16 de octubre de 2026
As temáticas Neurociências e Saúde Mental em Manuais do Professor de Ciências do sexto ano do PNLD 2024-2027
As Temáticas Neurociências e Saúde Mental em Manuais do Professor de Ciências do Sexto Ano do Pnld 2024-2027
Paula da Costa de Gouveia Teixeira; Kelly Beatriz Danelon Anselmo
DOI: 10.22167/2675-6528-202603337
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A saúde mental representa uma preocupação crescente no contexto educacional, dada a influência do estresse e do sofrimento psíquico na aprendizagem e no desenvolvimento socioemocional. Este estudo investigou como Manuais do Professor de Ciências do 6º ano do Ensino Fundamental, aprovados pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) 2024-2027, abordaram saberes relacionados às neurociências e à saúde mental no ensino do sistema nervoso. Realizou-se uma pesquisa documental qualitativa, fundamentada na Análise de Conteúdo de Bardin, tendo como corpus dois Manuais do Professor. As análises foram conduzidas a partir de categorias relacionadas às dimensões neurocientíficas e socioemocionais. Os resultados evidenciaram elevada centralidade de funções executivas, pensamento científico e compreensão neurobiológica. Aspectos socioemocionais, como autocuidado, bem-estar emocional e respeito, foram identificados, particularmente nas abordagens sobre substâncias psicotrópicas. Contudo, verificou-se uma lacuna quanto a orientações pedagógicas específicas para a discussão do sofrimento psíquico, como ansiedade crônica e depressão. Concluiu-se que os manuais analisados favoreceram a articulação entre dimensões cognitivas e socioemocionais, mas apresentaram possibilidades de ampliação do suporte oferecido ao professor para abordar demandas contemporâneas de saúde mental no contexto escolar.
Palavras-chave: Análise de conteúdo; Ensino de Ciências; Neurociência; PNLD; Saúde mental escolar.
1. Introdução
A saúde mental de crianças e adolescentes constitui uma preocupação crescente no contexto educacional, considerando os impactos do estresse e do sofrimento psíquico sobre a aprendizagem e o desenvolvimento socioemocional. Situações de estresse crônico podem estar associadas a dificuldades de concentração, desmotivação e sintomas ansiosos e depressivos, com possíveis repercussões sobre a aprendizagem (Maia, 2022; Bailey et al., 2025).
No contexto brasileiro, a relevância dessa problemática no ambiente escolar é reforçada por dados de mapeamento socioemocional. O Instituto Ayrton Senna (IAS) (2022), em parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEDUC-SP), identificou que entre os estudantes avaliados, foram relatados sintomas relacionados à depressão e ansiedade, dificuldades de concentração e menor tolerância ao estresse em determinados grupos escolares, incluindo os do ensino fundamental II. Fatores como vulnerabilidade socioeconômica, violência doméstica, bullying, excesso de demandas, alterações do sono e uso excessivo de redes sociais também contribuem para o sofrimento psíquico nessa população (Maia, 2022; Mesquita e Reimão, 2010; Avanci et al., 2021; Bailey et al., 2025; Lipp et al., 2020; Pinto et al., 2017).
A compreensão da relação entre saúde mental e aprendizagem pode ser aprofundada pelas neurociências, que neste estudo são entendidas em sentido ampliado, referindo-se aos processos cognitivos e neurobiológicos envolvidos na aprendizagem. Evidências indicam que o estresse crônico interfere no funcionamento de estruturas cerebrais ligadas à memória, avaliação emocional e funções executivas (Roozendaal et al., 2009). Em contrapartida, ambientes pedagógicos acolhedores e estratégias que promovem participação e reflexão podem favorecer processos cognitivos e socioemocionais essenciais para a escolarização (Herculano-Houzel, 2002; Amaral e Guerra, 2020; Bacich e Moran, 2018).
Essa articulação entre neurociências, saúde mental e educação é particularmente relevante no contexto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Embora as neurociências não sejam um campo específico no documento, as Competências Gerais oito e nove da BNCC contemplam aspectos relacionados ao cuidado com a saúde física e emocional, ao reconhecimento das emoções, à empatia, ao diálogo e ao respeito (Brasil, 2018). No ensino de Ciências do sexto ano, o eixo Vida e Evolução inclui habilidades relacionadas à organização dos sistemas biológicos, à atuação do sistema nervoso na coordenação sensório-motora e aos efeitos de substâncias psicoativas sobre seu funcionamento.
