06 de noviembre de 2026
Entre a Crise e o Sucesso: impacto das finanças no desempenho esportivo de clubes brasileiros
Vitor Chagas Luza; Vivian Caroline Lapini Rocha
DOI: 10.22167/2675-6528-202603947
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O futebol profissional brasileiro consolidou-se como uma indústria de elevada relevância econômica, marcada por crescente geração de receitas e, simultaneamente, por desafios relacionados à sustentabilidade financeira e à gestão dos clubes. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo analisar em que medida o desempenho econômico-financeiro influenciou a competitividade esportiva dos clubes Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Vasco da Gama no período de 2020 a 2024. Para tanto, realizou-se uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem quantitativa e qualitativa, baseada na análise das demonstrações financeiras divulgadas pelos clubes, a partir da apuração de indicadores de liquidez corrente, liquidez geral, endividamento e receita operacional líquida, posteriormente relacionados às conquistas esportivas observadas no período. Os resultados evidenciaram que clubes com maior equilíbrio econômico-financeiro, caracterizado por crescimento consistente de receitas, controle do endividamento e manutenção de níveis adequados de liquidez, apresentaram maior regularidade competitiva e maior recorrência de títulos. Em contrapartida, estruturas financeiras fragilizadas estiveram associadas à instabilidade esportiva e à ausência de conquistas relevantes. Concluiu-se que a sustentabilidade econômico-financeira atuou como condição necessária, ainda que não suficiente, para o sucesso esportivo no longo prazo, reforçando a importância da profissionalização da gestão e da governança no futebol brasileiro.
Palavras-chave: Competitividade esportiva; Desempenho financeiro; Futebol profissional; Governança.
1. Introdução
O futebol moderno, originado na Inglaterra em 1863 e introduzido no Brasil por Charles Miller em 1894, consolidou-se ao longo dos anos como uma das maiores indústrias de entretenimento global e o esporte de maior impacto. Este setor movimenta cifras expressivas e influencia diversos segmentos da economia, além de despertar a paixão de milhões de pessoas. No contexto brasileiro, dados indicam que 61% da população tem suas finanças afetadas por gastos relacionados ao futebol (Serasa, 2025). Globalmente, estima-se que o esporte movimente cerca de um trilhão de dólares anualmente (Silva, 2006), com o mercado do futebol superando 50 bilhões de dólares por ano (FIFA, 2025).
No Brasil, reconhecido como o “País do Futebol”, os clubes registraram uma receita agregada de R$ 11,6 bilhões em 2023 (EY, 2024). Em comparação, o Produto Interno Bruto (PIB) do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024), totalizou R$ 10,9 trilhões no mesmo período. As receitas diretas dos clubes representam aproximadamente 0,11% da economia brasileira, demonstrando a relevância econômica do futebol, para além de seu impacto cultural e social.
Assim como outras empresas, os clubes de futebol têm buscado, ainda que de forma gradual, um processo de profissionalização em suas gestões. Nas últimas décadas, alguns clubes têm implementado modelos de gestão mais alinhados às práticas empresariais de grandes corporações, visando eficiência, rentabilidade e competitividade (Rodrigues; Silva, 2009). Nesse cenário, a sustentabilidade financeira e a conquista de títulos tornaram-se objetivos intrinsecamente correlacionados, evidenciando a necessidade de as organizações esportivas equilibrarem seu desempenho em campo com sua saúde financeira.
Contudo, a gestão dos clubes brasileiros foi historicamente marcada por amadorismo, dependência de interesses políticos e pouca transparência, com decisões frequentemente influenciadas pela emoção e pela pressão dos torcedores (Rezende; Pereira, 2005). A ausência de profissionalização resultou em elevado endividamento e dificuldades na manutenção da sustentabilidade financeira, gerando instabilidade que compromete tanto os resultados esportivos quanto a credibilidade das instituições. Clubes como Corinthians e Vasco da Gama exemplificam essa realidade, com dívidas expressivas e crises que afetaram seu desempenho.
A solidez econômico-financeira é um fator relevante para a consistência do desempenho esportivo. Estudos indicam que clubes com melhores indicadores, como o EBITDA e o lucro operacional, aliados a uma gestão administrativa eficaz, tendem a conquistar títulos com maior frequência e a fortalecer suas marcas (Dantas; Boente, 2011; Marques; Costa, 2016). Por outro lado, mesmo clubes com receitas elevadas podem enfrentar crises financeiras severas devido a falhas na governança e má alocação de recursos, especialmente em contratações e gastos mal geridos, que elevam despesas e custos, gerando liquidez negativa e a necessidade de empréstimos (Ferreira et al., 2018).
