30 de julho de 2026
Desafios logísticos da cadeia da produção da soja no Maranhão
Fernanda Karollyne Saboia do Nascimento; Edson Pereira da Mota
DOI: 10.22167/2675-6528-202600796
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A produção de soja no Maranhão ganhou relevância no agronegócio brasileiro, impulsionada pela expansão da fronteira agrícola e pela interação com os corredores de escoamento do Arco Norte, o que tornou a logística um elemento central para o escoamento do produto. O trabalho analisou os principais desafios logísticos enfrentados na cadeia de produção da soja no Maranhão, com ênfase na infraestrutura de armazenagem e nos sistemas de transporte utilizados, buscando relacionar dados sobre produção e armazenagem, caracterizar a infraestrutura disponível e identificar desafios de transporte. A pesquisa utilizou dados secundários de instituições oficiais e associações, por meio de pesquisa documental. Verificou-se um crescimento de 131,99% na produção de soja entre as safras 2014/15 e 2024/25, enquanto a capacidade de armazenagem cresceu 51,69% no mesmo período. Observou-se uma correlação positiva e significativa entre produção e capacidade de armazenagem (r=0,71; p=0,014; R2=0,50), mas a razão armazenagem/produção foi inferior a 100% após a safra 2019/20, indicando um déficit de armazenagem no estado. O modal rodoviário predominou em rodovias precárias, apesar do potencial ferroviário. As exportações de soja do estado atingiram 5.054 mil t em 2025, com 71,6% destinadas à China via Porto do Itaqui. Concluiu-se que investimentos em armazenagem, manutenção rodoviária e intermodalidade são essenciais para a competitividade da soja maranhense no cenário nacional.
Palavras-chave: Armazenagem; Infraestrutura; MATOPIBA; Transporte.
1. Introdução
A soja consolidou-se como uma das culturas agrícolas mais importantes globalmente, impulsionada por seu valor econômico e demanda crescente (Reis et al., 2025). O setor tem passado por transformações significativas, com inovações tecnológicas e aprimoramentos na gestão agrícola (Péra e Caixeta Filho, 2017). Para assegurar a sustentabilidade e a estabilidade produtiva, é essencial compreender o contexto de cada região produtora, com atenção especial aos aspectos logísticos da cadeia (Balbinot Junior et al., 2022).
No Brasil, o Maranhão emergiu como um polo relevante na produção de soja, com uma expansão significativa da área cultivada desde o final da década de 1970. Esse crescimento foi impulsionado por fatores como o desenvolvimento de tecnologias para o Cerrado, a migração de produtores para a fronteira agrícola do MATOPIBA, e incentivos fiscais (Feitosa et al., 2023). A produção de soja no estado atingiu 4.858,3 mil toneladas na safra 2024/2025, representando um aumento de 131,39% em comparação com a safra 2014/2015, enquanto a área cultivada quase dobrou no mesmo período (Conab, 2026a).
Apesar do crescimento expressivo da produção, a infraestrutura logística do Maranhão não acompanhou o mesmo ritmo, gerando desafios para o escoamento eficiente da safra (Péra e Caixeta Filho, 2017). A ineficiência logística, especialmente na armazenagem e no transporte, compromete a competitividade da cadeia da soja. Embora o Maranhão esteja estrategicamente posicionado no Arco Norte, com acesso a modais multimodais e ao Porto do Itaqui, o potencial para escoamento para mercados internacionais (Buss et al., 2019) é subutilizado pela infraestrutura inadequada.
A armazenagem é crucial para a qualidade do grão e a gestão da oferta e demanda (CNA, 2023), e no Maranhão, a capacidade estática total cresceu 51,69% entre 2015 e 2025, atingindo 4.181,8 mil toneladas (Conab, 2026b). Contudo, a capacidade em nível de fazenda cresceu apenas 13,63% no mesmo período, indicando que a maior parte da expansão ocorreu em armazéns comerciais. Essa disparidade e o descompasso entre o crescimento da produção e da capacidade de armazenagem geram um déficit, forçando a comercialização prematura e impactando as margens dos produtores (CNA, 2023). Problemas qualitativos e falta de mão de obra qualificada também são desafios (Sousa, 2021). Iniciativas como o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) buscam mitigar essa problemática (MAPA, 2024).
