
04 de março de 2026
A Transformação Digital no contexto de uma Instituição de Ciências Forenses
Daniela Mendes Louzada de Paula; Felipe Bastos dos Reis
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A inovação tecnológica aplicada ao aprimoramento de processos organizacionais, conhecida como transformação digital, agrega valor substancial tanto para a sociedade quanto para as estruturas corporativas (Albertin e Albertin, 2021). Historicamente, a evolução social atravessou as três primeiras revoluções industriais até alcançar a atual era da informação, iniciada na década de 70. Esse período marcou a transição da geração de riqueza baseada em setores industriais para uma economia centrada em serviços. A fase contemporânea, denominada quarta revolução industrial ou era pós-industrial, caracteriza-se pela integração de inovações como ciência de dados, internet das coisas e o processamento de grandes volumes de dados (Cardoso, 2016). Nesse cenário, a transformação digital manifesta-se em três estágios distintos: a digitação, que consiste na conversão de dados analógicos para o formato digital; a digitalização, que envolve a aplicação de tecnologias para modificar ou criar processos digitais; e a transformação digital propriamente dita, que implica mudanças macroscópicas nos aspectos culturais, organizacionais e relacionais (Mergel et al., 2019).
No âmbito governamental, o percurso em direção à digitalização foca primordialmente na governança, superando a mera disponibilidade tecnológica (Idzi e Gomes, 2022). Administradores públicos buscam solucionar problemas crônicos, como a morosidade na prestação de serviços, a burocracia excessiva e as dificuldades de acesso, por meio de políticas de governo digital (Carvalho, 2020). Tais políticas visam assegurar que procedimentos de requerimento e solicitação ocorram via internet de maneira interligada, eliminando a necessidade de papel e elevando a qualidade do atendimento ao cidadão (Schimidt e Batista, 2023). Globalmente, o Brasil apresenta um desempenho notável, ocupando a sétima posição no índice de maturidade GovTech do Banco Mundial, que avalia 198 economias com base em 48 indicadores de modernização administrativa (Brasil, 2022). Internamente, a Lei n. 14.129 de 2021 estabelece os princípios e instrumentos do governo digital, visando o aumento da eficiência pública mediante a desburocratização e a participação cidadã (Brasil, 2021).
A perícia criminal, como área governamental estratégica, teve sua transformação digital catalisada pela perícia digital e pela gestão de grandes bancos de dados. Originada na década de 80 como suporte técnico para investigações, a área expandiu-se com a digitalização de rastros em casos de crimes cibernéticos e, posteriormente, com a proliferação de smartphones a partir de 2007, que geraram volumes massivos de evidências digitais. Os desafios periciais contemporâneos alinham-se aos cinco pilares do big data: velocidade, volume, valor, variedade e veracidade (Ross et al., 2025; Zitter, 2022). Além disso, a implementação de bancos de perfis genéticos, balísticos e biométricos tem permitido avanços significativos na identificação de autoria delitiva (Ribaux et al., 2021). No Brasil, sistemas como o Banco Nacional de Perfis Genéticos, o Banco Nacional de Balística e o Sistema de Identificação Automatizado de Impressões Papilares exemplificam essa evolução. Contudo, a adequação à transformação digital exige não apenas o uso da tecnologia como prova, mas também a preservação rigorosa da cadeia de custódia digital (Badur, 2025).
A investigação científica de natureza aplicada adotou uma abordagem exploratória com dados qualitativos, utilizando o método de estudo de caso único (Yin, 2015). O objeto de análise foi um órgão de perícia oficial composto por aproximadamente 500 servidores, estruturado em 14 diretorias, das quais oito possuem caráter técnico e seis atuam no suporte administrativo. Para caracterizar os sistemas tecnológicos vigentes, realizou-se um levantamento detalhado junto aos gestores e servidores das diversas unidades da Polícia Científica. Essa etapa inicial ocorreu por meio de solicitações diretas de informação, visando identificar sistemas documentais, finalísticos e métodos de armazenamento de dados. O mapeamento institucional resultante permitiu organizar os recursos tecnológicos disponíveis em uma estrutura comparativa para análise de lacunas e potencialidades.
