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04 de março de 2026

Desafios na Transição de Carreira Técnica para Gestão no Setor de Tecnologia

Caroline Fernandes de Carvalho; Ana Paula Pereira dos Passos

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A transição de carreira compreende o intervalo temporal no qual um profissional executa uma alteração de função ou modifica a orientação dentro de uma atividade já desempenhada. Em grande parte das ocorrências de transição, observam-se variações que englobam discrepâncias significativas entre as atribuições das funções precedentes e as novas responsabilidades, além de uma reconfiguração das expectativas sobre as experiências vivenciadas. A capacidade de gerenciar tais mudanças demonstra-se essencial, uma vez que a duração e o sucesso do processo de transição sofrem influência direta da maneira como o indivíduo compreende as distinções fundamentais entre o papel anterior e o atual (Louis, 1980). No cenário corporativo, indivíduos que dedicam a maior parcela do tempo laboral a atividades técnicas são classificados como especialistas, categoria que abrange engenheiros, cientistas e desenvolvedores de software com formação altamente especializada. Em oposição, supervisores e gerentes são definidos por sua dedicação à supervisão e à gestão de atividades e pessoas (Badawy, 1995). A migração de uma função especialista para a gestão configura uma mudança de paradigma, caracterizada pela saída de um ambiente técnico, pautado por dados concretos e resultados palpáveis, para um contexto gerencial permeado por incertezas e desafios inerentes às dinâmicas interpessoais (Wolfberg, 2024).

Ao assumirem a gestão de equipes, profissionais de tecnologia percebem que a excelência técnica, embora necessária, torna-se insuficiente sem o desenvolvimento de habilidades interpessoais voltadas para a condução eficaz das relações humanas (Custovic e Insaurralde, 2015). É recorrente que organizações promovam especialistas de destaque para posições de liderança sem que estes possuam experiência prévia em gestão direta, ignorando a necessidade de competências específicas para o exercício do novo cargo (Raine, 2018). A carência de competências gerenciais adequadas e a ausência de preparação formal para essa transição resultam, frequentemente, em insucessos no desempenho de gerentes técnicos (Goldberg, 2006). Historicamente, os currículos acadêmicos de áreas exatas e engenharia não contemplam a formação necessária para o desenvolvimento de liderança, e a oferta de treinamentos corporativos voltados para novos líderes ainda é restrita a poucas organizações (Custovic e Insaurralde, 2015). Pesquisas das últimas décadas indicam que, mesmo mantendo o desenvolvimento técnico, gerentes oriundos de áreas de tecnologia carecem de elementos vitais para uma gestão eficiente, como a capacidade de lidar com projetos complexos e incertos, o reconhecimento de emoções e a habilidade de interação social (Wolfberg, 2024).

Para mitigar os riscos da transição, recomenda-se que o profissional se dedique ao desenvolvimento de novas competências e realize ajustes comportamentais profundos, buscando compreender as distinções operacionais entre a rotina técnica e a gerencial. Entre as habilidades fundamentais para o exercício da gestão, destacam-se a tomada de decisão com informações incompletas, a comunicação assertiva, a gestão de conflitos, a administração do tempo e a delegação de tarefas (Goldberg, 2006). A preparação e a efetiva migração de especialistas para cargos gerenciais constituem um dos desafios mais críticos para a área de gestão no século atual (Badawy, 1995). Embora essa problemática não represente uma novidade no campo administrativo, permanece como uma questão não resolvida em diversas organizações contemporâneas, exigindo análises profundas sobre os desafios enfrentados por técnicos do setor de tecnologia durante a adaptação às novas responsabilidades e competências (Wolfberg, 2024).

A investigação dos desafios dessa transição fundamentou-se em uma abordagem qualitativa, de caráter descritivo, com delineamento de pesquisa de campo. O método permitiu a exploração detalhada das percepções de profissionais da área de tecnologia que vivenciaram a migração da carreira técnica para funções de gestão. A seleção dos participantes obedeceu a critérios rigorosos: atuação no setor de tecnologia, experiência prévia consolidada em funções técnicas e exercício atual de cargo de gestão por um período mínimo de dois anos. Esse recorte temporal garantiu que os entrevistados já tivessem superado a fase inicial de choque cultural e possuíssem maturidade para refletir sobre o processo de adaptação. O estudo obteve aprovação prévia do Comitê de Ética em Pesquisa, sob o parecer nº 86573124.4.0000.9927, assegurando o cumprimento de todas as normas éticas vigentes. O recrutamento ocorreu por meio de convites direcionados em plataformas digitais profissionais, como o LinkedIn, além de contatos diretos e presenciais, resultando em uma amostra de oito profissionais brasileiros atuantes em empresas nacionais e multinacionais com operações no Brasil.

