October 08, 2026
Modelagem de emissão de CO2: Clusterização a partir de variáveis socioeconômicas e energéticas.
Modelagem de Emissão de Co2: Clusterização a Partir de Variáveis Socioeconômicas e Energéticas.
Karina da Silva Ferraz; Lauro Marques Vicari
DOI: 10.22167/2675-6528-202603108
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Um estudo aplicou técnicas de clusterização, com foco no algoritmo K-means, para agrupar os 20 membros do G20, incluindo a União Europeia, com base em sete variáveis socioeconômicas, energéticas e ambientais referentes ao ano de 2025. As variáveis consideradas foram Produto Interno Bruto (PIB), população, emissões de CO2 per capita, emissões de CO2 da construção civil, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), índice de Gini e participação de fontes renováveis na matriz energética. A relevância do setor da construção civil para as emissões globais e seu potencial de redução justificaram sua inclusão. O número ótimo de agrupamentos foi determinado pela combinação do método do cotovelo e do Índice de Silhouette, resultando em quatro clusters distintos. A Análise de Componentes Principais (PCA) foi empregada para visualizar os agrupamentos, e as duas primeiras componentes explicaram 69,86% da variabilidade dos dados. O Cluster 0, composto por China e Índia, caracterizou-se por elevada população e altas emissões da construção civil. O Cluster 1, com 12 países, apresentou alto desenvolvimento humano e elevadas emissões per capita. O Cluster 2, formado por Brasil, Indonésia, México e África do Sul, exibiu o menor PIB médio, maior desigualdade e baixas emissões per capita. O Cluster 3, que incluiu Estados Unidos e União Europeia, concentrou o maior PIB médio e as maiores emissões per capita. Os resultados evidenciaram a heterogeneidade entre os países do G20 e reforçaram a necessidade de políticas climáticas diferenciadas, adaptadas às características de cada grupo.
Palavras-chave: Cluster; CO2; Emissão; K-means; Países.
1. Introdução
As discussões climáticas globais têm se intensificado, especialmente em eventos recentes, evidenciando a urgência de estudos que subsidiem a formulação de políticas climáticas eficazes e adaptadas às realidades de cada nação. Observa-se que as emissões de dióxido de carbono (CO2) variam significativamente entre os países, estando intrinsecamente ligadas ao nível de desenvolvimento econômico e ao consumo energético, além de apresentarem uma concentração elevada em determinadas economias (Ritchie et al., 2023).
Nesse cenário, a classificação de países com base em variáveis socioeconômicas, energéticas e ambientais emerge como uma abordagem estratégica para a comparação entre diferentes economias. Ao agrupar nações com características semelhantes, torna-se possível identificar perfis estruturais de emissão e compreender os diversos contextos que as influenciam. Essa perspectiva está em consonância com os apontamentos do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC, 2023), que ressalta a variação das capacidades de mitigação — entendidas como a habilidade dos países de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa a partir de fatores como nível de renda, acesso à tecnologia, estrutura produtiva e composição da matriz energética — o que exige a adoção de estratégias diferenciadas no enfrentamento das mudanças climáticas.
O Grupo dos Vinte (G20) desempenha um papel central nas emissões globais de CO2. Esses países são responsáveis por mais de oitenta por cento das emissões mundiais, conforme dados da Our World in Data (Ritchie et al., 2023), o que reflete a alta concentração de atividades industriais, o uso intensivo de combustíveis fósseis e os elevados níveis de consumo energético nessas economias. Consequentemente, as maiores economias tendem a ter uma parcela maior nas emissões e, portanto, uma maior responsabilidade na implementação de iniciativas de mitigação.
Estudos recentes têm empregado técnicas de clusterização para investigar padrões de emissão e desenvolvimento entre países. Wardhani et al. (2023), por exemplo, utilizaram o algoritmo k-means para analisar a relação entre emissões de CO2, consumo de energia e crescimento econômico, identificando agrupamentos onde países desenvolvidos exibem maiores níveis de consumo energético e emissão. De modo similar, Kwon et al. (2018) aplicaram a análise de agrupamento com k-means para identificar perfis de emissão em países asiáticos, concluindo que nações com características semelhantes podem ser organizadas em grupos, o que aponta para a necessidade de políticas climáticas diferenciadas. Chalikias et al. (2015) também analisaram padrões de emissão a partir de variáveis econômicas e energéticas, combinando clusterização hierárquica e k-means, e observaram que países com estruturas análogas tendem a apresentar padrões de emissão próximos.