O transporte da soja no Maranhão é predominantemente rodoviário, modal que enfrenta problemas de infraestrutura, resultando em altos custos e ineficiência (Nascimento, 2016), e o déficit de armazenagem intensifica a pressão sobre as rodovias, gerando gargalos e aumento dos custos de frete (Ramos et al., 2024). Embora o estado possua potencial multimodal com ferrovias como a Norte-Sul e a Estrada de Ferro Carajás, além do estratégico Porto do Itaqui, a integração e otimização desses modais ainda são desafios. A melhoria da infraestrutura de transporte e a promoção da intermodalidade são essenciais para reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade da soja maranhense nos mercados globais (Buss et al., 2019; Russo et al., 2023).
A análise dos desafios logísticos na cadeia da soja do Maranhão é fundamental para otimizar o escoamento da produção, reduzir perdas e fortalecer a competitividade do agronegócio estadual. A lacuna entre o crescimento da produção e o desenvolvimento da infraestrutura logística justifica este estudo, fornecendo subsídios para o planejamento e a tomada de decisões estratégicas. Assim, este trabalho tem como objetivo analisar os principais desafios logísticos enfrentados na cadeia de produção da soja no Maranhão, com ênfase na infraestrutura de armazenagem e nos sistemas de transporte utilizados, buscando relacionar dados sobre produção e armazenagem, caracterizar a infraestrutura disponível e identificar e analisar os principais desafios relacionados ao transporte.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa documental, de natureza quantitativa e descritiva, com abordagem exploratória para a análise de relações. A unidade de análise foi o estado do Maranhão, com foco na cadeia de produção e escoamento da soja. A investigação abrangeu um recorte temporal de 2015 a 2025, utilizando séries históricas anuais para a comparação temporal e a identificação de possíveis relações entre a expansão produtiva e a infraestrutura logística disponível no estado.
Os dados referentes à área plantada, produtividade e produção de soja no Maranhão, abrangendo as safras de 2014/2015 a 2024/2025, foram coletados nas séries históricas divulgadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, 2026a). Para o mesmo período, as informações sobre a capacidade estática de armazenagem do estado foram obtidas no Portal de Armazéns do Brasil, uma plataforma mantida pela Conab (2026b). Este portal integra dados do Sistema de Cadastro Nacional de Unidades Armazenadoras (SICARM), que identifica unidades armazenadoras públicas e privadas.
As informações sobre a infraestrutura de transporte, incluindo a movimentação de cargas nos modais rodoviário, ferroviário e aquaviário, e os dados de exportação foram extraídas de publicações e painéis estatísticos. As fontes incluíram a Confederação Nacional do Transporte (CNT), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Dados complementares sobre operações portuárias do Porto do Itaqui e sobre capacidade de processamento industrial de soja no estado foram igualmente coletados de fontes oficiais setoriais.
Após a coleta, os dados foram organizados e consolidados em planilhas eletrônicas. As variáveis de interesse incluíram área, produtividade, produção de soja, capacidade estática de armazenagem e volumes de exportação. Essa organização inicial permitiu a estruturação das séries históricas necessárias para as análises subsequentes, garantindo a base para a construção dos indicadores e a avaliação das relações propostas pelo estudo.
Com base nas séries históricas, foram construídos indicadores para evidenciar o descompasso entre o crescimento produtivo e a oferta de estruturas de armazenagem. A taxa de crescimento de capacidade estática acumulada no período analisado foi calculada. Este indicador foi obtido pela diferença entre a capacidade estática do ano final e a capacidade estática do ano inicial, dividida pela capacidade estática inicial e multiplicada por cem.