Nesse cenário, os livros didáticos e, em particular, os Manuais do Professor (MP) são documentos cruciais, pois apresentam conteúdos científicos e orientações pedagógicas que influenciam a mediação docente. O Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) estabelece critérios rigorosos para a avaliação e disponibilização dessas obras, incluindo adequação à BNCC, rigor conceitual e propostas metodológicas que estimulem a investigação, a resolução de problemas e a contextualização (Brasil, 2023).
Apesar da importância da saúde mental e da integração com as neurociências, observa-se uma lacuna nas orientações pedagógicas dos Manuais do Professor de Ciências do sexto ano do ensino fundamental quanto à discussão do sofrimento psíquico, como ansiedade crônica e depressão. Essa ausência é significativa, considerando as limitações da escola e da formação docente para lidar com tais demandas (Souza e Silva, 2017; Pinto et al., 2017). A BNCC, embora aborde o autocuidado, a saúde emocional, a empatia e o respeito em suas competências gerais, não apresenta habilidades específicas no eixo Vida e Evolução para o sexto ano que direcionem a abordagem dessas formas de sofrimento psíquico. Assim, a necessidade de fortalecer o suporte oferecido ao professor para abordar as demandas contemporâneas de saúde mental no ambiente escolar justifica a investigação sobre como os materiais didáticos articulam esses temas. Diante do exposto, este estudo teve como objetivo investigar se e como Manuais do Professor de Ciências do sexto ano, aprovados pelo PNLD 2024–2027, abordam saberes que relacionam dimensões cognitivas das neurociências e aspectos socioemocionais no ensino do sistema nervoso.
2. Material e Métodos
Este estudo caracterizou-se como uma pesquisa documental de natureza qualitativa, fundamentada na Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2011). A abordagem documental foi selecionada por sua pertinência na investigação de livros didáticos e materiais de orientação docente, para examinar concepções curriculares, epistemológicas e pedagógicas (Bittencourt, 2018; Cellard, 2008; Gil, 2008). O objetivo foi investigar como Manuais do Professor articulam saberes que relacionam dimensões cognitivas das neurociências e aspectos socioemocionais no ensino do sistema nervoso.
Para a composição do corpus analítico, inicialmente, quatro livros didáticos de Ciências destinados ao sexto ano e aprovados no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) 2024–2027 foram identificados. Os critérios de seleção foram: aprovação no PNLD, destinação ao sexto ano, disponibilidade digital do material e presença de conteúdos referentes ao sistema nervoso. A escolha por Manuais do Professor (MP) justificou-se por sua função de orientação pedagógica.
O corpus efetivamente analisado foi constituído por dois Manuais do Professor, selecionados pela disponibilidade de acesso digital integral. Foram eles: o MP1, “#Sou + Ciências: Ciências – 6º ano do Ensino Fundamental”, de Artuso et al. (2022), e o MP2, “Jornadas: Novos Caminhos – Ciências – 6º ano do Ensino Fundamental”, de Nardi (2022). Esses materiais constituíram o objeto de investigação.
A análise dos dados seguiu as três etapas propostas por Bardin (2011): pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Na pré-análise, realizou-se leitura flutuante dos materiais para familiarização com sua organização e identificação das seções relevantes. Na exploração, estabeleceram-se três unidades de contexto: “Sensibilização das Temáticas” (ST), mobilização de conhecimentos prévios; “Desenvolvimento dos Conteúdos” (DC), explicações, atividades e orientações didáticas; e “Retomada do que foi Aprendido” (RQA), síntese e sistematização dos conhecimentos.
As unidades de registro foram definidas em nível temático e organizadas em duas categorias analíticas principais. A Categoria A, “Neurociências”, compreendeu funções executivas, pensamento científico, metacognição, contextualização, aprendizagem significativa, atenção, engajamento, compreensão neurobiológica, integração corpo-cérebro e autorregulação. A Categoria B, “Saúde Mental”, reuniu bem-estar emocional, emoções, acolhimento, autocuidado, estigma e respeito.
Neste estudo, o termo “neurociências” foi utilizado em sentido ampliado, abrangendo processos cognitivos e neurobiológicos da aprendizagem, conforme a neuroeducação. A construção das categorias analíticas baseou-se na articulação entre a literatura de neuroeducação e as competências cognitivas e socioemocionais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2018; Damásio, 2012; Dehaene, 2022; Herculano-Houzel, 2005; Lent, 2010; Amaral e Guerra, 2020; Cosenza e Guerra, 2011).
