22 de julho de 2026
Proposições de Melhorias sobre Gestão Híbrida de Projetos em uma Agência de Comunicação: Estudo de Caso
Bianca Rafael Oliveira; Manoel Gonçales Filho
DOI: 10.22167/2675-6528-202600598
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O setor de publicidade e comunicação caracteriza-se por ambientes dinâmicos, com elevado volume de demandas e alta variabilidade operacional, impondo desafios à gestão de projetos, especialmente no controle do fluxo de trabalho e cumprimento de prazos. Este estudo teve como objetivo analisar a aplicação de uma abordagem híbrida de gestão de projetos em uma agência de comunicação, focando na identificação e proposição de melhorias para o fluxo de trabalho, controle de demandas e adaptação às mudanças, visando maior eficiência. A pesquisa foi aplicada, com abordagem qualitativa e apoio de dados quantitativos descritivos, utilizando um estudo de caso único. A coleta de dados ocorreu *in loco* ao longo de três meses, por meio de observação das atividades da equipe, análise de registros operacionais e reuniões semanais estruturadas. Os resultados indicaram que a gestão híbrida contribuiu para a melhoria da comunicação interna, organização do fluxo de trabalho e priorização das demandas. Contudo, verificou-se que tais práticas não foram suficientes para eliminar limitações relacionadas ao desempenho das entregas, devido a restrições estruturais do setor, como o desequilíbrio entre volume de demandas e capacidade produtiva, elevada incidência de retrabalho e dependência de informações incompletas dos clientes. A principal contribuição consistiu na proposição de melhorias, incluindo a formalização das rotinas de alinhamento semanal, o aprimoramento do processo de *briefing* e validação inicial, e a adoção de mecanismos de controle de capacidade e priorização do fluxo de trabalho. Concluiu-se que a gestão híbrida melhora a eficiência operacional, mas apresenta limitações diante de condições estruturais do contexto organizacional.
Palavras-chave: Agência de comunicação; Kanban; Metodologias ágeis; Publicidade.
1. Introdução
O setor de publicidade e comunicação desempenha um papel fundamental na economia contemporânea, estabelecendo a conexão entre marcas e seus públicos em um cenário cada vez mais digital e competitivo. A dinâmica desse ambiente é marcada por constantes transformações e pela necessidade de inovar continuamente para atender às expectativas dos consumidores (Frapiccini, 2020). No Brasil, a crescente digitalização dos canais de comunicação intensifica a complexidade operacional das agências, que precisam gerenciar simultaneamente múltiplas contas, campanhas diversas e um fluxo constante de demandas, muitas vezes imprevisíveis. Este contexto impõe desafios significativos à coordenação interna, ao cumprimento rigoroso de prazos e à capacidade de adaptação contínua frente às mudanças do mercado (Morais, 2023).
Historicamente, a Gestão de Projetos (GP) foi concebida sob abordagens predominantemente preditivas. Essas metodologias, como as consolidadas no Guia Project Management Body of Knowledge (PMBOK), baseiam-se em um planejamento detalhado, na definição prévia e exaustiva do escopo, e no controle sistemático de tempo e custos. A premissa central é a busca por previsibilidade e uma governança estruturada, visando minimizar incertezas e garantir a execução conforme o plano inicial. Contudo, em ambientes que exigem alta criatividade e estão sujeitos a frequentes alterações de escopo, a rigidez inerente a esses modelos de planejamento pode comprometer a eficiência e a fluidez das operações, tornando-se um obstáculo em vez de um facilitador (PMI, 2021).
Em contrapartida, as metodologias ágeis surgiram como uma alternativa para lidar com a volatilidade e a incerteza. Princípios ágeis enfatizam a flexibilidade, a colaboração e a entrega contínua de valor, permitindo que as equipes se adaptem rapidamente a novas informações e requisitos. A aplicação prática desses princípios pode ser observada em ferramentas digitais baseadas na filosofia Kanban, como o Trello, que facilitam a organização visual das atividades, a priorização explícita e o acompanhamento contínuo das tarefas. A visualização clara do fluxo de trabalho promove maior transparência organizacional e aprimora a coordenação entre equipes multidisciplinares, elementos cruciais para a agilidade (Anderson, 2011).
