produção regional ao Porto de Rio Grande (BR-290, BR-116).

A análise descritiva para o milho revela heterogeneidade. O Eixo Tocantins se destaca com a maior movimentação (1,66 milhões de toneladas) e produção (R$ 35,78 milhões), apesar da maior distância média (1.203 km). Em contraste, os eixos Tapajós e Madeira, com produção expressiva (R$ 31,47 milhões e R$ 31,87 milhões, respectivamente), apresentam movimentação portuária menor, indicando possíveis gargalos. O Eixo Paranaguá, mais próximo das áreas produtoras (469 km), registra tempo de atracação elevado (83,32 horas), um indicador de congestionamento. Os corredores Santos (114,25 horas) e Vitória (103,60 horas) também sofrem com altos tempos de atracação.

Para a soja, o cenário também é diversificado. Os Eixos Santos (8,63 milhões de toneladas) e Tocantins (7,96 milhões) lideram a movimentação. O Eixo Tocantins é novamente a maior região produtora (R$ 120,66 milhões), reforçando a importância do Arco Norte. Corredores como Itaituba (Tapajós) e Madeira exibem produção robusta (R$ 105,69 milhões e R$ 104,06 milhões) e tempos de atracação muito baixos (10,85 e 7,95 horas, respectivamente), indicando agilidade operacional. O Eixo Paranaguá combina grande movimentação (7,58 milhões de toneladas), elevada produção (R$ 85,28 milhões) e proximidade relativa (449 km). Em contrapartida, os eixos Salvador e Vitória apresentam os menores volumes de movimentação e os maiores tempos de atracação (106,53 e 108,75 horas), revelando severos gargalos.

Os resultados da DEA para o milho indicam que apenas os eixos Paranaguá e Tocantins operam na fronteira de eficiência, com escore de 1,00, servindo como benchmarks. O Eixo São Luís apresenta desempenho próximo da eficiência plena (0,93). Em nível intermediário, os eixos Santos (0,86) e Tapajós (0,54) demonstram eficiência parcial. Os corredores Madeira (0,20), Rio Grande (0,20) e Vitória (0,09) exibem os piores desempenhos, com índices de eficiência muito baixos que apontam para desvantagens estruturais.

Na análise para a soja, os Eixos Santos, Tocantins e São Luís alcançam a eficiência máxima (1,00), consolidando-se como corredores de referência. A eficiência do Eixo Santos, intermediária para o milho, sugere melhor adequação de sua infraestrutura para a soja. O Eixo Paranaguá, eficiente para o milho, apresenta queda no desempenho (0,86), indicando operação menos otimizada para a soja em termos relativos. O Eixo Itaituba (Tapajós) registra eficiência de apenas 0,51. Os demais corredores – Madeira (0,38), Rio Grande (0,32), Salvador (0,30) e Vitória (0,15) – permanecem com baixos índices, confirmando ineficiências estruturais.

A discussão dos resultados reforça a percepção de um sistema logístico heterogêneo. A alta eficiência dos corredores do Arco Norte (Tocantins e São Luís) corrobora as análises de Oliveira e Caixeta-Filho (2016) e Ferreira e Silva (2021), que destacam o papel estratégico dessa região. Os baixos índices em portos como Vitória e Salvador podem estar associados a limitações de infraestrutura e gestão, como apontado por Santos (2012) e Cunha e Nogueira (2020). Os resultados também se alinham aos de Fatoretto e Oliveira (2019), que evidenciaram a superioridade de rotas intermodais, sugerindo que a eficiência de eixos como Santos e Vitória poderia ser aprimorada com maior integração modal.

Os achados evidenciam que a competitividade do agronegócio brasileiro depende crucialmente do desempenho logístico. Os corredores eficientes devem ser estudados como modelos de boas práticas. Para os eixos com baixa eficiência, os resultados apontam a necessidade de investimentos direcionados à modernização da infraestrutura, otimização dos processos portuários para reduzir o tempo de atracação e melhoria dos acessos. A análise comparativa entre soja e milho sugere que a eficiência pode variar conforme o produto, demandando soluções logísticas customizadas. Superar os gargalos identificados é fundamental para reduzir custos e garantir que o valor gerado na produção não seja perdido na cadeia de escoamento.

A análise via DEA permitiu uma avaliação quantitativa e comparativa da eficiência dos eixos logísticos de grãos, demonstrando ser uma ferramenta de diagnóstico poderosa para subsidiar a tomada de decisão no âmbito privado e público. Os resultados podem direcionar investimentos para a infraestrutura portuária, a integração multimodal e a eliminação de gargalos. O estudo, contudo, apresenta limitações devido à dependência de dados secundários, que não capturam variáveis como custo de frete, qualidade das vias, capacidade de armazenagem ou níveis de tecnologia. Pesquisas futuras poderiam incorporar indicadores qualitativos e realizar análises longitudinais. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se, por meio da Análise Envoltória de Dados, as disparidades de eficiência entre os eixos logísticos de escoamento de soja e milho no Brasil, identificando os corredores de referência e aqueles com maiores gargalos operacionais.

Referências:
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Fatoretto, S. L. R.; Oliveira, A. L. R. 2019. A eficiência logística das rotas de exportação de soja: um indicador baseado na Análise Envoltória de Dados (DEA). Agrarian, 12, 45, 383–398. Disponível em: https://doi. org/10.30612/agrarian. v12i45.8005. Acesso em: 03 abr. 2025.
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Santos, A. B. 2012. Avaliação da eficiência operacional dos terminais intermodais da cadeia logística de grãos brasileira. Dissertação (Mestrado em Administração). Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande.
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Tiryaki, G; Andrade, C. (org.). 2017. Econometria na Prática.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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