A contribuição desta pesquisa reside na aplicação de métodos de análise de dados a indicadores socioeconômicos, energéticos e ambientais, ampliando a compreensão das similaridades e heterogeneidades entre os países do G20 e fortalecendo uma abordagem empírica orientada por dados. Com os resultados, espera-se prover insumos para debates sobre a política internacional de transição energética, contribuindo assim para a agenda climática. Assim, o presente trabalho tem como objetivo identificar e caracterizar os países do G20 em grupos com padrões semelhantes de emissões de CO2, desenvolvimento socioeconômico e estrutura energética, por meio da aplicação de técnicas de análise de cluster.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza aplicada, empírica e quantitativa, fundamentado na análise de dados secundários para a identificação de padrões estatísticos entre países. Adotou-se uma abordagem descritiva, visando compreender a articulação de diferentes dimensões socioeconômicas, energéticas e ambientais, sem a pretensão de estabelecer relações causais, mas sim de revelar estruturas e perfis presentes nos dados (Gil, 2025).
A estratégia de pesquisa empregou técnicas de clusterização, com foco no algoritmo k-means, para agrupar os países do G20. A unidade de análise consistiu nos 20 membros do Grupo dos Vinte, considerando a União Europeia como um único membro. Os dados utilizados foram referentes ao ano de 2025, obtidos a partir de projeções e estimativas disponíveis em bases públicas.
O banco de dados foi construído mediante a integração de informações provenientes de diversas plataformas e fontes de domínio público. Utilizaram-se dados da Our World in Data [OWID], do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa [SEEG], do The Institute of International & European Affairs [IIEA], The global economy, World Economic Outlook, UNDP (United Nations Development Programme), World development indicators e Global Electricity data/Ember. Essas fontes disponibilizam dados padronizados e comparáveis em escala internacional.
Para a análise, selecionaram-se sete variáveis quantitativas, referentes ao ano de 2025, que permitiram captar o volume total das emissões, aspectos populacionais, condições socioeconômicas e a estrutura energética das nações. As variáveis incluíram Produto Interno Bruto (PIB), população, emissões de CO2 per capita, emissões de CO2 da construção civil, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), índice de Gini e participação de fontes renováveis na matriz energética.
A inclusão da variável de emissões de CO2 da construção civil justificou-se pela relevância do setor nas emissões globais de gases de efeito estufa e seu potencial de mitigação. Estudos indicam que o setor de edificações e construção é responsável por uma parcela significativa das emissões de CO2 relacionadas à energia (IEA, 2022; UNEP, 2020), e práticas sustentáveis podem reduzir essas emissões (Wardhani et al., 2023).
Os dados coletados foram inicialmente importados para o software Microsoft Excel, onde se realizou uma etapa preliminar de organização e tratamento. Posteriormente, para o processamento, análise e modelagem, utilizou-se a linguagem de programação Python, em conjunto com as bibliotecas pandas, NumPy, scikit-learn e Matplotlib.
Na etapa de preparação dos dados, as informações foram organizadas em um DataFrame. Realizou-se uma análise exploratória inicial por meio de estatísticas descritivas, que incluíram média, desvio padrão, valores mínimos e máximos, para compreender a distribuição e a variabilidade das variáveis. Gráficos de dispersão e a matriz de dispersão (pairplot) foram empregados para identificar padrões e relações entre as variáveis.
Verificou-se que os dados não apresentavam inconsistências relevantes. Em seguida, procedeu-se à padronização das variáveis por meio da normalização Z-score, assegurando que todas apresentassem média zero e desvio padrão unitário. Esse procedimento foi fundamental para algoritmos baseados em distância, como o k-means, evitando que variáveis com diferentes escalas exercessem influência desproporcional na formação dos clusters (Han et al., 2012).
A segmentação dos países foi realizada por meio da aplicação do algoritmo de clusterização k-means, amplamente utilizado em estudos empíricos. O método organizou os dados para maximizar a similaridade intra-cluster e minimizar a inter-cluster, utilizando a distância euclidiana como medida de proximidade (James et al., 2013). O algoritmo atribuiu cada país ao centroide mais próximo, conforme a proximidade calculada, considerando o número total de variáveis e seus respectivos valores para o país e o centroide (Wardhani et al., 2023).
