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Projetos
27 de agosto de 2025
Do rascunho à tese: a estrutura do projeto de pesquisa
Sucesso nessa área envolve pensar estrategicamente sobre o problema, avaliar seu impacto e planejar o caminho metodológico

As crianças costumam ouvir com frequência a pergunta: “O que você vai ser quando crescer?”. Na academia, essa frase ganha nova roupagem: “Qual é o objetivo da sua pesquisa?”. Carregada de expectativa e, muitas vezes, ansiedade, essa questão pode colocar pesquisadores recém-inseridos na academia — e até mesmo os que têm grande experiência — diante de um paradoxo: ao mesmo tempo em que procuram definir um foco claro, há também o desejo de inovar e de abarcar múltiplos problemas em uma única pesquisa. Surge, assim, a sensação de que qualquer recorte representa uma limitação e de que toda escolha implica abrir mão de outras possibilidades. Com o passar do tempo, contudo, torna-se insustentável a tentativa de “abraçar o mundo”.
No entanto, como lembra Umberto Eco em Como se Faz uma Tese (2010), o projeto não é uma prisão, mas sim uma construção que deve ser cuidadosamente planejada. Sua força está justamente no ato de decidir o ponto de partida, organizar ideias e construir um percurso coerente. Mais do que um manual para escolher temas e fazer fichamentos, Eco (2010) convida o leitor a compreender a pesquisa como um exercício intelectual profundo, capaz de moldar a forma como o pesquisador deve se posicionar no mundo acadêmico e nos problemas contemporâneos.
Essa consciência é essencial porque, como aponta Peter J. Feibelman em “A PhD Is Not Enough!” (2011), “nenhuma habilidade técnica vale mais do que saber selecionar projetos de pesquisa estimulantes. Lamentavelmente, essa habilidade vital quase nunca é ensinada”. Em outras palavras, não basta dominar metodologias ou ferramentas, é preciso compreender como estruturar um projeto de forma que ele seja relevante, viável e capaz de gerar resultados significativos. Essa capacidade de organização não se restringe a preencher um formulário ou montar um sumário: envolve pensar estrategicamente sobre o problema, avaliar seu impacto e planejar o caminho metodológico antes mesmo de colocar a mão na massa.
Em tal cenário surgem, então, algumas perguntas inevitáveis: que elementos realmente não podem faltar na introdução de um projeto para que ele se sustente? E como delimitar o problema de pesquisa sem perder relevância ou se dispersar no meio do caminho? Como elaborar uma metodologia que responda às questões levantadas?
Ainda que o pesquisador e futuro autor consiga encontrar as respostas para todas as perguntas acima, há um fator que vai além das suas habilidades técnicas. Becker (2008) comenta que a escrita acadêmica é atravessada por pressões e estruturas sociais que podem sufocar a criatividade e desestimular a apresentação de propostas. O medo de críticas, a insegurança diante de ambientes competitivos e a ridicularização de ideias “ainda cruas” muitas vezes afastam bons estudiosos do ato de propor. Goldemberg (2011) reforça essa tensão ao lembrar que todo pesquisador vive em um estado permanente de incerteza: a pesquisa científica, por natureza, lida com resultados imprevisíveis e, portanto, traz consigo um componente inevitável de insegurança.
Nesse interim, é preciso lembrar que um projeto de pesquisa não nasce isolado. Ele é fruto de um diálogo constante com a comunidade acadêmica, e aqui entra um ponto que Eco, Feibelman e Becker apontam de forma indireta: um projeto de pesquisa sólido nasce da combinação entre planejamento, escolha estratégica do tema e interação contínua com o orientador e a academia, enfrentando a incerteza e os desafios sociais da pesquisa científica.
Curiosidade intelectual
O professor da USP José Eurico Possebon Cyrino, conhecido como Prof. Zico, cuja trajetória acadêmica e profissional está registrada na série “Trajetórias que Inspiram”, alerta que um projeto sólido nasce do equilíbrio entre planejamento, curiosidade intelectual e constante diálogo com a comunidade científica. Além de sua contribuição como pesquisador, Prof. Zico foi membro do corpo editorial da revista “Scientia Agrícola”, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) por 13 anos. Em função dessa experiência, foi convidado para estruturar as revistas “Quaestum” e “Estratégias e Soluções (E&S)”, publicadas pela Editora Pecege, reforçando seu papel na construção de espaços de difusão científica e na formação de pesquisadores em diferentes níveis da academia.
Estruturando o tema e delimitando o problema
Entre suas recomendações para os pesquisadores que desejam transformar um tema amplo em um problema claro, específico e relevante está tomar o cuidado de, ao começar a pensar em um projeto, tentar diferenciar o tema e do objetivo do projeto em construção.
