
24 de fevereiro de 2026
Análise do perfil e comportamento de investidores em fundos de investimento
Jéssica Viana da Costa; Rogiene Batista dos Santos
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisou o perfil e o comportamento de investidores da cidade de São Paulo em relação aos Fundos de Investimento (FI), identificando os critérios de escolha e as barreiras de acesso a esses produtos. A investigação parte da premissa de que o aumento de investidores no Brasil gera novos perfis e comportamentos que demandam análise. O foco são os fundos, definidos como veículos de aplicação coletiva geridos por especialistas (Calado et al., 2009), que oferecem vantagens como diversificação, gestão profissional e acesso a mercados complexos (Maestri e Malaquias, 2017; Oliveira, 2020).
O mercado de fundos de investimento no Brasil expandiu-se após o Plano Real em 1994, que superou a hiperinflação e a instabilidade regulatória (Ivantes Dias e Silva, 2021). Atualmente, o Brasil lidera o setor na América Latina e figura entre os dez maiores mercados globais, com captação líquida de R$ 83,8 bilhões no primeiro trimestre de 2021, um crescimento de 120% sobre o ano anterior (Farias, 2007; Guimarães e Malaquias, 2023). O número de investidores pessoa física aumentou de 583 mil em 2011 para 3,1 milhões em outubro de 2020 (Bolsa de Valores Brasileira [B3], 2023).
Apesar do avanço, o comportamento do investidor brasileiro permanece predominantemente conservador, influenciado pela falta de educação financeira (Bolzan e Kneipp, 2025). Um estudo da B3 (2023) revelou que 67% dos investidores concentram seu capital em produtos de renda fixa. Apenas 33% exploram ativamente a renda variável. O mesmo estudo aponta que 35% dos investidores de renda fixa nunca diversificaram suas carteiras por falta de conhecimento, o que evidencia uma barreira educacional.
A diversificação é um pilar para otimizar a relação risco-retorno, conforme a Teoria Moderna do Portfólio de Markowitz (Fidelis et al., 2024). Os Fundos de Investimento são, por natureza, veículos de diversificação, mas sua adoção depende de um conjunto de fatores sociodemográficos, comportamentais e cognitivos. Esta pesquisa investigou esses fatores no investidor paulistano, analisando as motivações e os obstáculos que limitam o uso de Fundos de Investimento, buscando contribuir com insights para o mercado financeiro, educadores e investidores.
A metodologia foi de natureza aplicada, com abordagem mista (qualitativa e quantitativa) e objetivos exploratórios e descritivos, via survey (Malconi e Lakatos, 2017). Um questionário online anônimo foi aplicado na plataforma Google Forms durante maio de 2025. A amostra não probabilística por conveniência resultou em 80 respondentes válidos: homens e mulheres residentes em São Paulo, maiores de 18 anos e com experiência em investimentos. A escolha de São Paulo se justifica pela concentração de 51% dos investidores do país na região Sudeste (ANBIMA, 2024).
O questionário foi estruturado em pilares: perfil sociodemográfico, conhecimento e objetivos financeiros, horizonte de investimento, familiaridade com FI e fontes de aprendizado, tolerância ao risco e comportamento em crises, e fontes de informação. Havia seções segmentadas para quem investe em FI, com foco nos tipos de fundo e critérios de escolha, e para quem não investe, com foco nas barreiras percebidas.
Os dados foram processados no software RStudio em três etapas: 1) análise descritiva, com cálculo de frequências para caracterizar a amostra; 2) análise comparativa dos resultados com a literatura e estudos de mercado (ANBIMA, B3); e 3) análise inferencial para verificar associações estatísticas. Para a análise inferencial, aplicou-se o teste qui-quadrado de independência (χ²) com nível de significância de 5% (p < 0,05), para avaliar a associação entre as características dos participantes e a decisão de investir ou não em Fundos de Investimento.
A análise descritiva mostrou que 68,8% dos 80 participantes investem em Fundos de Investimento. O dado se alinha a estudos como o de Hoffmann (2021), que encontrou 49% de investidores em FI, e dialoga com o da B3 (2023), que aponta alocação em FIIs para 79% dos perfis. O perfil sociodemográfico predominante na amostra foi de mulheres (60%), com idade entre 25 e 34 anos (45%), ensino superior completo (47,5%) e renda mensal na classe C (48,75%). A maioria (83,8%) declarou possuir reserva de emergência. Este perfil se assemelha ao panorama da ANBIMA (2024), que aponta a classe C como a maior parcela de investidores (46%), mas difere de Cano et al. (2024), que encontraram maior renda e idade em investidores de FIIs.
