
19 de fevereiro de 2026
Análise de investimentos em empresas de capital aberto em recuperação judicial
Renan Nunes Cabral; Rodrigo Silva Barreto
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Esta pesquisa investiga se o investimento em ações de empresas em recuperação judicial é uma alternativa financeiramente vantajosa no cenário econômico brasileiro. A análise determina, por meio de indicadores financeiros e econômicos, os riscos e oportunidades desses ativos, visando subsidiar a decisão de investidores, especialmente os menos experientes. A investigação avalia a saúde financeira de companhias em crise, comparando seu desempenho com o de pares de mercado para dimensionar suas dificuldades e potencial de recuperação.
A relevância do estudo é acentuada pelo contexto de juros elevados e pelo aumento de investidores pessoa física na B3. Segundo a B3 (2024), 49% dos novos participantes têm entre 25 e 39 anos, um grupo com menor experiência e vulnerável a decisões baseadas no baixo preço da ação, sem análise fundamentalista, o que justifica a investigação sobre ativos de alto risco.
A crise empresarial resulta de uma confluência de fatores internos e externos. Os internos incluem desentendimentos societários, inexperiência gerencial e obsolescência de equipamentos, que geram baixa produtividade (Scalzilli, Spinelli e Tellchea, 2025). Fatores externos envolvem mudanças na política cambial, fechamento de mercados, obrigações trabalhistas e o aumento das taxas de juros, que encarece o crédito e comprime as margens de lucro (Scalzilli, Spinelli e Tellchea, 2025).
A Lei nº 11.101/2005 (Brasil, 2005) permite que empresas viáveis superem crises econômico-financeiras, preservando a unidade produtiva, empregos e interesses de credores. O objetivo é evitar que uma crise transitória leve à insolvência, cujos efeitos se propagam pela cadeia produtiva (Campinho, 2025). Empresas de capital aberto em recuperação judicial continuam com suas ações negociadas, mas são removidas de índices como o Ibovespa, o que geralmente provoca uma queda drástica em seu valor de mercado.
A análise de demonstrações financeiras exige conhecimento contábil para evitar conclusões equivocadas, pois indicadores isolados podem distorcer a realidade da empresa (Martins, 2020). A interpretação de indicadores de liquidez e rentabilidade requer a leitura contextualizada das notas explicativas e do parecer da auditoria, que detalham a continuidade operacional e a integridade dos dados. Este trabalho adota, portanto, uma abordagem multifacetada para avaliar o investimento em empresas que lutam por sua sobrevivência.
A pesquisa adotou uma abordagem metodológica quantitativa e descritiva. O método quantitativo oferece precisão e controle de variáveis (Marconi e Lakatos, 2022), enquanto o descritivo detalha as características do fenômeno (Almeida, 2014), testando a hipótese sobre a viabilidade do investimento (Lozada e Nunes, 2019). O desenho foi um estudo de caso múltiplo com Americanas S. A. (varejo) e Oi S. A. (telecomunicações), escolhidas por sua proeminência e pelo impacto de suas reestruturações. Cada empresa foi comparada a um benchmark de seu setor, com dados do Instituto Assaf, no período de 2021 a 2024, abrangendo os momentos pré e pós-pedido de recuperação judicial.
A seleção das empresas para os benchmarks (Grupo A para telecomunicações, Grupo B para varejo) incluiu uma análise de correlação dos retornos das ações para garantir comparabilidade. No Grupo A, a empresa Eletromidia S. A. foi excluída por apresentar correlação negativa com a Oi S. A. No Grupo B, as empresas Casas Bahia (BHIA3) e Pet Center Comércio (PETZ3) foram desconsideradas pela correlação negativa com a Americanas S. A. Os dados foram coletados das demonstrações financeiras consolidadas (Balanço Patrimonial e Demonstração do Resultado do Exercício) disponíveis nos portais de Relações com Investidores (RI) das companhias.
As ferramentas analíticas incluíram indicadores de liquidez imediata, geral e corrente para avaliar a solvência (Martins, Miranda e Gilberto, 2024), e o Termômetro de Kanitz, um modelo preditivo de falência que gera um escore de solvência (Assis e Martins, 2017; Marion, 2019). A performance econômica foi medida por indicadores de rentabilidade como o Retorno sobre o Investimento (ROI), o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) e a Margem Líquida, que avaliam a eficiência da empresa (Alves e Laffin, 2018). A reação do mercado foi analisada pela volatilidade das ações, utilizando retornos discretos para quantificar os ganhos ou perdas dos investidores (Lima, 2023).
A análise da Americanas S. A. partiu da reapresentação de suas demonstrações financeiras após a descoberta de inconsistências contábeis de R$ 20 bilhões. Isso levou o auditor a emitir abstenção de opinião para 2021 e 2022. Em 2023 e 2024, a opinião evoluiu para “sem ressalvas”, mas com ênfase na incerteza sobre a continuidade operacional, dado o capital circulante líquido negativo de R$ 38,5 bilhões e o prejuízo acumulado de R$ 43,1 bilhões em dezembro de 2023. A reestruturação da dívida foi viabilizada por uma integralização de capital de R$ 24,4 bilhões, usada para liquidar passivos financeiros.