No entanto, a substituição completa das abordagens tradicionais por modelos puramente ágeis nem sempre é a solução ideal, especialmente em contextos organizacionais que ainda demandam um certo nível de controle e previsibilidade. Para conciliar essas necessidades, a sétima edição do Guia PMBOK introduz o conceito de “tailoring”, que preconiza a adaptação deliberada das práticas de gestão ao contexto específico de cada organização. É nesse ponto que a gestão híbrida emerge como uma alternativa promissora, integrando elementos preditivos e ágeis para buscar um equilíbrio entre o controle estruturado e a flexibilidade operacional (PMI, 2021).
Estudos recentes têm reforçado a eficácia dessa perspectiva integradora em ambientes criativos. Imamura e Bortoletto (2022) demonstram que a combinação de práticas estruturadas e princípios ágeis pode otimizar o fluxo de trabalho em projetos de marketing. Complementarmente, Morais (2023) destaca que a integração de modelos tradicionais e ágeis contribui para um maior alinhamento estratégico, sem comprometer a capacidade de adaptação das equipes às demandas do mercado. Essa sinergia permite que as organizações aproveitem o melhor de ambos os mundos, conciliando a estabilidade do planejamento com a agilidade na execução.
Sob a ótica da complexidade organizacional, os projetos são compreendidos como sistemas dinâmicos e não lineares, onde interações e “feedbacks” contínuos exercem influência direta sobre os resultados (Patah, 2023). Nessa perspectiva, a eficiência não se restringe apenas ao cumprimento de prazos, mas abrange a capacidade de gerar valor e manter um alinhamento constante com os “stakeholders” (Bizarrias et al., 2021). Essa visão de projetos como sistemas complexos reforça a necessidade de adotar abordagens de gestão mais flexíveis e adaptativas, capazes de responder às incertezas e às mudanças inerentes a esses ambientes.
Apesar dos avanços teóricos sobre gestão híbrida e metodologias ágeis, a literatura ainda apresenta uma lacuna em relação a estudos empíricos que investiguem sua aplicação em agências de comunicação. Esses ambientes são particularmente desafiadores, caracterizados por múltiplas demandas simultâneas e alta variabilidade operacional (Imamura e Bortoletto, 2022). A escassez de investigações aplicadas que analisem como o equilíbrio entre controle, fluxo de trabalho e adaptação pode ser operacionalizado nesses contextos específicos evidencia a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o tema.
Diante desse cenário, a questão principal que norteia esta pesquisa é: como a adoção de uma abordagem híbrida de Gestão de Projetos pode contribuir para melhorar o controle, o fluxo de trabalho e a adaptação às mudanças em uma agência de comunicação? Este estudo se justifica pela relevância crescente da Gestão de Projetos em ambientes dinâmicos e complexos, como o setor de publicidade e comunicação, que se caracteriza por um elevado volume de demandas simultâneas e alta variabilidade operacional. Do ponto de vista prático, a pesquisa visa contribuir ao propor melhorias aplicáveis à realidade da agência analisada, especialmente no que se refere ao controle do fluxo de trabalho, à priorização de demandas e à adaptação às mudanças. Do ponto de vista teórico, o estudo amplia a discussão sobre a aplicação da gestão híbrida em ambientes criativos, ainda pouco explorados na literatura, ao evidenciar não apenas seus benefícios, mas também suas limitações diante de restrições estruturais do setor, como o desequilíbrio entre capacidade produtiva e volume de demandas. Assim, o objetivo geral deste estudo é analisar a aplicação de uma abordagem híbrida de Gestão de Projetos em uma agência de comunicação, com foco na identificação e proposições de melhorias aplicáveis ao fluxo de trabalho, controle das demandas e adaptação às mudanças, visando maior eficiência na condução dos projetos.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, buscando gerar conhecimento para aplicação prática na resolução de problemas específicos. Adotou-se uma abordagem metodológica predominantemente qualitativa, complementada por dados quantitativos descritivos. A escolha da abordagem qualitativa justificou-se pela necessidade de compreender fenômenos contemporâneos em seu contexto real, conforme preconizado por Yin (2015), especialmente quando as fronteiras entre o fenômeno e o ambiente organizacional não são claramente definidas. Quanto aos objetivos, a pesquisa possui caráter descritivo, visando identificar e analisar as práticas de gestão adotadas na organização estudada e seus impactos no fluxo de trabalho, controle de demandas e adaptação às mudanças, em linha com a definição de Gil (2002).