O instrumento de coleta de dados consistiu em um roteiro de entrevista semiestruturado, composto por 12 perguntas organizadas em três blocos temáticos. O primeiro bloco focou na evolução da carreira e nas expectativas iniciais em relação à gestão; o segundo explorou os desafios práticos da adaptação à nova função; e o terceiro examinou as dinâmicas de relacionamento interpessoal e liderança. A construção do roteiro utilizou como referência parâmetros estabelecidos em estudos clássicos sobre a transição de engenheiros para cargos gerenciais (Howard, 2003). Antes da aplicação definitiva, realizou-se um pré-teste que indicou a necessidade de incluir questões introdutórias e adaptar a linguagem técnica para favorecer a fluidez do diálogo. As entrevistas foram conduzidas entre os meses de julho e agosto de 2025, via plataforma de videoconferência Zoom, com gravação autorizada mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A duração média das sessões foi de 47 minutos, variando entre 24 e 88 minutos, o que permitiu um aprofundamento significativo nos relatos.

O processo de análise dos dados seguiu os preceitos da análise de conteúdo, estruturado em três etapas fundamentais: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados (Bardin, 2011). Inicialmente, as gravações foram transcritas com o suporte do software Notta AI, garantindo a integridade das falas. Na pré-análise, realizou-se a leitura flutuante das transcrições para a organização das ideias preliminares. Na fase de exploração, os trechos relevantes foram categorizados em eixos temáticos que fundamentaram a discussão. Por fim, o tratamento dos resultados envolveu a inferência e a interpretação, confrontando os dados empíricos com a base teórica previamente estabelecida. A amostra foi composta por coordenadores, gerentes e um vice-presidente, com tempos de gestão variando entre dois e cinco anos, liderando equipes de quatro a oito subordinados diretos. Essa diversidade de cargos e estruturas permitiu uma visão abrangente dos desafios em diferentes níveis da hierarquia organizacional no setor de tecnologia.

A análise das trajetórias profissionais revelou que a transição para a gestão frequentemente é precedida pelo exercício de papéis intermediários de liderança. Sete dos oito participantes atuaram como líderes técnicos ou “Tech Leads” antes da promoção formal. Essa experiência prévia demonstrou ser uma etapa estratégica, permitindo o acúmulo de bagagem em liderança e a visibilidade necessária para a ascensão. O papel de líder técnico, embora careça de uma definição universal, combina a atuação especializada com responsabilidades de coordenação, exigindo capacidade de influência mesmo sem autoridade hierárquica formal (Fournier, 2017). Esse estágio intermediário funciona como uma porta de entrada para a gestão, identificando profissionais de alta performance como candidatos naturais a promoções em empresas de tecnologia em expansão (Orosz, 2023). O domínio técnico aliado a competências interpessoais torna o profissional uma referência para o grupo, transmitindo confiança e servindo como ponto de apoio para a equipe (Werewka et al., 2017).

Um dos desafios mais acentuados identificados nos relatos diz respeito à reconfiguração do modo de pensar, migrando da mentalidade técnica para a compreensão estratégica. Ao assumir funções gerenciais, o profissional precisa desviar o olhar da resolução de problemas lógicos e específicos para desenvolver uma visão integrada às dinâmicas organizacionais. A dificuldade reside no fato de que contextos gerenciais não seguem a lógica formal e objetiva típica do segmento de tecnologia. Observou-se que especialistas técnicos frequentemente possuem pouco entendimento sobre a visão global da companhia no momento da promoção, embora a organização espere que eles já dominem esse panorama. A formação acadêmica técnica prioriza habilidades analíticas e de projetos, negligenciando competências como comunicação e trabalho em equipe (Goldberg, 2006). Atualmente, o domínio técnico isolado é insuficiente, pois os especialistas estão inseridos em ambientes corporativos complexos, distantes da abordagem puramente objetiva (Falls e Paul, 2015).

