Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

02 de outubro de 2026

Corporeidade negra: a dança afro-brasileira como prática pedagógica antirracista nos anos iniciais do ensino fundamental

Corporeidade Negra: a Dança Afro-brasileira como Prática Pedagógica Antirracista nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental

Érika Leme Moraes; Washington Maciel da Silva

DOI: 10.22167/2675-6528-202602871

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

Apesar da obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nas instituições de educação básica desde 2003, sua aplicação no ambiente escolar ainda ocorre de maneira limitada. Diante desse cenário, o estudo analisou de que modo a corporeidade da dança afro-brasileira pode contribuir para a efetivação dessa legislação, além de investigar seu potencial como instrumento educativo. Para isso, utilizou referências teóricas sobre relações étnico-raciais, dança afro-brasileira e educação antirracista. A pesquisa foi realizada por meio de análise documental e observação não participativa, com ações exploratórias e descritivas, em turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental 1 de uma escola privada na cidade de São Paulo. Os resultados indicaram que a utilização da dança afro-brasileira no contexto educacional constituiu uma potente prática pedagógica. Essa abordagem favoreceu o conhecimento histórico, ampliou o contato dos estudantes com saberes ancestrais, promoveu o respeito e a valorização de corpos e culturas negras, e incentivou o combate a preconceitos. Concluiu-se que a prática fortaleceu a autoestima de todos os envolvidos, contribuindo para a construção de diálogos antirracistas e para a formação de uma sociedade que conheça e valorize a pluralidade.

Palavras-chave: dança afro-brasileira; educação; educação antirracista; relações étnico-raciais.

1. Introdução

Desde o nascimento, o corpo humano é um meio fundamental de comunicação e interação com o mundo. O movimento é intrínseco ao desenvolvimento infantil, facilitando a descoberta de si e do ambiente, além de promover o desenvolvimento cognitivo, psicomotor e socioemocional (Fonseca, 2008). Nesse contexto, a dança emerge como uma expressão natural e potente.

No Brasil, a dança faz parte do cotidiano escolar desde os primeiros anos, sendo regulamentada por legislações como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB, Lei nº 9394/1996 (Brasil, 1996), e pela Base Nacional Comum Curricular, BNCC (Brasil, 2018), que estabelecem as aprendizagens essenciais. Contudo, a história da educação brasileira tem sido marcada por uma forte influência eurocêntrica, que historicamente marginaliza e estereotipa as manifestações culturais africanas e afro-brasileiras no ambiente escolar.

Apesar da intensa mobilização dos movimentos sociais negros, que culminou na instituição das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, as quais tornam obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena na matriz curricular, a aplicação efetiva dessas normativas ainda é limitada nas instituições de ensino (Fundação Itaú, 2024). Essa lacuna contribui para a perpetuação do racismo estrutural e de preconceitos étnico-raciais, silenciando vozes e narrativas corporais que foram moldadas por uma educação eurocentrada (Sodré, 2009).

O racismo no ambiente escolar produz efeitos profundos na autoestima e no desenvolvimento psicossocial das crianças, impulsionando a violência e o abandono (Carneiro, 2020). A implementação de uma educação antirracista é, portanto, fundamental para desconstruir preconceitos e promover a valorização da diversidade étnico-racial (Pinheiro, 2023). A valorização dos conhecimentos negros no contexto escolar é um passo importante para o enfrentamento ao racismo brasileiro e para a formação de uma sociedade mais democrática (Munanga, 2005).

Nesse cenário, a corporeidade da dança afro-brasileira se apresenta como uma ferramenta pedagógica potente. Ela transcende a visão dualista entre mente e corpo, compreendendo o indivíduo em sua totalidade integrada, onde a vivência motora, a cognição, o afeto e a cultura se constituem indissociavelmente (Martins, 2021). A dança atua como meio de transmissão de saberes ancestrais, uma forma de resistência cultural e de propagação da ancestralidade, permitindo que corpos marginalizados ocupem espaços e narrem suas próprias histórias (Gomes, 2017).