A estratégia de pesquisa empregada foi o estudo de caso único, método considerado adequado para investigações que buscam aprofundar a compreensão de fenômenos complexos em seu ambiente natural (Yin, 2015). Essa escolha permitiu uma análise detalhada da aplicação da gestão híbrida em uma agência de comunicação específica. Adicionalmente, utilizou-se a pesquisa-ação e a observação participante, procedimentos que possibilitaram à pesquisadora atuar diretamente no contexto estudado. Essa proximidade facilitou o acesso contínuo a informações, reuniões e registros operacionais da equipe, contribuindo para uma compreensão aprofundada do fenômeno-caso (Yin, 2015).
O envolvimento da pesquisadora no projeto ocorreu em convivência com a abordagem híbrida de gestão de projetos, que integrava características preditivas e ágeis. Essa integração manifestou-se no planejamento estruturado mensal de campanhas e demandas, representando a característica preditiva. Paralelamente, a execução adaptativa semanal foi baseada em “sprints”, com priorização contínua e visualização do fluxo de trabalho em uma ferramenta digital, o que denota a característica ágil. Essa combinação permitiu observar a dinâmica da gestão híbrida em um ambiente real de trabalho.
A unidade de análise do estudo foi uma agência de publicidade, responsável pela gestão simultânea de sete “shopping centers”. A equipe analisada era composta por sete profissionais, distribuídos nas funções de atendimento publicitário, mídias sociais, redação e direção de arte. O projeto investigado focou na gestão do fluxo de demandas de marketing digital desses “shopping centers”, abrangendo desde a entrada das solicitações até a entrega final. Incluíram-se as etapas de criação, aprovação e os possíveis retrabalhos inerentes ao processo.
A coleta de dados empíricos foi realizada *in loco* durante um período trimestral, compreendendo os meses de janeiro, fevereiro e março. Esse recorte temporal permitiu observar as variações no volume de demandas e no desempenho da equipe ao longo de um ciclo operacional. Previamente, realizou-se uma coleta de dados bibliográficos por meio da base Google Acadêmico. As palavras-chave utilizadas para essa busca foram: “gestão de projetos”, “metodologias ágeis”, “gestão híbrida”, “Kanban”, “agência de comunicação” e “marketing”, visando fundamentar o referencial teórico do estudo.
Os dados empíricos foram obtidos por meio de quatro instrumentos e procedimentos principais. Realizou-se a observação direta das atividades da equipe, permitindo o acompanhamento das rotinas diárias. Efetuou-se o registro sistemático das demandas recebidas e executadas, documentando o volume e o tipo de trabalho. Acompanharam-se as reuniões semanais de alinhamento, denominadas “sprints”, e analisaram-se os registros na ferramenta digital Trello, que se baseia na filosofia Kanban. Esses métodos combinados ofereceram uma visão abrangente do fluxo de trabalho.
As reuniões semanais ocorreram às sextas-feiras, com duração média de 20 a 30 minutos. Contaram com a participação da Gestora de Projetos (Product Owner), dos profissionais de Social Media (Scrum Masters) e do Time de Desenvolvimento (redatores e diretores de arte). Durante essas reuniões, utilizou-se um roteiro padronizado de perguntas. Esse roteiro visava identificar fatores positivos, gargalos, ocorrências de retrabalho e oportunidades de melhoria no fluxo de trabalho, garantindo consistência na coleta de percepções da equipe.
Adicionalmente, foram registrados dados documentais referentes ao volume de demandas, à previsibilidade das tarefas, ao cumprimento de prazos, às ocorrências de refações e às percepções gerais da equipe sobre o processo. A padronização das perguntas utilizadas nas reuniões e o registro documental sistemático contribuíram para reduzir a subjetividade na coleta de informações. Essa abordagem visou aumentar a consistência dos dados obtidos, fornecendo uma base sólida para a análise subsequente.
