Imagem A participação familiar na superação da visão assistencialista em creches públicas

19 de fevereiro de 2026

A participação familiar na superação da visão assistencialista em creches públicas

Rosangela Abdala Lins; Luciana Cristina de Souza

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo deste estudo é analisar o envolvimento da família nas atividades pedagógicas de uma creche pública, discutindo a importância dessa participação para o desenvolvimento integral de crianças de 2 e 3 anos e para a superação da visão assistencialista da instituição. A pesquisa parte da premissa de que a colaboração entre a instituição de ensino e os responsáveis é um pilar para consolidar o papel educativo da creche, transcendendo a função histórica de mero cuidado. A investigação foca em um relato de experiência conduzido em uma unidade escolar em São João de Meriti/RJ; a gestão implementou estratégias para aproximar a comunidade, buscando transformar a percepção parental sobre a finalidade da Educação Infantil. Este trabalho demonstra, por meio de práticas concretas, como a construção de um vínculo de confiança e corresponsabilidade impacta positivamente o desenvolvimento infantil e a valorização do trabalho pedagógico.

A Educação Infantil, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9394/96, é a primeira etapa da Educação Básica, com a finalidade de promover o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade (Brasil, 1996). Historicamente, as creches no Brasil surgiram com um forte caráter assistencialista e higienista, concebidas como um espaço para abrigar os filhos de mães trabalhadoras de classes menos favorecidas (Carmo & Cintra, 2017). Essa concepção, focada no cuidado básico, enraizou-se no imaginário social e, apesar dos avanços legais, ainda persiste. A transição de um modelo de “depósito de crianças” para uma instituição com um projeto político-pedagógico robusto é um dos maiores desafios da gestão escolar na Educação Infantil.

A superação dessa visão é crucial, pois a creche moderna é um ambiente de interações onde a criança é reconhecida como sujeito de direitos e protagonista de sua aprendizagem. Documentos como o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforçam que a instituição deve promover experiências que possibilitem o desenvolvimento de habilidades e a construção de conhecimento (Brasil, 1998; Brasil, 2018). Quando a criança é inserida nesse ambiente, ela recebe uma resposta educativa estruturada que potencializa seu desenvolvimento (Santos, Sousa & Santos, 2022). É imperativo que as famílias compreendam que a creche não apenas cuida, mas intencionalmente educa, preparando a criança para sua trajetória escolar e para a vida.

No município de São João de Meriti, políticas públicas como o Plano Municipal de Educação (PME), Lei 2004/2015, e a Proposta de Ação Político Pedagógica Cultiv@ando (2022), buscam alinhar as práticas a essa concepção moderna (São João de Meriti, 2015; Secretaria Municipal de Educação, 2022). Apesar do arcabouço legal, a realidade na creche estudada revela uma dissonância entre a proposta pedagógica e a percepção de muitas famílias. Compostas majoritariamente por mães e avós, elas ainda enxergam a creche como um serviço de apoio, um local seguro para deixar as crianças enquanto trabalham, sem uma compreensão aprofundada de seu papel educativo.

Diante desse cenário, a gestão escolar identificou a necessidade de engajar as famílias, transformando-as em parceiras no processo educativo. A aproximação entre família e escola é determinante para o sucesso educacional, pois cria um ambiente de confiança e permite a continuidade do trabalho pedagógico em casa (Silva & Ronca, 2022). Quando os responsáveis participam da vida escolar, eles acompanham a evolução dos filhos e valorizam a creche como um centro de desenvolvimento. Este estudo detalha as estratégias implementadas para fomentar essa parceria, analisando seus impactos e desafios, com o intuito de oferecer subsídios para outras instituições.

A metodologia adotada é um estudo descritivo de natureza qualitativa, fundamentado em um relato de experiência. Essa abordagem conecta conceitos teóricos a vivências práticas, proporcionando uma compreensão contextualizada do fenômeno. A pesquisa foi conduzida pela gestora geral de uma creche pública em São João de Meriti/RJ, que atende crianças de 2 e 3 anos. O relato permite uma análise detalhada das estratégias de gestão para fortalecer o vínculo com as famílias. O diálogo com os familiares é central, pois possibilita um entendimento da vida da criança de forma mais abrangente (Dessen & Polonia, 2007).

A coleta de dados ocorreu durante o ano letivo de 2024, com a intensificação das ações de aproximação. Os instrumentos utilizados incluíram observação direta e participante, registro de eventos em um diário de bordo da gestão e análise documental de listas de presença em reuniões e eventos. Esses registros permitiram quantificar e qualificar a participação familiar, identificando padrões e barreiras ao engajamento. A análise contínua dos dados permitiu ajustes nas estratégias da equipe pedagógica em tempo real, visando aprimorar a comunicação e o envolvimento dos responsáveis.

