Imagem Previsão do Volume de Câmbio Exportação com Modelos de Séries Temporais

02 de março de 2026

Previsão do Volume de Câmbio Exportação com Modelos de Séries Temporais

José Luis Almeida Rocha; Edilson José Rodrigues

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este trabalho desenvolve e compara um portfólio de modelos de séries temporais para prever o volume de operações de câmbio exportação no Brasil. O objetivo é identificar o algoritmo de maior acurácia, medido pelo Erro Percentual Absoluto Médio (MAPE), utilizando dados mensais do Banco Central do Brasil de um período economicamente diversificado. A finalidade é fornecer uma ferramenta quantitativa para subsidiar a tomada de decisão em ambientes corporativos e institucionais; a previsibilidade dos fluxos de divisas é crítica para planejamento financeiro e gestão de riscos. A pesquisa valida estatisticamente o modelo de melhor desempenho, assegurando que seus resíduos não contenham informação temporal remanescente e sigam uma distribuição normal, condições essenciais para a confiabilidade das previsões.

O comércio exterior é fundamental para a economia brasileira, posicionando o país como um fornecedor global de commodities. As operações de câmbio comercial, que viabilizam as transações de exportação, são centrais nesse processo, garantindo a entrada de divisas e impactando a competitividade dos produtos nacionais (Governo Federal, 2012). A dinâmica desses fluxos financeiros é sensível a fatores como políticas monetárias, preços de commodities e o cenário econômico internacional, tornando sua previsão uma tarefa complexa e de alto valor.

A previsão do volume de câmbio exportação é uma necessidade pragmática para diversos agentes econômicos. Para empresas exportadoras, estimativas acuradas otimizam o planejamento de caixa, a gestão de capital de giro e decisões de investimento. Para instituições financeiras, a previsibilidade desses volumes é crucial para a gestão de liquidez em moeda estrangeira e para o desenvolvimento de produtos de hedge cambial (BCB, 2020). Para formuladores de políticas públicas, projeções confiáveis servem como insumo para a condução da política cambial. Diante disso, modelos de séries temporais emergem como uma abordagem metodológica capaz de decodificar padrões históricos para projetar comportamentos futuros.

A literatura acadêmica apoia o uso de modelos de séries temporais para a análise de variáveis macroeconômicas brasileiras. Estudos como o de Genin (2022) demonstram que, em um ambiente de elevada volatilidade cambial, a escolha do modelo deve equilibrar precisão estatística e aplicabilidade prática, sugerindo que a comparação entre múltiplas técnicas é um caminho prudente. A pesquisa de Koshiyama et al. (2019) evidencia que o desempenho de modelos como ARIMA e Holt-Winters pode variar substancialmente a depender da intensidade da sazonalidade e da ocorrência de choques estruturais. Os autores argumentam que a robustez de um modelo se mede também por sua capacidade de se adaptar a mudanças de regime, o que justifica a análise comparativa realizada no presente estudo.

O debate metodológico se estende à comparação entre modelos lineares e não lineares. Enquanto Morettin e Toloi (2018) defendem a solidez e a interpretabilidade dos modelos lineares univariados, outras correntes apontam para o potencial de técnicas de aprendizado de máquina, como redes neurais, que podem capturar relações não lineares complexas. Contudo, como destacam Oliveira, Albarracin e Silva (2024), essas alternativas mais sofisticadas acarretam desafios como maior custo computacional, necessidade de grandes volumes de dados e risco de sobreajuste (overfitting), o que pode comprometer a generalização do modelo. Neste contexto, a pesquisa foca em um conjunto de modelos de séries temporais clássicos, cuja eficácia e parcimônia os tornam adequados para aplicações com dados de frequência mensal e horizontes de previsão de médio prazo.

Este estudo é uma pesquisa quantitativa, baseada na implementação de algoritmos de machine learning para análise de séries temporais. Foi utilizada a linguagem Python com as bibliotecas statsmodels, pandas e scikit-learn. Os dados secundários públicos foram obtidos da API “sgs” do Banco Central do Brasil. A série temporal utilizada é a de código 11045, que registra o volume mensal contratado de câmbio exportação no Brasil, em milhões de dólares. O período de análise abrange de janeiro de 2010 a dezembro de 2024, totalizando 180 observações. A base de dados foi dividida em um conjunto de treinamento (janeiro de 2010 a dezembro de 2022, 156 observações) e um de teste (janeiro de 2023 a dezembro de 2024, 24 observações) para validação externa (out-of-sample).

