
26 de fevereiro de 2026
Conselho Comunitário em uma escola privada do Rio de Janeiro: Integração Familiar e Apoio à Gestão Escolar
Joyce de Melo Santoro Cardoso; Cláudia Megale Adametes
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este trabalho analisa a atuação do Conselho Comunitário de uma escola privada no Rio de Janeiro, focando em sua contribuição para a integração familiar e o apoio à gestão escolar. A pesquisa busca compreender a trajetória do Conselho, os desafios na integração das famílias, o engajamento da comunidade e as principais ações desenvolvidas em seus primeiros quatro anos, à luz dos princípios da gestão democrática. A relevância do estudo está na valorização da participação comunitária para a qualidade educacional, mesmo em instituições privadas, que historicamente operam sob lógicas distintas das escolas públicas. A investigação aprofunda como instâncias participativas podem mediar a relação escola-comunidade, promovendo a corresponsabilidade no processo educativo.
A gestão escolar é aqui concebida como um processo político-pedagógico que articula decisões coletivas e a construção de responsabilidade compartilhada. Isso se alinha à gestão democrática, que, segundo Paro (2001), exige a participação efetiva da comunidade nos processos decisórios, não como formalismo, mas como prática social cotidiana. Lück (2009) complementa que a gestão democrática se materializa por meio de lideranças que promovem a escuta ativa e o engajamento coletivo em torno de um projeto educativo comum. Nesse cenário, o Conselho Comunitário emerge como instância estratégica para mediar a relação entre gestão e comunidade, institucionalizando a participação e o compartilhamento de responsabilidades.
Conselhos escolares são espaços estratégicos para a gestão democrática. Conforme Luiz e Gomes (2014), são colegiados de natureza consultiva e deliberativa que viabilizam a participação dos segmentos da comunidade na tomada de decisões. Ao formalizar o diálogo, aproximam gestão e famílias, fortalecendo práticas participativas mesmo em instituições privadas onde não são legalmente obrigatórios. A base legal para a gestão democrática no ensino público, presente na Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Lei nº 9.394/96 (Brasil, 1996), prevê em seu Artigo 14 a participação das comunidades em conselhos escolares ou equivalentes, estabelecendo um princípio norteador para a educação nacional.
A pesquisa foca na experiência de uma escola privada de porte médio, fundada em 2021 no Rio de Janeiro, que atende 550 estudantes da Educação Infantil ao Ensino Médio, de classe A e B1. O Conselho Comunitário Escolar foi instituído em março de 2022, por meio do Informe nº 043/22. A adesão inicial foi de 25 membros, majoritariamente mulheres e de famílias fundadoras, demonstrando interesse da comunidade em se envolver com o projeto escolar. Posteriormente, a pedido dos membros, foram incluídos três representantes da equipe administrativa. A constituição de conselhos em escolas privadas reflete a valorização da participação social, como discutem Vale, Zacariotti e Brito (2024) sobre o papel estratégico desses órgãos no fortalecimento da gestão.
Este estudo justifica-se pela necessidade de investigar como os princípios da gestão democrática se aplicam em contextos privados, analisando os mecanismos que afetam a participação familiar. A experiência do Conselho oferece um campo para observar a dinâmica de poder e a construção de consensos em uma comunidade com perfil socioeconômico específico. A análise busca contribuir para o debate sobre gestão participativa, oferecendo insights sobre os desafios e potencialidades de conselhos comunitários para aprimorar a educação e fortalecer a colaboração entre escola e famílias, ideal defendido por teóricos como Libâneo (2004) e Krawczyk (2010).
A metodologia é um estudo de caso único (Yin, 2015; Gil, 2017) com abordagem qualitativa, descritiva e documental. A técnica principal foi a análise documental de fontes primárias, que, segundo Gil (2010) e Marconi & Lakatos (2017), oferece dados estáveis e fidedignos. O corpus analisado incluiu o Regimento do Conselho Comunitário da Escola (2022), o Informe 043/22, o Documento de Criação das Comissões (maio de 2022) e um conjunto de atas de reuniões (Ata 001/22, Ata 007/22, Ata 008/23 e Ata 008/24). O relato de experiência da pesquisadora, que atua na gestão da escola, foi utilizado como recurso contextual para ampliar a compreensão do campo.