O referencial teórico foi construído a partir de documentos oficiais como a LDB (Brasil, 1996), o RCNEI (Brasil, 1998) e a BNCC (Brasil, 2018), além de políticas educacionais de São João de Meriti. Foram utilizados também artigos científicos, livros e teses sobre a concepção histórica da creche, a relação família-escola e o desenvolvimento infantil. Autores como Bronfenbrenner (1996), com sua teoria bioecológica, e Vygotsky, com sua ênfase nos processos socioculturais de aprendizagem (Oliveira, 1993), forneceram a base para a interpretação dos resultados.

A análise dos dados foi organizada em eixos temáticos: a transição do assistencialismo para o papel educativo, as estratégias de aproximação, os impactos no engajamento familiar e no desenvolvimento infantil, e os desafios persistentes. A discussão dos resultados busca estabelecer um diálogo entre a experiência vivida e o conhecimento acadêmico, oferecendo uma reflexão crítica sobre as práticas de gestão. A validade do estudo reside na riqueza dos detalhes do relato de experiência, que, embora específico, levanta questões relevantes para a gestão educacional em âmbito nacional.

A análise histórica da concepção de creche no Brasil revela uma migração de um modelo assistencialista para uma instituição com papel educativo. Originalmente, as creches surgiram como resposta à inserção da mulher no mercado de trabalho, funcionando como espaços de guarda e cuidados básicos com viés higienista (Jesus, Batalha & Assis, 2022). O foco era a sobrevivência e a saúde física, sem preocupação com o desenvolvimento cognitivo ou social. Essa visão consolidou a imagem da creche como um serviço de apoio à família, e não como um direito da criança à educação (Moreira, 2020).

Essa perspectiva mudou com movimentos sociais e novas legislações, culminando na LDB de 1996, que integrou a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica. Essa mudança legal reconheceu o caráter pedagógico das creches, estabelecendo a finalidade de desenvolver a criança de forma integral, articulando o cuidar e o educar (Brasil, 1996). A criança passou a ser considerada um cidadão de direitos, com direito à infância e à aprendizagem em um ambiente preparado (Kramer, 2006). A Proposta Pedagógica Cultiv@ando (2022), do município em estudo, reflete essa concepção ao afirmar que a criança aprende em todos os ambientes onde interage.

Apesar dos avanços, a superação da visão assistencialista no cotidiano ainda é um desafio. Na creche relatada, a gestão identificou que a solução era “levar a família para dentro da escola”. Para isso, foi desenvolvido um conjunto de estratégias. Uma das principais foi o fortalecimento do Conselho Escolar, garantindo a representação de responsáveis nas decisões. Além disso, foram implementadas reuniões trimestrais para entrega de relatórios de desenvolvimento individual, momentos cruciais para os pais visualizarem os avanços dos filhos e compreenderem os objetivos pedagógicos.

Projetos de aprendizagem com participação familiar foram outra ferramenta. O projeto “Cultiv@ndo o Prazer de Ler” envolvia o envio de livros para casa, com a proposta de que a família lesse para a criança e, juntos, produzissem um desenho sobre a história. Ao retornar, a criança compartilhava sua experiência. Essa atividade estimulou a leitura, fortaleceu laços afetivos e demonstrou aos pais como poderiam contribuir para o desenvolvimento dos filhos. Segundo Bronfenbrenner (1996), essas interações duradouras e positivas em diferentes ambientes, os processos proximais, são os motores do desenvolvimento humano.

Outra experiência de sucesso foi a inclusão das famílias no período de adaptação. Durante uma semana, os responsáveis eram convidados a permanecer na creche com as crianças, participando das atividades. Essa prática foi eficaz para construir um vínculo de confiança desde o primeiro contato, fazendo com que criança e família se sentissem seguras e acolhidas. A comunicação diária foi modernizada com o uso de ferramentas como WhatsApp e redes sociais, que se tornaram canais ágeis para avisos, compartilhamento de fotos e diálogo direto, atendendo à necessidade de flexibilidade das famílias (Silva & Ronca, 2022).

Contudo, o processo não ocorreu sem desafios. A baixa participação em reuniões pedagógicas foi um obstáculo constante. Mesmo com encontros em horários flexíveis, a adesão raramente ultrapassava 50% dos responsáveis. As justificativas mais comuns eram a incompatibilidade com o horário de trabalho, revelando uma dificuldade em priorizar a vida escolar da criança. Essa ausência reflete a persistência da visão de que a responsabilidade pela educação formal é exclusiva da escola, um resquício do modelo assistencialista (Paro, 2010).