A cultura negra, por meio de suas práticas corporais, não apenas comunica, mas educa, cura e reconfigura os modos de existir, sendo um caminho para a “reposição de saberes” (Nego Bispo, 2015). Reconhecer e integrar a dança afro-brasileira no currículo escolar não apenas cumpre a obrigatoriedade legal, mas, primordialmente, possibilita que os estudantes conheçam as histórias e vozes silenciadas, fortalecendo a identidade cultural e a construção de uma consciência crítica e do respeito à diversidade, elementos essenciais para o enfrentamento das desigualdades raciais. Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar de que modo a corporeidade da dança afro-brasileira pode contribuir para a efetivação da legislação sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira, além de investigar seu potencial como instrumento educativo, utilizando referências teóricas sobre relações étnico-raciais, dança afro-brasileira e educação antirracista.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza exploratória e descritiva, com abordagem metodológica qualitativa. O objetivo foi analisar de que modo a corporeidade da dança afro-brasileira pode contribuir para a efetivação da legislação sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira, além de investigar seu potencial como instrumento educativo. Para tanto, a pesquisa foi realizada por meio de análise documental e observação não participativa, conforme descrito nas seções subsequentes.

A investigação foi conduzida em uma escola particular, localizada na região oeste do município de São Paulo, que abrange turmas desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Os participantes da pesquisa foram os alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental 1 e o corpo escolar, observados nas disciplinas que compõem o componente curricular denominado “expression”, que engloba aulas de Arte, Educação Física, Música e Teatro. A instituição atende predominantemente a famílias de nível socioeconômico elevado, mas possui uma política de ações afirmativas com bolsas de estudo.

A escolha da escola justificou-se pelo seu currículo, que integra o ensino da cultura afro-brasileira, e pela publicação, em 2022, do Manual para Escolas Antirracistas. Este manual, desenvolvido pela equipe de relações étnico-raciais da própria escola sob supervisão de Bento (2022), reúne informações teóricas, reflexões e práticas escolares. A instituição possui um histórico de desenvolvimento de projetos que utilizam a dança afro-brasileira como ferramenta para uma educação diversa, o que a tornou um objeto empírico relevante para o estudo.

Para a coleta de dados, empregou-se a análise documental das diretrizes curriculares da escola e do Manual para Escolas Antirracistas, associada à observação não participativa das turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental 1. Essas abordagens visaram responder a questões específicas: a) Existe formação dos professores e equipe escolar sobre a temática? b) Quais recursos são utilizados para envolver as famílias e quais ações são promovidas pela escola? c) A introdução da dança afro-brasileira pode ser considerada uma ferramenta para o desenvolvimento de relações mais saudáveis na escola?

A observação não participativa foi selecionada como método de coleta por permitir que a pesquisadora atuasse como espectadora, sem interagir diretamente com o ambiente ou com os sujeitos observados. Essa característica possibilitou vivenciar as dinâmicas habituais do cotidiano escolar sem interferências diretas, garantindo a naturalidade dos comportamentos. Conforme Gil (2019), essa modalidade de observação favorece a análise de condutas em seu contexto natural, minimizando a influência do investigador sobre o objeto de estudo e contribuindo para uma compreensão mais fiel das práticas pedagógicas.

A pesquisa documental foi utilizada para analisar fontes diversificadas de dados, permitindo a exploração de diferentes perspectivas sobre o objeto de estudo. Gil (2002) destaca que este método não exige contato direto com os sujeitos pesquisados, o que pode conferir maior veracidade às informações, uma vez que as circunstâncias de contato direto podem influenciar a coleta. Complementarmente, Gerhardt e Silveira (2009) apontam que a pesquisa documental, pela diversidade de fontes, amplia o olhar analítico e a compreensão das dimensões das questões estudadas. Sá-Silva et al. (2009) reforçam que a análise documental contextualiza o objeto, permitindo que os documentos sejam compreendidos em seus próprios contextos.

Adicionalmente, realizou-se pesquisa bibliográfica em documentos legais e na biblioteca Pecege, para fundamentar teoricamente o estudo sobre relações étnico-raciais, dança afro-brasileira e educação antirracista. Em relação aos cuidados éticos, embora o projeto não tenha sido submetido a um Comitê de Ética em Pesquisa, por se tratar de observação não participativa e análise de documentos de domínio público, garantiu-se o anonimato da instituição e dos participantes. O uso dos dados foi estritamente acadêmico, conforme o termo de anuência assinado pela escola.

Os dados coletados por meio da análise documental e da observação não participativa foram organizados e analisados de forma qualitativa, buscando identificar padrões, temas e informações relevantes para responder às questões de pesquisa. Não se empregou software específico para análise de dados. Durante a fase de redação do trabalho, a ferramenta Google Gemini foi utilizada exclusivamente para revisão ortográfica, adequação de vocabulário técnico e aprimoramento da coesão textual, com a autora assumindo total responsabilidade pelo conteúdo final.