Para a interpretação dos dados, empregou-se a Análise de Conteúdo de Bardin (2011), seguindo as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. A partir desse processo, definiram-se três categorias centrais que orientaram a discussão: 1) acolhimento das famílias e fortalecimento do pertencimento institucional; 2) convivência escolar e mediação das relações; e 3) engajamento social e corresponsabilidade comunitária. A pesquisa foi autorizada pela direção da escola por meio de um Termo de Anuência, garantindo a confidencialidade das informações e o uso dos documentos para fins acadêmicos.
A análise dos documentos do Conselho Comunitário revela a consolidação de uma cultura participativa ao longo de quatro anos. Os registros demonstram um esforço para efetivar os princípios da gestão democrática no contexto de uma escola privada de elite. Desde sua criação em 2022, a atuação do Conselho alinhou-se aos pressupostos teóricos que defendem a participação coletiva para a qualificação da gestão escolar e o fortalecimento de vínculos, conforme preconizado por Lück (2009) e Paro (2001). A análise evidencia uma evolução de um órgão consultivo para uma instância com crescente poder deliberativo e de cogestão.
As primeiras reuniões, documentadas na Ata 001/22, estabeleceram as bases organizacionais do grupo. Os conselheiros deliberaram sobre a estrutura, aprovaram o regimento interno e criaram comissões temáticas (integração, cultura, projetos sociais). Essa fase inicial foi marcada por entusiasmo e alta adesão, especialmente das famílias fundadoras. A presença mediadora da equipe gestora, incentivando a escuta e valorizando as contribuições, foi determinante para fortalecer a legitimidade do Conselho. Este modelo de funcionamento, com pautas definidas e registro formal, foi mantido e aprimorado ao longo do tempo.
No eixo de acolhimento e pertencimento, as ações do Conselho foram eficazes. Destacam-se a curadoria cultural, com sugestões de livros e eventos alinhados à proposta pedagógica; a organização de encontros formativos com especialistas; e a realização de rodas de conversa sobre temas como saúde emocional, bullying e uso de tecnologias. Tais ações ampliaram o repertório dos participantes e promoveram uma aproximação entre as famílias e o projeto da instituição, criando um sentimento de comunidade. Essas práticas materializam a concepção de gestão democrática de Lück (2009), na qual a escola cria espaços institucionais de diálogo, escuta e corresponsabilidade.
Na dimensão da convivência escolar, a atuação do Conselho demonstrou seu caráter deliberativo. As atas registram propostas que resultaram em melhorias na rotina dos estudantes. Em 2022, a escola implementou novos espaços de recreio para alunos com interesses diversos, promovendo a inclusão. Em 2023, o Conselho propôs ajustes na comunicação institucional para maior clareza e participação nos eventos. Em 2024, uma ação de destaque foi a reformulação das regras de convivência na cantina e corredores, processo que envolveu a escuta de estudantes do Ensino Fundamental II. Essas decisões, construídas coletivamente, configuram um processo participativo que transcende a lógica consultiva, alinhando-se ao que Paro (2001) define como gestão democrática.
O terceiro eixo, referente ao engajamento social e corresponsabilidade, revela a maturidade do Conselho. As atas documentam a continuidade de campanhas solidárias iniciadas em 2022, como o projeto “Tampinha Solidária”, a campanha de Natal para funcionários e a criação de um fundo de apoio para estudantes bolsistas. A partir de 2023, o Conselho passou a propor ações de inclusão educacional de forma mais estruturada. A Ata 008/23 registra a definição de critérios, propostos pela comunidade, para a seleção de novos estudantes bolsistas de escolas públicas. Esta iniciativa evidencia um amadurecimento e compromisso com a responsabilidade social, corroborando a literatura que entende os conselhos como articuladores das dimensões administrativa, pedagógica e social da gestão (Luiz & Gomes, 2014; Cury, 2002).