Os ativos mais populares entre os participantes foram o CDB (72,5%), a poupança (66,25%) e o Tesouro Direto (52,5%), refletindo a preferência nacional por renda fixa (ANBIMA, 2024; Bolzan e Kneipp, 2025). Ativos como debêntures e ETFs tiveram adesão inferior a 5%. A maioria se autopercebeu como iniciante (46%) ou intermediário (43%) em relação a Fundos de Investimento. O principal objetivo financeiro foi a construção de patrimônio e independência financeira (71,25%), alinhado a motivações identificadas pela B3 (2023) e Borba e Reis (2022). O horizonte de investimento predominante foi o de longo prazo, com 61,25% pretendendo manter os recursos aplicados por mais de cinco anos.
A familiaridade com o funcionamento dos Fundos de Investimento foi um ponto crítico: 28,75% dos respondentes declararam não ter familiaridade com o produto. Para os que buscaram informação, o conteúdo digital especializado foi a principal fonte (21,25%). A falta de conhecimento como barreira é corroborada pela ANBIMA (2024) e Lopes (2020). Em relação à tolerância ao risco, 50% dos participantes se declararam conservadores, resultado similar aos 41% avessos ao risco encontrados por Borba e Reis (2022). Diante de uma crise, a reação mais comum seria esperar a recuperação (52,5%), mas uma queda hipotética de 20% geraria preocupação em 61,25%, comportamento alinhado à Teoria da Perspectiva sobre aversão à perda (Silva, 2024; Steffen, 2008).
As fontes de informação mais utilizadas para a tomada de decisão foram as profissionais e técnicas (41,25%), seguidas por redes sociais (30%). A influência de terceiros foi reconhecida por 45% dos participantes, em linha com achados da ANBIMA (2024) e Lopes (2020). No subgrupo que já investe em FI, o tipo de fundo preferido é o de Renda Fixa (56%), e o principal critério de escolha é a rentabilidade histórica (40%). Para o subgrupo que não investe, a principal barreira apontada foi a falta de conhecimento sobre o funcionamento dos fundos (72%), e o principal estímulo para começar seria adquirir mais conhecimento (72%). Ao escolher qualquer ativo, os critérios mais valorizados por este grupo foram retorno financeiro e segurança (ambos com 36%).
A análise inferencial, por meio do teste do qui-quadrado, revelou associações estatisticamente significativas. O nível de escolaridade apresentou forte associação (p < 0,001): 58% dos investidores em FI possuíam pós-graduação, enquanto entre os não investidores predominou o ensino superior (64%) e o ensino médio (20%), o que é consistente com os achados de Cano et al. (2024). A renda mensal também se mostrou um fator determinante (p < 0,001), onde 20% dos investidores em FI pertenciam à classe A, um grupo ausente entre os não investidores, que se concentraram na classe C (68%).
O horizonte temporal de investimento também demonstrou associação significativa (p = 0,043). Investidores de FI apresentaram uma orientação predominantemente de longo prazo (67%), enquanto o grupo de não investidores teve maior proporção com horizonte de curto prazo (24%), reforçando a percepção dos fundos como veículos para objetivos de longo prazo (Hoffmann, 2021). A familiaridade com o produto teve uma das associações mais fortes (p < 0,001): 68% dos não investidores afirmaram não ter familiaridade com o tema, confirmando o desconhecimento como a principal barreira (Lopes, 2020).
O comportamento diante do risco também diferenciou os dois grupos. A reação a uma perda financeira (p = 0,022) mostrou que 40% dos não investidores resgatariam seus investimentos imediatamente, comportamento adotado por apenas 13% dos investidores de FI. Em contrapartida, 9% dos investidores de FI aumentariam seus aportes em um cenário de queda. O sentimento diante de uma queda hipotética de 20% (p = 0,047) também foi distinto: investidores de FI se mostraram mais propensos a se sentirem tranquilos (15%) em comparação com os não investidores (0%), e menos propensos a não saber como reagir (7% contra 24%). Esses resultados estão alinhados com a Teoria da Perspectiva (Steffen, 2008; Silva, 2024) e com perfis de investidores da B3 (2023).
