
19 de fevereiro de 2026
Logística de entrega sustentável no comércio digital: estratégias de mitigação de impactos ambientais
Ricardo Cesar de Andrade; Pablo Henrique Paschoal Capucho
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisa como práticas de sustentabilidade influenciam a logística de entrega no comércio digital e afetam a experiência e decisão dos consumidores. A pesquisa busca compreender os desafios de infraestrutura e operação, avaliar como iniciativas de redução da pegada de carbono e transparência nas emissões impactam as escolhas dos consumidores, e identificar estratégias que as empresas adotam para mitigar os impactos ambientais. A relevância da investigação reside no crescimento exponencial do e-commerce, fenômeno que, embora impulsione a economia, intensifica pressões sobre ecossistemas urbanos e infraestrutura logística. Neste contexto, a entrega eficiente é um fator decisivo para atender às expectativas de rapidez e conveniência dos consumidores (Nascimento et al., 2023).
O cenário brasileiro apresenta particularidades que amplificam esses desafios. Segundo a pesquisa Perfil do E-commerce Brasileiro (BigDataCorp, 2023), o número de lojas virtuais no país superou 1,9 milhão em 2023, um aumento de 16,53% em relação ao ano anterior. A concentração geográfica, com 48,56% das lojas em São Paulo e 23,56% nos demais estados do Sul e Sudeste, aumenta as distâncias percorridas para atender outras regiões, exacerbando a pegada de carbono. Essa expansão ocorre em paralelo a uma crescente demanda por agilidade, evidenciada pelo aumento de mais de 500% nas buscas por “Entrega rápida” nos últimos cinco anos (Google Trends, 2024). Essa pressão por velocidade, contudo, gera um paradoxo quando confrontada com a crescente conscientização ambiental.
Simultaneamente, o interesse por práticas corporativas responsáveis cresce, como indica o aumento de mais de 1.150% nas buscas pelo termo “Environmental, Social and Governance (ESG)” no mesmo período (Google Trends, 2024). Este dado sugere que os consumidores estão mais atentos aos impactos ambientais, sociais e de governança, o que pode influenciar suas decisões de compra. No entanto, a aceleração das entregas intensifica a pegada de carbono, o consumo de embalagens e as jornadas de trabalho dos entregadores, criando um conflito entre conveniência e sustentabilidade (Mata, 2021). No Brasil, as dimensões continentais e as limitações de infraestrutura, como malha rodoviária precária e frota envelhecida, tornam a conciliação desses fatores ainda mais complexa.
Um desafio adicional reside na dependência de transportadores terceirizados, o que resulta em falta de visibilidade sobre aspectos cruciais para a sustentabilidade, como idade e eficiência da frota, tipos de combustíveis, otimização de rotas e taxa de ocupação dos veículos. A ausência desses dados dificulta a medição e gestão das emissões de gases de efeito estufa (GEE), tornando a implementação de estratégias de mitigação uma tarefa árdua. A falta de transparência na cadeia de suprimentos impede que as empresas controlem seu impacto ambiental e limita a capacidade do consumidor de fazer escolhas informadas.
Diante deste panorama, a pesquisa busca identificar os principais desafios da sustentabilidade na logística de entrega brasileira, entender como iniciativas de redução da pegada de carbono e transparência sobre emissões influenciam a decisão de compra, e mapear as estratégias que as empresas utilizam para mitigar os impactos ambientais. A investigação parte do pressuposto de que a sustentabilidade é uma necessidade estratégica para a resiliência e competitividade do setor, exigindo alinhamento entre expectativas dos consumidores, capacidades operacionais e responsabilidades socioambientais.