Adicionalmente, para mensurar o crescimento composto ao longo dos anos, calculou-se a taxa de crescimento médio percentual. Este cálculo envolveu a raiz enésima da razão entre a capacidade estática final e a inicial, subtraindo-se um e multiplicando-se por cem. Onde “n” representou o número de anos do período analisado, permitindo uma visão da evolução anual média da capacidade de armazenagem.
Outro indicador construído foi a razão entre a capacidade estática de armazenagem e a produção anual de soja. Este indicador permitiu avaliar a adequação da infraestrutura de armazenagem em relação ao volume produzido. A análise dessa razão ao longo do tempo foi fundamental para identificar períodos de déficit ou superávit na capacidade de armazenagem do estado.
Para avaliar a relação entre a produção de soja e a capacidade de armazenagem no Maranhão, foram estimados coeficientes de correlação de Pearson. Esta análise exploratória buscou quantificar a força e a direção da associação linear entre as séries anuais de produção de soja, expressa em mil toneladas, e a capacidade estática de armazenagem, também em mil toneladas, ao longo do período estudado.
Complementarmente, ajustou-se um modelo de regressão linear simples. Neste modelo, a produção de soja foi definida como variável explicativa, e a capacidade de armazenagem como variável dependente. O objetivo foi verificar o sentido e a magnitude da associação entre essas variáveis ao longo do tempo, com um nível de significância de cinco por cento adotado para a análise estatística inferencial.
Todas as etapas de tratamento dos dados, incluindo a organização das séries históricas, a construção dos indicadores, a elaboração de tabelas e os cálculos de correlação e regressão linear simples, foram realizadas utilizando planilhas eletrônicas, especificamente o software Microsoft Excel. Este programa foi empregado para a manipulação e análise dos conjuntos de dados coletados.
3. Resultados e Discussão
A pesquisa analisou os principais desafios logísticos enfrentados na cadeia de produção da soja no Maranhão, com ênfase na infraestrutura de armazenagem e nos sistemas de transporte utilizados. Os achados revelam uma expansão significativa na produção de soja no estado ao longo da última década, o que gerou pressão considerável sobre a infraestrutura logística existente. Embora esse crescimento seja economicamente vantajoso, ele evidencia um desequilíbrio crítico entre o rápido aumento da produção e o desenvolvimento mais lento dos sistemas de apoio essenciais, particularmente na armazenagem e no transporte. A discussão subsequente detalha essas dinâmicas, conectando as tendências observadas com suas implicações para a competitividade e sustentabilidade do setor de soja maranhense.
Evolução da produção de soja no Maranhão
A produção de soja no Maranhão demonstrou um crescimento expressivo no período de 2014/2015 a 2024/2025, consolidando o estado como um ator relevante no agronegócio brasileiro. A área cultivada expandiu de 749,6 mil hectares para 1.436,1 mil hectares, representando um aumento de 91,58%. Concomitantemente, a produtividade média por hectare elevou-se de 2.801 kg para 3.383 kg, culminando em uma produção total que saltou de 2.099,6 mil toneladas para 4.858,3 mil toneladas, um acréscimo de 131,39% (Conab, 2026a). Esse crescimento foi particularmente acelerado a partir da safra 2020/2021, com as variáveis de área, produtividade e produção exibindo trajetórias ascendentes e sustentadas, indicando que a produção de soja mais que dobrou no período analisado.
Esse avanço na produção de soja posiciona o Maranhão como um grande produtor dentro da região do MATOPIBA, contribuindo com 21,27% da produção agrícola alcançada por essa fronteira agrícola. A expansão produtiva, embora positiva para a economia estadual, impõe desafios significativos à infraestrutura logística existente. A Confederação de Agricultura e Pecuária (CNA, 2023) ressalta que safras recordes de grãos, como as observadas no Maranhão, intensificam a pressão sobre os sistemas de armazenagem e transporte, exigindo uma adaptação contínua e investimentos para evitar gargalos e perdas. A competitividade dos agentes do agronegócio está diretamente ligada à capacidade de reduzir custos de produção, processamento e, crucialmente, logísticos, o que demanda atenção à eficiência da cadeia.