A sustentabilidade econômico-financeira, conforme a literatura, depende da capacidade de converter receitas em resultado operacional e, consequentemente, em geração de caixa (Deloitte, 2024). A saúde financeira é avaliada por três dimensões principais: solvência e estrutura de capital, desempenho operacional e liquidez e capital de giro (Santos e Greuel, 2010). Indicadores de liquidez, como a liquidez corrente e geral, avaliam a capacidade de o clube honrar obrigações de curto e longo prazo (Assaf, 2015; Matarazzo, 2010). Valores inferiores a um real para cada real de dívida sinalizam possível insuficiência de recursos. O endividamento, por sua vez, é analisado em termos absolutos e relativos, e clubes com elevada alavancagem financeira tendem a apresentar maior instabilidade esportiva (Assaf, 2015; Serasa Experian, 2019). A receita é a principal medida da capacidade de geração de recursos e a sustentabilidade econômica está associada à habilidade de gerar receitas de forma contínua e previsível (Penman, 2013).
A problemática central deste estudo reside em compreender de que forma os indicadores financeiros influenciam o desempenho esportivo de clubes brasileiros e como diferentes modelos de gestão impactam esse processo. A justificativa para esta pesquisa fundamenta-se na crescente relevância do futebol como atividade econômica e social no Brasil, bem como na necessidade de profissionalização da gestão e sustentabilidade financeira impulsionada pela competitividade e pela transição para o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Assim, o presente estudo teve como objetivo analisar em que medida o desempenho econômico-financeiro influenciou a competitividade esportiva dos clubes Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Vasco da Gama no período de 2020 a 2024.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem metodológica quantitativa e qualitativa. A natureza aplicada buscou gerar conhecimento para a compreensão e intervenção em um problema prático, enquanto a abordagem mista permitiu a análise de dados numéricos e a interpretação de contextos específicos. A pesquisa foi delineada como um estudo de múltiplos casos, o que possibilitou a análise aprofundada de diferentes realidades dentro do mesmo setor.
O objetivo metodológico central foi analisar a relação entre o desempenho econômico-financeiro e a competitividade esportiva de clubes brasileiros. Para tanto, selecionaram-se quatro dos clubes mais tradicionais do futebol nacional como unidades de análise: Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Vasco da Gama. A escolha desses clubes justificou-se pela representatividade histórica, relevância no cenário nacional e por apresentarem, em teoria, condições financeiras equivalentes, mas com resultados esportivos contrastantes.
A análise abrangeu o período de 2020 a 2024, permitindo observar a evolução dos indicadores financeiros e o desempenho esportivo ao longo de cinco exercícios. A estratégia de pesquisa adotada foi a análise comparativa entre os quatro clubes selecionados. Essa abordagem possibilitou a identificação de padrões e correlações entre as variáveis financeiras e esportivas, sem a intenção de estabelecer relações de causalidade direta entre elas.
Os dados utilizados na pesquisa foram de natureza secundária, coletados de fontes públicas e especializadas. As principais fontes incluíram as demonstrações financeiras publicadas nos portais oficiais dos próprios clubes. Complementarmente, foram consultadas informações provenientes de relatórios de consultorias especializadas, como Ernst & Young (EY) e Serasa, além de bases de dados públicas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e artigos acadêmicos disponíveis ao público.
A coleta das demonstrações financeiras e demais relatórios ocorreu de forma sistemática para o período de 2020 a 2024. Contudo, para o Club de Regatas Vasco da Gama, consideraram-se apenas os dados referentes aos anos de 2023 e 2024. Essa limitação deveu-se à indisponibilidade de relatórios completos e auditados para os anos anteriores, conforme explicitado no TCC original.
Os instrumentos de coleta de dados consistiram na apuração de indicadores econômico-financeiros a partir das demonstrações financeiras. Para a análise, foram considerados quatro indicadores específicos: liquidez corrente, liquidez geral, nível de endividamento e receita operacional líquida. Esses indicadores foram selecionados por sua capacidade de avaliar a solvência, a estrutura de capital e a geração de receitas dos clubes analisados.
A liquidez corrente foi utilizada para mensurar a capacidade de o clube honrar suas obrigações de curto prazo, considerando os recursos disponíveis em ativos circulantes (Assaf, 2015). A liquidez geral, por sua vez, indicou a capacidade de cumprimento das obrigações de curto e longo prazo, expressando o montante de recursos disponíveis para cada real de dívida total (Matarazzo, 2010).