A análise dos dados coletados foi realizada em duas etapas complementares. Primeiramente, procedeu-se à análise quantitativa descritiva, na qual se consolidaram semanalmente e mensalmente os dados referentes ao volume de demandas e ao cumprimento de prazos. Em seguida, realizou-se a análise qualitativa interpretativa das percepções registradas durante as reuniões semanais. Os registros qualitativos foram organizados em categorias temáticas recorrentes, que incluíam capacidade produtiva, alterações de escopo, comunicação interna e priorização do fluxo de trabalho.
3. Resultados e Discussão
A análise dos resultados empíricos, realizada ao longo de um período de três meses, permitiu uma compreensão aprofundada da aplicação da gestão híbrida de projetos em uma agência de comunicação, bem como a identificação de benefícios e desafios inerentes a esse contexto. A interpretação dos achados foi conduzida à luz da literatura sobre gestão híbrida, metodologias ágeis e sistemas complexos, buscando estabelecer conexões entre a teoria e a prática observada. O estudo visou não apenas descrever as dinâmicas operacionais, mas também propor melhorias aplicáveis para otimizar o fluxo de trabalho, o controle de demandas e a capacidade de adaptação da agência às constantes mudanças do mercado.
Inicialmente, a pesquisa revelou que a agência adotou uma estrutura organizacional adaptada do *framework* Scrum, com uma equipe de sete profissionais distribuídos entre atendimento publicitário, mídias sociais, redação e direção de arte. A Gestora de Projetos e Atendimento Publicitário assumiu o papel de *Product Owner*, as profissionais de Social Media atuaram como *Scrum Masters*, e os diretores de arte e redatores compuseram o Time de Desenvolvimento. Essa adaptação dos papéis tradicionais do Scrum à realidade de uma agência de publicidade demonstrou a flexibilidade da abordagem híbrida em conciliar estruturas formais com a necessidade de agilidade em ambientes criativos (PMI, 2021).
Primeiro mês analisado (janeiro)
O primeiro mês de observação, janeiro, representou a fase inicial de implementação da abordagem híbrida, permitindo analisar a estrutura organizacional e o funcionamento do fluxo de trabalho. As reuniões semanais, realizadas às sextas-feiras com duração média de 20 a 30 minutos, foram um ponto central. Essas reuniões seguiam um roteiro fixo para identificar pontos positivos, gargalos, retrabalho e oportunidades de melhoria. Essa cadência de *feedback* e aprendizado contínuo alinha-se aos princípios das metodologias ágeis, que enfatizam a melhoria incremental e a adaptação (Anderson, 2011; Sutherland, 2014). A formalização dessas rotinas de alinhamento semanal foi proposta como uma prática estruturante da gestão de projetos na agência.
Apesar da adoção de práticas de gestão, a análise das demandas de janeiro revelou que a previsibilidade nem sempre garantiu o cumprimento dos prazos. Das 13 demandas previsíveis e 2 imprevisíveis registradas ao longo do mês, 7 foram entregues com atraso. Por exemplo, na quarta semana, das 6 demandas previsíveis, apenas 1 foi concluída no prazo, resultando em 5 atrasos. Esse cenário reforça a natureza não linear dos projetos, onde múltiplos fatores podem influenciar os resultados, conforme discutido por Patah (2023). Diante disso, a pesquisa propôs a adoção de critérios mais estruturados de priorização, baseados na capacidade produtiva real da equipe, para mitigar os impactos da imprevisibilidade e do volume de trabalho.
Foram identificados fatores recorrentes que impactaram o fluxo de trabalho em janeiro. A limitação da capacidade produtiva, atribuída à falta de equipe, resultou em atrasos significativos. O retrabalho, frequentemente causado por refações solicitadas pelos clientes, consumiu tempo valioso. Além disso, o elevado volume de demandas gerou sobrecarga na equipe. Esses gargalos no sistema, decorrentes da capacidade limitada e do retrabalho, são consistentes com as observações de Anderson (2011) sobre a gestão por fluxo. Para enfrentar esses desafios, foi proposta a implementação de práticas de controle de capacidade, como a limitação do trabalho em progresso (WIP), visando equilibrar a carga de trabalho com os recursos disponíveis.