Capacidade de armazenagem e relação com a produção
A armazenagem constitui um pilar fundamental na cadeia agrícola, influenciando diretamente a qualidade do grão, a coordenação entre oferta e demanda, a gestão da sazonalidade e a rentabilidade do produtor (CNA, 2023). Em 2025, o Maranhão registrou 192 armazéns, cuja capacidade estática total atingiu 4.181,7 mil toneladas, sendo a maior parte, 4.092,9 mil toneladas, destinada a grãos a granel, e 88,9 mil toneladas para produtos embalados (Conab, 2026b). A evolução da capacidade estática total de armazenagem no estado, entre 2015 e 2025, mostrou um crescimento acumulado de 51,69%, passando de 2.756,8 mil toneladas para 4.181,8 mil toneladas, com uma taxa média de crescimento anual de 4,25%.
Contudo, a capacidade de armazenagem em nível de fazenda apresentou um crescimento significativamente menor no mesmo período. Ela evoluiu de 818,5 mil toneladas para 930 mil toneladas, um aumento acumulado de apenas 13,63%, com uma taxa média de crescimento anual de 1,29%. Essa disparidade é notável, pois a capacidade de armazenagem total foi 349,6% maior em relação à capacidade de fazenda ao longo do período, evidenciando que a maior parte da expansão se concentrou em armazéns comerciais. A baixa participação da armazenagem em nível de fazenda, que representou apenas 22,24% do total em 2025, sugere que os produtores dependem majoritariamente de armazéns comerciais, o que pode comprometer a gestão de estoques e forçar a comercialização imediata da produção (Buss et al., 2019).
A relação entre a capacidade estática de armazenagem e a produção de soja no Maranhão revelou um descompasso crescente. A razão armazenagem/produção oscilou entre 228,66% na safra 2015/2016, um ano de produção atípica devido à estiagem, e 71,17% na safra 2023/2024, que registrou a menor capacidade de armazenagem relativa da série. A partir da safra 2019/2020, essa razão permaneceu consistentemente abaixo de 100%, indicando um déficit relativo de armazenagem que não é suficiente para comportar a produção de soja e outros grãos do estado. Essa dinâmica é reforçada pela observação de que a produção de soja tem crescido mais rapidamente do que a capacidade estática de armazenagem, especialmente após 2020, o que agrava a situação.
A análise estatística demonstrou uma correlação positiva e significativa entre a produção de soja e a capacidade estática de armazenagem no Maranhão, com um coeficiente de Pearson de 0,71 e um p-valor inferior a 0,05, resultando em um R² de 0,50. Isso significa que, embora haja uma relação entre as variáveis, o crescimento da capacidade de armazenagem não acompanhou o ritmo da produção de forma proporcional. Para cada acréscimo de um milhão de toneladas na produção, a capacidade de armazenagem aumentou em 0,26 milhão de toneladas, evidenciando que a infraestrutura, embora tenha acompanhado em alguma medida, não foi suficiente para atender plenamente à expansão produtiva. Esse déficit de armazenagem força a comercialização prematura, comprometendo as margens dos produtores e a gestão da oferta (CNA, 2023).
O déficit de armazenagem no Maranhão reforça uma vulnerabilidade logística, especialmente durante os picos de colheita, quando a oferta limitada de armazéns pode levar à comercialização antecipada e à perda de valor do produto. Sousa (2021) aponta que, além da insuficiência de capacidade estática, os armazéns existentes podem apresentar problemas de aeração e termometria, e há carência de mão de obra qualificada. O investimento em armazenagem é alto, o que dificulta o acompanhamento do crescimento da produção, especialmente em regiões de fronteira agrícola. O Brasil, de forma geral, enfrenta um déficit de armazenagem, com o MATOPIBA contribuindo com 7,8% da capacidade estática nacional, o que gera perdas de oportunidade na comercialização e aumenta a volatilidade do frete rodoviário (CNA, 2023).