O nível de endividamento foi analisado em termos absolutos e relativos, considerando a proporção das obrigações em relação ao total de passivos, com foco nas dívidas de curto prazo (Assaf, 2015; Serasa Experian, 2019). A receita operacional líquida representou a principal medida da capacidade de geração de recursos a partir das atividades operacionais recorrentes, sendo um indicador fundamental para a sustentabilidade econômica (Penman, 2013).
Os indicadores econômico-financeiros foram calculados a partir das demonstrações financeiras divulgadas pelos clubes. Posteriormente, os dados foram organizados por clube e por exercício, permitindo a comparação ao longo do período estudado. Essa organização facilitou a visualização da trajetória financeira de cada instituição e a identificação de tendências.
Após a apuração e organização dos indicadores financeiros, os resultados foram relacionados ao número de títulos conquistados pelo time principal na modalidade masculina, no mesmo período. Essa etapa possibilitou a análise da associação entre o desempenho econômico-financeiro e o desempenho esportivo, conforme o objetivo do estudo. A análise comparativa buscou evidenciar como a administração financeira se relaciona com os resultados em campo.
3. Resultados e Discussão
A análise integrada do desempenho econômico-financeiro e da competitividade esportiva dos clubes Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Vasco da Gama, no período de 2020 a 2024, revelou uma intrínseca relação entre a saúde financeira e o sucesso em campo. Embora a performance esportiva seja influenciada por múltiplas variáveis, como aspectos técnicos, organizacionais e contextuais, a estrutura financeira e a governança emergem como condicionantes relevantes. O futebol, enquanto indústria geradora de receitas elevadas, demonstra vulnerabilidade ao descompasso entre custos e a dinâmica de endividamento, especialmente na ausência de disciplina orçamentária e transparência na governança, impactando diretamente a competitividade dos clubes.
Clubes profissionais, à semelhança de qualquer organização, necessitam gerar receitas e resultados positivos. No contexto do futebol, esse resultado é frequentemente denominado superávit, dada a natureza jurídica de muitos clubes como entidades sem fins lucrativos. Contudo, a crescente profissionalização do setor impulsiona a adoção de práticas de gestão empresarial, com foco no controle de caixa, disciplina financeira e geração de resultados sustentáveis. Esse movimento é reforçado pela entrada de empresas e fundos na gestão de Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), que ampliam o capital investido e reforçam o caráter econômico da atividade, exigindo organização estruturada e gestão profissionalizada (Bastos et al., 2007).
A sustentabilidade dos clubes, portanto, depende da capacidade de manter o equilíbrio financeiro, assegurar a continuidade operacional e, simultaneamente, preservar a competitividade esportiva. O aumento no número de vitórias e conquistas tende a impulsionar as receitas por meio de premiações, arrecadação de bilheteria e maior visibilidade, o que favorece a negociação de contratos de patrocínio e direitos de transmissão. Esse crescimento de receitas, por sua vez, possibilita a reinversão em contratações, remuneração de atletas e desenvolvimento das categorias de base, criando um ciclo virtuoso que fortalece o desempenho esportivo e o resultado financeiro (Ferreira et al., 2018).
A avaliação do desempenho financeiro dos clubes foi realizada por meio da análise de demonstrações financeiras, as quais permitem examinar a condição econômica e organizacional a partir de indicadores financeiros e econômicos (Santos e Greuel, 2010). A análise dos demonstrativos evidenciou características relevantes no equilíbrio entre ativos e passivos, na composição do endividamento (curto e longo prazo) e na capacidade de gerar caixa a partir de receitas recorrentes. A saúde financeira foi observada em três dimensões principais: solvência e estrutura de capital, desempenho operacional e liquidez e capital de giro.
Panorama esportivo e conquistas no cenário nacional e internacional
Ao final de 2024, o Ranking Nacional de Clubes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF, 2025) posicionou o Flamengo na liderança com 16.996 pontos, seguido pelo Palmeiras em terceiro lugar com 14.536 pontos, e o Corinthians em quarto com 13.802 pontos. O Vasco da Gama ocupou a décima quinta posição com 9.356 pontos. Embora esses números não revelem uma disparidade extrema, o ranking é calculado com base no desempenho dos últimos cinco anos, considerando não apenas títulos, mas também a classificação em todos os campeonatos registrados, o que pode elevar a posição de clubes como o Corinthians, que obteve bom desempenho na Copa do Brasil, sendo vice-campeão em 2022 e semifinalista em 2023 e 2024, apesar de um aumento exorbitante em suas finanças.
