
26 de fevereiro de 2026
Manifestações e impactos do humor na cultura da manutenção aeronáutica
Gabriel Batista de Lima Ferenczi; Vinícius Rennó Castro
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisou como o humor se manifesta no ambiente de trabalho dos técnicos em manutenção aeronáutica e seus possíveis impactos na segurança operacional. Especificamente, a pesquisa buscou analisar a frequência dos diferentes tipos de humor, correlacioná-los com o perfil sociodemográfico dos profissionais e discutir como as expressões humorísticas podem influenciar práticas da cultura de segurança. A premissa é que o humor, em um setor de alta complexidade técnica e pressão, atua como modulador das relações interpessoais, contribuindo para a redução do estresse, o fortalecimento de vínculos e a melhoria do clima organizacional.
O humor emerge como uma forma de comunicação capaz de transmitir mensagens implícitas e suavizar críticas (Irigaray, et al., 2010). Funciona como uma linguagem paralela para expressar ideias de difícil articulação formal. A presença do humor no trabalho pode ser um testemunho de boa adaptação e saúde mental, permitindo que os indivíduos encontrem prazer em suas interações (Verdeau-Paillès, 1998; José e Parreira, 2008). Essa capacidade se torna relevante em profissões de alta responsabilidade, como a manutenção de aeronaves; a tensão é constante.
Para a análise, adotou-se a classificação de Korczynski (2011), que categoriza o humor organizacional em três tipos. O primeiro, “humor de rotina”, transforma atos, jargões e procedimentos técnicos em piadas. O segundo, “humor de repetição”, expõe o ridículo de certas tarefas, permitindo que os trabalhadores riam do processo. Por fim, a “inversão de rotina” manifesta-se através de palhaçadas e da subversão de expectativas, desafiando simbolicamente a autoridade.
O estudo do humor alinha-se às transformações nas práticas de gestão, que se afastaram de controles rígidos em favor de modelos mais flexíveis e humanizados (Aktouf, 1996; Motta, et al, 1995; Mintzberg, 2011). Nesse paradigma, o clima organizacional é um fator crítico para o desempenho, e o humor pode ser um indicador de satisfação e engajamento, mitigando a resistência a mudanças (Antunes, 2017).
Na indústria de manutenção aeronáutica; fatores humanos são cruciais, um ambiente de trabalho saudável é ainda mais acentuado. Dados indicam que uma parcela significativa dos acidentes aéreos está relacionada a falhas de manutenção, sublinhando a necessidade de uma cultura de segurança robusta (Lee e Truong, 2025). A atividade exige concentração e responsabilidade, gerando estresse. Nesse contexto, o humor pode funcionar como mecanismo de alívio da tensão, fortalecendo a cooperação. O riso contribui para a redução do estresse e pode aumentar a produtividade ao tornar o ambiente mais leve (Ziv, 1988; Robert, 2017).
Adotou-se uma metodologia aplicada, com abordagem quantitativa e caráter descritivo (Gil, 2022), para mensurar padrões e percepções por meio de análise estatística (Creswell e Creswell, 2021). O principal instrumento foi um questionário online estruturado com perguntas fechadas, facilitando a análise dos dados.
A coleta de dados ocorreu entre 05 e 31 de maio de 2025, via Google Forms, assegurando o anonimato dos participantes. O link foi distribuído em grupos de técnicos por aplicativos de mensagens. A amostragem foi não-probabilística por conveniência (Babbie, 2021), englobando técnicos de diferentes turnos e empresas. Como critério de inclusão, foram considerados apenas profissionais com no mínimo um ano de experiência na função.
O instrumento foi dividido em três seções. A primeira continha o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A segunda era um questionário sociodemográfico para classificar os participantes (faixa etária, sexo, tempo de experiência, tipo de companhia). A terceira seção continha 15 perguntas baseadas na classificação de Korczynki (2011), com cinco questões para cada tipo de humor (rotina, repetição e inversão de rotina). Os participantes indicaram a frequência utilizando uma escala Likert de cinco pontos: “Nunca”, “Raramente”, “Às Vezes”, “Frequentemente” e “Sempre”.