A metodologia envolveu a comparação de oito modelos de previsão. Foram testados modelos de benchmark simples (Naive, Mean, Drift, Naive Sazonal) e modelos de suavização exponencial, incluindo a Suavização Exponencial Simples (SES) e os modelos de Holt-Winters (Aditiva e Multiplicativa). Estes últimos são poderosos por decomporem a série em componentes de nível, tendência e sazonalidade (Hyndman & Athanasopoulos, 2018). Por fim, foi testado o modelo ARIMA/SARIMA (Média Móvel Integrada Autoregressiva Sazonal), cujos parâmetros foram otimizados através da função auto_arima para minimizar o Critério de Informação de Akaike (AIC).

A seleção do modelo de melhor desempenho foi realizada utilizando o Erro Percentual Absoluto Médio (MAPE) como métrica principal, calculado comparando as previsões para o período de teste (2023-2024) com os valores reais. O MAPE foi escolhido por sua fácil interpretação, expressando o erro como uma porcentagem. Adicionalmente, os critérios de informação AIC e BIC foram utilizados como medidas complementares para avaliar o ajuste dos modelos, favorecendo a parcimônia. O modelo com o menor MAPE, corroborado por valores competitivos de AIC e BIC, foi considerado o mais adequado.

Após a identificação do modelo ótimo, foi conduzida uma validação diagnóstica sobre seus resíduos. Aplicou-se o teste de Ljung-Box para verificar a ausência de autocorrelação serial, condição para que os resíduos se comportem como ruído branco (Box et al., 2015). A não rejeição da hipótese nula (p-valor elevado) indica que o modelo capturou a estrutura temporal dos dados. Em seguida, foram realizados os testes de normalidade de Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-Wilk. A normalidade dos resíduos é uma premissa desejável, sugerindo que as variações não explicadas pelo modelo são aleatórias. A confirmação dessas propriedades confere maior validade estatística e confiabilidade às previsões.

A análise exploratória dos dados revelou uma média mensal de US$ 18.674 milhões e um desvio padrão de US$ 4.309,32 milhões. A série apresentou um valor mínimo de US$ 10.085,49 milhões e um máximo de US$ 32.867,56 milhões, indicando elevada variabilidade. A mediana de US$ 17.935,58 milhões, próxima à média, não aponta para assimetria extrema, mas a dispersão confirma a volatilidade da série. A inspeção visual do gráfico de evolução mensal reforçou a percepção de volatilidade e revelou uma tendência de crescimento não linear. A análise de decomposição da série separou-a em componentes de tendência, sazonalidade e resíduos, expondo um padrão cíclico recorrente, com picos de volume concentrados em determinados meses. A identificação clara da tendência e da sazonalidade justificou o potencial de modelos como Holt-Winters e SARIMA.

O teste de estacionariedade de Dickey-Fuller Aumentado, aplicado na série de treinamento, resultou em uma estatística de teste de -2,099 e um p-valor de 0,244. Isso não permitiu a rejeição da hipótese nula de que a série possui uma raiz unitária, confirmando estatisticamente que a série é não estacionária, uma característica que precisa ser tratada por modelos como o ARIMA através da diferenciação (Dickey & Fuller, 1979). A análise dos gráficos de autocorrelação (ACF) e autocorrelação parcial (PACF) forneceu insights adicionais. O gráfico ACF exibiu um decaimento lento, padrão de séries não estacionárias, e picos significativos em lags sazonais (12, 24), confirmando a componente sazonal. O gráfico PACF mostrou picos nos primeiros lags, sugerindo uma componente autorregressiva. Juntos, os gráficos indicaram que um modelo apropriado deveria lidar com tendência, sazonalidade e correlação temporal.

A comparação de modelos produziu resultados conclusivos. Após o treinamento e a geração de previsões para 24 meses, o cálculo do MAPE revelou uma clara hierarquia de desempenho. O modelo Holt-Winters Aditivo destacou-se como o mais preciso, com um MAPE de 7,05%. Em segundo lugar, o modelo Naive Sazonal obteve um MAPE de 8,71%, evidenciando a força da componente sazonal. O modelo Holt-Winters Multiplicativo ficou em terceiro, com um MAPE de 9,64%. Os modelos mais simples, como Drift (12,43%), SES (13,59%) e Naive (14,02%), apresentaram erros maiores, enquanto o modelo Mean (24,98%) se mostrou inadequado.

A análise do modelo Holt-Winters Aditivo revelou parâmetros otimizados que refletem a dinâmica da série: um parâmetro de nível (α) de 0,4211, e parâmetros de tendência (β) e sazonalidade (γ) próximos de zero (4,14 x 10⁻¹⁷ e 1,04 x 10⁻¹⁷, respectivamente). O valor de alfa sugere que o modelo atribui peso considerável às observações recentes para estimar o nível, adaptando-se a mudanças. Os valores baixos de beta e gama indicam que os componentes de tendência e sazonalidade são estáveis e foram bem capturados a partir dos dados históricos. Essa combinação permitiu ao modelo seguir a tendência geral e replicar com precisão o padrão sazonal aditivo.