O estudo foi classificado como uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem quantitativa, visando gerar conhecimento prático para a solução de problemas na logística sustentável (Prodanov e Freitas, 2013). O foco foi a coleta de dados estruturados para mensurar a percepção de profissionais da área, permitindo a identificação de padrões e relações entre variáveis. Quanto aos fins, a pesquisa é exploratória, buscando maior familiaridade com o problema para a construção de hipóteses sobre a intersecção entre logística, comércio digital e sustentabilidade (Gil, 2008; Prodanov e Freitas, 2013). Os objetivos específicos foram: identificar fatores considerados pelos consumidores na decisão de compra e escolha de entrega; avaliar a percepção sobre práticas sustentáveis na última milha; examinar o impacto de custos, prazos e alternativas ecológicas na intenção de compra; e discutir o potencial de adoção de modelos logísticos mais sustentáveis.
A análise dos dados foi conduzida por meio da estatística descritiva, utilizando frequências, percentuais e gráficos. Foram realizados cruzamentos entre as respostas para aprofundar a interpretação e identificar relações entre variáveis, em consonância com a natureza exploratória da investigação. Segundo Mattar (2014), a estatística descritiva é fundamental em pesquisas do tipo survey para sistematizar e visualizar resultados, oferecendo subsídios para análises consistentes.
O perfil sociodemográfico dos respondentes revelou uma amostra de adultos jovens e maduros, com 39,7% na faixa de 26 a 35 anos e 32,1% entre 36 e 45 anos. Essa concentração, totalizando mais de 70% da amostra, reflete o grupo economicamente ativo mais engajado com o consumo digital. A pandemia de Covid-19 intensificou o uso do e-commerce em todas as faixas etárias, reconfigurando as cadeias de distribuição e aumentando a conscientização sobre práticas sustentáveis (Silva et al., 2021; Bonini e Görner, 2011). A análise de gênero indicou maioria masculina (57,1%), refletindo a composição do setor logístico, embora a participação feminina de 42,3% evidencie uma crescente inserção de mulheres no campo (Ballou, 2006; Giacomelli e Pires, 2016).
Geograficamente, a pesquisa mostrou forte concentração de respondentes na região Sudeste (89,1%), espelhando a centralidade econômica e logística do Brasil; se localizam os principais hubs de distribuição (Alves et al., 2005). Essa concentração sugere que as percepções sobre sustentabilidade estão ancoradas em contextos urbanos mais estruturados, mas também aponta para as disparidades logísticas que afetam outras regiões (Viu-Roig e Alvarez-Palau, 2020). O perfil educacional é altamente qualificado, com 48,7% com graduação completa e 38,5% com pós-graduação. A análise salarial revelou que a maioria pertence à classe média e média alta, com 34% ganhando entre R$ 2.000 e R$ 5.000 e outros 34% entre R$ 5.000 e R$ 10.000, sugerindo que os participantes ocupam posições estratégicas (Ballou, 2006).
Nos hábitos de consumo digital, marketplaces como Mercado Livre e Amazon são os canais mais utilizados (94,9%), seguidos por aplicativos de delivery (78,2%). Essa diversidade de canais demonstra a complexidade do comportamento de compra, exigindo modelos logísticos ágeis e flexíveis (Alves et al., 2005). A frequência de compras é alta, com 66% dos respondentes comprando mensalmente e 31,4% semanalmente, um padrão consolidado após a pandemia (Silva et al., 2021). Essa recorrência impõe pressão contínua sobre as operações logísticas, tornando a busca por eficiência e sustentabilidade uma prioridade estratégica (Giacomelli e Pires, 2016).
A análise dos critérios de decisão de compra revelou um cenário complexo. Embora 76,3% dos participantes considerem relevante o engajamento da marca com a sustentabilidade, este mesmo critério apresentou os maiores percentuais de irrelevância, indicando que ainda não é um fator decisivo unânime. Preço do produto, qualidade e preço do frete continuam a dominar a decisão. Este resultado corrobora que, embora a responsabilidade socioambiental seja valorizada, ela compete com fatores mais tangíveis (Bonini e Görner, 2011). A expectativa sobre o prazo de entrega é alta: 60,9% dos consumidores esperam receber seus produtos em até cinco dias, e 25,6% almejam a entrega no dia seguinte. Essa demanda por agilidade redefine os padrões de competitividade e exige investimentos em infraestrutura e tecnologia (Alves et al., 2005; Novaes, 2021).