Os resultados inferenciais consolidam um perfil do investidor de Fundos de Investimento com maior capital humano (escolaridade), capital financeiro (renda), planejamento (horizonte de longo prazo), conhecimento (familiaridade) e resiliência emocional (comportamento em crises). A ausência dessas características no grupo de não investidores aponta para a necessidade de iniciativas de educação financeira para mitigar a barreira do desconhecimento e promover uma tomada de decisão mais informada.
Este estudo analisou o perfil e o comportamento de investidores da cidade de São Paulo em relação aos Fundos de Investimento, identificando os critérios de escolha e as barreiras de acesso. Os resultados evidenciam que o desconhecimento sobre o funcionamento dos fundos é a principal barreira para os não investidores, associado a uma baixa tolerância ao risco e a uma maior propensão a reações impulsivas em momentos de crise. Em contrapartida, o grupo que investe em FI demonstrou ter maior escolaridade, renda mais elevada, um horizonte de investimento de longo prazo e maior familiaridade com o mercado, o que se traduz em um comportamento mais resiliente e estratégico diante da volatilidade. A análise comparativa com estudos de referência como os da ANBIMA (2024) e B3 (2023) reforça a consistência desses achados no contexto brasileiro; a educação financeira emerge como um fator crítico
Referências:
ANBIMA – Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais. (2024). Raio X do Investidor Brasileiro – 8ª edição. Disponível em: https://www. anbima. com. br/data/files/AB/A3/C2/A8/88C76910FCADB769B82BA2A8/Raio-X-do-Investidor-Brasileiro-8-edicao. pdf
B3 – Brasil, Bolsa, Balcão. (2024). Perfil do Investidor Pessoa Física. Disponível em: https://www. b3. com. br/pt_br/market-data-e-indices/servicos-de-dados/market-data/consultas/mercado-a-vista/perfil-pessoas-fisicas/perfil-pessoa-fisica/
B3. O Brasil que investe B3. [S. l.: s. n.]. 2023. Disponível em: https://irp. cdn-website. com/b44cdc05/files/uploaded/O-Brasil-que-investe-B3-a-bolsa-do-Brasil. pdf.
Bolzan, A. G.; Kneipp, L. 2025. Comportamento Dos Investidores No Mercado Financeiro No Brasil No Primeiro Trimestre De 2023 E 2024. Disciplinarum Scientia, [s. l.], v. 21, n. 1, p. 227–250.
Borba, J. A.; Reis, M. P. 2022. Educação financeira e perfil de risco: evidências entre investidores brasileiros. Revista de Administração e Contabilidade 9(1): 88-110.
Calado, l. R.; Miranda, l. M. T. R. D. S. A. V. P. M. B. R. 2009. Fundos De Investimento material de estudos da certificação cpa-10 Curso Básico De Finanças. [S. l.: s. n.]. Disponível em: https://www. anbima. com. br/data/files/A6/40/7E/33/466A4810EA926748882BA2A8/CPA-10-Cap5. pdf.
Cano, A.; Affonso, C. A. C.; Costa, M. A. B.; Oliveira, M. R. (2024). Análise do perfil de investidores em fundos de investimento imobiliário: perspectivas de investidores de um fórum de discussões. Navus – Revista de Gestão e Tecnologia. v. 14: 1–20. DOI: https://doi. org/10.22279/navus. v14.1898
Farias, J. P. 2007. Brasil ocupa décima posição em ranking de países com maior indústria de fundos. [S. l.: s. n.]. Disponível em: https://www. infomoney. com. br/mercados/brasil-ocupa-decima-posicao-em-ranking-de-paises-com-maior-industria-de-fundos/.
Fidelis, E. C. Dos S.; Do Nascimento, L. K. M.; Aranha, J. A. M.; Neves, L. De L. 2024. Fundos De Investimento Imobiliário No Brasil: Uma Perspectiva Estatística Sobre Risco. Journal of Business and Management, [s. l.], v. 26, n. 11, p. 49–60.
Guimarães, T. M.; Malaquias, R. F. 2023. Desempenho de Fundos de Ações considerando Investimentos ESG, Restrições Financeiras e a Pandemia COVID-19. Brazilian Business Review, [s. l.], v. 20, n. 1, p. 18–37.
Hoffmann
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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