Apesar dos avanços, a análise documental também apontou desafios recorrentes, como a rotatividade de membros, a redução da frequência nas reuniões e a dificuldade de mobilização da comunidade em algumas campanhas. A Ata 007/22, por exemplo, registra a ausência de quórum em uma reunião, o que comprometeu deliberações. Situação similar ocorreu em 2024, com a baixa adesão a uma campanha de doação de materiais, exigindo novas estratégias de engajamento da gestão. Tais desafios são consistentes com estudos como o de Santos (2021), que indicam que a efetividade dos conselhos depende da consolidação de uma cultura organizacional que incentive a participação contínua.
Em síntese, a análise demonstra que o Conselho Comunitário transcendeu sua função inicial, consolidando-se como um espaço legítimo de escuta e proposição. A evolução de um espaço consultivo para uma instância de cogestão reflete o que Paro (2001) descreve como a essência da gestão democrática: o reconhecimento institucional dos atores e o compartilhamento de responsabilidades. O papel da gestão escolar foi decisivo, com um posicionamento claro em favor do diálogo, da mediação e da implementação das sugestões, o que consolidou uma cultura institucional mais aberta e colaborativa, em consonância com os princípios da LDB (Brasil, 1996) e com a literatura especializada (Vale, Zacariotti & Brito, 2024).
A análise permitiu compreender a atuação do Conselho Comunitário como uma expressão bem-sucedida da gestão democrática em uma escola privada. O exame dos documentos demonstrou que a institucionalização de um espaço participativo contribuiu para fortalecer a integração entre famílias e gestão, além de qualificar os processos decisórios. Os resultados mostraram que o Conselho foi relevante em três dimensões: acolhimento e pertencimento, mediação das relações e convivência, e engajamento social com corresponsabilidade. Essas dimensões confirmam que a participação ultrapassou um caráter formal, configurando-se como uma prática social validada no cotidiano.
O estudo indicou que, ao longo do tempo, o Conselho ampliou sua função deliberativa, evoluindo de um espaço consultivo para uma instância de cogestão, ainda que com desafios como a rotatividade de membros. Este movimento demonstrou que a efetividade da gestão democrática depende do reconhecimento institucional dos atores e do compartilhamento de responsabilidades. Os desafios identificados reforçam que a gestão democrática é um processo contínuo, que exige intencionalidade político-pedagógica e estratégias permanentes de engajamento. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o Conselho Comunitário se consolidou como um instrumento eficaz para a integração familiar e o apoio à gestão democrática na escola investigada, indicando que tal prática é possível, relevante e transformadora, mesmo em contextos privados.
Referências:
Bardin, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.
Brasil. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
Brasil. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996.
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Cury, C. R. J. Educação e contradição: fundamentos da escola pública. 5. ed. Campinas: Papirus, 2002.
Gil, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
Gil, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
Krawczyk, N. Gestão educacional: desafios para a efetivação da participação. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 40, n. 140, p. 95–129, maio/ago. 2010.
Libâneo, J. C. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 6. ed. Goiânia: Alternativa, 2004.
Luiz, D. A.; Gomes, C. A. A participação democrática do conselho escolar no ambiente educativo. Revista Caribenha de Ciências Sociais, n. 11, 2014.
Lück, H. Gestão participativa na escola. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
Marconi, M. A.; Lakatos, E. M. Fundamentos de metodologia científica. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
Paro, V. H. Gestão democrática da escola pública. 2. ed. São Paulo: Ática, 2001.
Santos, E. dos. Conselho escolar: o olhar sobre uma realidade. Revista Saberes Educacionais, v. 6, n. 2, 2021.
Vale, T. A. do; Zacariotti, M. B.; Brito, M. C. A. O conselho escolar e as diversidades: o papel desse importante agente para o fortalecimento da gestão democrática. Revista Educação Pública em Debate, v. 3, n. 5, 2024.
Yin, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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