Para mitigar esses desafios, o poder público tem um papel crucial no estímulo à modernização da armazenagem e na redução de perdas no nível rural, atuando como indutor de investimentos (Brasil, 1991; Sousa, 2021). O Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), parte do Plano Safra, oferece linhas de crédito subsidiadas para produtores e cooperativas, visando a construção, modernização e reforma de armazéns. Na safra 2024/2025, o PCA disponibilizou cerca de R$ 7,8 bilhões para financiamento, com taxas de juros de 8,5% ao ano e prazos de até dez anos, com limites de R$ 50 milhões por beneficiário e R$ 200 milhões por cooperativa (MAPA, 2024). Essas iniciativas são essenciais para fortalecer a infraestrutura de armazenagem e garantir maior competitividade.
Além da soja, o Maranhão também desempenha um papel significativo na produção de outras culturas, como milho, arroz, sorgo, algodão e feijão-caupi, que alcançaram 3.412,4 mil toneladas em 2024/2025. A produção total de grãos no estado atingiu 8.792,4 mil toneladas em 2024/2025, superando a capacidade estática de armazenagem em 110,25%. Isso demonstra um déficit nítido e incontestável de armazenagem para o conjunto dos grãos produzidos no estado, o que intensifica a pressão sobre a infraestrutura logística e a necessidade de soluções integradas para o escoamento da safra (CNA, 2023).
Infraestrutura e fluxos de transporte no Maranhão
A logística de transporte no Maranhão é marcada pela predominância do modal rodoviário, que, apesar de sua flexibilidade, enfrenta sérios desafios de infraestrutura. As rodovias estaduais e federais do Maranhão apresentam condições precárias, com a presença de buracos, erosões e pontos críticos que comprometem a trafegabilidade e elevam os custos logísticos (Nascimento, 2016; Silva et al., 2023). Em 2025, a Confederação Nacional de Transporte (CNT, 2026b) identificou 489 ocorrências de pontos críticos nas rodovias federais e 477 nas estaduais, evidenciando a necessidade urgente de investimentos em manutenção e melhoria da malha viária para garantir o escoamento eficiente da produção.
O déficit de armazenagem intensifica a pressão sobre o modal rodoviário, uma vez que a ausência de armazéns adequados força a comercialização imediata e o escoamento rápido da produção, gerando gargalos e aumento dos custos de frete durante os picos de colheita (Ramos et al., 2024). A formação de filas de caminhões nos portos e a necessidade de agendamento de cargas contribuem para a ineficiência e os custos operacionais. Soliani e Camargo Júnior (2015) destacam que a implementação de sistemas de agendamento de carga é crucial para otimizar o fluxo portuário e reduzir os congestionamentos, mitigando os impactos negativos sobre a cadeia de suprimentos da soja maranhense.
Apesar da predominância rodoviária, o Maranhão possui um potencial multimodal significativo, especialmente no Corredor Centro-Norte. As ferrovias Norte-Sul (FNSTN) e Estrada de Ferro Carajás (EFC) são componentes estratégicos desse corredor, conectando regiões produtoras de grãos ao Porto do Itaqui. A FNSTN, com 720 km, liga Porto Nacional/TO a Açailândia/MA, operada sob concessão privada, enquanto a EFC, com 892 km, conecta Carajás/PA a São Luís/MA. Ambas as ferrovias transportam minério, celulose e grãos, incluindo soja (ANTF, 2026a), demonstrando a capacidade de escoamento de grandes volumes de carga.