Nesse contexto, a figura da orientadora educacional foi fundamental. Ela atuou como mediadora, acompanhando casos de dificuldades de adaptação, absenteísmo e saúde. Quando uma criança faltava consecutivamente, a orientadora convocava o responsável para uma conversa, buscando entender os motivos e reforçar a importância da frequência. Foi criado um “termo de compromisso”, documento sem valor legal, mas com forte impacto simbólico, no qual o responsável se comprometia a garantir a presença do filho. Essa medida ajudou a aumentar a responsabilidade familiar, especialmente por se tratar de uma faixa etária (2 e 3 anos) em que a frequência não é legalmente obrigatória.

Os resultados, embora graduais, indicam um impacto positivo. As famílias mais envolvidas passaram a relatar uma melhor percepção sobre o desenvolvimento dos filhos, notando avanços na fala, socialização e autonomia. A interação na creche; a criança convive com diversos adultos e outras crianças, amplia seu universo social, o que é essencial para seu desenvolvimento, como destacado por Vygotsky (Oliveira, 1993). A gestão percebeu que, à medida que a família compreende e vivencia o projeto pedagógico, sua visão sobre a instituição se transforma, passando a valorizá-la como um espaço educativo complementar à sua própria ação. O desafio futuro é ampliar esse engajamento com novas estratégias.

Em suma, a experiência demonstra que a transição da creche de instituição assistencialista para centro de educação de excelência depende da construção de uma parceria sólida com as famílias. As estratégias de engajamento, quando bem executadas, transformam a percepção dos responsáveis, fazendo-os valorizar o trabalho pedagógico. A participação ativa permite que as famílias testemunhem o desenvolvimento integral de suas crianças, reconhecendo os avanços cognitivos, sociais e emocionais. Embora desafios como a baixa adesão persistam, as iniciativas de aproximação fortaleceram o vínculo de confiança e corresponsabilidade.

A articulação entre o cuidar e o educar, pilar da Educação Infantil, só se materializa quando família e escola caminham juntas. A creche e a família constituem um elo fundamental, e o fortalecimento dessa relação beneficia a criança, que se sente mais segura ao perceber a sintonia entre seus principais ambientes de convivência. Os resultados deste estudo contribuem para a prática da gestão escolar ao evidenciarem que a mudança de paradigma requer persistência, criatividade e comunicação aberta. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o envolvimento estratégico das famílias em atividades pedagógicas é fundamental para superar a visão assistencialista da creche e promover o desenvolvimento integral infantil.

Referências:
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF, 2018.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Ministério da Educação e Cultura, Brasília, DF, 1996.
BRASIL. Referencial curricular nacional para a Educação Infantil. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília, DF, 1998.
BRONFENBRENNER, U. A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. 1. ed. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 1996.
CARMO, C. P. de, CINTRA, R. C. G. G. A educação infantil no Brasil: o surgimento das creches e as políticas públicas para a infância. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS, 2017. Anais do Congresso Internacional de Direitos Humanos. [Mato Grosso do Sul]: [Universidade Católica Dom Bosco e Universidade Federal do Mato Grosso do Sul], 2017. p. 01–16.
DE JESUS, A. S.; BATALHA, T. V.; ASSIS, W. L. D. Educação Infantil: o cenário do surgimento das creches. In: MELO, J. C. de; GUTERRES, I. da S.; OLIVEIRA, J. de J. de A. B. O. (Org.). Integrando saberes e fazeres na Educação Básica. Guarujá: Editora Científica Digital, p. 31-40, 2022.
DESSEN, M. A.; POLONIA, A. C. A família e a escola como contextos de desenvolvimento humano. Paidéia (Ribeirão Preto), v. 17, n. 36, p. 21-32, 2007.
DOS SANTOS, L. R.; SOUSA, L. P. de ; SANTOS , P. B . A importância da creche para o desenvolvimento das crianças: relato de experiência. Research, Society and Development, v. 11, n. 14, 2022.
KRAMER, S. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2006.
MOREIRA, Helen dos Santos. Do assistencialismo ao processo educativo: o papel pedagógico da creche. Trabalho de Conclusão de Curso — Segunda Licenciatura em Pedagogia, Instituto Federal Goiano, Campus Ipameri, 2020.
OLIVEIRA, M. K. de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento: um processo sociocultural. 1. ed. São Paulo, SP: Scipione, 1993.
PARO, V. H. Gestão escolar, democracia e qualidade do ensino. São Paulo: Ática, 2010.
SÃO JOÃO DE MERITI. Plano Municipal de Educação (PME). Lei 2.004 (2015). São João de Meriti, 2015.
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO. Cultiv@ndo: proposta pedagógica. São João de Meriti, RJ: SME, 2022.
SILVA, D. A.; RONCA, A. C. C. Promover a participação da família na complexidade da creche. Linguagens, Educação e Sociedade, v. 26, n. 51, p. 143–171, 2022.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

Saiba mais sobre o curso; clique aqui:

Quem editou este artigo

Você também pode gostar

Quer ficar por dentro das nossas últimas publicações? Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade