
19 de fevereiro de 2026
Empreendedorismo feminino e a desigualdade de gênero no acesso ao crédito no Brasil
Renata Carolina Bernardo; Nicolas Volgarine Scaraboto
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Esta pesquisa investiga como o fator gênero influencia a probabilidade de aprovação de crédito para empreendedores no Brasil. O objetivo é isolar o efeito do sexo do solicitante, controlando por um conjunto de variáveis socioeconômicas e empresariais, para verificar se as disparidades no acesso a financiamento se devem a um viés de gênero sistêmico por parte das instituições financeiras. O estudo parte da premissa de que, apesar do crescimento da participação feminina no empreendedorismo, persistem barreiras estruturais que limitam o desenvolvimento de negócios liderados por mulheres, sendo o acesso a capital um dos gargalos mais críticos. A investigação quantifica essa desvantagem, fornecendo evidências empíricas para subsidiar o debate acadêmico e a formulação de políticas públicas.
O contexto da investigação é um paradoxo socioeconômico. Por um lado, o empreendedorismo feminino se consolida como vetor de desenvolvimento, com mulheres representando uma parcela crescente do total de empreendedores no país (SEBRAE, 2022). Esse movimento é impulsionado pela busca por autonomia e pela necessidade de superar desigualdades do mercado de trabalho formal. Por outro lado, esse avanço quantitativo não foi acompanhado por uma equalização no acesso a recursos produtivos, notadamente o crédito. Relatórios do Banco Mundial (2021) destacam que a exclusão financeira de gênero é um fenômeno global, com particular intensidade em países em desenvolvimento como o Brasil.
A discrepância é evidente nos indicadores de desempenho financeiro. Estudos de Morsy (2020) e Spinola (2021) demonstram que empreendedoras tendem a apresentar comportamento financeiro mais conservador e, crucialmente, menores índices de inadimplência em comparação com seus pares masculinos. Contudo, essa performance de menor risco não se traduz em melhores condições de financiamento. As evidências sugerem que elas continuam a receber volumes de crédito inferiores, a arcar com taxas de juros mais elevadas e a enfrentar maiores exigências de garantias. Essa desconexão entre o risco real e as condições de crédito ofertadas aponta para a presença de vieses implícitos nos processos de análise, que podem ser baseados em estereótipos de gênero em detrimento de uma avaliação objetiva (Silva & Costa, 2020).
A relevância desta pesquisa é dupla. Na esfera econômica, a inclusão financeira de mulheres empreendedoras é um imperativo para o desenvolvimento. Superar as barreiras de acesso ao crédito promove a equidade e libera um potencial produtivo capaz de gerar empregos e impulsionar o crescimento. Estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID, 2021) indicam que a equalização no acesso a recursos financeiros poderia gerar um impacto positivo substancial no PIB brasileiro. Academicamente, este trabalho preenche uma lacuna na literatura nacional ao aplicar uma metodologia quantitativa rigorosa para analisar a discriminação de gênero no mercado de crédito. Enquanto pesquisas internacionais consolidaram o debate, a realidade brasileira carece de estudos que isolem o efeito do gênero de forma sistemática, utilizando bases de dados representativas. A pesquisa oferece evidências atualizadas e metodologicamente consistentes para aprofundar a compreensão sobre as dinâmicas de gênero no sistema financeiro do país.
Este estudo adota uma abordagem quantitativa e explicativa, baseada na análise de dados secundários do período de janeiro de 2021 a dezembro de 2023. A escolha por dados secundários permitiu o acesso a um grande volume de informações representativas em nível nacional, provenientes de fontes oficiais, o que confere maior validade externa aos resultados. A natureza explicativa da pesquisa reside no esforço de explicar em que medida o gênero, como variável independente, influencia a concessão de crédito, controlando por outros fatores.
A base de dados foi construída a partir da integração de múltiplas fontes públicas. Variáveis financeiras, como status de aprovação de crédito, foram extraídas dos Relatórios de Inclusão Financeira do Banco Central. Características sociodemográficas dos solicitantes (renda, idade, escolaridade) vieram da PNAD Contínua (IBGE). Indicadores sobre o perfil dos empreendimentos foram compilados de relatórios do SEBRAE, e dados de contexto foram obtidos do Banco Mundial e do BID. Dada a ausência de identificadores individuais, foi construída uma base sintética, agregando dados por perfis representativos, o que resultou em um conjunto de aproximadamente 10.000 observações (4.500 de mulheres e 5.500 de homens).
A variável dependente é o acesso ao crédito, codificada como 1 para “aprovado” e 0 para “reprovado”. As variáveis independentes, selecionadas com base na literatura, incluem: gênero (1 para mulher, 0 para homem), renda média mensal, setor de atuação, localização geográfica, volume de crédito solicitado, taxa de juros, idade e escolaridade. A inclusão simultânea dessas variáveis no modelo econométrico permite isolar o efeito líquido associado exclusivamente ao gênero do empreendedor.