O transporte ferroviário de soja no Maranhão tem apresentado crescimento, passando de 1.233,72 mil toneladas em 2015 para 2.241,21 mil toneladas em 2025, um aumento de 81,66% em dez anos. Contudo, essa expansão não acompanhou o ritmo de crescimento da produção de soja, indicando que o potencial ferroviário ainda é subutilizado. A intermodalidade, que integra diferentes modais, é essencial para uma solução logística mais eficiente, reduzindo custos e emissões de gases poluentes (CNA, 2023; Buss et al., 2019). O Porto do Itaqui, um porto público com terminais privados, é um ponto estratégico para o escoamento da soja, com conexões multimodais que o tornam um hub logístico para mercados internacionais (EMAP, 2026a).
Em 2025, o Porto do Itaqui movimentou 36.880,8 mil toneladas, sendo 15.853,7 mil toneladas de soja provenientes de diversos estados, incluindo o Maranhão, Tocantins, Mato Grosso, Piauí, Pará, Bahia, Goiás, Distrito Federal e Paraná (EMAP, 2026b). A localização estratégica do porto, com acesso aos mercados norte-americano, europeu e asiático, reforça a importância de investimentos contínuos em sua infraestrutura para otimizar o escoamento da produção. A melhoria da infraestrutura de transporte e a promoção da intermodalidade são cruciais para reduzir os custos logísticos e aumentar a competitividade da soja maranhense nos mercados globais (Buss et al., 2019; Russo et al., 2023).
As modalidades de transporte ferroviário e aquaviário apresentam maior competitividade para cargas de maior valor agregado, como as agrícolas, e de grandes volumes que precisam percorrer longas distâncias para chegar ao destino. Elas oferecem maior capacidade de carga, menos emissões de CO2 por unidade de carga transportada e menor risco de acidentes, resultando em benefícios econômicos e ambientais para o agronegócio (CNA, 2023). Nesse contexto, novos projetos de infraestrutura de transporte devem acompanhar a produção da soja do estado, o que pode ser viabilizado por meio de planejamento e investimento governamental com parcerias público-privadas para operação de novas rotas intermodais, bem como para expansão e manutenção das existentes.
Exportações e consumo de soja do Maranhão
A comercialização da soja produzida no Maranhão é predominantemente orientada para a exportação, refletindo a forte vocação do estado para o mercado internacional. Entre 2015 e 2025, as exportações de soja do Maranhão apresentaram um crescimento significativo, alinhado ao aumento da produção. Em 2025, o volume exportado atingiu 5.054,56 mil toneladas, com um valor FOB de US$ 2,03 bilhões. Esse volume representa um aumento de 15,74% em relação ao ano anterior (2024), e um expressivo crescimento de 183,77% em comparação com 2015, quando foram exportadas 1.781,19 mil toneladas (MDIC, 2026), demonstrando a crescente relevância da soja maranhense no comércio exterior.
A soja consolidou-se como o produto mais exportado do Maranhão, respondendo por 40,5% das exportações totais do estado em 2025. No cenário nacional, o Maranhão ocupou a oitava posição entre os maiores exportadores de soja, com uma participação de 4,67% nas exportações totais do país (MDIC, 2026). O principal destino da soja maranhense é a China, que absorveu 71,56% do volume total exportado no período de 2015 a 2025. Outros destinos relevantes incluem Espanha (8,68%), Tailândia (5,26%), Turquia (2,14%), Holanda (1,35%), Reino Unido (1,32%), Japão (1,31%) e Portugal (1,11%) (MDIC, 2026), evidenciando a diversificação, mas com forte concentração em um único mercado.
A forte dependência do mercado chinês sublinha a importância estratégica do Porto do Itaqui como hub logístico do Arco Norte, facilitando a vantagem para a conectividade marítima e o menor tempo de viagem para rotas asiáticas via Canal do Panamá (Buss et al., 2019; EMAP, 2025). Além das exportações, uma parcela da soja é destinada ao beneficiamento interno. Em 2025, uma unidade de processamento em Porto Franco, conforme a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE, 2026), tinha capacidade de processar 2.000 toneladas por dia, totalizando aproximadamente 660 mil toneladas anuais. Esse consumo interno, embora menor que o volume exportado, contribui para a diversificação da cadeia produtiva e geração de valor agregado localmente.