A transição também impõe um processo de ajuste de expectativas em relação ao papel gerencial. Muitos profissionais descrevem frustrações iniciais quanto à autonomia no cargo e ao poder de influência nas decisões estratégicas. A expectativa de manter o protagonismo técnico e a agilidade nas entregas confronta-se com a realidade das demandas gerenciais, que exigem um realinhamento constante entre o imaginado e o executado. Esse movimento de reconstrução das ideias sobre o que significa ser gestor é impulsionado por surpresas vivenciadas no cotidiano, como a carga de trabalho intensa e a dependência de outros atores organizacionais (Hill, 2003). É comum que o profissional, ao assumir o cargo, inicie reflexões profundas sobre o propósito da função e o alinhamento com seus objetivos pessoais (Morris, 2001). Nesse cenário, observam-se duas trajetórias: a evolução para a alta liderança ou o abandono da função gerencial em busca de caminhos distintos (Raulgaonkar, 2022).

O afastamento da operação técnica emergiu como um ponto central de atrito. Essa dificuldade é catalisada pela estrutura da equipe, pela resistência em delegar e pelo interesse pessoal do novo gestor em manter-se atualizado tecnicamente. A escassez de integrantes nas equipes e o volume elevado de demandas operacionais impedem, muitas vezes, o desvínculo das atividades técnicas. Em contrapartida, a presença de líderes técnicos seniores nas equipes atua como um facilitador, permitindo que o gestor foque em atribuições administrativas e estratégicas. A ineficiência na delegação é um traço comum em gerentes com formação técnica, que acreditam poder executar as tarefas melhor do que seus subordinados (Badawy, 1995). Além disso, a afinidade pessoal com o desenvolvimento de código e a resolução de problemas técnicos gera resistência em renunciar a projetos anteriores, resultando em acúmulo de demandas e dispersão de foco (Goldberg, 2006). A limitação no número de profissionais disponíveis gera sobrecarga e eleva os níveis de estresse, dificultando a consolidação da nova identidade profissional (Hayashi, 2025).

No âmbito das habilidades gerenciais, a comunicação foi identificada como a competência mais crítica e desafiadora. A adaptação ao novo escopo relacional exige o desenvolvimento de uma linguagem específica para o contato com níveis hierárquicos superiores, cujas prioridades diferem das do corpo técnico. O gestor passa a atuar como um agente de intermediação, garantindo que a informação flua de maneira eficaz entre a empresa e os colaboradores. A comunicação é o fator essencial para o sucesso da liderança, sendo a ferramenta gerencial mais importante em um ambiente corporativo marcado pela multiplicidade de partes interessadas (Sen, 2009). Essa complexidade comunicacional vincula-se à necessidade de navegação no cenário político organizacional. O gerenciamento de relacionamentos é a parte mais crítica da função de um gerente técnico, pois a saúde dessas interações determina o alcance dos resultados (Aucoin, 2018). A proficiência nas relações profissionais é alcançada por meio do reconhecimento da criticidade das políticas internas e da habilidade de atuar nessa esfera com diplomacia.

O domínio de temas relacionados à gestão de pessoas, como performance, carreiras e feedback, também representou um desafio significativo. O papel de líder concentra a responsabilidade de influenciar diretamente a trajetória profissional da equipe, o que exige justiça nas avaliações e assertividade na transmissão de feedbacks negativos. Após a promoção, o gestor torna-se responsável não apenas por sua performance, mas por estimular o desempenho de seus liderados, o que configura uma extensão considerável de responsabilidades (Morris, 2001). A capacidade de oferecer direcionamento e tomar decisões impacta diretamente o sentimento de propósito dos colaboradores, conferindo valor ao trabalho realizado. Elementos como o estabelecimento de objetivos claros, a defesa da equipe e o reconhecimento de conquistas são fundamentais para uma liderança eficaz no setor de tecnologia.