O Clube de Regatas Flamengo destacou-se pela administração que, após uma reestruturação em 2012 sob a gestão do presidente Eduardo Bandeira de Mello, transformou o clube em uma potência. Essa gestão foi marcada por uma condução responsável, com foco na saúde financeira e governança corporativa, buscando corrigir questões fiscais e trabalhistas, que representavam grande parte da dívida. O crescimento das receitas ao longo do tempo, juntamente com a incorporação de empresas especializadas para apoiar as áreas financeira e organizacional, permitiu ao clube retomar o controle de seus passivos e, a partir de 2016, fortalecer sua capacidade de investimento em contratações e na qualificação do elenco.
Os investimentos realizados pelo Flamengo refletiram-se diretamente nos resultados esportivos, com a conquista do Campeonato Brasileiro em 2020, da Copa do Brasil em 2022, da Recopa Sul-Americana em 2020 e da Libertadores em 2022, além de outros títulos estaduais e competições de menor relevância (Flamengo, 2025). Essa sequência de conquistas demonstra a correlação entre uma gestão financeira robusta e o sucesso em campo, consolidando a posição do clube como líder no cenário nacional e internacional.
A Sociedade Esportiva Palmeiras, terceira no ranking, é reconhecida por uma gestão consolidada que equilibra finanças e títulos. Nos últimos anos, o clube beneficiou-se de elevados investimentos, impulsionados por patrocínios relevantes, como o da Crefisa, e por um processo de reestruturação iniciado em 2013, sob a gestão do presidente Paulo Nobre. Esse processo envolveu o aporte de recursos próprios em condições favoráveis para equacionar dívidas e fortalecer o futebol, resultando em níveis de endividamento controlados e crescimento contínuo de receitas, apoiado por programas de sócios-torcedores e investimentos na categoria de base, que geraram mais de R$ 1 bilhão em receitas (CNN, 2024).
O desempenho financeiro do Palmeiras se refletiu em conquistas esportivas significativas, incluindo a Copa do Brasil em 2020, o Campeonato Brasileiro em 2022 e 2023, e a Libertadores em 2020 e 2021 (Palmeiras, 2025). Essa consistência nos resultados financeiros e esportivos reforça a tese de que uma gestão profissionalizada e financeiramente equilibrada é fundamental para a manutenção da competitividade e para a obtenção de títulos de forma recorrente.
Em contraste, o Sport Club Corinthians Paulista, apesar de possuir a segunda maior torcida do país e ser um destaque histórico, não obteve nenhum título ou destaque representativo no período da pesquisa. Ao final de 2024, o Corinthians liderava o ranking de dívidas do futebol brasileiro, com um montante de R$ 1,9 bilhão (SportsValue, 2025). Essa situação financeira precária, marcada por dívidas expressivas, impactou diretamente a capacidade do clube de investir em um elenco competitivo e de manter a estabilidade necessária para o sucesso esportivo.
O Club de Regatas Vasco da Gama, outro clube de grande relevância histórica e com uma torcida expressiva, também não conquistou títulos ou obteve destaque significativo no período analisado. Além disso, o clube foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro em 2020, evidenciando um baixo desempenho esportivo. A dívida do Vasco da Gama atingiu R$ 929 milhões (SportsValue, 2025), refletindo um cenário de reestruturação financeira e alta dependência de capital de terceiros, que culminou na venda do clube para o modelo SAF com a 777 Partners em 2022, parceria que foi dissolvida em maio de 2024 devido a problemas internos e externos, deixando o clube sem um novo investidor.
Panorama comparativo de estrutura patrimonial, orçamentária de capacidade financeira e gestão esportiva pelo viés de controladoria
A análise do desempenho econômico destaca que, embora o futebol seja um setor com alto potencial de geração de receita, sua sustentabilidade depende da capacidade de converter essas receitas em resultado operacional e, consequentemente, em geração de caixa. Relatórios internacionais apontam que o crescimento das receitas no setor coexiste com uma pressão constante sobre os custos, especialmente os salários e outros gastos recorrentes associados à manutenção de elencos competitivos. A Deloitte (2024) observou um crescimento relevante de receitas no mercado europeu no ciclo 2022/23, impulsionado pela retomada pós-restrições sanitárias, mas também ressaltou a necessidade de controle de custos para preservar a sustentabilidade.
No contexto brasileiro, levantamentos indicam patamares recordes de receitas agregadas dos principais clubes, mas também um crescimento do endividamento total. A SportsValue (2025) apontou que, em 2024, os 20 principais clubes registraram receitas de aproximadamente R$ 10,9 bilhões, enquanto suas dívidas alcançaram R$ 12,2 bilhões no mesmo período. Esse cenário sinaliza que a expansão das receitas nem sempre se traduz em desalavancagem imediata, evidenciando um descompasso entre a capacidade de geração de recursos e o volume de obrigações financeiras.