A técnica estatística empregada foi a regressão logística (logit), adequada para modelar a probabilidade de um evento com variável dependente dicotômica. Foram estimadas diferentes especificações do modelo para garantir a robustez dos achados. O modelo básico incluiu gênero, renda, setor e localização, enquanto modelos subsequentes adicionaram controles para condições da operação e capital humano. Foram conduzidos testes de robustez, como a inclusão de um termo de interação entre gênero e renda e análises estratificadas por região. A qualidade do ajuste dos modelos foi avaliada por meio do pseudo-R² e do teste de razão de verossimilhança.
A análise descritiva dos dados revela diferenças marcantes. As mulheres, em média, recebem valores de crédito significativamente menores (R$ 18.500) em comparação aos homens (R$ 26.000), uma diferença de quase 30%. Simultaneamente, arcam com taxas de juros anuais mais elevadas (34,5% contra 29,2% para os homens). Este cenário contrasta com o indicador de risco: a taxa de inadimplência entre as mulheres é de 2,3%, inferior à taxa de 3,1% observada entre os homens. Esses indicadores sugerem uma dissociação entre o risco apresentado pelas mulheres e as condições de crédito impostas.
A disparidade se manifesta de forma contundente na probabilidade de obtenção do crédito. Do total de solicitações, as mulheres tiveram uma taxa de aprovação de 68%, enquanto os homens alcançaram 81%, uma diferença de 13 pontos percentuais. A análise da associação entre gênero e aprovação via teste qui-quadrado confirmou que essa diferença é estatisticamente significativa (χ² = 223,28; p < 0,001). A construção de intervalos de confiança a 95% para as proporções de aprovação reforça essa conclusão, mostrando ausência de sobreposição entre os intervalos para mulheres (66,6%–69,3%) e homens (79,9%–82,0%).
Os resultados da regressão logística confirmam e quantificam o impacto negativo do gênero na aprovação de crédito, mesmo após o controle de múltiplos fatores. O modelo econométrico principal revelou um coeficiente negativo e estatisticamente significativo para a variável “gênero feminino”. A interpretação do odds ratio associado (0,633) indica que, mantendo-se constantes as demais características, as mulheres empreendedoras apresentam aproximadamente 36,7% menos chances de terem sua solicitação de crédito aprovada em comparação aos homens. Este achado demonstra que a desvantagem não é um reflexo de diferenças em renda, setor ou educação, mas um efeito atribuível diretamente ao gênero.
A robustez desse resultado foi confirmada por testes adicionais. Diferentes especificações do modelo logit, incluindo novas variáveis de controle e análise de subamostras, consistentemente apontaram para um efeito negativo e significativo do gênero feminino. A inclusão de um termo de interação entre gênero e renda não alterou a direção ou a significância do coeficiente, sugerindo que a desvantagem persiste em diferentes faixas de renda. Análises estratificadas por região mostraram que, embora a magnitude do viés possa variar, o padrão de menor aprovação para mulheres é um fenômeno nacional. A consistência dos resultados fortalece a evidência de um padrão sistemático de tratamento diferenciado.
A discussão destes resultados aponta para um viés de gênero estrutural no sistema financeiro brasileiro. A persistência de um efeito negativo associado ao gênero feminino, mesmo controlando por variáveis objetivas de risco, corrobora a literatura que sugere que as decisões de crédito não são puramente técnicas. Os achados dialogam com estudos como os de Silva & Costa (2020) e Spinola (2021), que argumentam sobre a influência de elementos subjetivos que penalizam as empreendedoras. O paradoxo identificado — menor inadimplência feminina coexistindo com piores condições de crédito — desafia a lógica da precificação de risco e sugere que a avaliação das mulheres pode ser influenciada por estereótipos.
No cenário internacional, os resultados convergem com as conclusões de Morsy (2020) e relatórios do Banco Mundial (2021), que identificam a desigualdade de gênero no acesso ao crédito como um fenômeno global. A teoria da assimetria informacional de Stiglitz & Weiss (1981) oferece um arcabouço para interpretar o fenômeno como discriminação estatística. Nessa lógica, na ausência de informações perfeitas, credores podem usar características de grupo, como o gênero, como um proxy para o risco individual. Esse mecanismo, mesmo não intencional, penaliza sistematicamente as mulheres, independentemente de seu mérito individual.
Sob a ótica do feminismo econômico, os resultados refletem como as estruturas do mercado financeiro reproduzem desigualdades de gênero consolidadas. Fatores como trajetórias profissionais descontínuas, menor acúmulo de patrimônio e a sobrecarga com o trabalho reprodutivo não remunerado afetam desproporcionalmente as mulheres. Esses elementos, não capturados pelos modelos de score de crédito, podem ser interpretados de forma enviesada pelos analistas, resultando em uma percepção de maior risco e em decisões de crédito desfavoráveis. A pesquisa evidencia como práticas aparentemente neutras podem ter resultados discriminatórios.