Na escolha entre uma entrega convencional e uma sustentável (carbono neutro), o consumidor prioriza custo e conveniência. Apenas 6,4% dos respondentes optariam por alternativas sustentáveis mesmo com prazo e preço superiores. Em contraste, 35,3% ignorariam a opção sustentável, baseando sua escolha exclusivamente no prazo ou preço. Outros 32,7% optariam pela entrega sustentável apenas se o prazo atendesse às suas expectativas, e 25,6% se o preço do frete fosse menor. A adoção de práticas sustentáveis pelo consumidor está, portanto, condicionada a incentivos econômicos e operacionais. A disposição para pagar um valor adicional para compensar emissões de GEE segue a mesma lógica: 31,4% se recusaram a pagar qualquer valor extra. Entre os que aceitariam, a maioria limitou o valor a quantias simbólicas, como até R$ 1,00 (21,2%) ou a possibilidade de escolher o valor (20,5%).
Quando solicitados a escolher o critério mais relevante na compra, o preço do frete (52,6%) e o prazo de entrega (43,6%) são os fatores predominantes. A entrega sustentável foi considerada a mais relevante por apenas 3,8% dos respondentes. Este resultado evidencia o principal desafio para a logística verde: embora a preocupação ambiental esteja presente no discurso, na prática, ela perde relevância frente a benefícios imediatos como economia e rapidez. A falta de percepção sobre os impactos da logística de última milha, que contribui para a poluição urbana, pode explicar essa dissonância (Viu-Roig e Alvarez-Palau, 2020). Para que a sustentabilidade ganhe tração, as empresas precisam comunicar seus esforços e oferecer soluções competitivas em preço e prazo (Bonini e Görner, 2011).
Do ponto de vista empresarial, a pesquisa revelou uma lacuna no planejamento estratégico para a sustentabilidade. Questionados sobre os desafios para minimizar as emissões de GEE, 34,9% dos profissionais afirmaram que suas empresas “não têm ou não tinham desafios mapeados”. Este dado sugere falta de conscientização ou priorização do tema. A ausência de um diagnóstico impede a mensuração e implementação de medidas eficazes (Novaes, 2021). Outros desafios mencionados incluem a baixa conscientização dos consumidores (31,7%), a baixa utilização de meios de entrega sustentáveis (30,2%) e a dificuldade em medir emissões em operações terceirizadas (22,2%).
A situação se agrava na análise das estratégias que as empresas pretendem adotar. De forma contundente, 52,4% dos respondentes afirmaram que suas empresas não possuem estratégias mapeadas para minimizar os impactos dos GEE. Essa ausência de planejamento compromete a responsabilidade socioambiental e a competitividade a longo prazo, num mercado onde os consumidores estão cada vez mais exigentes (Bonini e Görner, 2011). Entre as empresas com algum plano, as estratégias mais citadas foram a adoção de meios de entrega sustentáveis (25,4%) e o engajamento de fornecedores de transporte em ações de neutralização (23,8%). No entanto, a predominância da falta de estratégia indica que a logística verde ainda não foi incorporada como elemento central da gestão, sendo tratada como iniciativa pontual e não sistêmica (Mateus, 2016).
Em suma, os resultados demonstram um descompasso entre a demanda do comércio digital e a maturidade das práticas de sustentabilidade logística no Brasil. Do lado do consumidor, há uma contradição entre a valorização do discurso ambiental e a priorização de custo e prazo na compra. A disposição para arcar com os custos de uma logística verde é baixa, sinalizando que a responsabilidade pela sustentabilidade é atribuída às empresas. Estas, por sua vez, revelam uma preocupante falta de planejamento estratégico para lidar com os impactos ambientais. A maioria das organizações não possui desafios ou estratégias formalmente mapeados para a redução de emissões de GEE, indicando que a sustentabilidade não foi integrada à gestão da cadeia de suprimentos.