Uma proposição recorrente no ambiente esportivo de alto rendimento é a centralidade dos custos recorrentes, em especial os salários, como principal vetor de risco e, simultaneamente, de competitividade. A folha salarial tende a representar a maior parcela das despesas operacionais dos clubes profissionais, sendo um fator que pode tanto aumentar o endividamento quanto ser a base de elencos competitivos e vencedores. A relação salários/receitas é um indicador de sustentabilidade em estudos setoriais, e a controladoria desempenha um papel crucial na necessidade de políticas orçamentárias, metas de eficiência e avaliação do retorno esperado dos investimentos esportivos.
A análise de clubes de futebol sob a ótica financeira exige a adaptação de indicadores tradicionais de análise econômico-financeira às especificidades do setor. Indicadores de liquidez, endividamento, rentabilidade e geração de caixa são amplamente utilizados na literatura para avaliar a capacidade de continuidade operacional e o nível de risco das organizações esportivas. A profissionalização da gestão financeira e da controladoria é, portanto, essencial para que os clubes de futebol alcancem equilíbrio econômico e desempenho esportivo consistente, mantendo times competitivos em um ambiente financeiramente restritivo e alinhados às condições de contratação e manutenção de elenco.
Análise dos indicadores
Com base nos indicadores detalhados e nas demonstrações financeiras auditadas dos clubes, foi possível visualizar os índices que compõem a análise financeira de cada entidade. Além dos fatores econômicos, a transparência na divulgação de informações é um aspecto de suma relevância para demonstrar a real situação dos clubes. No caso do Vasco da Gama, foram considerados apenas os dados de 2023 e 2024, devido à indisponibilidade de relatórios completos e auditados de anos anteriores.
Liquidez Corrente
A liquidez corrente representa a capacidade de uma entidade honrar suas obrigações de curto prazo, indicando quanto a organização possui em recursos disponíveis para cada R$ 1,00 de dívida exigível no horizonte de até 12 meses. Valores inferiores a R$ 1,00 sinalizam possível insuficiência de recursos para a liquidação dessas obrigações no exercício seguinte, evidenciando limitações na capacidade de pagamento no curto prazo (Assaf, 2015). A análise dos dados revelou que, com exceção do Flamengo em 2024, as demais equipes registraram níveis inferiores a um.
Observou-se que grande parte dos ativos dos clubes está concentrada no longo prazo, especialmente na rubrica de intangíveis, que corresponde aos direitos sobre os atletas, devido às características do enquadramento contábil. Tanto o Flamengo quanto o Palmeiras apresentaram uma evolução positiva e uma curva acentuada nos índices de liquidez corrente, com exceção do Flamengo em 2024. Essa queda no Flamengo foi atribuída a um investimento na compra de direitos federativos de atletas, que aumentou o passivo na linha de contas a pagar sobre direitos de atletas em mais de R$ 145 milhões (Flamengo, 2025), e uma saída de caixa de mais de R$ 120 milhões na compra de jogadores de 2023 para 2024.
Já Corinthians e Vasco, mesmo apresentando alguma melhora nos índices, mantiveram médias próximas ou inferiores a 0,50, o que representa um alerta significativo. Essa situação é agravada quando comparada ao aumento das despesas financeiras em ambos os clubes, que tende a consumir ainda mais caixa e gerar despesas de curto prazo com multas e juros. A baixa liquidez corrente desses clubes indica uma fragilidade na capacidade de honrar compromissos imediatos, comprometendo a flexibilidade para investimentos estratégicos.
Liquidez Geral
A liquidez geral, conforme Matarazzo (2010), indica a capacidade de uma empresa cumprir suas obrigações considerando tanto o curto quanto o longo prazo, expressando o montante de recursos disponíveis para cada R$ 1,00 de dívida total. Assaf (2015) complementa que valores superiores a R$ 1,00 sinalizam uma situação de maior equilíbrio financeiro, enquanto índices inferiores indicam possível insuficiência de recursos para a quitação das obrigações, evidenciando maior risco na capacidade de pagamento.
Flamengo e Palmeiras registraram índices de liquidez geral superiores a 1, indicando capacidade de honrar suas obrigações ao longo dos períodos analisados. Essa consistência reflete uma gestão financeira mais equilibrada e uma menor dependência de renegociações de passivos. Em contrapartida, Corinthians e Vasco da Gama apresentaram limitações significativas na capacidade de pagamento de suas dívidas, com o Vasco atingindo um índice médio de 0,39, o que reflete uma situação de elevado risco financeiro.