O termo “tema”, ordinariamente, diz respeito ao assunto que se pretende discutir, uma proposição de amplo alcance inserida em uma área do conhecimento, enquanto o “objetivo” de um projeto de pesquisa é originado da hipótese de trabalho, da resposta provisória para o problema que se formula e se pretende resolver. Um problema está inserido num tema, faz parte da construção do assunto, é um “pedacinho” do assunto representado pelo projeto de pesquisa.
A definição do tema resulta da reflexão e contextualização intelectual do problema, do conhecimento (revisão de literatura) abrangente da área em que o pesquisador está inserido, em outras palavras, do(s) vazio(s) de conhecimento que o pesquisador identifica — a partir do seu interesse pessoal, institucional, empresarial, associativo — na área em que atua.
A reflexão origina as perguntas: o que pode ser feito para preencher esse vazio de conhecimento? Como e quais as possíveis implicações de se fazer o que pode ser feito, ou seja, a reflexão origina a hipótese de trabalho e a metodologia conhecida ou a ser desenvolvida e que vai ser empregada para resolver o problema? De “posse” de tema e hipótese de trabalho, o pesquisador define o objetivo, ou seja, o que pretende alcançar, o alvo, o fim, o propósito a ser alcançado na concretização da ação, no desenvolvimento do projeto de pesquisa inserido no assunto, no objeto de sua pesquisa.
Construindo bons objetivos
Aprofundando a discussão, Prof. Zico ressalta que os projetos de pesquisa podem diferir quanto à natureza, à abordagem e à metodologia, considerando ainda as características epistemológicas e ontológicas — filosóficas — da pesquisa. Seja qual for a natureza, a abordagem, a metodologia empregada e a abordagem filosófica do projeto de pesquisa em construção, há que se tomar muito cuidado para que o objetivo seja enunciado de forma clara e objetiva, contendo os elementos essenciais para despertar o interesse do público acadêmico – comunidade científica em geral e avaliadores das agências de fomento em particular.
Minimamente, um projeto bem estruturado contém um título claro e inequívoco, o contexto intelectual — revisão de literatura —, a necessária justificativa para a realização da pesquisa, a definição precisa do assunto, da hipótese de trabalho e do(s) objetivo(s), e a descrição da metodologia — material e métodos —, baseada em evidências e em nível de detalhamento preciso e tecnicamente correto. Finalmente, o pesquisador deve elaborar seus projetos definindo metas claras e coerentes, verdadeiramente atingíveis, com o entendimento precípuo de que não vai (e por isso não deve tentar) resolver todos os problemas de uma dada área ou subárea do conhecimento em uma única “tentativa”.
Mudanças ao longo do caminho
Finalmente, para ele, não há como o universo da pesquisa científica ou tecnológica “escapar” de dois aforismos populares: a única coisa verdadeiramente previsível na condução de um projeto de pesquisa são os imprevistos, e vergonha não é mudar de ideia; vergonha é não ter ideia para mudar. Pesquisadores devem elaborar seus projetos antecipando os inevitáveis imprevistos e tendo sempre “no bolso do colete” um plano alternativo, o famoso “plano B”, para contornar tais situações. Para tanto, devem se munir de conhecimentos sólidos e abrangentes sobre a área ou subárea do conhecimento em que sua linha de pesquisa está inserida e de todos os cuidados possíveis e imagináveis na escolha do tema e na definição do objetivo e redação do seu projeto de pesquisa.
Continuidade e publicação
Ao final de uma pesquisa, novas questões surgem e ideias emergem a partir das soluções que ela proporciona. Na verdade, como pesquisador, acredito que surgem ainda mais dúvidas e questionamentos do que respostas, abrindo espaço para novas oportunidades de investigação. Assim como Eco (2010) já sugeria, cada pesquisa é, na verdade, um ponto de partida para outras investigações.
Por fim, para que um estudo alcance sua plena concretização, é importante que outras pessoas também tenham acesso aos resultados, questionem e sejam instigadas a estudar sobre o tema. Por isso, a escolha de onde publicar, tema tratado na coluna “Escolha do periódico, escrita e submissão”, faz parte dessa relação entre aprendizado e partilha de conhecimento. Investir no planejamento do projeto, definir objetivos claros e mudar de rota sempre que for preciso é, portanto, a via para avançar na ciência e inspirar futuras gerações, assim como a trajetória inspiradora do Prof. Zico.
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Este conteúdo foi produzido por:

Luiz Eduardo Giovanelli
Mestre em Administração pela Universidade de São Paulo. Especialista em Gestão Pública pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e graduado em Administração pela Universidade Estadual do Norte do Paraná. Desde 2023, atua como um dos editores-assistentes da Revista Estratégias e Soluções.
Quem publicou esta coluna
Editora Pecege





