3. Resultados e Discussão

A análise dos resultados revelou um panorama complexo e multifacetado sobre a implementação da educação antirracista no contexto escolar, com destaque para o papel da corporeidade da dança afro-brasileira. Inicialmente, a pesquisa contextualizou a evolução legislativa e social que culminou na obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira, evidenciando que, apesar dos avanços normativos, a efetivação dessas leis ainda enfrenta desafios significativos. A Organização das Nações Unidas (ONU), em conferência realizada em março de 2026, classificou o tráfico transatlântico como um dos crimes mais bárbaros contra a humanidade, um reconhecimento que sublinha a dívida histórica e a necessidade de reparação que fundamentam as legislações atuais.

Os registros históricos demonstram que a luta por direitos da população negra no Brasil foi marcada por diversas conquistas, impulsionadas pela articulação dos movimentos sociais. A Constituição Federal de 1988 representou um marco ao estabelecer os direitos fundamentais de todos os cidadãos, incluindo o reconhecimento da humanidade e cidadania negadas à população negra por séculos. Contudo, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394/1996, em sua versão original, mantinha um silêncio sobre a questão racial, refletindo uma lacuna na abordagem da identidade brasileira.

Para preencher essa lacuna e promover uma educação mais inclusiva, a Lei nº 10.639/2003 foi sancionada, tornando obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na matriz curricular. Essa legislação não se configurou apenas como um acréscimo de conteúdo, mas como uma ferramenta política e pedagógica que visava desconstruir preconceitos e valorizar a diversidade étnico-racial, conforme apontado por Pinheiro (2023). A continuidade desse processo de reparação e reconhecimento foi ampliada pela Lei nº 11.645/2008, que estendeu a obrigatoriedade do ensino para incluir também a história e as culturas indígenas, consolidando a base para uma educação que reconheça a pluralidade brasileira.

Apesar da existência dessas leis, a pesquisa da Fundação Itaú (2024) sobre Clima Escolar e Enfrentamento ao Racismo na Escola, publicada após mais de duas décadas da Lei nº 10.639/2003, indicou que o objetivo de combater o racismo estrutural e desconstruir preconceitos étnico-raciais ainda não foi plenamente alcançado. O ensino de história e cultura afro-brasileira e africana permanece sem aplicação efetiva em grande parte das instituições de ensino. Essa constatação reforça a importância de investigar práticas pedagógicas que possam superar essa lacuna, como a corporeidade da dança afro-brasileira.

Legislação Federal

A Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), criada em 2024, surgiu como um avanço estratégico para combater o racismo estrutural e superar as desigualdades educacionais. Essa política pública estabelece ações concretas, como o enfrentamento das desigualdades de acesso e aprendizagem, especialmente no ensino infantil e médio de crianças negras e quilombolas. Além disso, a PNEERQ prevê a formação continuada de profissionais da educação, a produção de materiais pedagógicos e o desenvolvimento de projetos interdisciplinares específicos, visando a valorização das diversas expressões culturais e a garantia do direito à educação de forma justa e contextualizada para todos.

Legislação do Estado de São Paulo

No âmbito estadual, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEDUC-SP) alinhou-se às diretrizes federais, aderindo ao PNEERQ em 2025. Essa adesão marcou uma nova fase de ações voltadas ao combate ao racismo nas escolas estaduais. O Censo Escolar de 2025 revelou que mais de 50% dos estudantes das escolas estaduais de São Paulo se declaram pretos e pardos, o que evidencia a urgência e a relevância das políticas de equidade racial. As metas estabelecidas pelo Estado de São Paulo incluem a criação de núcleos especializados em equidade, o desenvolvimento de guias e protocolos antirracistas, a gratificação para docentes que participarem de formações em educação para as relações étnico-raciais e a revisão das diretrizes curriculares e dos Projetos Políticos Pedagógicos (PPPs) para a implementação efetiva das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008.