A coleta de dados subsequente, voltada à percepção dos servidores sobre as ferramentas de governança, utilizou questionários semiestruturados aplicados via plataforma Google Forms. O instrumento de pesquisa baseou-se em escalas do tipo Likert, adaptadas de estudos sobre serviços públicos digitais (Ebling, 2023). A amostragem foi direcionada a diretores e chefes de seções da área técnica, totalizando 17 participantes que representam as variadas frentes de atuação pericial. O processo de análise empregou estatística descritiva para mensurar frequências e percentuais das respostas obtidas. Como produto final da metodologia, elaborou-se um roadmap estratégico, sintetizando os resultados em recomendações práticas para a instituição. Todo o procedimento respeitou preceitos éticos, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, garantindo o anonimato e a confidencialidade das informações fornecidas pelos entrevistados.
A análise dos sistemas em operação revelou que todas as unidades do órgão utilizam o sistema E-Docs para a tramitação documental. Iniciado em 2019 no Estado do Espírito Santo, esse sistema estabelece um padrão mínimo de digitalização ao permitir que ofícios, laudos e processos de compra tramitem em ambiente totalmente digital (Espírito Santo, 2025). Entretanto, observou-se uma disparidade significativa no suporte tecnológico às funções finalísticas. Enquanto setores como o Instituto de Identificação utilizam sistemas específicos como o Certify e o SISCRIM, e o Instituto Médico-Legal opera com o Erebo e o SIGAO, outras áreas carecem de ferramentas dedicadas. Essa falta de uniformidade caracteriza um modelo bimodal, no qual áreas com alta maturidade digital coexistem com setores dependentes de processos analógicos (Haffke et al., 2017). A baixa integração entre os sistemas documentais e técnicos reforça que a instituição ainda se encontra em um estágio de digitalização setorial, distante da transformação digital plena, que pressupõe processos integrados e orientados por dados (Mergel et al., 2019).
No que tange ao armazenamento de dados, identificou-se um cenário heterogêneo e dependente de ferramentas limitadas. A maioria dos setores utiliza planilhas eletrônicas, especificamente o Microsoft Excel, como principal meio para entrada, análise e visualização de informações. Embora o Excel seja acessível, sua utilização como base de dados primária apresenta riscos à escalabilidade, integridade e segurança da informação (Broman e Woo, 2022). Em contrapartida, unidades como o Instituto de Laboratórios Forenses demonstram maior maturidade ao utilizarem bancos de dados relacionais, incluindo PostgreSQL, SQL Server, MySQL e Firebird SQL. Esses sistemas são mais adequados para gerir grandes volumes de dados e garantem maior rastreabilidade, essencial para a atividade pericial (Maruf et al., 2022). A dependência de métodos manuais e a ausência de integração com bancos corporativos indicam que os dados ainda não são plenamente tratados como ativos estratégicos (Brasil, 2020).
O mapeamento dos serviços públicos oferecidos pelo órgão quantificou demandas expressivas em 2024. A emissão de carteiras de identidade registrou 525.000 solicitações, enquanto a emissão de atestados de antecedentes criminais somou 434.000 atendimentos. Ambos os serviços já operam com interação digital, permitindo agendamento via site ou atendimento online. Outros serviços, como a emissão de laudos, que totalizou 55.000 unidades, apresentam digitalização parcial, com entregas presenciais ainda em fase de transição para o sistema E-Docs. Serviços como a liberação de corpos (3.000 ocorrências) e a identificação de pessoas desaparecidas ainda não possuem interface digital para o cidadão. Segundo a classificação de estágios do governo eletrônico, a maioria dos serviços mapeados encontra-se na fase de interação, na qual o cidadão acessa informações e realiza comunicações iniciais, mas ainda não dispõe de uma transação totalmente integrada e segura em tempo real (Viana, 2021).