As refações constantes também indicaram falhas no alinhamento inicial das demandas, um aspecto crítico para a eficiência do projeto. A comunicação eficaz é fundamental para reduzir o retrabalho e garantir que as expectativas sejam claras desde o início (Sutherland, 2014). Nesse sentido, a pesquisa sugeriu o aprimoramento do processo de *briefing* e validação inicial, buscando maior clareza nas informações e expectativas do cliente antes do início das atividades. A comunicação interna e a adaptabilidade da equipe foram, contudo, destacadas como pontos fortes, alinhando-se ao conceito de *tailoring* do PMI (2021), que preconiza a adaptação das práticas de gestão ao contexto específico da organização. A formalização dessas práticas positivas foi também recomendada como parte integrante do modelo de gestão.
Segundo mês analisado (fevereiro)
O segundo mês, fevereiro, foi caracterizado por um aumento na complexidade operacional, impulsionado por um maior volume de demandas e a influência de fatores sazonais. A agência enfrentou um cenário de maior pressão, o que permitiu observar como a gestão híbrida se comportava em condições mais desafiadoras. A análise das demandas de fevereiro revelou um total de 23 demandas previsíveis e 5 imprevisíveis. Apesar do planejamento, 11 demandas foram entregues com atraso, evidenciando que a previsibilidade não foi suficiente para eliminar os impactos da limitação de capacidade e da complexidade do ambiente, corroborando a visão de Patah (2023) sobre projetos como sistemas complexos.
Os fatores de impacto no fluxo de trabalho em fevereiro foram semelhantes aos de janeiro, mas com maior intensidade. A capacidade da equipe continuou sendo uma limitação, com a insuficiência de profissionais resultando em atrasos. O volume de demandas, que se manteve alto, gerou sobrecarga. O retrabalho persistiu, sendo frequentemente associado a *briefings* ruins, o que resultava em refações. Esses achados reforçaram a existência de gargalos no sistema, conforme apontado por Anderson (2011), e a necessidade de aprimorar o controle do fluxo de trabalho e os critérios de priorização, considerando a capacidade real da equipe para evitar a sobrecarga e melhorar o desempenho das entregas.
A comunicação e a colaboração interna foram novamente identificadas como fatores positivos recorrentes, demonstrando a importância desses elementos para a agilidade e o desempenho das equipes (Sutherland, 2014). A pesquisa propôs a institucionalização dessas práticas colaborativas, transformando-as em componentes formais do modelo de gestão. Essa formalização visa garantir que a agência mantenha um ambiente de trabalho que favoreça a troca de informações e a coordenação eficiente, mesmo em períodos de alta demanda e complexidade operacional, contribuindo para a resiliência do sistema de gestão de projetos.
Adicionalmente, a terceira semana de fevereiro destacou a importância do planejamento estruturado, especialmente no processo de *onboarding* de novos clientes. A ausência de um processo padronizado para integrar novos projetos ou clientes pode gerar incertezas e ineficiências no fluxo de trabalho. Assim, a pesquisa propôs a padronização do processo de *onboarding* como uma melhoria essencial. A cooperação entre equipes também se mostrou crucial para a adaptabilidade organizacional, alinhando-se à perspectiva de Patah (2023) sobre a necessidade de mecanismos de apoio interequipes. O objetivo não é eliminar restrições estruturais, mas otimizar o desempenho em cenários de recursos limitados.
Terceiro mês analisado (março)
O terceiro mês, março, consolidou as dinâmicas observadas nos meses anteriores, permitindo identificar padrões recorrentes e a persistência de limitações operacionais. Embora se tenha notado maior estabilidade no sistema em comparação com os meses iniciais de ajustes, os desafios estruturais permaneceram. A análise das demandas de março indicou um total de 26 demandas previsíveis e 5 imprevisíveis. Apesar da predominância de demandas previsíveis, 10 foram entregues com atraso, confirmando que a previsibilidade do escopo não é suficiente para garantir um desempenho eficiente em projetos complexos (Patah, 2023), onde fatores como capacidade produtiva e retrabalho continuam a influenciar os resultados.