A análise dos dados foi conduzida em duas etapas. Primeiro, uma análise estatística descritiva (frequências, médias) com o software Microsoft Excel. Em seguida, foram realizadas análises cruzadas entre as variáveis de humor e sociodemográficas, utilizando o software Jamovi (Jamovi, 2024). Para testar a significância estatística, foram aplicados o teste de Kruskal-Wallis para comparações entre múltiplos grupos (Quintão et al., 2010) e o teste post-hoc de Dwass-Steel-Critchlow-Fligner para identificar diferenças entre pares de grupos (Spurrier, 2006). Todos os procedimentos éticos foram seguidos.
A amostra final foi de 43 técnicos de manutenção aeronáutica, sendo 41 do sexo masculino e 2 do feminino. O perfil revelou diversidade de faixa etária e experiência. A maioria (31) trabalhava em companhias internacionais, enquanto 12 atuavam em empresas nacionais. O grupo mais representativo foi o de profissionais com mais de 28 anos de atuação (17 participantes), seguido por aqueles com 13 a 17 anos (11 participantes), indicando uma amostra sênior. A distribuição etária concentrou-se nas faixas de 36 a 44 anos (14) e 45 a 53 anos (12).
A análise geral da frequência do humor, na escala de 1 (“Nunca”) a 5 (“Sempre”), revelou que ele é um elemento presente, com média geral entre “Às vezes” e “Frequentemente”. A análise por tipo mostrou diferenças: o “humor de rotina” (piadas com jargões técnicos) foi o mais frequente, com média de 3,50. Em seguida, o “humor de repetição” (rir do absurdo de tarefas repetitivas), com média de 2,65. Por fim, o “humor de inversão de rotina” (palhaçadas e subversões) foi o menos comum, com média de 2,53. Isso sugere que o humor mais prevalente é aquele integrado à prática do trabalho, enquanto manifestações disruptivas são menos recorrentes.
Ao cruzar os dados com a faixa etária, o “humor de rotina” foi o mais frequente em todas as idades, atingindo o pico na faixa de 27 a 35 anos. Na pergunta 4 (“Você já presenciou piadas que só fazem sentido para quem trabalha na área?”), este grupo teve a média mais alta (4,4), com diferença estatisticamente significativa entre os grupos etários (p = 0,041 pelo teste de Kruskal-Wallis). O achado sugere que profissionais em fase intermediária da carreira usam o humor de rotina para fortalecer a identidade do grupo (Norqvist, 2025), satisfazendo a necessidade de pertencimento e promovendo motivação (Mesmer-Magnus et al., 2012).
Em contrapartida, a percepção de manifestações como o “humor de repetição” e a “inversão de rotina” mostrou tendência de declínio com o aumento da idade. Profissionais de 54 a 62 anos apresentaram as médias mais baixas. A comparação entre a faixa de 27 a 35 anos e a de 54 a 62 anos na pergunta 10 (“Você já riu de uma situação em que alguém levou ao extremo a lógica repetitiva do trabalho?”) revelou uma diferença estatisticamente significativa (p = 0,027 pelo teste de Dwass-Steel-Critchlow-Fligner). Uma hipótese é que técnicos mais velhos, formados em contextos mais rígidos, consideram tais comportamentos inadequados. Além disso, o avanço na carreira pode distanciá-los das interações informais.
O grupo etário de 63 a 71 anos apresentou médias ligeiramente mais elevadas que o de 54 a 62 anos. Isso pode ser explicado por fatores da fase final da carreira, como menor pressão por desempenho e uma postura mais flexível. Ao atuarem como mentores, podem se aproximar de grupos mais jovens que usam o humor para socialização (Heiss e Carmack, 2011) e para transmitir a cultura e aumentar a confiança na equipe, fator vital em tarefas críticas (Bhowmick e Vijaya, 2023).