Legislação da cidade de São Paulo

A cidade de São Paulo, onde a escola pesquisada está localizada, demonstrou um avanço significativo com a publicação do documento orientador “Currículo da Cidade: Educação Antirracista” em 2022 pela Secretaria Municipal de Educação (SME). Este documento vai além de sugerir conteúdos, fornecendo diretrizes pedagógicas abrangentes para a implementação efetiva de uma educação antirracista no cotidiano escolar. Sua abordagem alcança desde a gestão até as práticas educativas, buscando transformar o combate ao racismo e a valorização da história e cultura afro-brasileira em um compromisso estrutural de toda a rede de ensino, não se limitando a ações isoladas ou pontuais.

Análise da escola pesquisada

A instituição de ensino observada é um colégio particular trilíngue, localizado na região oeste de São Paulo, que atende aproximadamente 450 alunos em 2026, abrangendo desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Embora a maioria dos alunos seja de famílias de nível socioeconômico elevado, a escola possui uma política de ações afirmativas que inclui bolsas de estudo e descontos, visando ampliar o acesso. Essa caracterização socioeconômica é relevante para compreender as oportunidades de acesso a atividades culturais e educativas, especialmente aquelas voltadas à valorização da cultura afro-brasileira, que são um pilar do currículo da instituição.

A escolha dessa escola para o estudo foi justificada por seu currículo, que integra o ensino da cultura afro-brasileira, e pela publicação, em 2022, do “Manual para Escolas Antirracistas”. A escola tem um histórico de longo prazo no desenvolvimento de projetos que utilizam a dança afro-brasileira como ferramenta para promover uma educação diversa e inclusiva. A infraestrutura da escola é ampla, com ambientes e mobiliários multifuncionais que apoiam os projetos pedagógicos, e demonstra preocupação com um ambiente sustentável e acessível, com ventilação e iluminação naturais, além de rampas de acesso entre os pavimentos, refletindo uma preocupação plural com a comunidade escolar.

Equipe Pedagógica

A equipe pedagógica da escola é composta por profissionais de diversas culturas e línguas, subvertendo a premissa de um sistema educacional que historicamente determina quais vozes são relevantes. Esse ambiente pluriverso, conforme Nogueira (2015), desafia a hegemonia do pensamento ocidental, valorizando e interconectando diversas filosofias, culturas e saberes, promovendo autonomia e participação de todos. Freitas (2011) destaca que a diversidade no ambiente escolar é um fator crucial para o desenvolvimento de conhecimentos multiculturais e para a melhoria das interações humanas.

O projeto antirracista da escola, iniciado em 2022, é contínuo e a equipe diretiva está focada em promover práticas voltadas à equidade racial. A formação da comunidade escolar sobre o tema ocorre regularmente por meio de rodas de conversa entre pares e convidados, seminários, cursos externos e incentivo à ampliação da formação especializada. Essa abordagem sistêmica garante que a educação antirracista não se limite a ações pontuais, mas esteja integrada ao cotidiano escolar, promovendo a construção de uma consciência racial e o respeito à diversidade.

Envolvimento da comunidade escolar

A participação das famílias na comunidade escolar é um aspecto notável, evidenciado por diversos encontros promovidos pela instituição. Em 2025, o evento “book week” abordou o tema das vozes ancestrais, e a escola também promoveu a semana da diversidade, festas juninas e outras festividades regionais, além de rodas de conversa sobre pluralismo religioso. Essas iniciativas visam ampliar o repertório dos alunos e familiares, fomentando a valorização da diferença e a cultura do respeito. Em um “music festival”, as famílias foram convidadas a tocar alfaia junto aos alunos, uma vivência que transcende a simples participação, aproximando as famílias da proposta antirracista da escola, já que as alfaias são um símbolo de ancestralidade e preservação cultural na cultura afro-brasileira.

Presença da dança negra no cotidiano educacional

A dança, em muitas culturas africanas, atua como um meio potente de transmissão de saberes e afetos, constituindo-se como expressão sociocultural, forma de resistência e propagação da ancestralidade. A concepção de corporeidade nessas tradições supera a visão dualista entre mente e corpo, integrando vivência motora, cognição, afeto e cultura de maneira indissociável. Martins (2021) enfatiza que a dança transmite conhecimentos “grafados nos corpos”, que funcionam como ambientes de memória, difundindo saberes através de expressões corporais, gestuais e orais.