Os indicadores de liquidez da Americanas S. A. confirmaram a crise. Entre 2021 e 2023, os índices de liquidez (imediata, geral e corrente) foram significativamente inferiores à média do setor de varejo e, majoritariamente, abaixo de 1,0, indicando insuficiência de ativos de curto prazo para cobrir dívidas de curto prazo. A liquidez corrente caiu de 0,48 em 2021 para 0,22 em 2023. Este cenário alinha-se a estudos que mostram empresas em recuperação com dificuldades em honrar compromissos (Benedetti e Hahn, 2022). A situação se reverteu em 2024, após o aporte de capital, quando a liquidez corrente saltou para 1,62.
O Termômetro de Kanitz aplicado na Americanas S. A. mostrou uma visão dinâmica do risco. Em 2023, a empresa estava na “zona de penumbra”, um estado de pré-insolvência. A melhora em 2024, impulsionada pelo aumento de capital, moveu a companhia de volta para a zona de solvência. Isso demonstra a importância de analisar não apenas indicadores passados, mas também eventos subsequentes que podem alterar o perfil de risco.
A rentabilidade da Americanas S. A. foi consistentemente negativa entre 2021 e 2023, com ROI, ROE e margem líquida muito abaixo dos pares. O ROE foi de -148,26% em 2021 e -107,21% em 2022, refletindo destruição de valor. O resultado positivo em 2024, com ROE de 166,62%, deve ser visto com cautela, pois foi influenciado por efeitos não recorrentes da reestruturação, não representando necessariamente uma recuperação operacional. O mercado de varejo como um todo também apresentou margens pressionadas no período.
A volatilidade das ações da Americanas S. A. (AMER3) refletiu os eventos da crise. Antes da fraude, a flutuação estava alinhada ao mercado. No primeiro trimestre de 2023, o preço da ação despencou de R$ 12,00 para R$ 1,00. Contudo, a análise trimestral mostrou uma recuperação na performance relativa da ação a partir do segundo trimestre de 2023, que passou a acompanhar a flutuação do setor. Embora o choque inicial seja severo, a percepção da marca e um plano de recuperação podem estabilizar o ativo, criando oportunidades para investidores especulativos, mas também aumentando a sensibilidade a notícias negativas.
O caso da Oi S. A. apresentou uma crise mais prolongada. Os relatórios de auditoria de 2021 já apontavam incerteza sobre a continuidade operacional devido a prejuízos recorrentes e patrimônio líquido negativo. Em 2022 e 2023, os auditores emitiram abstenção de opinião, citando os prejuízos e um segundo pedido de recuperação judicial. A situação ganhou clareza em 2024 com a aprovação do novo plano. A análise da DRE da Oi S. A. revelou uma deterioração contínua da margem operacional, que passou de 4% em 2021 para -46% em 2024, com queda drástica no faturamento, evidenciando problemas no seu negócio principal.
Os indicadores de liquidez da Oi S. A. foram consistentemente baixos, muito aquém da média do setor. Embora não negativos, devido ao alto valor do ativo imobilizado, sua capacidade de gerar caixa era limitada. O Termômetro de Kanitz não classificou a empresa em falência, mantendo-a na zona de solvência em um patamar baixo, devido ao peso dos ativos de longo prazo na equação, que mascaram a fragilidade operacional. Os indicadores de rentabilidade foram majoritariamente negativos, com o ROE atingindo -390,55% em 2021. O resultado financeiro positivo em 2024 foi um evento contábil decorrente da novação da dívida, não de melhora operacional.
A volatilidade das ações da Oi S. A. (OIBR3) demonstrou alta sensibilidade aos eventos da recuperação judicial. A partir de 2022, quedas consecutivas ocorreram em resposta às incertezas. Similarmente à Americanas, após o choque inicial, a flutuação do ativo tendeu a se realinhar com a média do mercado, mas com picos de volatilidade em resposta a notícias específicas, como a possibilidade de as ações se tornarem “penny stocks”. Este padrão reforça que tais ativos se tornam veículos para especulação de curto prazo; o timing é mais relevante que a análise fundamentalista.
Os resultados corroboram a literatura. A deterioração dos indicadores de liquidez e rentabilidade antes do pedido de recuperação judicial está em linha com os achados de Benedetti e Hahn (2022), que identificaram a deterioração desses índices como um prenúncio da crise. A classificação de pré-insolvência (“penumbra”) pelo Termômetro de Kanitz para a Americanas em 2023 também é consistente com pesquisas que mostram empresas em recuperação oscilando entre a insolvência e zonas de risco. Ressalta-se que o endividamento elevado não é inerentemente negativo se for de longo prazo e a baixo custo, podendo alavancar a rentabilidade (Martins, Miranda e Diniz, 2024). A alta sensibilidade das ações a notícias, como observado, alinha-se à influência de expectativas e fatores comportamentais em ambientes de incerteza (Lima, 2023).
A análise das demonstrações financeiras e do comportamento de mercado da Americanas S. A. e da Oi S. A. demonstrou que empresas em recuperação judicial exibem baixa capacidade de liquidez e rentabilidade operacional. Embora modelos preditivos como o Termômetro de Kanitz possam não indicar falência iminente, devido a ativos ou planos de reestruturação, os indicadores de desempenho econômico revelam profunda fragilidade. O investimento nesses ativos é de altíssimo risco, com o preço das ações sendo fortemente impactado pelos anúncios da crise. No entanto, essa volatilidade cria oportunidades especulativas para investidores com perfil arrojado e conhecimento técnico. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o investimento em ações de empresas em recuperação judicial, embora apresente oportunidades especulativas de curto prazo, é uma alternativa de alto risco financeiro que exige análise criteriosa, elevada tolerância ao risco e não se configura como uma estratégia vantajosa para o investidor comum.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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