Os fatores críticos de impacto no fluxo de trabalho em março reiteraram os desafios anteriores. A capacidade produtiva limitada e o elevado volume de demandas simultâneas continuaram a gerar sobrecarga e gargalos. O retrabalho, frequentemente causado por falhas no *briefing* e a fragmentação das informações fornecidas pelos clientes, persistiu como um problema significativo, consumindo tempo e recursos. Esses achados corroboram a literatura sobre gestão por fluxo, que aponta que sistemas com alta carga de trabalho e ausência de controle de capacidade tendem a apresentar gargalos e redução de desempenho (Anderson, 2011). A pesquisa propôs o aprimoramento dos mecanismos de controle de entrada de demandas e da distribuição do trabalho para buscar um maior equilíbrio entre capacidade e volume.
Ao longo de março, a comunicação interna e o alinhamento entre os membros da equipe continuaram a ser pontos fortes, contribuindo para a manutenção do fluxo de trabalho mesmo em cenários de alta demanda. A priorização das demandas mais críticas e a cooperação entre os profissionais foram elementos-chave para a eficiência operacional. Esses achados estão alinhados com os princípios das metodologias ágeis, que enfatizam a colaboração e a comunicação contínua como fatores essenciais para o desempenho das equipes (Sutherland, 2014). A formalização dessas práticas de alinhamento e priorização foi proposta como um elemento estruturante da gestão de projetos na agência, visando institucionalizar esses comportamentos positivos.
A recorrência de percepções relacionadas à limitação de recursos humanos, especialmente na área criativa, foi um achado importante. Essa condição não se restringe à agência analisada, mas é uma característica amplamente observada no setor de publicidade, onde há um desequilíbrio frequente entre o volume de demandas e a capacidade disponível das equipes. Os resultados indicam que, mesmo com a adoção de práticas de gestão mais estruturadas e adaptativas, persistem limitações sistêmicas que impactam o desempenho dos projetos. Diante disso, a pesquisa propôs o desenvolvimento de estratégias de gestão orientadas à priorização e ao fluxo, capazes de mitigar os efeitos dessas restrições estruturais do setor, reconhecendo que a gestão pode otimizar o desempenho mesmo em cenários de recursos limitados.
Síntese dos resultados do período analisado
A análise consolidada dos três meses de observação evidenciou padrões recorrentes no fluxo de trabalho, independentemente das variações no volume de demandas. Observou-se uma evolução positiva na comunicação interna da equipe, uma maior estruturação das práticas de gestão e uma melhoria na organização do fluxo de trabalho. Esses avanços indicam um amadurecimento gradual do modelo de gestão de projetos híbrido adotado, especialmente no que se refere à priorização das demandas e ao alinhamento entre os membros da equipe, o que demonstra a eficácia da integração de elementos preditivos e ágeis para promover maior transparência e coordenação.
Entretanto, persistiram limitações significativas relacionadas à capacidade produtiva, à alta incidência de retrabalho e à dependência de informações completas dos *stakeholders*. Esses desafios estruturais, como o desequilíbrio entre o volume de demandas e a capacidade produtiva, a elevada incidência de retrabalho e a dependência de informações incompletas dos clientes, não foram totalmente eliminados pela gestão híbrida. Esse comportamento reforça a natureza dos projetos como sistemas complexos, nos quais múltiplas variáveis interagem simultaneamente, influenciando diretamente os resultados (Patah, 2023), e os desafios enfrentados não são particulares à agência, mas características do setor de publicidade.
A gestão híbrida demonstrou ser eficaz na organização do fluxo de trabalho, na melhoria da comunicação interna e na capacidade de adaptação às mudanças. Contudo, verificou-se que essa abordagem, por si só, não foi suficiente para eliminar as restrições estruturais inerentes ao sistema. A pesquisa, portanto, propôs uma série de melhorias, incluindo a formalização das rotinas de alinhamento semanal, o aprimoramento do processo de *briefing* e validação inicial, a adoção de mecanismos de controle de capacidade e priorização do fluxo de trabalho, e o desenvolvimento de estratégias de gestão orientadas à priorização e ao fluxo para mitigar os efeitos das restrições estruturais do setor, visando um modelo híbrido mais adaptado à realidade da agência.