Dançar é uma característica natural do desenvolvimento humano, servindo como forma de comunicação, expressão e conexão entre o corpo, o espaço e o tempo. A dança permite aos indivíduos expressar emoções, formar comunidades, aprender e divulgar culturas, e em algumas religiões, conectar-se à natureza e ao sagrado. A dança negra, em particular, constitui-se como uma ferramenta poderosa de pertencimento e resistência, possibilitando a vivência e a propagação de tradições ancestrais. Os tambores, gestos e letras que narram histórias assemelham-se à presença das mestras e mestres griôs, que, por meio da oralidade, promovem a circulação de conhecimento, costumes, mitos e histórias dos povos africanos (Nego Bispo, 2015).

A trajetória de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, conforme abordado por Passos (2022), ilustra o valor histórico da dança negra para o fortalecimento da identidade e da cultura afro-brasileira. Essa perspectiva ressalta a importância da dança afro no respeito aos antepassados, no acolhimento dos que chegam e na garantia de continuidade para as novas gerações. Em contraste, Sodré (2009) critica a domesticação dos corpos na dança escolar tradicional, que muitas vezes exclui dos currículos a potência dos saberes indígenas e africanos, desvalorizando e limitando as narrativas corporais desses povos.

No contexto escolar, a dança afro-brasileira emerge como uma ferramenta pedagógica essencial para o ensino da cultura e dos saberes dos povos negros, promovendo conhecimentos plurais, críticos e inclusivos. Ela fortalece a identidade cultural, permitindo que corpos historicamente marginalizados ocupem espaços e narrem suas próprias histórias. Gomes (2017) destaca que o reconhecimento da cultura afro no espaço escolar é crucial para a construção de uma educação antirracista, que valorize os saberes afro-brasileiros historicamente invisibilizados, promovendo a “reposição de saberes” proposta por Nego Bispo (2015).

Na escola observada, os alunos mantêm contato com a dança afro-brasileira durante todo o ano letivo. Manifestações culturais como o Maracatu, o Cavalo-Marinho, o Jongo e o Cacuriá são abordadas nas aulas do componente curricular “expression”, bem como em festividades e atividades cotidianas. Todo o conteúdo relacionado à cultura nacional é ministrado em língua portuguesa, valorizando a riqueza cultural brasileira. Os aspectos históricos e a relevância social dessas danças são transmitidos tanto pelo movimento dos corpos quanto pela contação de suas histórias, com a metodologia de aprender em conjunto, que envolve ativamente os alunos na construção de novos saberes.

Durante a pesquisa, observou-se docentes explicando a importância cultural e social do Maracatu para a população negra, com ênfase nos pernambucanos que o praticam em ruas e celebrações religiosas. Em uma das aulas, foi possível acompanhar a fala e a expressão corporal orgulhosa de uma criança ao se descobrir e reconhecer-se negra. Em outro momento, discentes e docentes confeccionaram um estandarte, aprenderam loas e coroaram uma rainha e um rei durante um evento que contou com a participação de toda a comunidade educacional, demonstrando a integração da dança na vida escolar.

A corporeidade, a oralidade, a alegria e o respeito presentes na dança afro-brasileira estimulam a construção de identidades positivas, ressignificando o corpo negro como espaço de memória, resistência e criação de sentidos. Carneiro (2020) aponta que a escola é frequentemente o primeiro lugar de contato das crianças com o racismo, e as práticas racistas produzem efeitos profundos na autoestima e no desenvolvimento psicossocial, impulsionando violência e abandono. O racismo é prejudicial aos processos educativos e à formação cidadã, e Bento (2022) complementa essa visão ao discutir como a sociedade historicamente impõe a padronização de corpos, cores, movimentos e gestos, muitas vezes percebendo o corpo em movimento como um corpo sem disciplina.

A busca por uma educação antirracista, que promova o conhecimento e a valorização da cultura negra, é um dos pilares do colégio pesquisado. Por meio de um corpo docente diverso e com formação constantemente renovada, além de conteúdos e materiais revisados para ensinar com intencionalidade pedagógica, a escola cria espaços que convidam à ocupação e educadores que promovem danças e brincadeiras afro-brasileiras. Dessa forma, o colégio constrói, no cotidiano escolar, práticas que reafirmam a identidade, o pertencimento e o respeito à diversidade. A educação antirracista, nesse contexto, não se limita a ações pontuais ou a datas comemorativas, mas é aplicada cotidianamente nas salas de aula, nas rodas de conversa e nos espaços onde a dança ensina e encanta os alunos, proporcionando momentos de aprendizagem e de formação integral.