A definição do número adequado de clusters fundamentou-se em critérios estatísticos, combinando o método do cotovelo e o Índice de Silhouette. O método do cotovelo analisou o comportamento da inércia, identificando o ponto a partir do qual a redução da inércia se torna menos expressiva (James et al., 2013). O Índice de Silhouette avaliou a relação e a separação entre os clusters, comparando distâncias médias intra e inter-cluster (Han et al., 2012; Kaufman & Rousseeuw, 2005). A utilização conjunta desses métodos permitiu selecionar um número de clusters que apresentou equilíbrio entre qualidade estatística e estabilidade dos agrupamentos.
Para a visualização dos agrupamentos e a síntese das informações contidas nas variáveis originais, aplicou-se a Análise de Componentes Principais (PCA). Essa técnica de redução de dimensionalidade transformou linearmente as variáveis em componentes principais não correlacionadas, ordenadas de acordo com a variância explicada, preservando a maior parte da variabilidade dos dados (Jolliffe; Cadima, 2016). A PCA contribuiu para tornar mais evidente a separação entre os grupos em um espaço bidimensional (Han et al., 2012).
3. Resultados e Discussão
A análise dos dados dos países do G20, com foco em variáveis socioeconômicas, energéticas e ambientais, revelou padrões de agrupamento distintos, conforme o objetivo de identificar e caracterizar grupos com perfis semelhantes. A aplicação do algoritmo K-means permitiu segmentar os 20 membros do G20, incluindo a União Europeia, em clusters que refletem a heterogeneidade estrutural dessas economias. Os resultados obtidos fornecem uma base empírica para a compreensão das dinâmicas de emissão de CO2 e das capacidades de mitigação, alinhando-se à necessidade de políticas climáticas diferenciadas, conforme apontado pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC, 2023).
A definição do número ótimo de agrupamentos foi um passo crucial, utilizando-se a combinação do método do cotovelo e do Índice de Silhouette. O método do cotovelo, que avalia a inércia, indicou que a redução mais significativa na inércia ocorre até quatro clusters, sugerindo que a criação de grupos adicionais a partir desse ponto geraria ganhos marginais de explicação. O Índice de Silhouette, por sua vez, avalia a coesão e a separação dos clusters, com valores mais elevados indicando agrupamentos mais bem definidos e com menor sobreposição entre si. Embora valores menores de k (como dois ou três) pudessem apresentar maior separação estatística, a escolha de quatro clusters (k=4) foi considerada a mais adequada, pois proporcionou um equilíbrio entre a qualidade estatística e a interpretabilidade dos perfis identificados, permitindo um detalhamento maior das características de cada grupo, conforme recomendado por James et al. (2013).
A análise das características dos países a partir da definição de quatro clusters foi realizada com base nos valores médios das variáveis para cada grupo. Essa abordagem revelou diferenças numéricas significativas entre os clusters, demonstrando que, embora os países do G20 possam ser classificados como relevantes no cenário global, seus perfis estruturais são bastante distintos. A escolha de k=4 permitiu evidenciar quantitativamente que nações com papel econômico e político semelhante podem apresentar padrões ambientais, econômicos e sociais significativamente distintos, o que seria obscurecido por um número menor de agrupamentos.
Cluster 0: China e Índia
O Cluster 0, composto por China e Índia, destacou-se pela maior média populacional, atingindo 1.416 milhões de habitantes, e por elevados níveis de emissões totais de CO2 na construção civil, com 825 milhões de toneladas. Contudo, as emissões per capita foram moderadas, de 5,05 toneladas de CO2 por habitante, e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) médio foi de 0,71. Esse perfil sugere economias de grande escala populacional, onde o volume total de emissões é elevado, mas diluído quando considerado por habitante. A combinação de grande demanda estrutural com níveis intermediários de desenvolvimento é uma característica marcante deste grupo.