A baixa liquidez geral do Vasco da Gama é caracterizada pela dependência de renegociação de passivos, alongamento de dívidas e restrições à capacidade de planejamento econômico de longo prazo. Além disso, o clube apresentou um patrimônio líquido negativo, decorrente da deterioração do capital social e de prejuízos acumulados. Essa condição compromete a capacidade de investimento e a sustentabilidade a longo prazo, evidenciando a necessidade de uma reestruturação financeira profunda para reverter o cenário de fragilidade.
Receita
A análise da receita constitui um elemento central na avaliação do desempenho econômico-financeiro das organizações, representando a principal medida da capacidade de geração de recursos a partir das atividades operacionais recorrentes. Penman (2013) destaca que a sustentabilidade econômica de uma entidade está fortemente associada à sua habilidade de gerar receitas de forma contínua e previsível, sendo esse indicador fundamental para a avaliação de desempenho e de risco. No futebol profissional, a relevância da receita é ainda mais acentuada, dada a elevada rigidez dos custos operacionais e a dependência de fluxos financeiros recorrentes para sustentar projetos esportivos competitivos.
Clubes como Flamengo e Palmeiras apresentaram níveis elevados e relativamente consistentes de receita ao longo do período analisado, com médias superiores às dos demais clubes da amostra. Em 2024, o Flamengo registrou faturamento de R$ 1,3 bilhão, com destaque para o crescimento das receitas de marketing e premiações, além de menor dependência de transferências de jogadores, ocupando apenas a décima posição no futebol brasileiro nesse quesito. Isso evidencia sua capacidade de geração de receitas sem comprometer a qualidade do elenco (SportsValue, 2025).
No mesmo período, o Palmeiras alcançou receitas de R$ 1,3 bilhão, representando um crescimento expressivo de 40% em relação a 2023, sendo R$ 440 milhões provenientes da venda de jogadores. Esse resultado está associado ao forte investimento nas categorias de base, que possibilita a geração de receitas com a negociação de atletas jovens e contribui para o financiamento de contratações de maior impacto (SportsValue, 2025). Essa estabilidade de receitas entre Flamengo e Palmeiras contribui para maior previsibilidade orçamentária, redução da dependência de receitas extraordinárias e maior capacidade de sustentar projetos esportivos contínuos.
Em 2024, o Corinthians registrou receita de R$ 1,1 bilhão, com crescimento de 19%, fortemente influenciado pelos R$ 338 milhões provenientes de transferências de jogadores. O aumento nas receitas foi impulsionado principalmente pelo avanço nos contratos de patrocínio, sustentado pela força da marca e de sua torcida, compensando, em parte, a redução nas receitas de premiações. Esse cenário evidencia a necessidade recorrente de venda de ativos relevantes para geração de caixa, muitas vezes realizada em condições inferiores ao valor de mercado (SportsValue, 2025), o que indica uma dependência de receitas não recorrentes.
No mesmo período, o Vasco da Gama SAF registrou receitas de R$ 474 milhões, com crescimento de 30% em relação a 2023. Desconsiderando os efeitos das transferências de jogadores, a evolução foi de 26%, indicando um clube com forte base de torcida e relevância histórica, porém com nível de faturamento significativamente inferior aos seus principais concorrentes (SportsValue, 2025). Em contraste, clubes com histórico de receitas mais voláteis ou concentradas em exercícios específicos tendem a enfrentar maior restrição financeira, especialmente em contextos de elevada rigidez de custos, característica marcante do futebol profissional.
Endividamento
A composição do endividamento indica a proporção das obrigações de curto prazo em relação ao total de passivos da empresa, evidenciando a parcela das dívidas com vencimento no curto prazo (Assaf, 2015). O Serasa Experian (2019) destaca que níveis mais baixos desse indicador são considerados mais favoráveis, uma vez que reduzem a necessidade de desembolsos imediatos para a quitação das obrigações. Esse é um indicador chave para que a administração entenda o planejamento de desembolso de caixa e determine ações para evitar uma possível falta de recursos para o pagamento de dívidas.
No caso do Flamengo, destacou-se a trajetória de redução do índice de endividamento ao longo do período, com médias inferiores às observadas nos demais clubes da amostra, sinalizando um processo de desalavancagem financeira e fortalecimento de sua estrutura de capital. O clube possui um montante de dívida em R$ 353 milhões (SportsValue, 2025), totalmente estabilizadas pela sua geração de caixa, o que demonstra uma gestão eficiente e um controle rigoroso sobre suas obrigações financeiras.