Em síntese, a pesquisa demonstrou que a corporeidade da dança afro-brasileira, quando inserida no contexto educacional, constitui uma prática pedagógica potente para a efetivação da legislação sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira. Ela favorece o conhecimento histórico, amplia o contato dos estudantes com saberes ancestrais, promove o respeito e a valorização de corpos e culturas negras, e incentiva o combate a preconceitos, fortalecendo a autoestima de todos os envolvidos. Ao permitir que a cultura afro-brasileira influencie o currículo e o corpo, a educação se torna um espaço de liberdade e pertencimento, contribuindo para a construção de diálogos antirracistas e para a formação de uma sociedade que conheça e valorize a pluralidade.

4. Conclusão

Este estudo buscou analisar de que modo a corporeidade da dança afro-brasileira pode contribuir para a efetivação da legislação sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira, além de investigar seu potencial como instrumento educativo. Verificou-se que, apesar da obrigatoriedade legal estabelecida desde 2003, a aplicação efetiva do ensino de história e cultura afro-brasileira ainda enfrenta desafios significativos no ambiente escolar. Contudo, a pesquisa identificou que a inserção da dança afro-brasileira no contexto educacional constituiu uma prática pedagógica potente, capaz de transcender a abordagem meramente normativa da legislação. Observou-se que essa prática favoreceu o conhecimento histórico, ampliou o contato dos estudantes com saberes ancestrais e promoveu o respeito e a valorização de corpos e culturas negras, incentivando o combate a preconceitos e fortalecendo a autoestima de todos os envolvidos.

A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração de que a corporeidade da dança afro-brasileira, ao ser integrada ao currículo, não apenas cumpre a obrigatoriedade legal, mas, primordialmente, possibilita que os estudantes conheçam as histórias e vozes silenciadas, fortalecendo a identidade cultural. Essa abordagem transforma a educação em um espaço de liberdade e pertencimento, contribuindo para a construção de diálogos antirracistas e para a formação de uma sociedade que conheça e valorize a pluralidade. Assim, a educação antirracista, quando permeada pela vivência corporal da dança afro-brasileira, demonstra ser um caminho eficaz para desconstruir preconceitos e romper o ciclo histórico de desigualdade racial no Brasil.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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02 de outubro de 2026

Formação de professores sobre neurociência sensorial: impactos nas estratégias pedagógicas inclusivas para crianças autistas

A inclusão de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no sistema educacional brasileiro é um tema de crescente relevância, dada a prevalência de disfunções no processamento sensorial que afetam a maioria dessas crianças. Investigou-se o conhecimento de professores em neurociência sensorial e sua relação com a confiança docente e a prática de estratégias pedagógicas inclusivas no ensino de crianças com TEA. Realizou-se uma pesquisa exploratório-descritiva, de método misto, por meio de questionários estruturados e semiestruturados aplicados via Google Forms a professores da Educação Infantil e Ensino Fundamental I que atuavam ou já atuaram com crianças autistas. Os resultados indicaram que professores com menor tempo de atuação, tanto na docência quanto no trabalho com crianças autistas, apresentaram níveis menores de confiança. O conhecimento em neurociência sensorial influenciou diretamente a adoção de estratégias pedagógicas inclusivas. A maioria dos participantes demonstrou nível de conhecimento intermediário ou baixo sobre integração sensorial, e aqueles que receberam orientação de terapeutas ocupacionais propuseram estratégias mais eficazes. Concluiu-se que o conhecimento em neurociência sensorial impacta a prática pedagógica, ressaltando a necessidade de formação e suporte especializados para docentes.

Palavras-chave: Inclusão Escolar; Neuroeducação; Terapia Ocupacional; Transtorno do Espectro Autista.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

02 de outubro de 2026

A importância do controle inibitório na escola e o papel do Mindfulness no aprendizado