A análise do perfil padronizado das variáveis revelou que, apesar de estarem no mesmo cluster, China e Índia exibem diferenças notáveis. A China apresentou um escore elevado e positivo para o Produto Interno Bruto (PIB), com Z = 1,86, enquanto a Índia registrou um escore negativo (Z = –0,17). Em relação às emissões de CO2 per capita, a China teve um escore próximo de zero (Z = 0,02), enquanto a Índia apresentou um escore fortemente negativo (Z = –1,31). Essas distinções explicam a separação observada na Análise de Componentes Principais (PCA), onde a China se deslocou em direção ao Cluster 3 (maior PIB e emissões per capita) e a Índia se aproximou do Cluster 2 (menor PIB e emissões per capita).
O algoritmo K-means agrupou China e Índia no mesmo cluster devido a características fundamentais que a PCA não prioriza, como a elevada população (Z = 2,88 para China e 2,90 para Índia), as altas emissões totais da construção civil (Z = 3,26 para China e 0,72 para Índia) e o IDH moderado (Z = –0,89 para China e -2,25 para Índia). Essas variáveis têm peso relevante na distância euclidiana utilizada pelo K-means, garantindo que os dois países permaneçam no mesmo agrupamento. A PCA e o K-means, portanto, capturam aspectos complementares dos dados, revelando similaridades estruturais que vão além das diferenças econômicas imediatas.
As principais fontes de emissão para China e Índia, conforme a análise setorial, incluem eletricidade e calor, indústria, transportes e agricultura. Na China, a forte utilização de combustíveis fósseis, especialmente carvão, na geração de eletricidade, a produção industrial de aço e cimento, a elevada atividade construtiva e o transporte são as principais causas. Na Índia, além do elevado uso de carvão na geração elétrica e da expansão industrial e do transporte, destacam-se as emissões de CH4 e N2O associadas à agricultura. Para este grupo, diretrizes voltadas à melhoria da eficiência produtiva e energética, bem como investimentos em infraestrutura sustentável, são relevantes.
As políticas climáticas para o Cluster 0 devem priorizar a redução da intensidade de carbono no processo de industrialização e na expansão urbana. Medidas como a ampliação da eficiência energética na indústria, a modernização de equipamentos, a redução do desperdício de materiais e a substituição gradual de combustíveis fósseis por fontes de menor intensidade de carbono são essenciais. No setor da construção, a adoção de padrões de eficiência energética para novas edificações, maior utilização de materiais de menor intensidade de carbono e a incorporação de estratégias de iluminação e ventilação naturais podem gerar impactos significativos na redução das emissões, dada a escala populacional desses países.
Cluster 1: Países Desenvolvidos e em Transição
O Cluster 1, que compreende Argentina, Austrália, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Rússia, Arábia Saudita, Coreia do Sul, Turquia e Reino Unido, apresentou uma população média menor, de 69 milhões de habitantes, mas com alto IDH médio de 0,90 e níveis elevados de emissão per capita, de 9,50 toneladas de CO2 por habitante. A participação de fontes renováveis na matriz energética foi a menor entre os clusters, com 18,92%. Esse perfil indica economias em diferentes estágios de desenvolvimento, com elevado padrão de consumo energético e dependência de combustíveis fósseis.
No perfil padronizado das variáveis, a Arábia Saudita se destacou como um outlier, com o maior Z-score para CO2 per capita (Z = 2,20) e o menor para participação de renováveis (Z = −2,13), evidenciando sua extrema dependência de combustíveis fósseis. Austrália (Z = 1,49) e Canadá (Z = 1,42) também apresentaram emissões per capita elevadas, enquanto França (Z = −0,74) e Itália (Z = -0,47) ficaram abaixo da média, indicando maior eficiência energética. Essas variações internas demonstram a heterogeneidade dentro do próprio cluster, apesar das semelhanças gerais.
As fontes de emissão para o Cluster 1 estão associadas principalmente aos setores de energia, indústria e transportes. Países como Rússia, Austrália e Arábia Saudita, com forte dependência da exploração de petróleo, gás ou carvão, necessitam de estratégias de diversificação econômica e transição justa para reduzir os impactos sociais da descarbonização. Para esse grupo, políticas voltadas à transição energética, com ampliação da participação de fontes renováveis e incentivo à eficiência energética, são estratégicas. A melhoria da eficiência energética de edifícios e instalações industriais, bem como a eletrificação dos transportes, são medidas prioritárias.