Foram incluídos na análise trechos dos manuais que apresentassem, de forma explícita ou implícita, habilidades cognitivas do sistema nervoso ou orientações sobre bem-estar emocional, emoções, acolhimento, autocuidado, estigma, respeito e convivência escolar. Definiu-se explícito o tema mencionado diretamente e implícito a inferência temática indireta. Excluíram-se conteúdos exclusivamente técnicos, informações administrativas ou procedimentais e repetições de sentido.
No tratamento dos resultados, as unidades de registro foram associadas às respectivas unidades de contexto e subcategorias. Para interpretar a centralidade das subcategorias no discurso pedagógico, adotou-se um índice de um (alta centralidade) a quatro (centralidade baixíssima). Os dados foram organizados em matrizes elaboradas no software MS Excel® 2016 e visualizados por formatação condicional, inspirada em mapas de calor (“heatmaps”), para identificar padrões de proximidade entre as subcategorias e os objetivos pedagógicos da BNCC (Brasil, 2018). No MP1, examinaram-se orientações e textos sobre o sistema nervoso e efeitos das drogas; no MP2, analisaram-se trilhas sobre o sistema nervoso, suas estruturas e substâncias psicotrópicas.
A comparação entre os dois manuais foi conduzida qualitativamente, evitando inferências quantitativas decorrentes de corpus desiguais. Quanto aos cuidados éticos, por se tratar de pesquisa documental baseada em materiais publicamente disponíveis e sem participação direta de seres humanos, o estudo foi dispensado de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução CNS nº 510/2016. O material integral da análise foi disponibilizado digitalmente, visando transparência e replicabilidade.
3. Resultados e Discussão
A análise dos Manuais do Professor de Ciências do 6º ano, aprovados pelo PNLD 2024–2027, revelou padrões consistentes na abordagem das dimensões cognitivas e socioemocionais relacionadas ao ensino do sistema nervoso. Verificou-se uma elevada centralidade de aspectos neurocientíficos, como funções executivas, pensamento científico e compreensão neurobiológica, em ambos os materiais analisados. As propostas pedagógicas presentes nos manuais privilegiavam a investigação, a análise crítica, a resolução de problemas e a construção de explicações científicas, alinhando-se às expectativas curriculares para o desenvolvimento do raciocínio científico no ensino fundamental.
Essa centralidade das dimensões cognitivas foi observada de forma explícita e recorrente em diversas unidades de contexto dos manuais. As funções executivas, por exemplo, foram consistentemente abordadas em seções de sensibilização, desenvolvimento de conteúdo e retomada do aprendizado, indicando uma preocupação em estimular o planejamento, a memória de trabalho e o controle inibitório dos estudantes. O pensamento científico e a compreensão neurobiológica também apresentaram presença marcante, sugerindo que os materiais buscam fundamentar o conhecimento sobre o sistema nervoso em uma perspectiva investigativa e conceitual aprofundada.
Os resultados obtidos demonstram uma forte aproximação com as competências e habilidades previstas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a área de Ciências da Natureza. Especificamente, foram identificadas relações diretas com as habilidades EF06CI05, EF06CI06 e EF06CI07, que tratam da organização celular, da integração entre os sistemas biológicos e do papel crucial do sistema nervoso na coordenação das ações motoras e sensoriais. Essa correspondência curricular reforça a relevância dos manuais como ferramentas para a implementação das diretrizes educacionais vigentes no país.
A organização dos conteúdos nos manuais analisados seguiu uma progressão conceitual bem definida, partindo de estruturas e processos fundamentais do sistema nervoso, como as células nervosas, os impulsos nervosos e as sinapses. Essa abordagem gradual permitiu a introdução de conceitos de maior complexidade, incluindo a integração dos sistemas biológicos e os efeitos de substâncias psicotrópicas. Tal estrutura favorece a conexão de conhecimentos isolados em uma compreensão integrada do funcionamento do sistema nervoso, um aspecto que se alinha com os princípios de aprendizagem significativa na neuroeducação, conforme apontado por Amaral e Guerra (2020) e Cosenza e Guerra (2011).
Um exemplo notável dessa abordagem pedagógica foi observado no Manual do Professor 2 (MP2), onde os conceitos de impulsos nervosos e atos reflexos foram integrados a uma proposta experimental. Essa atividade visava à observação do tempo de resposta dos estudantes diante de estímulos específicos, aproximando a explicação conceitual de uma experiência concreta. Essa estratégia pedagógica é eficaz para mobilizar a atenção, estimular a investigação, promover a participação ativa dos alunos e facilitar a construção de explicações, transformando a fundamentação científica de um conteúdo meramente descritivo em uma ação pedagógica engajadora.