Estratégias pedagógicas que promovem atenção e regulação emocional são cruciais para o desenvolvimento de aprendizagens significativas em crianças no ambiente escolar. Nesse contexto, as práticas de Mindfulness destacaram-se por fortalecer funções executivas, especialmente o controle inibitório, essencial para manter o foco, filtrar distrações e modular impulsos. O estudo investigou como o fortalecimento do controle inibitório, por meio da prática de Mindfulness, pode impactar o desempenho e o comportamento dos estudantes no contexto escolar. A pesquisa foi conduzida por meio da aplicação de um questionário estruturado, que coletou percepções de docentes sobre atenção, autorregulação emocional, impulsividade e comportamentos em sala de aula. A análise dos dados identificou dificuldades recorrentes no cotidiano escolar, notadamente no controle emocional e na manutenção do foco após interrupções. Relatos reforçaram a importância de práticas pedagógicas que acolhessem as dimensões socioemocionais dos estudantes, influenciando diretamente o engajamento e a disponibilidade para aprender. Os resultados indicaram que os docentes perceberam o Mindfulness como prática potencialmente benéfica para promover atenção plena, autocontrole e um clima emocional mais equilibrado. Concluiu-se que estratégias baseadas em Mindfulness representam uma alternativa promissora para fortalecer o controle inibitório e favorecer o desenvolvimento cognitivo, emocional e comportamental dos estudantes, contribuindo para ambientes de aprendizagem mais saudáveis e produtivos.

Palavras-chave: Aprendizagem escolar; Autorregulação emocional; Controle inibitório; Engajamento estudantil; Funções executivas.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

02 de outubro de 2026

Cognição e Ritmo: entendendo como as funções executivas moldam a experiência musical

Uma pesquisa exploratória e descritiva investigou a influência das funções executivas no desenvolvimento rítmico de alunos do quarto ano do ensino fundamental, bem como a forma como atividades rítmicas motoras promovem essas funções e o processo de aprendizagem. O estudo também buscou compreender a percepção docente sobre o impacto das funções executivas trabalhadas nas aulas de música no desenvolvimento dos alunos em outras disciplinas. A investigação foi realizada com quatro turmas do quarto ano do ensino fundamental em 2025, em uma escola particular. Os dados foram coletados por meio de análise de documentação pedagógica, observação da prática em sala de aula e entrevistas com a equipe docente e gestão escolar. As análises, de caráter qualiquantitativo, revelaram que as atividades rítmicas musicais estimularam funções executivas como atenção, controle inibitório, planejamento, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, automonitoramento e regulação emocional. Concluiu-se que a aquisição dessas funções executivas extrapolou o aprendizado específico das aulas de música, manifestando-se em diversas situações do cotidiano dos alunos e contribuindo significativamente para o desenvolvimento cognitivo e psicomotor geral.

Palavras-chave: Aprendizagem; Educação; Música; Neurociência; Ritmo.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

02 de outubro de 2026

Estratégias neurocientíficas para o atendimento de alunos com transtornos de aprendizagem.

O crescente número de alunos com deficiência e transtornos do neurodesenvolvimento nas escolas públicas brasileiras intensificou as demandas sobre a organização escolar e o trabalho docente, evidenciando desafios na infraestrutura, formação de professores e efetividade das políticas de educação inclusiva. O estudo objetivou propor estratégias pedagógicas fundamentadas na neurociência e analisar criticamente as políticas públicas voltadas ao atendimento de crianças com transtornos de aprendizagem, visando contribuir para a melhoria da qualidade educacional e a redução da sobrecarga docente. Realizou-se uma pesquisa qualitativa e descritiva, por meio de análise bibliográfica e documental, baseada em literatura especializada e documentos oficiais de órgãos como INEP, MEC e IBGE. Os resultados indicaram que, apesar da ampliação do acesso à escola regular, persistem limitações estruturais, pedagógicas e institucionais que impactam a qualidade do atendimento e as condições de trabalho docente, especialmente para alunos com transtornos de aprendizagem não plenamente contemplados pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE). Concluiu-se que a efetividade da inclusão escolar depende da articulação entre políticas públicas, condições institucionais e práticas pedagógicas cientificamente fundamentadas, destacando-se a necessidade de investimentos estruturais e formativos que sustentem o trabalho docente no contexto da educação inclusiva, e o guia prático desenvolvido serve como suporte efetivo.