Cluster 2: Economias em Desenvolvimento
O Cluster 2, formado por Brasil, Indonésia, México e África do Sul, exibiu o menor PIB médio, de US$ 1,35 trilhão, as menores emissões per capita, de 3,95 toneladas de CO2 por habitante, e o maior nível médio de desigualdade, com um Índice de Gini de 49,75. A participação média de fontes renováveis na matriz energética foi de 29%, relativamente maior que a do Cluster 1. Esse perfil indica economias em desenvolvimento com menor impacto ambiental direto, mas com desafios estruturais relevantes, especialmente no campo social, e maior vulnerabilidade socioeconômica.
Apesar das semelhanças nas variáveis de clusterização, os países do Cluster 2 possuem estruturas de emissão distintas. Brasil e Indonésia apresentam forte influência da mudança do uso da terra, do desmatamento e das atividades agropecuárias, enquanto México e África do Sul têm maior participação de atividades relacionadas à energia e ao uso de combustíveis fósseis. No perfil padronizado, a África do Sul apresentou o maior escore para Gini (Z = 3,18), seguida pelo Brasil (Z = 1,88), refletindo altos níveis de desigualdade social. Brasil (Z = 2,25) e Indonésia (Z = 0,98) se destacaram positivamente na participação de renováveis.
Essa heterogeneidade evidencia que políticas climáticas uniformes para o Cluster 2 seriam pouco eficazes. Para Brasil e Indonésia, a prioridade deve ser o combate ao desmatamento, a restauração florestal e práticas agropecuárias de baixo carbono. Para México e África do Sul, as medidas devem concentrar-se na aceleração da transição energética, redução da dependência de combustíveis fósseis e aumento da eficiência dos setores industrial e de transportes. Para todos os países do grupo, políticas de infraestrutura e habitação de baixo carbono podem conciliar expansão econômica, redução das desigualdades e das emissões.
Cluster 3: Economias Altamente Desenvolvidas e Intensivas em Emissões
O Cluster 3, que inclui Estados Unidos e União Europeia, concentrou os maiores valores médios de PIB (US$ 21,95 trilhões) e as maiores emissões per capita, de 11,25 toneladas de CO2 por habitante. O IDH médio foi elevado, de 0,91. Esse grupo é caracterizado por economias altamente desenvolvidas e intensivas em emissões, com elevados níveis de atividade econômica e, consequentemente, maior intensidade de emissão por indivíduo. Esse padrão reforça a associação entre desenvolvimento econômico e maior impacto ambiental, embora mediado por fatores tecnológicos e estruturais.
No perfil padronizado, os Estados Unidos apresentaram os maiores escores para PIB (Z = 3,20) e CO2 per capita (Z = 1,38), enquanto a União Europeia teve PIB elevado (Z = 1,76), mas CO2 per capita próximo da média (Z = −0,07) e Gini negativo (Z = −0,99), indicando maior eficiência relativa e menor desigualdade. As principais fontes de emissão para este cluster são transportes, eletricidade e calor, indústria e edifícios. A elevada escala econômica desses membros está associada a um expressivo consumo energético e à participação desses setores nas emissões.
As políticas climáticas para o Cluster 3 podem combinar instrumentos regulatórios, econômicos e tecnológicos, considerando a elevada capacidade financeira e institucional desses integrantes. Medidas prioritárias incluem a eletrificação dos transportes, a ampliação das fontes renováveis, a melhoria da eficiência energética dos edifícios, a redução da intensidade de carbono dos processos industriais e o desenvolvimento de materiais de construção de menor impacto ambiental. Tecnologias como captura e armazenamento de carbono e hidrogênio de baixa emissão podem contribuir para a descarbonização de atividades de difícil eletrificação, enquanto programas de retrofit energético e padrões de desempenho para edificações podem reduzir emissões no ciclo de vida das construções.
Análise Geral das Variáveis e Relações
A análise descritiva das variáveis revelou uma grande dispersão entre os países, especialmente em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), à população e às emissões de CO2. O PIB, por exemplo, variou de US$ 0,41 trilhão a US$ 26,90 trilhões, com uma média de US$ 4,88 trilhões e desvio padrão de US$ 7,06 trilhões, indicando uma forte concentração da atividade econômica em poucos membros do grupo. Em contraste, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apresentou menor variabilidade, oscilando entre 0,644 e 0,951, com média de 0,848 e desvio padrão de 0,093, refletindo maior homogeneidade.