4. Conclusão
O presente estudo analisou a aplicação de uma abordagem híbrida de Gestão de Projetos em uma agência de comunicação, buscando identificar e propor melhorias para o fluxo de trabalho, controle de demandas e adaptação às mudanças, visando maior eficiência. Verificou-se que a adoção de práticas híbridas, que combinam elementos preditivos e ágeis, contribuiu significativamente para a organização do fluxo de trabalho, aprimorando a comunicação interna e a priorização das demandas, além de favorecer a adaptação da equipe às variações do ambiente. Contudo, observou-se que tais práticas não foram suficientes para eliminar limitações relacionadas ao desempenho das entregas, como o cumprimento de prazos e a alta incidência de retrabalho. Essas restrições decorrem de características estruturais do setor de publicidade e comunicação, que se manifestam no desequilíbrio entre o volume de demandas e a capacidade produtiva, na dependência de informações incompletas dos clientes e na recorrência de refações. A principal contribuição do estudo reside na proposição de melhorias aplicáveis, que incluem a formalização das rotinas de alinhamento semanal, o aprimoramento do processo de briefing e validação inicial, e a adoção de mecanismos de controle de capacidade e priorização do fluxo de trabalho, visando mitigar os efeitos dessas condições estruturais.
Embora a gestão híbrida demonstre potencial para otimizar a eficiência operacional, sua atuação é limitada diante de condições estruturais que extrapolam o escopo da gestão de projetos isoladamente. Como limitações desta pesquisa, destaca-se a análise de um único estudo de caso e o recorte temporal de três meses, o que restringe a generalização dos achados. Para estudos futuros, sugere-se a ampliação da investigação para outros contextos organizacionais, aprofundando, por meio de uma abordagem quantitativa, a análise de estratégias voltadas à gestão do desequilíbrio entre demanda e capacidade no setor de comunicação. Essa linha de pesquisa pode oferecer insights valiosos para o desenvolvimento de modelos de gestão mais robustos e adaptativos, capazes de enfrentar os desafios inerentes a ambientes de alta complexidade e variabilidade.
Referências Bibliográficas
Anderson, D.J. 2011. Kanban: mudança evolucionária de sucesso para seu negócio de tecnologia. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.
Bizarrias, F.S.; Penha, R.; SILVA, L.F. da. 2021. Valor e projetos: a contribuição da perspectiva de marketing. Revista de Gestão e Projetos 12(2): 1–8.
Frapiccini, I.L. 2020. Metodologias ágeis no marketing: projeto de implementação de metodologias ágeis no setor de marketing. MBA em Gestão de Projetos. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, São Leopoldo, RS, Brasil.
Gil, A.C. 2002. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Imamura, F.A.; Bortoletto, W.W. 2022. Aplicação de práticas híbridas em projetos de marketing. MBA em Gestão de Projetos. Universidade de São Paulo, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – USP/ESALQ, Piracicaba, SP, Brasil.
Morais, M. dos S. 2023. Gestão tradicional e gestão ágil: a integração dos modelos de gestão de projetos. Curso Superior de Tecnologia em Gestão Empresarial. Faculdade de Tecnologia de Praia Grande, Praia Grande, SP, Brasil.
Patah, L.A. 2023. A gestão de projetos vistos como sistemas não lineares, complexos e dinâmicos de forma adaptativa e híbrida. Revista de Gestão e Projetos 14(3): 40–54.
Project Management Institute [PMI]. 2021. Guia PMBOK®: um guia para o conjunto de conhecimentos em gerenciamento de projetos (PMBOK® Guide). 7. ed. Project Management Institute, Newtown Square, PA, Estados Unidos.
Sutherland, J. 2014. Scrum: a arte de fazer o dobro do trabalho na metade do tempo. Leya, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Yin, R.K. 2015. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