A análise por tempo de experiência corroborou os achados da faixa etária. Profissionais com 4 a 12 anos de experiência demonstraram maior percepção do humor, especialmente o de rotina, com médias superiores a 4,0. Observou-se um declínio gradual nas médias com o aumento do tempo de serviço. O grupo com mais de 28 anos de experiência apresentou as menores médias em “humor de repetição” e “inversão de rotina”. Para esses veteranos, o humor parece funcionar mais como mecanismo de enfrentamento e regulação emocional diante das pressões de cargos de liderança (Romero e Cruthirds, 2006).
A discussão deve considerar o contexto socioeconômico da profissão. Técnicos de manutenção aeronáutica enfrentam um mercado restrito, com longos períodos para progressão e pressão salarial. Os mais experientes demonstram receio de perder benefícios, o que pode fomentar uma postura conservadora. O humor, nesse contexto, pode emergir como forma segura de contestar simbolicamente as estruturas organizacionais sem arriscar a estabilidade.
As implicações práticas são relevantes para a gestão de pessoas no setor. Compreender como o humor funciona em diferentes grupos pode ajudar líderes a promover um clima organizacional saudável. Em um ambiente de alta pressão, o humor desempenha papel estratégico no fortalecimento dos vínculos e na resiliência psicológica. Equipes com ambiente seguro e colaborativo demonstram maior capacidade de autocorreção e vigilância mútua, reforçando a cultura de segurança. Estratégias que incentivem um humor positivo, como espaços de descompressão, podem potencializar a eficiência das equipes.
As manifestações humorísticas relacionadas à linguagem técnica são quase universais, com o “humor de rotina” sendo o mais prevalente. Comportamentos mais performáticos são menos frequentes, especialmente entre profissionais mais experientes. A presença do humor é constante, mas sua forma e função são moduladas pela idade e experiência, sugerindo que aspectos geracionais influenciam sua expressão. A segurança operacional está ligada à percepção do ambiente de trabalho. Um ambiente acolhedor e bem-humorado gera maior conforto psicológico, fundamental para tarefas de atenção máxima. A premissa de que “apenas o perfeito é aceitável” na aviação torna o humor uma ferramenta vital de gestão do estresse. Uma limitação do estudo foi a possível relutância dos técnicos em se expressar abertamente, mesmo anonimamente, o que pode ter levado a respostas cautelosas.
Para trabalhos futuros, recomenda-se a ampliação da amostra para incluir diferentes segmentos da manutenção (hangares, oficinas, aviação executiva e militar). Aprofundar a análise com métodos qualitativos, como entrevistas, poderia enriquecer a compreensão das nuances do humor e seu impacto na segurança. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o humor se manifesta de formas distintas no ambiente da manutenção aeronáutica, com predominância do humor de rotina, sendo sua percepção e uso modulados por fatores geracionais e de experiência profissional, com implicações diretas para a coesão da equipe e a cultura de segurança.
Referências:
Aktouf, O. 1996. A Administração Entre a Tradição e a Renovação. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Antunes, T. P. S. 2017. O humor em contexto organizacional. Dissertação de Mestrado em Economia e Gestão. Universidade do Minho, Braga, Portugal.
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Bhowmick, S. ; R, Vijaya . 2023. Winning battles with a joke: a qualitative inquiry of humour in the Indian Army. The European Journal of Humour Research, 11(1), 27-45. Disponível em: https://doi. org/10.7592/EJHR.2023.11.1.755 Acesso em: 9 ago. 2025
Creswell, J. W.; Creswell, J. D. 2021. Projeto de Pesquisa: Método Qualitativo, Quantitativo e Misto. 5ed. Penso, Porto Alegre, RS, Brasil.
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Irigaray, H. A. R.; Saraiva, L. A. S.; Carrieri, A. P. 2010. Humor e discriminação por orientação sexual no ambiente organizacional. Revista de Administração Contemporânea 14(5): 890-909. Disponível em: https://doi. org/10.1590/S1415-65552010000500008 . Acesso em: 10 jul. 2025.
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Ziv, A. 1988. National Styles of Humor. Greenwood, Westport, CT, USA.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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