A investigação apontou, ainda, uma carência de apoio estruturado por parte das organizações durante o período de transição. A ausência de treinamento formal e direcionamento institucional obriga muitos profissionais a buscarem aprendizado por meio de experiências externas ou por necessidade imediata. O segmento de tecnologia possui um histórico de promover pessoas qualificadas tecnicamente sem oferecer a preparação essencial para a nova função (Daniels, 2015). Diante da insuficiência do suporte corporativo, fontes alternativas de apoio, como a mentoria de gestores seniores e a troca de experiências com pares, tornam-se ferramentas cruciais. Treinamentos formais, embora necessários, possuem papel limitado se não forem desenhados para dar suporte ao aprendizado prático e à experiência cotidiana (Hill, 2003). À medida que ganham confiança, novos gerentes tornam-se mais propensos a buscar aconselhamento, encontrando em líderes experientes as funções essenciais da mentoria.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise detalhada revelou que a transição de carreira técnica para a gestão no setor de tecnologia é um processo multifacetado, marcado por desafios que transcendem a mera aquisição de novos conhecimentos. A pesquisa demonstrou que o exercício prévio de liderança técnica atua como um facilitador, mas não elimina a necessidade de uma reconfiguração profunda da mentalidade, que deve migrar do foco operacional para a visão estratégica. Os principais obstáculos identificados incluem a dificuldade em abandonar tarefas técnicas, a frustração decorrente do desajuste de expectativas e a urgência no desenvolvimento de competências de comunicação e articulação política. A carência de suporte institucional estruturado evidencia a necessidade de um compromisso mais proativo das organizações no preparo de seus líderes, sugerindo que a combinação de treinamentos formais com programas de mentoria e troca entre pares é o caminho mais eficaz para mitigar os riscos de insucesso e garantir uma transição sustentável e produtiva.

Referências Bibliográficas:

Aucoin, B. M. (2018). From Engineer to Manager: Mastering the Transition. 2ed. Artech House.
Badawy, M. K. (1995). Developing Managerial Skills in Engineers and Scientists. 2ed. John Wiley & Sons.
Bardin, L. (2011). Análise de Conteúdo. Trad. Luís Antero Reta e Augusto Pinheiro. Edições 70.
Custovic, E., & Insaurralde, C. (2015). From engineer to manager, mastering the transition: leadership qualities. IEEE Engineering Management Review.
Falls, L. G. C., & Paul, R. (2015). Engineering Leadership Education: A Review of Best Practices. 2015 ASEE Annual Conference & Exposition.
Fournier, C. (2017). The Manager’s Path: A Guide for Tech Leaders Navigating Growth and Change. O’Reilly Media.
Goldberg, J. R. (2006). Making the transition from technologist to manager. Biomedical Instrumentation & Technology.
Hayashi, Y. (2025). Formação de Lideranças Técnicas e a Escassez Global de Mão de Obra. RCMOS – Revista Científica Multidisciplinar O Saber.
Hill, L. A. (2003). Becoming a Manager: How New Managers Master the Challenges of Leadership. 2ed. Harvard Business School Publishing.
Howard, C. A. (2003). From Engineer to Engineering Manager: A qualitative study of experiences, challenges, and individual transitions for engineering managers in aerospace companies. Tese de Doutorado. The Pennsylvania State University.
Louis, R. M. (1980). Career transitions: varieties and commonalities. Academy of Management Review.
Morris, M. (2001). The First-time Manager: The First Steps to a Brilliant Management Career. 2ed. Kogan Page Limited.
Orosz, G. (2023). B The Software Engineer’s Guidebook. Pragmatic Engineer BV.
Raine, A. S. (2018). Leadership development as perceived by former subject-matter experts transitioning to leader-manager in the modern workplace. Tese de Doutorado. Saybrook University.
Raulgaonkar, H. (2022). Success of the ‘first-time first-line manager’: model development and validation. Emerald Open Research.
Sen, L. (2009). Communication Skills. 2ed. PHI Learning Private Limited.
Werewka, J., Wietecha, M., & Wołczyk, K. (2017). Distinguishing and defining the role of a technical leader in outsourced teams developing IT solutions using Scrum. Communication papers of the Federated Conference on Computer Science and Information Systems.
Wolfberg, A. (2024). The transition from engineer to manager: the roles of cognitive and affective qualities at the individual and social levels. In: National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. The National Academies Press.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em MBA em Gestão de Pessoas

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