A síntese dos resultados reforça a conclusão de que o gênero exerce uma influência relevante e independente no acesso ao crédito no Brasil. A combinação de menor taxa de aprovação, volumes de crédito inferiores e taxas de juros mais altas, apesar de uma menor inadimplência, configura um quadro de desvantagem multifacetada. A robustez estatística dos modelos, que mantêm a significância do fator gênero em diversas especificações, indica que o problema é um padrão estrutural que permeia o sistema financeiro nacional.
Este estudo analisou a desigualdade de gênero no acesso ao crédito para empreendedores no Brasil, e os resultados indicam que as mulheres enfrentam desvantagens significativas. Mesmo com menor inadimplência, elas possuem uma probabilidade de aprovação de crédito inferior e arcam com condições mais onerosas. A análise econométrica revelou que, em perfis semelhantes, ser mulher reduz as chances de obter financiamento em aproximadamente 36,7%. Esses achados corroboram a literatura, sugerindo que a penalização não se sustenta em critérios objetivos de risco, mas em vieses implícitos e discriminação estatística. As implicações práticas apontam para a necessidade de intervenções, como maior transparência nos dados de concessão de crédito, fortalecimento de linhas de financiamento com garantias específicas para mulheres e capacitação de analistas para mitigar vieses.
Apesar da robustez dos achados, o estudo possui limitações, como o uso de dados agregados em uma base sintética, que não captura interações individuais. Pesquisas futuras poderiam superar isso com abordagens qualitativas ou estudos experimentais em parceria com instituições financeiras para testar intervenções. Tais investigações aprofundariam a compreensão dos mecanismos que perpetuam o viés de gênero. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o gênero do solicitante influencia de forma negativa e estatisticamente significativa a probabilidade de aprovação de crédito para empreendedores no Brasil, mesmo após o controle de fatores objetivos de risco.
Referências:
AGARWAL, Bina. “Bargaining” and gender relations: Within and beyond the household. Feminist Economics, v. 3, n. 1, p. 1–51, 1997.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de inclusão financeira. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2023. Disponível em: https://www. bcb. gov. br. Acesso em: 13 set. 2025.
BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO – BID. Desenvolvimento econômico e inclusão financeira. Washington, DC: BID, 2021.
DUFLO, E. Women empowerment and economic development. Journal of Economic Literature, v. 50, n. 4, p. 1051–1079, 2012. DOI: 10.1257/jel.50.4.1051.
ELSON, Diane. Male bias in the development process. Manchester: Manchester University Press, 1995.
IBGE. Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2021. Disponível em: https://www. ibge. gov. br. Acesso em: 13 set. 2025.
INTERNATIONAL FINANCE CORPORATION – IFC. Women-owned enterprises and access to finance. Washington, DC: IFC, 2020. Disponível em: https://www. ifc. org. Acesso em: 13 set. 2025.
MORSY, H. Access to finance – mind the gender gap. ERF Policy Brief, n. 71, Cairo: Economic Research Forum, 2020. Disponível em: https://erf. org. eg/app/uploads/2015/12/929. pdf. Acesso em: 13 set. 2025.
PITT, M. M.; KHANDKER, S. R. The impact of group-based credit programs on poor households in Bangladesh: does the gender of participants matter? Journal of Political Economy, v. 106, n. 5, p. 958–996, 1998. DOI: 10.1086/250037.
SEBRAE. Empreendedorismo feminino no Brasil: desafios e perspectivas. Brasília, DF: SEBRAE, 2022.
SEGUINO, Stephanie. Gender, distribution, and balance of power: A macroeconomic perspective. World Development, v. 38, n. 3, p. 375–386, 2010.
SILVA, R. A.; COSTA, M. F. Mulheres empreendedoras e dificuldades no acesso ao crédito: uma análise comparativa no Brasil. Estudos em Administração e Contabilidade, v. 6, n. 1, p. 15–32, 2020.
SPINOLA, L. Acesso ao crédito para mulheres empreendedoras: desafios e soluções no Brasil. Revista Brasileira de Finanças, v. 19, n. 2, p. 45–67, 2021.
STIGLITZ, J. E.; WEISS, A. Credit rationing in markets with imperfect information. The American Economic Review, v. 71, n. 3, p. 393–410, 1981.
WORLD BANK. Women, Business and the Law 2021. Washington, DC: World Bank, 2021. Disponível em: https://wbl. worldbank. org. Acesso em: 13 set. 2025.
WORLD BANK. World Development Report 2012: Gender Equality and Development. Washington, DC: World Bank, 2012.
Controladoria do MBA USP/Esalq
Saiba mais sobre o curso; clique aqui:





