A visualização das relações entre as variáveis, incluindo o “pairplot”, indicou que a maior parte dos países se concentra em níveis relativamente baixos de PIB e emissões, enquanto poucos casos apresentam valores extremos. Observou-se uma tendência de que países com maior PIB também apresentem maiores níveis de emissão de CO2. No entanto, essa relação não é linear, pois existem países com PIB inferior a US$ 5 trilhões e emissões superiores a 10 toneladas de CO2 por habitante. Isso reforça a influência de fatores como a composição da matriz energética, a estrutura produtiva, a eficiência tecnológica e os padrões de consumo, que modulam essa relação.
A Análise de Componentes Principais (PCA) corroborou esses resultados, explicando 39,37% da variância dos dados na primeira componente principal (PC1) e 30,49% na segunda componente principal (PC2), totalizando 69,86% da variabilidade acumulada. Esse percentual indica que a maior parte das informações contidas nas sete variáveis foi preservada na representação bidimensional, permitindo visualizar a separação entre os clusters e confirmar que países com relevância econômica e política semelhante podem apresentar perfis ambientais e sociais significativamente diferentes. A visualização dos clusters no espaço bidimensional da PCA tornou evidente a separação entre os grupos, como observado na distribuição dos países.
Em síntese, os resultados da clusterização do G20 demonstraram a existência de quatro perfis distintos de países, cada um com características socioeconômicas, energéticas e ambientais específicas. Essa heterogeneidade sublinha a inadequação de políticas climáticas padronizadas e reforça a necessidade de abordagens de mitigação diferenciadas, adaptadas às realidades de cada grupo. A análise evidenciou que a similaridade econômica ou política entre os membros do G20 não implica necessariamente similaridade ambiental, social ou energética, o que torna a análise de cluster uma ferramenta valiosa para subsidiar debates sobre a política internacional de transição energética e a agenda climática global.
4. Conclusão
O presente estudo buscou identificar e caracterizar os países do G20 em grupos com padrões semelhantes de emissões de CO2, desenvolvimento socioeconômico e estrutura energética, por meio da aplicação de técnicas de análise de cluster. Verificou-se a existência de quatro agrupamentos distintos, revelando a heterogeneidade intrínseca entre os membros do G20. O Cluster 0, composto por China e Índia, destacou-se pela elevada população e altas emissões da construção civil, com emissões per capita moderadas. O Cluster 1, que reuniu doze países desenvolvidos e em transição, apresentou alto desenvolvimento humano e elevadas emissões per capita, com baixa participação de fontes renováveis. O Cluster 2, formado por Brasil, Indonésia, México e África do Sul, exibiu o menor PIB médio, menores emissões per capita e maior desigualdade social, com estruturas de emissão variadas. Por fim, o Cluster 3, que incluiu Estados Unidos e União Europeia, concentrou o maior PIB médio e as maiores emissões per capita, caracterizando economias altamente desenvolvidas e intensivas em emissões. Essa segmentação oferece insumos empíricos para o debate sobre a política internacional de transição energética, reforçando a necessidade de abordagens climáticas diferenciadas e adaptadas às realidades de cada grupo.
Como limitação, a análise baseou-se em dados referentes a um único período e em valores médios, o que não permitiu avaliar a evolução temporal dos países nem estabelecer relações causais entre as variáveis. Além disso, os agrupamentos apresentaram tamanhos desiguais, exigindo cautela na comparação das médias e na generalização dos resultados. Para estudos futuros, sugere-se a incorporação de séries temporais para acompanhar as mudanças na composição dos clusters ao longo dos anos. Recomenda-se também a inclusão de variáveis adicionais, como emissões totais absolutas, composição setorial da economia e investimentos em inovação, bem como a aplicação de outros métodos de agrupamento, como clusterização hierárquica e DBSCAN, para testar a estabilidade e a robustez dos resultados. O estudo demonstrou que técnicas de Ciência de Dados e análise multivariada podem superar limitações de classificações tradicionais, revelando padrões que não seriam facilmente identificados em análises isoladas.
Referências Bibliográficas
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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