O Palmeiras apresenta um valor de endividamento próximo a 1, porém em constante redução, indicando uma trajetória decrescente, mesmo após realizar mais de R$ 185 milhões em investimentos em contratações em 2024, grande parte com exigibilidade no curto prazo (Palmeiras, 2025). O clube registra um nível de endividamento de aproximadamente R$ 825 milhões; ao desconsiderar os efeitos relacionados ao Allianz Parque, especialmente no processo de modernização do estádio, esse montante é reduzido para cerca de R$ 438 milhões (SportsValue, 2025), o que reflete uma gestão prudente e capacidade de investimento.
O Corinthians, por outro lado, apresenta índices de endividamento superiores à unidade, indicando elevada participação de capital de terceiros na estrutura de financiamento, com crescimento do saldo no último exercício. Um ponto adicional de atenção relaciona-se a passivos contingentes não reconhecidos, especialmente a dívida vinculada à Arena Corinthians. O endividamento total do clube é de aproximadamente R$ 1,9 bilhão; ao desconsiderar os efeitos associados à Neo Química Arena, esse valor é reduzido para cerca de R$ 1,2 bilhão (SportsValue, 2025), ainda assim superior ao faturamento do clube, mesmo sendo um dos maiores do Brasil.
Em um cenário ainda mais complicado, devido à sua baixa capacidade de geração de receita, o Vasco da Gama revela elevada volatilidade e níveis extremamente preocupantes de endividamento nos exercícios mais recentes, com uma dívida em R$ 929 milhões (SportsValue, 2025). Essa situação reflete um contexto de reestruturação financeira e elevada dependência de capital de terceiros, o que gerou inclusive a venda do clube no modelo SAF para a 777 Partners em setembro de 2022. No entanto, devido a diversos problemas internos e externos, essa parceria foi dissolvida após liminar na Justiça do Rio em maio de 2024, afastando a 777 Partners do controle da SAF do Vasco, que hoje ainda se mantém sem um novo investidor.
As finanças dos clubes frente as suas realizações esportivas
Com base nos indicadores analisados, Flamengo e Palmeiras apresentaram maior estabilidade financeira no período, com crescimento significativo em suas receitas e menor pressão de passivos em relação à sua escala de receitas, além de maior equilíbrio entre ativos e passivos. Em contraste, Corinthians e Vasco da Gama exibiram uma estrutura mais pressionada por passivos, com histórico de deterioração patrimonial e maior concentração de obrigações no curto prazo. Ambos os clubes também apresentaram alta concentração de despesas financeiras motivadas por juros e encargos alongados, somados a um ambiente organizacional deteriorado, resultando em parágrafos de ênfase em suas demonstrações financeiras sobre continuidade operacional (Corinthians, 2025) ou em ambiente de recuperação judicial com abstenção de opinião sobre suas demonstrações financeiras (Vasco da Gama, 2025).
A título comparativo, o Palmeiras, com maior saúde financeira, investiu R$ 260 milhões de 2015 a 2024 em suas categorias de base e obteve receita de R$ 1,8 bilhão em vendas de jogadores de base (Palmeiras, 2025). O Flamengo, por sua vez, investiu R$ 184 milhões e obteve um retorno de R$ 564 milhões em vendas. Em contrapartida, Corinthians e Vasco da Gama, somados, investiram R$ 104 milhões e obtiveram apenas R$ 411 milhões em vendas (Galapagos Outfield, 2025). Isso demonstra como times com maior robustez econômica conseguem investir mais em ativos que trazem retorno, aumentando sua disparidade econômica em detrimento de times que veem suas receitas serem consumidas por juros e dívidas.
A leitura consolidada dos indicadores financeiros e das conquistas no período de 2020 a 2024 evidencia que clubes com trajetória de maior equilíbrio econômico-financeiro apresentaram, simultaneamente, melhor desempenho esportivo. O Flamengo, por exemplo, combinou crescimento consistente de receitas, redução relativa do grau de endividamento e manutenção de índices de liquidez corrente e geral em patamares confortáveis ao longo do período, o que se refletiu diretamente no aumento da recorrência de títulos nacionais e internacionais, conquistando oito títulos profissionais no período.
De forma semelhante, o Palmeiras apresentou evolução positiva de receitas e liquidez, associada a níveis de endividamento controlados, sustentando um ciclo de competitividade esportiva contínua, com onze conquistas no período no time profissional. Essa capacidade de investimento em jovens talentos e em jogadores de alto nível, sustentada por uma gestão financeira sólida, permitiu a manutenção de elencos fortes e a obtenção de vendas exorbitantes, criando um ciclo virtuoso de sucesso esportivo e financeiro.