Os resultados desta pesquisa evidenciam que a cadeia de produção da soja no Maranhão enfrenta desafios logísticos complexos, impulsionados pelo crescimento acelerado da produção. O déficit de armazenagem, a predominância do transporte rodoviário em infraestrutura precária e a subutilização do potencial multimodal comprometem a competitividade do grão. A necessidade de investimentos em armazenagem, especialmente em nível de fazenda, a manutenção e expansão da malha rodoviária, e a integração eficiente dos modais ferroviário e aquaviário são cruciais para otimizar o escoamento, reduzir custos e fortalecer a posição do Maranhão no mercado global de soja, respondendo diretamente ao objetivo central deste estudo.
4. Conclusão
O presente estudo analisou os principais desafios logísticos enfrentados na cadeia de produção da soja no Maranhão, com foco na infraestrutura de armazenagem e nos sistemas de transporte. Verificou-se um crescimento expressivo na produção de soja no estado, que mais que dobrou entre as safras 2014/2015 e 2024/2025. Contudo, a capacidade de armazenagem não acompanhou esse ritmo, resultando em um déficit persistente após a safra 2019/2020, o que força a comercialização prematura e compromete a rentabilidade dos produtores. Observou-se uma correlação positiva entre produção e armazenagem, mas o desenvolvimento da infraestrutura de armazenagem foi proporcionalmente inferior à expansão produtiva. No transporte, predominou o modal rodoviário, que enfrenta problemas de infraestrutura precária, apesar do potencial multimodal significativo do Corredor Centro-Norte e do Porto do Itaqui, que se mostrou subutilizado. As exportações de soja do Maranhão, majoritariamente destinadas à China, reforçam a vocação internacional do estado e a necessidade de uma logística eficiente para manter a competitividade.
As limitações identificadas incluem a insuficiência da capacidade estática de armazenagem, especialmente em nível de fazenda, e a qualidade dos armazéns existentes, que podem apresentar problemas de aeração e termometria, além da carência de mão de obra qualificada. O alto custo de investimento em armazenagem também dificulta o acompanhamento do crescimento da produção. Diante desses desafios, a principal contribuição do estudo reside na explicitação da urgência de investimentos coordenados. Recomenda-se o aprimoramento da infraestrutura de armazenagem, com incentivo à expansão das estruturas em fazendas, e a melhoria dos sistemas de transporte, por meio da manutenção da malha rodoviária e da promoção da intermodalidade entre os modais ferroviário e aquaviário. Sugere-se que estudos futuros explorem a viabilidade de novos projetos de infraestrutura de transporte, com parcerias público-privadas, para otimizar as rotas intermodais e garantir a sustentabilidade da cadeia da soja maranhense.
Referências Bibliográficas
Balbinot Junior, A.A.; Nepomuceno, A.L.; Hirakuri, M.H.; Franchini, J.C.; Debiasi, H.; Coelho, A. E. 2022. Análise da produção, área cultivada, produtividade e estabilidade produtiva da soja nos estados brasileiros em 25 safras (1996/1997 a 2020/2021). p. 5-20. In: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária [Embrapa], Embrapa Soja. Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento. v. 27. Embrapa Soja, Londrina, PR, Brasil. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/233214/1/Boletim-27-final
Péra, T.G.; Caixeta Filho, J.V. 2017. Logística do agronegócio brasileiro: perfil da infraestrutura de transporte. Agroanalysis 37 (10): 30-31.
Reis, A.N.; Bossler, M.B.; Lima, I.B.; Lobato, D.T.C.; Lima, N.G. 2025. Inovações tecnológicas na produção de soja: impactos na produtividade e sustentabilidade. Revista Novos Desafios 5 (2): 01-13.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
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