Esta investigação, apesar de limitações como a amostragem por conveniência e a concentração regional, oferece um diagnóstico dos obstáculos a serem superados. Para que a logística de entrega no comércio digital avance de forma sustentável, é imperativo que as empresas invistam em tecnologia para medir e gerenciar emissões, eduquem os consumidores sobre o impacto de suas escolhas e desenvolvam modelos de negócio que tornem as opções sustentáveis economicamente viáveis. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que, apesar da crescente conscientização, práticas de sustentabilidade na logística do comércio digital são secundárias tanto para consumidores, que priorizam custo e prazo, quanto para empresas, que carecem de estratégias formalizadas para mitigar seu impacto ambiental.
Referências:
Alves, C. S.; Chaves, R. P.; Penteado, I. M.; Costa, S. A. 2005. A Importância da Logística para o E-Commerce: O Exemplo da Amazon. com. São Paulo. [Recurso eletrônico].
Ballou, R. H. 2006. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: Logística Empresarial. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.
BIGDATACORP. Pesquisa do Perfil do E-Commerce Brasileiro (2023). 2024. [Recurso eletrônico].
Bonini, S.; Görner, S. 2011. The Business of Sustainability: Putting it into Practice. McKinsey & Company. [Recurso eletrônico].
Giacomelli, G.; Pires, M. R. S. 2016. Logística e Distribuição. Porto Alegre, Grupo A. [Recurso eletrônico].
Gil, A. C. 2008. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
GOOGLE TRENDS. Termo “Entrega Rápida”. 2024. [Recurso eletrônico].
GOOGLE TRENDS. Termo “ESG”. 2024. [Recurso eletrônico].
Marconi, M. A.; Lakatos, E. M. 2017. Fundamentos de Metodologia Científica. 8. ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Mata, K. B. C. E-commerce: análise de dados sobre o comércio eletrônico no Brasil. 2021. 53 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Engenharia de Computação) – Escola de Ciências Exatas e da Computação, Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia.
Mateus, S. R. Logística verde e a responsabilidade social das empresas. 2016. 121 f. Dissertação (Mestrado em Logística) – Instituto Politécnico do Porto, Porto.
Mattar, F. N. 2014. Pesquisa de marketing: metodologia, planejamento, execução e análise. 7ed. Elsevier, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Nascimento, J.; Santos, A.; Severio, B.; Yukio, L.; Cavalcante, V.; Leonardo, W. 2023. A Importância de um sistema logístico eficaz, rentável e sustentável em grandes empresas de marketplace no Brasil. Revista FT, Engenharia de Produção, logística, v. 27, ed. 128, nov. [Recurso eletrônico].
Novaes, A. G. Logística e gerenciamento da cadeia de distribuição. 2021. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Prodanov, C. C.; Freitas, E. C. 2013. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. Feevale, Novo Hamburgo, RS, Brasil.
Silva, K. O. A. N., Alves, R., Portella, N. V., Barra, G. M. J., Fernandes, Y. D. C. 2021. A Influência da Pandemia da Covid-19 no Sistema de Distribuição de Mercadorias do E-Commerce: Um Estudo de Casos Múltiplos. In XXXV Congresso de Pesquisa e Ensino em Transporte da ANPET. [Recurso eletrônico].
Viu-Roig, M. e Alvarez-Palau, E. J. 2020. The Impact of E-Commerce-Related Last-Mile Logistics on Cities: A Systematic Literature Review. Sustainability 12, n.º 16: 6492. [Recurso eletrônico].
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de conclusão de Curso de Digital Business
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