Palavras-chave: Docência; Educação especial; Educação pública; Neurociência; Neurodivergências.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

02 de outubro de 2026

Entre a Norma e a Prática: Descompassos na Implementação da Atenção Psicossocial nas Escolas

A saúde mental na infância e adolescência, especialmente no contexto escolar, é fundamental para o desenvolvimento da aprendizagem. Buscou-se evidenciar se a implementação da Política Nacional de Atenção Psicossocial nas escolas, sob a Lei nº 14.819/2024, foi efetivamente aplicada neste contexto. A pesquisa baseou-se em dados obtidos do Monitoramento Nacional, conduzido pela Frente Parlamentar da Saúde Mental em parceria com o Instituto de Estudos para Políticas Públicas de Saúde. Caracterizou-se como documental, com abordagem qualitativa e delineamento descritivo-analítico, utilizando a Análise de Conteúdo de Bardin como método. Estruturou-se o estudo com ênfase na análise por unidade federativa, contemplando os níveis estadual e municipal, com recorte no estado do Ceará e no município de Fortaleza. Os resultados evidenciaram diferenças significativas na implementação da política, com predominância de ações vinculadas ao Programa Saúde na Escola (PSE), indicando limitada formalização de instrumentos de acompanhamento e monitoramento por órgãos governamentais. No Ceará, observou-se adesão às diretrizes curriculares nacionais; contudo, verificaram-se inconsistências na regulamentação e execução das ações de atenção psicossocial. Concluiu-se que o fortalecimento de políticas intersetoriais, a ampliação da atuação multiprofissional e a implementação de indicadores baseados em evidências científicas, especialmente no campo da neurociência, são fundamentais para a efetividade da atenção psicossocial no contexto escolar brasileiro.

Palavras-chave: atenção psicossocial; infância e adolescência; neurociência da educação; políticas públicas; saúde mental escolar.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

30 de setembro de 2026

Saberes docentes sobre neuroplasticidade e aprendizagem

A compreensão dos processos de aprendizagem à luz da Neurociência mostrou-se relevante para a qualificação das práticas pedagógicas, diante da complexidade dos desafios educacionais contemporâneos. Nesse contexto, a neuroplasticidade, definida como a capacidade do cérebro de se modificar a partir das experiências, configurou-se como elemento central para a reflexão sobre o ensino e a aprendizagem na educação básica. O estudo objetivou identificar as principais lacunas na formação inicial e continuada dos docentes relacionadas aos conhecimentos sobre neuroplasticidade e sua aplicação educacional. Realizou-se uma pesquisa aplicada, de abordagem quantitativa e caráter descritivo, desenvolvida por meio de levantamento de campo do tipo survey. A coleta de dados ocorreu com 101 professores da educação básica, vinculados a uma Unidade Regional de Ensino da Grande São Paulo, por meio de questionário on-line estruturado em eixos temáticos. A análise dos dados baseou-se em estatística descritiva. Os resultados indicaram que, embora a maioria dos docentes reconheça a relevância da neuroplasticidade para a aprendizagem, predominaram níveis básicos e intermediários de conhecimento, além de lacunas na formação inicial e continuada. Evidenciou-se a importância de considerar ações formativas para os profissionais da educação.

Palavras-chave: Formação docente; neurociência; neuroeducação.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

30 de setembro de 2026

Neurobiologia da dupla excepcionalidade: integração neuropsicofarmacológica e desafios em adultos com TEA, TDAH e AH/SD

Os transtornos do neurodesenvolvimento, como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), impactam a funcionalidade clínica e acadêmica. O estudo objetivou analisar a intersecção entre a modulação neuropsicofarmacológica e as estratégias de suporte educacional no Córtex Pré-Frontal em adultos com diagnóstico tardio de dupla excepcionalidade. Conduziu-se um estudo de caso qualitativo, por meio de observação participante de uma discente de 22 anos, com diagnóstico clínico de TEA, TDAH e AH/SD, durante o estágio supervisionado de Graduação em Enfermagem em ambiente hospitalar. Os resultados evidenciaram que, embora a intervenção medicamentosa proporcionasse estabilização neuroquímica, o ambiente hospitalar desestabilizou a cognição devido à poluição sonora e ao excesso de estímulos. Mapearam-se correlações neuropsicofisiológicas, incluindo hiperacusia, alterações do sono e rigidez de pensamento. Contudo, a implementação de pausas estratégicas para autorregulação e o fracionamento de tarefas possibilitaram o retorno do foco atencional e a execução precisa de procedimentos técnicos. Concluiu-se que a consolidação das Funções Executivas e a funcionalidade adaptativa exigem abordagens multimodais, onde o ajuste psicofarmacológico é um facilitador biológico indispensável, mas a eficácia terapêutica depende do acolhimento pedagógico e de adaptações ambientais para a inclusão efetiva do indivíduo neurodivergente.

Palavras-chave: Córtex Pré-Frontal; Funções Executivas; Neurobiologia; Psicofarmacologia.

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