A percepção dos servidores sobre o estágio de digitalização evidenciou entraves críticos. Embora 82% dos setores tenham iniciado a conversão de dados analógicos, 17,6% ainda operam exclusivamente com informações em papel. Quanto aos laudos periciais, apenas 35% dos respondentes relataram possuir acervo totalmente digitalizado, enquanto 65% mantêm parte dos registros em formato físico. A ausência de sistemas finalísticos em 41% dos setores compromete a rastreabilidade e a cadeia de custódia, princípios fundamentais da ciência forense (Ribaux et al., 2021). Sobre a aderência dos sistemas atuais, 58% dos servidores os consideram entre parcialmente desejáveis e desejáveis, sinalizando uma lacuna para aprimoramentos no desenho e na operação das ferramentas. Apenas 41,7% veem os sistemas como fontes confiáveis para levantamentos estatísticos, o que revela um déficit na cultura de dados que impacta a gestão estratégica e a transparência (Broman e Woo, 2018).
A interação com o usuário final também se mostrou incipiente, com apenas 20% dos setores oferecendo mecanismos de feedback ou avaliação de serviços. Essa baixa adesão contraria modelos de governança digital participativa e responsiva (Philippi, 2023). Os resultados indicaram que 47% dos servidores consideram desejável a avaliação externa, enquanto 35,3% demonstram indiferença e 17,7% são contrários. Essa resistência cultural pode retardar a melhoria contínua dos serviços e a legitimidade institucional perante o cidadão (Ebling, 2023). Quando questionados sobre melhorias prioritárias, os peritos destacaram a necessidade de unificação de sistemas internos e a comunicação direta com órgãos externos, como o Ministério Público e o Poder Judiciário. A demanda por interfaces mais amigáveis, automação na produção de laudos e módulos para extração automatizada de estatísticas reflete o desejo por uma modernização que atenda aos requisitos de volume e velocidade do big data (Zitter, 2022).
As sugestões dos servidores convergem para a criação de plataformas integradas, alinhadas ao conceito de GovTech, que centralizem o fluxo do vestígio desde o acionamento até a entrega do laudo (Brasil, 2022). A urgência na digitalização de acervos físicos e a implementação de sistemas de gerenciamento específicos para áreas como DNA e identificação criminal foram pontos recorrentes. A análise das respostas sugere que os fatores internos, como a gestão de arquivos físicos e a necessidade de padronização, são motivadores mais significativos para a transformação digital do que pressões externas (Mergel et al., 2019). Diante desse diagnóstico, a proposição de um roadmap estruturado em eixos como governança de dados, inteligência de negócio e experiência do usuário torna-se essencial para superar a fragmentação sistêmica e garantir a conformidade com as diretrizes nacionais de governo digital.
A implementação de uma política de governança de dados surge como ação prioritária para assegurar a qualidade, segurança e interoperabilidade das informações periciais. Tal política deve estabelecer comitês gestores, definir metadados padronizados e fomentar o uso de ferramentas de Business Intelligence para apoiar a tomada de decisão institucional. A transição de planilhas isoladas para bancos de dados robustos permitirá a criação de dashboards interativos, aumentando a transparência e a eficiência operacional. Além disso, a expansão dos serviços digitais com foco no usuário final, avançando da fase de interação para a de transação completa, é fundamental para consolidar a modernização do órgão. O investimento em mecanismos de feedback contínuo e em interfaces responsivas poderá elevar a satisfação do cidadão e fortalecer a imagem da instituição como um órgão de excelência tecnológica e científica.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que o diagnóstico revelou um estágio de digitalização fragmentado, com avanços notáveis na tramitação documental administrativa, mas com lacunas críticas na integração de sistemas finalísticos e na gestão estratégica de dados. A predominância do uso de planilhas eletrônicas e a digitalização parcial de laudos evidenciam a necessidade urgente de uma política de governança de dados e da implementação de um sistema único que assegure a cadeia de custódia digital. Embora existam barreiras culturais quanto à avaliação externa, há uma percepção madura dos servidores sobre a importância da modernização tecnológica para a celeridade e transparência dos processos periciais. A adoção do roadmap proposto, focado na integração sistêmica e na experiência do usuário, constitui o caminho necessário para que a instituição alcance a transformação digital plena e cumpra seu papel social com maior eficiência e rigor científico.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em MBA em Data Science, Inteligência Artificial e Analytics
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