O Corinthians, embora possua escala relevante de receitas, opera com níveis elevados de endividamento e liquidez mais restrita, além de possuir uma dívida que supera sua receita e está em crescente acentuada, impactando diretamente o nível de seu elenco. Isso resultou em consequências legais, como a impossibilidade de contratação por não pagamento de obrigações, o que se traduziu em menor regularidade de conquistas esportivas, resultando em zero título conquistado no período analisado. Apesar de ser o terceiro clube que mais gasta com futebol, atrás apenas de Flamengo e Palmeiras (SportsValue, 2025), não conseguiu conquistar nenhum título, evidenciando que mesmo com uma dívida enorme, o clube monta elencos caros fora de sua capacidade econômica, que não são competitivos para trazerem títulos.
O Vasco da Gama apresentou, no período analisado, uma combinação crítica de baixa liquidez, elevada alavancagem e dívidas crescentes, cenário que restringiu a capacidade de sustentação de projetos esportivos e ajudou a explicar a ausência de títulos relevantes no intervalo considerado e os consequentes rebaixamentos para a série B do Brasileirão. Além dos fatores quantitativos, foram verificados problemas organizacionais claros, haja vista que, mesmo adotando modelos mais modernos de gestão como SAF, o clube não conseguiu operar, e pela sua falta de transparência ao não documentar demonstrações financeiras oficiais aos seus torcedores até 2022.
Assim, a análise integrada dos indicadores demonstra que o sucesso esportivo não é explicado por um índice isolado, e que fatos pontuais podem levar times mal administrados a serem campeões, ou times ricos com elencos caros a não darem certo. No entanto, a convergência entre crescimento de receitas, controle do endividamento e manutenção de níveis adequados de liquidez, aliada a um plano de negócio esportivo de longo prazo, traz retornos e conquistas mais consistentes. Essa combinação financeira cria as condições necessárias para investimentos esportivos consistentes, refletindo-se em maior probabilidade de conquistas ao longo do tempo, pois possibilita investir em elencos mais fortes e mantê-los por um período maior, sem a necessidade emergencial de vendas para suprir dívidas, perpetuando um ciclo de conquistas.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar a influência do desempenho econômico-financeiro na competitividade esportiva de clubes brasileiros, especificamente Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Vasco da Gama, entre 2020 e 2024. Verificou-se uma relação intrínseca entre a saúde financeira e o sucesso em campo, onde clubes com maior equilíbrio econômico-financeiro demonstraram maior regularidade competitiva e recorrência de títulos. Observou-se que o Flamengo e o Palmeiras, caracterizados por crescimento consistente de receitas, controle do endividamento e manutenção de níveis adequados de liquidez, conquistaram um número significativo de títulos nacionais e internacionais no período. Em contrapartida, o Corinthians e o Vasco da Gama, que apresentaram estruturas financeiras fragilizadas, marcadas por elevado endividamento, baixa liquidez e dependência de receitas não recorrentes, registraram instabilidade esportiva e ausência de conquistas relevantes. Essa análise evidenciou que a sustentabilidade econômico-financeira atua como uma condição necessária para o sucesso esportivo no longo prazo, embora não seja a única variável determinante.
A principal contribuição deste trabalho reside no reforço da importância da profissionalização da gestão e da governança no futebol brasileiro, destacando que a geração recorrente de receitas, a gestão responsável do endividamento e a manutenção de liquidez adequada são bases essenciais para a sustentação de ciclos esportivos rentáveis e competitivos. Contudo, o estudo apresentou limitações decorrentes da utilização de dados secundários, cuja disponibilidade e nível de transparência variaram entre os clubes, e da restrição da análise a apenas quatro equipes e a um período específico, o que pode limitar a generalização dos achados. Além disso, o desempenho esportivo foi mensurado primariamente pela quantidade de títulos, sem aprofundar em outros indicadores de performance. Para estudos futuros, sugere-se a ampliação da amostra para incluir outros clubes nacionais e internacionais, a análise de períodos mais extensos e a incorporação de novos indicadores financeiros e esportivos, como a eficiência operacional e o retorno sobre investimentos em atletas, a fim de aprofundar a compreensão da complexa relação entre gestão financeira e desempenho esportivo.
Referências Bibliográficas
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Silva, J. 2006. Economia do esporte: impactos globais. Revista de Estudos Econômicos 14(1): 5-15.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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