A habilidade EF06CI10, que aborda os efeitos das substâncias psicoativas sobre o sistema nervoso, destacou-se como um conteúdo relevante em ambos os manuais. Essa temática foi desenvolvida de maneira articulada com os conhecimentos prévios sobre o funcionamento do sistema nervoso, permitindo que os estudantes compreendessem as implicações biológicas e sociais do uso dessas substâncias. A inclusão e o aprofundamento desse tema demonstram a preocupação dos materiais em abordar questões de saúde pública e bem-estar, conectando o conhecimento científico à realidade dos alunos.
A temática das substâncias psicotrópicas também se revelou um ponto crucial de aproximação entre as dimensões cognitivas e socioemocionais. Nas unidades de contexto dedicadas a esse assunto, foram identificados aspectos como a tomada de decisão, a compreensão neurobiológica, as emoções, o autocuidado e o respeito, todos interligados. Essa abordagem multidisciplinar permitiu que o estudo dos efeitos das drogas fosse além da mera descrição biológica, assumindo um potencial formativo e preventivo significativo, ao estimular a reflexão sobre escolhas e seus impactos na saúde e no comportamento.
Na categoria de Saúde Mental, os conceitos de autocuidado, bem-estar emocional e respeito apresentaram uma presença significativa nos materiais didáticos. Esses elementos estão em consonância com as Competências Gerais oito, nove e dez da BNCC, que enfatizam o cuidado consigo, a compreensão das emoções, a empatia, a responsabilidade e a capacidade de tomar decisões. A inclusão desses temas nos manuais indica um reconhecimento da importância de desenvolver habilidades socioemocionais nos estudantes, contribuindo para uma formação integral.
Contudo, apesar da presença de elementos socioemocionais, a análise revelou uma lacuna importante na abordagem das demandas de saúde mental mais complexas no ambiente escolar. Identificou-se uma distinção entre o trabalho com aspectos gerais de autocuidado, emoções e respeito e a oferta de orientações pedagógicas específicas para o professor lidar com o sofrimento psíquico, como a ansiedade crônica e a depressão. Essa diferença sugere que, embora os manuais toquem em temas relevantes, a profundidade e a especificidade das orientações para situações de maior vulnerabilidade ainda são limitadas.
O principal achado crítico deste estudo reside na ausência de orientações pedagógicas estruturadas nos materiais analisados para abordar diretamente problemáticas como ansiedade crônica e depressão no contexto do ensino do sistema nervoso. Essa lacuna é particularmente relevante, considerando as pesquisas que apontam as limitações da escola e da formação docente para lidar com as crescentes demandas de saúde mental dos estudantes (Souza e Silva, 2017; Pinto et al., 2017). A falta de um suporte pedagógico específico pode deixar os professores despreparados para mediar discussões sensíveis e oferecer o apoio necessário.
A análise da BNCC realizada no estudo também forneceu um contexto para essa lacuna. Verificou-se que, no conjunto de habilidades do 6º ano diretamente relacionadas ao sistema nervoso, não há uma habilidade específica que direcione a abordagem de formas de sofrimento psíquico. Embora o documento contemple autocuidado, saúde emocional, empatia e respeito em suas competências gerais, as habilidades específicas do eixo Vida e Evolução concentram-se predominantemente na compreensão biológica do organismo e nos efeitos de substâncias psicoativas, o que explica a priorização dos manuais.
Essa constatação permite compreender que a lacuna identificada nos manuais não desconsidera sua função curricular, mas, ao contrário, é um reflexo da forte correspondência dos materiais com as habilidades estabelecidas pela BNCC. Essa aderência, embora positiva em termos de alinhamento curricular, acaba por evidenciar aquilo que permanece pouco desenvolvido quando se busca relacionar o sistema nervoso, a aprendizagem e o sofrimento psíquico de forma mais aprofundada e específica. A ausência de diretrizes claras na BNCC para essa faixa etária sobre o tema pode limitar a inclusão de orientações mais detalhadas nos materiais didáticos.
Do ponto de vista da prática pedagógica, os resultados sugerem que o capítulo sobre o sistema nervoso pode ser um espaço curricular oportuno para ampliar as discussões sobre saúde mental de maneira pedagogicamente adequada. Essa ampliação não implica atribuir ao professor funções diagnósticas ou clínicas, mas sim fortalecer propostas educativas que promovam a reflexão sobre emoções, o autocuidado, a redução de estigmas e o reconhecimento da necessidade de buscar redes de apoio adequadas. Tais abordagens podem capacitar os estudantes a desenvolverem maior resiliência e a identificarem sinais de sofrimento em si e nos colegas.