Um resultado notável foi o desempenho relativamente fraco do modelo ARIMA/SARIMA, que obteve um MAPE de 15,78%, sendo o segundo pior modelo. Os critérios de informação confirmaram essa inferioridade: o SARIMA apresentou os maiores valores (AIC 2726; BIC 2747), enquanto o Holt-Winters Aditivo registrou os menores (AIC 2499; BIC 2548). Fatores como variações na intensidade dos ciclos anuais, quebras estruturais no período de estudo e a propagação de erros em um horizonte de previsão longo (24 meses) podem explicar esse resultado. A abordagem mais direta e adaptativa do Holt-Winters provou ser mais eficaz e robusta para esta série específica.

A validação final do modelo Holt-Winters Aditivo por meio da análise de resíduos confirmou sua adequação estatística. O teste de Ljung-Box, com defasagem de 12 períodos, resultou em um p-valor de 0,8860. Sendo o valor superior a 0,05, a hipótese nula de ausência de autocorrelação não foi rejeitada, indicando que os resíduos se comportam como ruído branco. Adicionalmente, os testes de normalidade de Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-Wilk produziram p-valores de 0,9464 e 0,7957, respectivamente. Ambos os valores, também acima de 0,05, levaram à não rejeição da hipótese nula de que os resíduos seguem uma distribuição normal. Esses resultados atestam a qualidade do ajuste e a confiabilidade do modelo.

Os resultados evidenciam o potencial dos modelos de séries temporais como ferramentas de suporte à decisão no comércio exterior brasileiro. A superioridade do modelo Holt-Winters aditivo, com um MAPE de 7,05%, demonstra sua capacidade de capturar a combinação de tendência e padrões sazonais do volume de câmbio exportação. Para gestores de tesouraria e risco, essa acurácia permite a projeção de fluxos de caixa em moeda estrangeira com maior confiança, otimizando o planejamento de liquidez. Previsões consistentes fundamentam estratégias de hedge mais assertivas, permitindo que empresas dimensionem o uso de derivativos cambiais para mitigar a exposição à volatilidade do real, protegendo suas margens de lucro. A previsão se converte em um instrumento de gestão estratégica, aumentando a resiliência e a competitividade.

A escolha do modelo ótimo é contingente às características da série analisada. O desempenho superior do Holt-Winters neste estudo está ligado à natureza da série mensal de câmbio, que exibe uma sazonalidade aditiva bem definida. A alteração de parâmetros, como o uso de dados diários ou a inclusão de variáveis exógenas, poderia levar a uma hierarquia de modelos diferente, possivelmente favorecendo abordagens como SARIMAX ou vetores autorregressivos (VAR). A exploração de algoritmos não lineares, como redes neurais (LSTM), poderia, em futuras pesquisas, revelar padrões mais sutis e gerar previsões ainda mais acuradas, embora com maior complexidade. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o modelo Holt-Winters aditivo é a ferramenta mais precisa e estatisticamente robusta para a previsão do volume financeiro de contratos de câmbio exportação dentre as alternativas avaliadas.

Referências:
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Estabilidade Financeira: Análise do mercado de câmbio no Brasil. Brasília, DF: Banco Central, jun. 2020. Disponível em: https://www. bcb. gov. br/publicacoes/relatorio-de-estabilidade-financeira. Acesso em: 30 mar. 2025.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Série Temporal 11045: Operações de câmbio exportação. Disponível em: https://api. bcb. gov. br/dados/serie/bcdata. sgs.11045/dados. Acesso em: 30 mar. 2025.
Box, G. E. P., Jenkins, G. M., Reinsel, G. C., & Ljung, G. M. (2015). Time series analysis: Forecasting and control. John Wiley & Sons.
Dickey, D. A., & Fuller, W. A. (1979). Distribution of the estimators for autoregressive time series with a unit root. Journal of the American statistical association, 74(366a), 427-431.
GENIN, Camila de Souza Vasconcelos. Modelos de Projeção de Câmbio: Uma Investigação Múltipla com Séries de Tempo, Modelos Estruturais e Model Selection. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2022. Disponível em: https://adelpha-api. mackenzie. br/server/api/core/bitstreams/7cd0de17-e2b9-4349-8e09-6e42abf9fa8c/content. Acesso em: 21 dez. 2025.
GOVERNO FEDERAL. Exportação Passo a Passo. Brasília, DF: [s. n.], 2012. Disponível em: https://www. gov. br/empresas-e-negocios/pt-br/invest-export-brasil/arquivos-e-imagens/PUBExportPassoPasso2012. pdf. Acesso em: 30 mar. 2025.
Hyndman, R. J., & Athanasopoulos, G. (2018). Forecasting: principles and practice. OTexts.
KOSHIYAMA, Adriano Soares; NASCIMENTO, Nat

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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