A principal contribuição dos resultados não se limita a identificar a presença ou ausência de conteúdos nos manuais, mas a demonstrar como a articulação entre neurociências, ensino de Ciências e dimensões socioemocionais se manifesta no material destinado à mediação docente. Os dois manuais analisados apresentam uma integração mais consolidada quando os aspectos socioemocionais estão associados a conteúdos já explicitamente previstos no currículo, como a discussão sobre substâncias psicotrópicas. Em contraste, as questões relacionadas diretamente ao sofrimento psíquico permanecem menos estruturadas pedagogicamente, indicando uma área para futuro aprimoramento.
Em síntese, a pesquisa revelou que os Manuais do Professor de Ciências do 6º ano do PNLD 2024–2027 promovem uma articulação entre as neurociências e a saúde mental, especialmente no que tange às funções cognitivas e a aspectos socioemocionais gerais como autocuidado e respeito. Contudo, evidenciou-se uma lacuna significativa na oferta de orientações pedagógicas específicas para abordar o sofrimento psíquico mais complexo, como ansiedade crônica e depressão, apesar do potencial do tema do sistema nervoso para essa discussão. Os achados indicam, portanto, a possibilidade de aprimoramento dos materiais para melhor atender às demandas contemporâneas de saúde mental no ambiente escolar.
4. Conclusão
Este estudo investigou a abordagem de saberes relacionados às neurociências e à saúde mental no ensino do sistema nervoso em Manuais do Professor de Ciências do 6º ano, aprovados pelo PNLD 2024–2027. Verificou-se uma elevada centralidade de dimensões cognitivas, como funções executivas, pensamento científico e compreensão neurobiológica, alinhadas às habilidades da Base Nacional Comum Curricular. Identificou-se que os materiais didáticos promoveram uma progressão conceitual, partindo de estruturas básicas para temas mais complexos, incluindo os efeitos de substâncias psicotrópicas. Nesses contextos, observou-se uma articulação entre aspectos cognitivos e socioemocionais, como tomada de decisão, autocuidado, bem-estar emocional e respeito, em consonância com as Competências Gerais da BNCC. Contudo, a análise revelou uma lacuna significativa na oferta de orientações pedagógicas específicas para o professor abordar o sofrimento psíquico, como ansiedade crônica e depressão, apesar do potencial do tema do sistema nervoso para essa discussão.
A principal contribuição deste trabalho reside em demonstrar como a articulação entre neurociências, ensino de Ciências e dimensões socioemocionais se manifesta nos materiais destinados à mediação docente, evidenciando que a integração é mais consolidada em conteúdos explicitamente previstos no currículo, como a discussão sobre substâncias psicotrópicas, enquanto questões de sofrimento psíquico permanecem menos estruturadas pedagogicamente. Os resultados sugerem que o capítulo sobre o sistema nervoso constitui um espaço curricular oportuno para ampliar discussões sobre saúde mental, fortalecendo propostas educativas de reflexão sobre emoções, autocuidado, redução de estigmas e reconhecimento de redes de apoio. Como limitação, destaca-se que o corpus analisado foi restrito a dois Manuais do Professor, o que impede a generalização dos achados para a totalidade das obras aprovadas no PNLD 2024–2027. Sugere-se que estudos futuros ampliem o corpus para outros Manuais do Professor e Livros do Estudante, investigando também a apropriação dessas orientações na prática escolar.
Referências Bibliográficas
Bailey, M.; Fairchild. G.; Hammerton. G.; Bauer, A.; Carpena, M.X.; Murray, J.; Santos, I.S.; Barros, A.J.D.; Tovo-Rodrigues, L.; Danese, A.; Halligan, S.L.; Matijasevich, A.; 2025. Associations between childhood trauma and adolescent psychiatric disorders in Brazil: a longitudinal, population-based birth cohort study. Lancet Glob Health 13(2):e309-e318.
Instituto Ayrton Senna [IAS]. 2022.Mapeamento aponta que 70% dos estudantes de SP relatam sintomas de depressão e ansiedade. Disponível em: <https://institutoayrtonsenna.org.br/mapeamento-aponta-que-70-dos-estudantes-de-sp-relatam-sintomas-de-depressao-e-ansiedade/>. Acesso em: 04 de ago. 2025.
Maia, A.P.F. 2022. Sintomas Depressivos em Escolares na Cidade de São Paulo: um Estudo de Análise Fatorial. Tese de Doutorado em Neurociências. Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.
Mesquita, G.; Reimão, R. 2010. Stress and sleep quality in hight school brasilian adolescents. Anais da Academia Brasileira de Ciências 8
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy